Humildemente convido meus espectadores e meus leitores, se eles existirem, a subscrever este modesto e discreto credo: aceitar a experiência literária por seu valor intrínseco para enriquecer a vida, por cima de qualquer virtude que possa ter como meio para um fim literário”.
John Rowe Townsend

 

O universo dos livros para crianças é amplo e diverso: livros-brinquedo para os menores cumprem uma função lúdica e recreativa que os familiarizam com o objeto-livro. Livros animados, que vão desde aqueles que incorporam fantoches para que a criança os manipule, empreste sua voz e os anime para além da história escrita, até aqueles que criam interação com o leitor e o convidam a mover rodas, flechas, botões, produzindo um efeito de animação; ou outros que, ao abrir-se por completo, formam toda uma arquitetura, traduzida em um castelo, uma cidade, um museu. Todas estas propostas editoriais têm como função primordial aproximar de maneira lúdica as crianças do universo dos livros, mas não poderiam considerar-se literatura. Entrariam melhor na classificação de livros-brinquedo.

Por outro lado, temos livros instrutivos cuja finalidade é ensinar aos pequenos leitores como fazer algo passo a passo, geralmente acompanhados de ilustrações claras e precisas, fotografias e gráficos; entre eles estão os livros de receitas, os manuais, os “cursos” de pintura, modelagem, etc. Títulos de caráter informativo e documental cujo objetivo é dar uma informação clara e precisa, ao alcance da compreensão infantil, acerca de diferentes temas: o universo, a natureza, a história, a geografia, que se diferenciam do texto escolar porque seus conteúdos não são um guia programado. Mas nenhum destes livros – nem outros de caráter didático – entram na classificação de literatura infantil, cuja delimitação e definição é o objeto desta reflexão.

Diante de uma variedade tão ampla de livros para crianças que nos oferece hoje em dia o mercado editorial, como distinguir o que é literatura infantil do que não é? Uma primeira delimitação é a que orienta a literatura tradicionalmente, pautada pelos gêneros básicos: narrativa, poesia e drama. De uma maneira pragmática, alguém poderia dizer que os contos, novelas, livros de poemas tradicionais e de autor, obras de teatro que são dirigidas às crianças são literatura infantil.

Contudo, esta ampliou as fronteiras tradicionais de várias maneiras: uma, considerando a tradição oral tanto narrativa como poética e reelaborando-a em uma linguagem apropriada para o imaginário e a competência leitora das crianças. Assim, a tradição oral se torna um campo inesgotável recriado por autores, utilizando seus motivos, estruturas, personagens, ritmos.

A outra é a incorporação da imagem a um tipo de livro, chamado em inglês “picture book”, traduzido como livro-álbum, que é, em síntese, uma história concebida em uma dupla linguagem: o texto literário e a ilustração. Esta modalidade de literatura para crianças evoluiu muito nos últimos anos, a ponto de oferecer, atualmente, obras que envolvem a ilustração, não como mera acompanhante do texto, mas como elemento estrutural de significação. Isto é, a obra não pode ser lida somente como texto ou como ilustração, porque se tornaria incompleta.

Uma segunda delimitação é a que foi feita a partir do destinatário ou do receptor da obra e que responde à pergunta: “Este livro é para crianças ou não?”; “O que diferencia a literatura infantil da literatura em geral?”

Responder a estas perguntas não foi fácil, na medida em que literatura infantil é um termo composto e, de alguma maneira, ambíguo, ao se considerar não só o campo literário, como o campo da infância, o que implica a concepção que cada época e cada grupo social têm desta fase.

Estamos, ainda, diante de uma área de estudo relativamente nova, pois só a partir do século XVIII na Europa e finais do século XIX na América Latina, surge a literatura infantil nos espaços culturais fora da instituição educacional propriamente dita, e a criança passa a ser considerada um sujeito cultural, tanto protagonista quanto receptor. Isto é, supera-se – ao menos teoricamente – a utilização da literatura para deixar à criança ensinamentos de cunho moral, religioso, ecológico, entre outros.

Antes de nos perguntarmos pelos receptores ou destinatários das obras, é importante garantir à literatura infantil sua condição de literatura, o que de imediato a torna uma obra artística. Como manifestação de arte, apela à imaginação, à sensibilidade e aos sentimentos do leitor e se situa no universo do possível. É o mundo do imaginável possível, criado através da linguagem oral ou escrita. Tem, portanto, uma função estética que tenta informar, através da linguagem simbólica, a observação do leitor sobre a realidade. A literatura está mais próxima da vida que da academia.

Assim, a importância de considerar a literatura infantil como um produto que surge no universo da cultura e que, ainda, recria o que se chamou de cultura da infância e liberá-la de uma vez por todas da carga de cumprir com funções didáticas, moralistas, ecológicas que se reforçaram, sobretudo, através do discurso escolar. Porque dar prioridade a estas funções significa precisamente renunciar à literatura como arte e fazer melhores livros didáticos disfarçados de contos, de relatos e até de poemas.

Por outro lado, temos as crianças implicadas na denominação literatura infantil. O que significa para as crianças estas funções estética e cultural que o adulto outorga à literatura? Em outras palavras: como a literatura afeta a sensibilidade das crianças, seu imaginário, sua vida emocional e como esta literatura reflete seu universo cultural?

E aqui voltamos ao caráter aparentemente ambíguo da literatura infantil, que gerou uma grande polêmica, polarizando as posturas: de uma parte, os que estão do lado da literatura, que não só defendem a condição literária das obras para crianças acima da adequação ao leitor, mas que estão de acordo com muitas das teorias literárias da literatura em geral. É o grupo que nos meios britânicos se denominou, por um tempo, “the book people”. De outra parte, estão os que se colocam supostamente ao lado das crianças e pensam, sobretudo, na utilidade que possa ter a literatura para eles. Esta postura está mais próxima de quem atribui à literatura uma função didática, pedagógica ou psicológica. Este grupo foi denominado “the children people”. Ainda que esta discussão tenha surgido de uma interpretação errônea de umas palavras de John Rowe Townsend (em um artigo publicado no Wilson Library Bulletin, em 1968), e já tenha sido superada em muitos meios, foi importante porque tornou evidente esse caráter aparentemente contraditório que encerra a literatura infantil e a multiplicidade de funções que lhe podem ser dadas se a olharmos do ponto de vista da educação formal.

Atualmente, começa-se a ampliar o caminho e surgem reflexões que retomam o surgimento da literatura infantil nos espaços culturais e que a valoram como um produto cultural autêntico, o que coloca a discussão no que se chamou de a cultura da infância.

Margaret Meek, por exemplo, nos alerta não somente sobre a existência desta cultura própria das crianças, como também que ela deveria refletir-se na literatura para crianças. Nesta cultura está presente o jogo, que é a atividade essencial das crianças.

“O jogo…é o texto compartilhado, a primeira literatura de um grupo social emergente que explora os limites de seu mundo comum, descobrindo a realidade, junto com as formas do discurso que vão para além do simples tráfico utilitário de informações.” 

E este jogo a criança também faz com sua língua materna, o que permite criar a realidade e a fantasia. Toda essa riqueza da poesia tradicional que se recria na infância: os jogos de palavras, rimas, adivinhas, trava-línguas, parlendas, são incorporados pela literatura infantil como manifestação dessa cultura da infância.

Outro aspecto da cultura da infância que incorpora a literatura infantil é a narração, ou seja, o fato de contar uma história, sem outro fim em si.

“… os segredos da narração, em todas as culturas e subculturas, partem da tentativa das crianças de compreender o mundo”. Mais adiante afirma: “Das histórias que escutamos na infância, herdamos o sentimento, a valoração, os códigos, a retórica, as técnicas de transmissão que formam parte de tudo o que somos”.

Em síntese, Meek insiste na capacidade que os contos das crianças e para as crianças têm em dar sentido ao seu mundo e como a literatura infantil reflete toda essa cultura da infância. Mas a cultura das crianças atuais é complexa, dura e cruel algumas vezes, e compreende desde seu universo imaginário, suas relações com a família e com os demais companheiros, sua psique, sua visão de mundo, enfim, uma complexidade que se vê refletida na literatura que os adultos escrevem para elas e que se faz muito mais evidente na literatura infantil contemporânea.

Outra concepção que vai nessa mesma direção é a que desenvolve Aidan Chambers, ao se referir à necessidade que existe na literatura para crianças de que o autor estabeleça uma relação ideal com seu leitor.

“…De particular importância nos livros para crianças é atrair o leitor de tal maneira que aceite as possibilidades que o texto lhe oferece e cumpra com as exigências do livro”. 

Para Chambers, as crianças não aceitam de imediato esse pacto imaginário proposto pelo autor. Isto é, não se abandonam tão facilmente ao livro, é necessário que o texto tome a criança tal como é para logo atrai-la e torná-la leitor de literatura e não com propósitos literários.

Chambers insiste no leitor implícito que existe em uma obra literária. Todo autor cria, por um lado, um segundo eu que é a voz narrativa e que pode adquirir diferentes pontos de vista (a história pode ser contada por um semideus onisciente que narra em terceira pessoa, ou por uma criança em primeira pessoa, etc.), e um segundo eu do leitor, que não é o leitor possível real, que seria o destinatário, mas um leitor

“…o leitor no livro – que recebe certos atributos, uma certa personalidade criada por meio de técnicas que ajudam a dar forma à narrativa. Esta pessoa narrativa é guiada pelo autor até os possíveis significados do livro”. 

 

E mais adiante, acrescenta:

“Para que a literatura para crianças tenha algum significado, deve se preocupar – antes de tudo – com a natureza da infância, não só a natureza de que a maioria das crianças compartilha, como também por todos os matizes que podem surgir quando se fala da infância”… 

Creio que nas apreciações de Meek e Chambers há uma questão importante que pode nos ajudar a delimitar as fronteiras e entregar às crianças livros de literatura de qualidade e que ao mesmo tempo os capture, lhes fale sobre o que tem sentido para eles e não para o adulto. Não podemos esquecer que, ao pensar na criança, este é o esforço que deve continuar a fazer a literatura infantil por conservar seu caráter de literatura, por defender seu território artístico, para tentar sair de uma vez por todas do status de subliteratura ou literatura menor, como ainda hoje é considerada por alguns círculos culturais e intelectuais, e libertá-la de todas as cargas que a instituição educacional lhe atribuiu.

 

A literatura infantil moderna: uma reivindicação da criança como ser cultural

Na literatura infantil se reflete necessariamente a concepção que o adulto tem da infância e, felizmente, essa concepção mudou nos últimos tempos em benefício das crianças. Ou seja, já existe um consenso entre os adultos (ao menos entre muitos escritores modernos que estão apostando na literatura para crianças com qualidade e seriedade) de que existe uma cultura da infância e que não é tão simples nem tão relevante como nos fazem crer aqueles que ainda consideram as crianças como cidadãos de segunda categoria. Esta evolução se refletiu na literatura para crianças.

Alguns exemplos

Uma das características que nos permite identificar uma obra literária para crianças como manifestação da cultura da infância e como uma tentativa de dominação do adulto sobre a criança, é a maneira como esta é concebida como protagonista. Uma das autoras que mais lutou – a partir de sua literatura – por liberar a criança da submissão do adulto e conceder-lhe um espaço próprio e valorizado desde a infância é a escritora sueca Astrid Lindgren. Quase todos os seus personagens crianças têm uma autonomia e uma liberdade que lhe permite mover-se pelo mundo como seres capazes de prescindir do adulto e com um imaginário e um universo cultural próprios da infância. Talvez o melhor exemplo disso seja Píppi, a protagonista da série Píppi Meialonga. Outros livros da mesma autora nesta mesma linha são Mio, min Mio [Mio, meu Mio]; Emil i Lönneberga [Emil de Lonneberga]; entre outros.

Lembremos quem foi Píppi:

“Aquela era uma cidade muito pequena, pequena mesmo. Na beirinha da cidade havia um velho jardim abandonado. No jardim havia uma casa velha, e na casa morava Píppi Meialonga. Píppi tinha nove anos e morava completamente sozinha. A menina não tinha pai nem mãe, e no fim das contas até que isso era bom, porque ninguém vinha dizer a ela que estava na hora de ir para cama  no exato instante em que ela  estava se divertindo mais, e ninguém a mandava tomar óleo de fígado de bacalhau quando ela estava com vontade de chupar balas”. (Lindgren)

 

Outro autor que se aproxima de Lindgren é o britânico Roald Dahl, que avança na sua obra sobre o papel atribuído à criança: de uma criança vítima do destino ou da intolerância e falta de consciência dos adultos, a crianças inteligentes, superdotadas, cheias de qualidades que lhes permitem não só sobreviver a um mundo chato, repressor e incoerente dos adultos, como também transformá-lo. Recordemos Charlie, em A fantástica fábrica de chocolate, James, em James e o pêssego gigante, representantes de sua primeira fase, e posteriormente Matilda, e também Jorge, em O maravilhoso remédio de Jorge, para citar alguns.

Outros autores se preocuparam com a situação da infância a partir de sua postura de desamparo diante do mundo cheio de ocupações e problemas dos adultos e nos mostram como conseguem sobreviver a isso, apelando aos recursos afetivos e sensíveis das crianças e às maneiras de se relacionarem entre si. Um exemplo podem ser as novelas da escritora austríaca Christine Nöstlingler em obras como Ein Mann für Mama [Um marido para mamãe], e Einen Vater hab ich auch [Eu também tenho pai], em que as protagonistas delimitam suas fronteiras e se refugiam na amizade ou em seu próprio imaginário. Este refúgio na imaginação também é outra característica própria da infância e da puberdade e foi explorado magistralmente em obras como La casa de Lucie Babbidge [A casa de Lucie Babbidge], em que a dramatização se torna um espaço de proteção de uma menina incompreendida ou na A História sem fim, de Michel Ende, em que Bastian, o menino protagonista, escapa de uma realidade que lhe resulta chata para um mundo cheio de fantasia; ou Gianni Rodari em Il pianeta dei alberi di Natale [O planeta das árvores de Natal].

Rodari explorou a imaginação infantil e deu às crianças contos cheios de humor, que rompem as convenções do mundo da lógica, carregados de fantasia, devolvendo a eles formas muito bem estruturadas de seu próprio imaginário. Como os contos Cuentos para jugar [Contos para brincar], em que os cachorros falam vários idiomas, ou Tonico, em Tonico, o invisível, que aparece para liberar-se dos deveres escolares e das repreensões dos adultos.

Outras novelas exploram as dificuldades, as dores e as sequelas que as guerras geradas pelo mundo adulto deixaram em meninos e meninas. É o caso de When Hitler Stole Pink Rabbit [Quando Hitler roubou o coelho cor-de-rosa], de Judith Kerr, que conta a fuga de uma família alemã devido à perseguição sofrida pelo pai, um intelectual judeu. De Maikäfer, flieg! [Voa, zangão!], outro livro da escritora Christine Nöstlinger que se passa em pleno pós-guerra da segunda guerra mundial e explora a amizade de uma menina com um cozinheiro russo. De Crutches [Muletas], de Peter Hartling, que relata a busca de um jovem, que ficou inválido depois da guerra da Alemanha, por sua mãe.

Na América Latina, vale a pena destacar livros sobre temas políticos relativos a situações de repressão como Los agujeros negros, da escritora colombiana Yolanda Reyes, que nos mostra os sentimentos de um menino pequeno que ficou órfão porque seus pais foram assassinados na sua frente por forças obscuras; o A redação, de Skármeta, escritor chileno que relata a situação em que viveram as crianças durante a ditadura de Pinochet, ou Paso a paso, da escritora colombiana Irene Vasco, que relata um sequestro contado pela filha do sequestrado, uma jovem de quinze anos.

Uma autora que demonstra uma profunda valorização do jovem leitor é  Lygia Bojunga Nunes, que manipula uma complexa simbologia através de seus personagens animais ou trata temas difíceis, como a violação, o suicídio, a opção de uma mãe de deixar o lar por um amor, enfim, situações que fazem parte da vida das crianças e jovens de hoje e que Bojunga enfrenta através de recursos literários manejados magistralmente.

Nos livros para criança menores, cuja maior expressão se deu através dos livros-álbum, os temas explorados estão muito próximos do universo emocional, cotidiano e imaginário da primeira infância: a amizade, a relação com os pais, os medos, o temor de ser abandonado, o jogo, entre outros. Nesta linha, podemos mencionar o norte-americano Arnold Lobel, que, através de seus personagens-animais, em especial sapos e ratos, cria um universo delicado, sutil, bucólico, protegido pelo calor do lugar, transmitindo aos pequenos leitores um mundo de segurança e confiança, necessárias a sua afetividade. Ou Tomie de Paola que explora as relações afetivas familiares. Ou Tomie Ungerer, que confia plenamente na capacidade crítica das crianças e apresenta a elas personagens que questionam muitas das coisas do mundo, como O Homem-lua, ou a possibilidade que tem as crianças de rebelar-se diante do mundo convencional – e, às vezes, insuportável – dos adultos, como em Ningún beso para mama. Ou Maurice Sendak, que entrega à criança a chave para escapar, a partir da fantasia, de uma situação repressora de um adulto que não compreende a linguagem infantil do jogo, no livro Onde vivem os monstros. Um autor-ilustrador que demonstra um grande respeito pelas capacidades interpretativas da criança é Anthony Browne, que utiliza elementos de intertextualidade emprestados do cinema, da pintura, da música, e explora os sentimentos das crianças diante da negligência dos adultos, por exemplo, em Gorila, ou os sentimentos de autoestima, insegurança, medo característico da criança em crescimento, como se vê na série de Willy.

Estes são apenas alguns exemplos que demonstram como a literatura infantil moderna e contemporânea tem muito claro seu papel de recriar o mundo das crianças e de não fazer falsas concessões aos leitores, de modo a respeitá-los, valorizá-los e considerá-los capazes de se ver refletidos nos livros em diversos matizes e situações próprias de suas vidas, seja familiar, social, escolar ou de suas fantasias ou sentimentos.

Uma literatura que reivindica o prazer de estar imerso no mundo imaginário e que sabe que é o mesmo prazer que sente a criança quando brinca. E já está mais que comprovado o benefício que tem a brincadeira no desenvolvimento da criança. Isto deveria ser suficiente para deixar tranquila a literatura e não exigir mais dela. E, contudo, a literatura, como toda arte é generosa – e a literatura para crianças o é mais ainda, porque presenteia a criança – acima dos gostos estéticos e de um universo de sentido cheio de possibilidades, outros tantos benefícios que é ao adulto a quem interessa ter claros. Podemos ajudar esse adulto preocupado explicando a ele que a literatura para crianças as faz leitores cada vez melhores, dá a elas diferentes chaves para tornar-se leitores literários, enriquece seu conhecimento sobre o mundo e as diversas culturas, ajuda a representação simbólica da realidade, etc, etc. Ou, como bem explica Teresa Colomer, que assinala três funções primordiais da literatura pra crianças: iniciar o acesso à representação da realidade e ao imaginário humano, desenvolver a aprendizagem das formas narrativas, poéticas e dramáticas, por meio das que veicula o discurso literário e oferecer uma representação articulada do mundo que serve como instrumento de socialização das novas gerações. (Colomer, 1999)

Assumir a literatura infantil como um produto cultural – e não como instrumento pedagógico – beneficiará muito as crianças e liberaria os adultos de uma responsabilidade assumida – muitas vezes de maneira confusa e outras, de maneira obrigatória – sobretudo por docentes, bibliotecários escolares, psicólogos e até pais de família que não sabem qual papel dar à literatura infantil, ou que benefício extra ela pode trazer às crianças, para além do prazer e da diversão.

Permitir a criança ler uma boa história ou um bom livro de poemas poderia bastar. As crianças têm as coisas muito claras. Quando uma criança descobre um livro de que ela gosta, que a confunde, não impõe nenhuma resistência e submerge no prazer da história ou no prazer da melodia, no ritmo, na cadência. E como bem disse Paul Heins

“A maioria das crianças se dão conta do maravilhoso mundo de que se pode aproximar por meio da palavra e, como é natural, avançam sem medo ao complicado, mas delicioso, prazer de escutar histórias. Se as condições são favoráveis, as crianças descobrem que a literatura pode ampliar ainda mais seus prazeres verbais…” (Heins).

 


* Artigo publicado na revista Barataria nº 2, Editorial Norma, Caracas 2004.


Bibliografia

Margaret Meek, ¿Qué se considera evidencia en las teorías sobre literatura para niños?. Em: Theory into Practice. Vol. XXI no. 4 Autumn, 1982.

Aidan Chambers, “El lector en el libro”. Em: Children´s Literature: the Development of Criticism, 1990.

John Rowe Townsend, Criterios para evaluar la literatura para niños. Em: Children´s Literature: the Development of Criticism. Tradução: Un encuentro con la crítica y los libros para niños. Parapara CLAVE. Caracas: Banco del Libro, 2001.

Teresa Colomer, Introducción a la literatura infantil. Madri: Editorial Síntesis. S.A., 1999.

Astrid Lindgren, Píppi Meialonga. São Paulo: Companhia das letrinhas, 1ª ed., 2014.


TRADUÇÃO THAIS ALBIERI /  IMAGEM MARIANA ZANETTI