1. O fio da memória

Faz muito, mas muito tempo mesmo, muito tempo antes de aprender a ler sozinhos, que talvez uma voz amada tenha nos contado algum desses contos tradicionais que costumam ser contados às crianças e que resolvemos agrupar sob o rótulo “contos de fadas” ou “contos tradicionais”.

Deveríamos seguir o fio da memória para evocar esse rosto, esse tom de voz, essas mãos que iam desenhando reinos e palácios longínquos, para construir uma arquitetura que não existia então e que, contudo, era mais real que todo o resto: mais real que os cantos dessa cama que já esquecemos; mais real que o quarto ou o quintal ou aquela noite daqueles tempos… mais real que nossos rostos de então, que as tranças ou os rabos de cavalo ou o gel que já não usamos há anos…

E agora, quando já esquecemos o rosto que tivemos, a idade exata e o vestido, talvez, continuemos nos lembrando de algum pedaço da história, de alguma fórmula mágica do começo, de algumas palavras que se repetiam como um refrão e que nomeavam tudo aquilo de que não se falava durante o resto das horas, tudo aquilo que não se dizia para as visitas, na mesa, nem na fila do colégio…

Eis a substância oculta dos contos: esse poder das palavras para dar nome e sentido às realidades interiores, tantas vezes terríveis e incertas, apesar da suposta inocência que os adultos atribuem aos tempos da infância.

Branca de Neve
Branca de Neve, por Anne Anderson (1874-1930)

 

O primeiro conto de que me lembro, talvez o mais triste dos contos que conheço, mais que um conto uma ladainha que indagava, como no fundo a literatura sempre faz, sobre os mistérios da vida, com dois de seus dramas decorrentes: o amor e a morte. Era a história da Cucarachita Martínez [A baratinha Martínez] contada muitas noites, por minha avó, sempre na mesma hora. Caso não conheçam o conto, a baratinha, varre que varre a porta de sua casa, encontrava uma moeda, e com ela, comprava uma fita para o cabelo. E, assim, tão linda, sentava-se na mesma porta e esperava que alguém se apaixonasse. Passavam o cachorro, o gato e outros animais, e todos lhe diziam a mesma coisa: “Baratinha, como você está bonita. De coração, te peço: quer casar comigo?”. Ela, como é costume nos contos tradicionais, respondia: “Depende: o que vai fazer para me conquistar?”.

O cachorro dizia “au, au”, o gato, “miau” e ela perguntava, invariavelmente: “Ah, não!, segue seu caminho, porque me você me assusta, me espanta, me assombra”. Até que chegava o Rato Perez e, quando ela dizia “depende: o que vai fazer para me conquistar?”, o rato respondia sussurrando suavemente: “bsbsbs”, e ela ficava fascinada. Imediatamente se casavam, mas a história não tinha final feliz, porque dias depois do casamento, a baratinha deixava o rato preparar um cozido e o pobre se afogava no caldeirão.

De repente tudo ficava muito triste. A baratinha chorava e um passarinho que passava lhe perguntava por que ela estava tão triste. Ela respondia: “Porque o rato Perez caiu no caldeirão e a baratinha está muito triste, por isso chora”… então, o passarinho se unia a ela e dizia: “pois eu passarinho corto meu biquinho”… então,  passava a pomba passava e perguntava ao passarinho por que tinha cortado o biquinho  e a ladainha recomeçava: “porque o rato caiu na panela e a baratinha sente muito e chora, por isso o passarinho corto o biquinho”. E a pomba dizia: “pois eu, pomba, corto minha cauda”… e quando chegava o pombal e perguntava a mesma coisa, depois da resposta, dizia: “pois eu pombal vou parar de voar”, e se somava ao coro e a ladainha ficava cada vez mais comprida e apareciam novos personagens que repetiam uma e outra vez a mesma ladainha:

Porque o rato Perez caiu na panela e a Baratinha sente e chora e o passarinho cortou seu biquinho, e a pomba cortou a cauda e que o pombal parou de voar e a fonte clara se pôs a chorar. E eu, que conto esse conto, acabo lamentando porque o rato Perez caiu no caldeirão e a baratinha…

E, assim, sucessivamente, a dor ia se apoderando de tudo e as palavras eram tristes, mas de tanto se repetirem, pareciam ter poderes de cura… Obviamente, penso isso agora, porque então eu não sabia o que estava por trás das palavras do que minha avó contava. Talvez nem ela soubesse: simplesmente, éramos duas pessoas muito próximas, corpo a corpo, cara a cara, falando sem falar todas as noites, dos mistérios da vida, da morte e do amor.

Creio que disso, exatamente, trata a literatura. E creio que os leitores de qualquer idade, quando nos refugiamos na cadeia de palavras de um livro, continuamos procurando essa possibilidade, muitas vezes descoberta do lado das primeiras vozes e dessas primeiras histórias inscritas em nós, de nomear, em um idioma secreto, em um Idioma Outro, aqueles mistérios essenciais que nunca conseguimos entender: a vida e a morte… e o que há no meio.

 

2. O lugar da literatura

Se aceitamos que sabemos, desde esses tempos remotos de palácios e vozes antigas, que a matéria da literatura é precisamente a vida – e a morte e o que há no meio – caberia perguntar por que continua tão vigente em nossas práticas e em nossos currículos acadêmicos essa outra ideia, segundo a qual, o que se deve saber de literatura é tanto o que sobra e tão pouco o que basta: isto é, definições, atividades, rótulos… (“Dever antes que vida”, como disse algum ilustre. A letra morta primeiro e depois, quando já tenhamos aprendido bastante, talvez o prazer..). Mas o problema é que “depois” pode ser demasiado tarde. A literatura ensinada assim, com suas listas de autores e de obras ou como estratégias e padrões de decodificação, não dá segunda chance.

De onde terá surgido esse consenso escolar que nos obriga a todos a sublinhar o mesmo no mesmo parágrafo no conto da “Chapeuzinho Vermelho”, a entender rapidamente as mesmas ideias principais de “Barba Azul” e a ver todas as obras dos mesmos pontos de vista? De onde surgiu esse desprezo da educação pelo subjetivo, pelo inefável, pelo que não pode ser avaliado em uma prova acadêmica?

A princesa e o Sapo
A princesa e o sapo, por Anne Anderson (1874-1930)

 

Atrevo-me a pensar que há um pouco de vaidade nesse equívoco. Porque, em nossa concepção de ensino, ainda se pede ao professor que seja capaz de controlar, planejar e avaliar o processo de aprendizagem durante todas as etapas, do começo ao fim, sem que nada lhe escape das mãos. Essa concepção supõe que quanto mais a curto prazo são os objetivos a que se propõe um professor e quanto mais se materializem os indicadores concretos, mais fáceis serão vistos, comprovados e avaliados em termos quantitativos. De alguma maneira, sua “eficácia” está ainda baseada em função de quanto consegue demonstrar do aprendizado que seus alunos conseguiram obter. O que não é visível, avaliável e observável não dá pontos. O que sai da resposta esperada não vale. O que acontece fora da sala de aula não conta. Os processos que são concluídos depois do ano acabar ou as revelações que ocorrem paulatinamente a um ser humano, ao longo de sua vida, talvez graças à voz de um professor que conta histórias sem esperar em troca nada mais que caras atentas, fascinadas ou aterradas, não se qualificam. E o que não se pode avaliar a curto prazo, é como se não existisse.

Se já esboçamos que a literatura trabalha com toda a experiência vital dos seres humanos – e não só com o pedacinho que se pode medir – podemos imaginar o pouco que esses contos e essas vozes representaram para sistemas pedagógicos calcados em perguntas fechadas de múltipla escolha ou em ideias meramente instrumentais que insistem em falar de leitura rápida, como se fosse uma competição acadêmica ou esportiva… no caso, o mesmo.

 

3. Casa de palavras

Detenhamo-nos a pensar um momento na essência da linguagem literária, localizando-a dentro do contexto mais amplo da comunicação humana. Cada um de nós possui uma língua determinada para expressar seu mundo interior e para se relacionar com os outros. Em nosso caso, pertencemos a uma comunidade lingüística que fala castelhano. O castelhano tem um código próprio, um sistema de signos que permite a todos os falantes nomear, com certos parâmetros, umas imagens mentais ou uns significados determinados. Isso garante que possamos compartir, de certa maneira, um mesmo código. De fato, se escrevo a palavra “casa”, posso ter a certeza de que todos que compartilham dessa língua evocam em sua mente o conceito de casa. Contudo, nenhuma das imagens mentais que se formam corresponde ao significado standard do dicionário. Haverá mansões, apartamentos ou casas de campo; algumas serão grandes e outras pequenas. Muitos irão mais longe e associarão a palavra a um cheiro particular, a certa sensação de segurança ou de proteção, a uma lembrança ou a seus próprios segredos. E isso acontece porque todos vivemos em casas diferentes.

Usemos essa imagem para mostrar nossa relação com a língua: cada um constrói sua própria casa de palavras. Temos um código comum, digamos, que são os materiais e as especificações básicas. Mas cada ser humano vai se apropriando do código através de suas próprias experiências vitais e forma seus significados, para além da definição de um dicionário, mediante uma trama complexa de relações e de histórias. Assim, afora os rótulos, a linguagem que habitamos oculta zonas privadas e pessoais. Junto às zonas iluminadas existem grandes zonas de penumbra.

Que significado tem isso tudo para o ensino da literatura? Pois nada menos que o reconhecimento dessas zonas. Dito de outro modo: não é o mesmo ler um manual de instruções para ligar um forno que ler um conto de fadas, e se a escola não se dá conta de “semelhante sutileza”, continuará ensinando a ler todos os textos desde uma mesma postura.

Para ligar um forno, deve-se seguir, de maneira literal e obediente, os passos indicados no manual, pois, do contrário pode-se provocar um curto-circuito. Contudo, é igualmente certo que, no caso dos contos, dos poemas e da literatura como um todo, são, precisamente a liberdade do leitor e, de certa forma, sua desobediência ao sentido literal das palavras, o que permite “compreender” toda sua dimensão. Embora para os dois tipos de leitura falemos em compreender, o tipo de compreensão que se estabelece é muito diferente. Para entender um conto, é necessário conectá-lo com sensações, emoções, ritmos interiores, evocações, como as que fizemos no começo, símbolos talvez arcaicos, zonas recônditas e secretas de nossa experiência. Se não nos permitimos explorar essas zonas secretas com suas penumbras e suas ambiguidades, esses contos não nos dirão nada, de modo que serão feitas perguntas como qual o tema do texto, quando nasceram seus autores, ou o que identificamos na introdução, no conflito e no desenlace…

Apesar dos dois tipos de leitura – o do manual de instruções e dos contos de fadas – compartilharem muitas palavras e signos, há algo neles que faz com que nós, como leitores, entremos em dinâmicas diferentes. E a escola, é importante esclarecer, deve ensinar a ler de todas as formas possíveis e com diversos propósitos. Porque precisamos seguir instruções cada vez mais complexas, não só para ligar fornos, como também para que uma nave possa decolar e explorar lugares distantes. Mas também necessitamos, e cada vez com mais urgência, explorar o fundo de nós mesmos e nos conectar, de lá, com esses outros, iguais ou diferentes, que compartilham nossas raízes humanas, nossos sonhos e nossos terrores. Assim como algumas vezes devemos ser obedientes ou literais e outras vezes precisamos analisar com exatidão textos científicos e acadêmicos – e não nego que isto também pode e deve ser ensinado – também é verdade que precisamos de ferramentas para fazer leituras livres e transgressoras, para conversar profundamente com nós mesmos e com essas outras vozes, nesse idioma secreto que fluía entre nós e nossos narradores privados, enquanto compartilhávamos um conto.

Por falar nesse Outro Idioma, e por nomear essas “casas próprias”, a literatura deve ser lida, vale dizer, sentida, a partir da própria vida. Aquele que escreve estreia as palavras e deve reinventá-las a cada vez, para imprimir sua marca pessoal. E o leitor de literatura recria esse processo de invenção para decifrar e decifrar-se na linguagem secreta do outro. Esse é um processo complexo que compromete, por assim dizer, dois sujeitos, com toda sua experiência, com toda sua história, com suas leituras prévias, com sua sensibilidade, com sua imaginação, com seu poder de se situar para além de si mesmo. Trata-se de uma experiência de leitura complexa e, é necessário dizer, difícil. Mas se pode ensinar. E sustento também que se pode ensinar a amar a literatura, assim como se ensinam e se aprendem números, vogais ou competências semânticas ou qualquer outra coisa. É possível ensinar a experiência essencial da literatura: ou seja, seu poder para revelarmos sentidos ocultos e secretos; para nos comover, nos assustar, nos abalar, nos nomear e nos fazer rir ou tremer, e para falar de tudo aquilo que não se diz para as visitas.

Cabe, então, promover uma pedagogia do amor à literatura que dê asas à imaginação de alunos, alunas e professores e ao livre exercício de sua sensibilidade, para impulsioná-los a ser re-criadores dos textos.

 

4. O que pode ensinar a literatura

Nossas crianças e jovens estão imersos em uma cultura de pressa e efervescência que os iguala a todos e os impede de refugiar-se, em algum momento do dia, e até mesmo de sua vida, no mais profundo de si mesmos. Daí que a experiência do texto literário e o encontro com esses livros reveladores que não se lêem somente com os olhos ou com a razão, mas com o coração e o desejo, sejam hoje mais necessários do que nunca como alternativas para ir construindo essas casas ou palácios interiores. Em meio a uma avalanche de mensagens e estímulos externos, a experiência literária brinda o leitor com umas coordenadas para nomear-se e ler-se nesses mundos simbólicos construídos por outros seres humanos. E, embora ler literatura não mude o mundo, pode sim torná-lo mais habitável, porque o fato de nos ver em perspectiva e de olhar para dentro, contribui para abrir novas portas para a sensibilidade e o entendimento de nós e dos outros.

Precisamos de poemas, contos e de toda literatura possível em nossas escolas, não para sublinhar ideias principais, mas para favorecer uma educação sentimental. Não para identificar morais, ensinamentos e valores, mas para empreender essa antiga tarefa do “conhece-te a ti mesmo” e “conhece aos demais”. O desafio fundamental de um professor é o de acompanhar seus alunos nessa tarefa, criando, ao mesmo tempo, um clima de introspecção e umas condições de diálogo, para que, em volta de cada texto, possam tecer-se as vozes, as experiências, as particularidades de cada criança, de cada jovem de carne e osso, com seu nome e com sua história.

Um professor de literatura, acima de tudo, é, como aqueles contadores referidos no início, uma voz que conta; uma mão que inventa palácios e arquitetura impossíveis, que abre portas proibidas e que traça caminhos entre a alma dos livros e a alma dos leitores. E para fazer seu trabalho, não deve esquecer que, antes de ser professor, é um ser humano, com zonas de luz e sombra; com uma vida secreta e uma casa de palavras que tem sua própria história. Seu trabalho, como a própria literatura, é risco e incertezas. Seu privilegiado ofício é, basicamente, ler. E seus textos de leitura não são os livros, mas também seus leitores. Não se trata de um ofício, mas de uma atitude de vida. Não figura no cânone, nem nos textos escolares, tampouco no manual de instruções, mas se pode ensinar. Tomara que esta ideia fique clara: que um professor pode “ensinar” o amor pela literatura mediante sua atitude frente a vida, que é o texto de seus alunos, por excelência. Quando saírem da escola e esquecerem datas e nomes, poderão lembrar da essência dessas conversas de vida tecidas entre linhas, quando seu professor pegava um livro de contos e dividia com eles a emoção de uma história, sem pedir-lhes nada em troca. Porque, no fundo, os livros são isso: conversações de vida. E sobre a vida, sim, é urgente aprender a conversar.

Lemos para conversar, e dizer e nos dizer, sem nunca entender nada totalmente. Como a Baratinha quando se refugiava sua ladainha, cada vez com mais vozes e esse ser nas palavras, esse fluir com as palavras de muitos outros, era como um feitiço que, de certa forma, curava a dor, mediante o rito de nomeá-lo.

Talvez o tempo, sempre tão apressado, apague nos estudantes os rostos de agora e as coordenadas do lugar onde se lêem os contos, sem pedir-lhes nada em troca, salvo seus rostos de curiosidade, terror, surpresa ou deleite… Mas, talvez, quando forem randes leitores se lembrarão de algum conto inesquecível que os marcou para sempre, ou de uma voz que dizia:

“Era uma vez, em um país muito distante…”.

E ninguém estará lá para lhes premiar, nem lhes dar uma medalha ao mérito, nem tampouco atestar um milagre. Mas assim é como vão se fazendo os leitores: corpo a corpo; corpo e alma, num quarto ou numa sala de aula. Conto a conto. E um por um.

Rapunzel
Rapunzel, por Anne Anderson (1874-1930)

 


* Texto adaptado de conferência para professores em Bogotá, 2004.


TRADUCÃO: THAIS ALBIERI  / IMAGEM ANNE ANDERSON