Toda vez que pensava em como iniciar este artigo, um fotograma do célebre filme de Fellini de 1963, Oito e ½, aparecia diante de meus olhos. A cena é bem aquela em que uma mulher transcreve na lousa os pensamentos de Guido, o protagonista, capturados por um mago com o poder de ler a mente das pessoas.

No quadro negro, com letras garrafais, aparece a escrita ASA NISI MASA, um enigma que faz reaflorar na mente de Guido uma série de flashbacks relativos à sua infância.

Cada detalhe da cena contribui para recriar o ambiente do calor doméstico, desde o reconfortante dialeto da Emilia-Romagna aos banhos de banheira, das canções de ninar às palavras que as crianças, de modo quase propiciatório, repetem silabando: “ASA NINI MASA”.

Críticos e especialistas já fizeram estudos apaixonados sobre o significado desta palavra, chegando a elaborar diversas teses e interpretações. A mais aceita é aquela que sugere que a palavra não seja nada mais que o termo Anima [Alma] traduzido na “língua da serpente”, o equivalente italiano de nossa língua do P: A (SA) NI (SI) MA (SA)[i].

Indo um pouco além de uma investigação lexical, me interessa evidenciar o aspecto lúdico, o jogo de palavras que está na base da aprendizagem da língua, principalmente na primeira fase, quando cada som e ritmo encanta as crianças antes do próprio significado, e lhes desperta o interesse de transformar ou inventar novas palavras.

No imprescindível Gramática da Fantasia, Gianni Rodari explica:

Um dos modos de tornar produtivas as palavras, no sentido fantástico, é o de deformá-las. As crianças devem fazê-lo, como um jogo: um jogo de conteúdo muito sério, porque as ajuda a explorar as possibilidades da palavra, a dominá-la, forçando declinações até então inéditas; estimula a liberdade da criança como ser ‘falante’ com direito à sua ‘prosa pessoal’ (obrigado, Sr. Saussure); encoraja o inconformismo. (Gianni Rodari, Gramática da Fantasia, Summus editorial, São Paulo, 1982, p. 33)

“ASA NISA MASA”, assim como “Supercalifragilisticexpialidocious”, palavra inventada por Richard M. E Robert B. Sherman que intitula a famosa canção do filme Mary Poppins, e muitos outros neologismos sem um significado aparente são capazes de abrir as portas mágicas do mundo infantil, com rapidez e eficácia. Aquele mundo em que as palavras, antes de terem um significado, guardam em si a mágica de um som que acaricia e diverte, e estabelecem um vínculo entre quem nutre e quem é nutrido. Entre quem vem ao mundo e quem o coloca em relação com os outros e com uma realidade de possibilidades infinitas.

É já de muito tempo que se enfatiza os benefícios da leitura em voz alta, bem como da pesquisa das palavras mais adequadas para serem sussurradas às crianças desde quando estão ainda no ventre materno.

Palavras de mãelíngua que todos, já adultos, deveríamos aprender de novo, para embelezar a voz e serenar os pensamentos. Palavras que estão na memória do coração e têm sabor de brincadeira, de ternura, de cócegas. Palavras melodiosas que se fundem à harmonia de doces canções de ninar. Palavras que, quando a criança tiver ouvidos, olhos, nariz, boca e pele prontos para que sejam absorvidas, encontrarão suporte e sustentação nos gestos, nos sorrisos, nos olhares. Palavras mágicas de dizer no momento da necessidade, para acabar com uma dor de barriga danada ou outros acidentes da má sorte. Palavras brincalhonas que se enveredam em insensatas acrobacias linguísticas e fazem cócegas nos ouvidos. Palavras em dialeto, robustas, concretas e coloridas guardadas por muito tempo, talvez, fora da porta de casa. Palavras de cantilenas, incertas entre sentido e nonsense, que, assim que terminam, começam de novo. Palavras inventadas que tomam posse de um significado roubando-lhe do som…

(Rita Valentino Merletti, Leggimi forte. Accompagnare i bambini nel grande universo della lettura, Milão, Salani, 2011).

A invenção da língua Piripù, idealizada por Emanuela Bussolati, não apenas é exemplar nesse sentido, como digna de nota: uma língua especial constituída por uma sequência de sons que se adequam bem a “imitar vozes”, a ler brincando com as crianças. Até agora foram escritos três livros-álbuns em Piripú: Tararì Tararera, Rulba rulba e Badabùm, todos editados pela Carthusia. O primeiro deles, em 2010 ganhou o Prêmio Andersen como melhor livro para a faixa de 0-6 anos “por ser o que existe de mais envolvente e prazeroso, de absoluta originalidade. Por ser um livro simples e linear, fruto de um atento e culto projeto linguístico e gráfico. Por nos presentear com um convite implícito para que leitores, sejam eles pequenos ou adultos, possam encontrar-se e estarem alegremente juntos”.

 

Era briluz.

As lesmolisas touvas roldavam e relviam nos gramilvos.

Estavam mimsicais as pintalouvas, e os momirratos davam grilvos.

(Lewis Carroll, Jaguadarte, tradução Augusto de Campos, ilustrações Rita Vidal, São Paulo, Nhambiquaras, 2014).

Em Jaguadarte, Lewis Carroll recita um poema nonsense, escrito e publicado em 1871 no romance “Através do espelho e o que Alice encontrou”, como parte de um diálogo entre Alice e Humpty Dumpty.

A maior parte das palavras presentes nesse pequeno poema é fruto da invenção de Carroll, e muitas entram na categoria palavras-valise, portmanteau-word em inglês, do francês porte-manteau, que se refere a uma mala grande com dois compartimentos. Em alemão, Kofferwort, palavra-mala. As “palavras-valise” são neologismos obtidos colando a cabeça de uma palavra à cauda de uma outra, e é o próprio Humpty Dumpty, um gorducho em forma de ovo que, explicando à Alice as estranhas palavras contidas no Jaguadarte, explicita seu mecanismo:

Bem, “lesmas” são “moles”. Esses seres “lesmais” são “escorregadios”. É como uma palavra-valise… uma palavra com dois significados dentro dela..

(Lewis Carroll, Alice através do espelho e o que ela encontrou lá, tradução Alexandre Barbosa de Souza, São Paulo, Cosac Naify, 2015, p. 116).

 

Para esclarecer o que disse acima, os convido a ler um livro-álbum publicado recentemente na Itália: In ogni Pinocchio [Em cada Pinóquio], de Giuseppe Caliceti, com ilustrações de Gaia Stella, editora Topipittori, Milão.

No livro, o menino é convidado a prestar atenção às palavras que escondem outras dentro delas, sendo conduzido em uma brincadeira que lhe mostrará o modo como nascem as palavras.

O próprio Carroll não se limitou a usar tais palavras apenas no poema citado, usou-as também em abundância em A caça ao Snark e explicou o mecanismo em um capítulo de Através do Espelho, como vimos acima. Todavia Carroll, em algumas de suas cartas e prefácios, oferece versões ligeiramente diferentes, tentando explicar a origem de uma infinidade de outras palavras possíveis.

Mais que contar quais significados se escondem debaixo da linguagem inventada do poema, prefiro lhes contar a reação de Pietro, um pai leitor, estudioso de literatura juvenil (Piero Guglielmino), diante da leitura destes versos, e o que me escreveu quando de um encontro de leitura sobre Alice no País das Maravilhas:

“Mas que estupidez é essa? Não faz nenhum sentido!”

Pois bem, alguns pais teriam essa reação, lendo sobre “texugolesmais” e “vagramas”. Eu não! A mim faz rir, morrer de rir! E nem dou conta de lê-lo em voz alta sem titubear. Absurdo demais, divertido demais!

E se fosse, ao contrário, UMA BRINCADEIRA MUITO SÉRIA?

Uma brincadeira muito trabalhosa e importante para as crianças (como todas as brincadeiras): “ensinando-lhes” (implicitamente!) a potência criativa da palavra e a liberdade de não se submeter à palavra.

Então se leio a meu filho, tento ser sério e marcar cada palavra, como se o “TRUGON” fosse verdadeiro. Ou melhor, porque o “TRUGON” é VERDADEIRO!

Estas são palavras-objeto, são sons concretos que caem em cima das crianças. E o bonito é que não escorregam, mas permanecem dentro, em um vocabulário pessoal cheio de palavras livres, um precioso instrumento para desenvolver a linguagem e renomear o mundo à própria imagem e “LOUCURA”.

 

E se for uma brincadeira muito séria?”

O que eu gostaria de destacar é que, tanto as palavras singulares inventadas quanto as línguas inteiras criadas ex novo respondem a uma exigência lúdica e que, se é verdade que a literatura para a infância, como àquela para adultos, deve prescindir do mero papel educativo e absolver qualquer função edônica, este aspecto não pode ser nem subvalorizado nem desprezado, seja por quem escreve livros para as crianças ou por quem os promove.

Os neologismos, bem como os jogos de palavras, as aliterações, o nonsense realizam uma dupla função: de um lado surpreender o leitor, capturando a sua atenção, do outro alimentar a imaginação e estimular a criatividade.

Mas não é só isso, essas palavras inventadas têm também o papel de estabelecer um tipo de cumplicidade imediata entre quem escreve e quem lê, em um modo íntimo e brincalhão, divertido e irônico, como naquele tempo em que essas mesmas palavras nos ligaram a quem cuidava da gente, no colo, com o único objetivo de nos fazer relaxar ou nos divertir.

Alguém poderia discordar, afirmando que, nos livros para os primeiros leitores, é necessário prestar atenção ao uso de palavras difíceis, imagine as palavras inventadas, que não fazem outra coisa a não ser confundir ainda mais a criança em seus primeiros passos de leitura.

Muitas coleções de livros para leitores iniciantes são construídas observando esse princípio, que se concentra mais na aprendizagem da leitura do que no prazer de ler.

É comum que, enquanto a criança está ocupada em se apropriar das habilidades técnicas (e nesse período os pais ou professores param de ler em voz alta), as dificuldades encontradas, junto com a leitura de livros banais, causem a perda do prazer de ler.

Se nos perguntarmos o que será daquela criança que um dia escutou a história de um gato amarelo que escorregou numa pedra, foi mordido por uma codorna penosa, por um pinço ou um pinçoso, que decide ir pra um lugar onde o azar não existe, o País do Solla Sollew.

Ou de uma menina que, depois de inventar “uma palavra sensacional” como Spunk, foi procurar o significado dela em todas as lojas da cidade, até descobrir que não era nada além de um pequeno coleóptero… com as asas verdes que brilhavam como se fossem de metal, que tinha sempre vivido tranquilamente bem no meio da Vila Vilekula.

O que será daquelas crianças fascinadas por descobrir que a bruxa Etrusca Cruscòn, para descansar bem, precisava de colchões cheios de “espumachão”, um estranho galináceo com duas “belas e longas asas” incapazes de alçar voo, que se encontrava no jardim do rei?

(Os livros citados, na ordem: I had trouble in getting to Solla Sollew [Foi difícil chegar a Solla Sollew], de Dr. Seuss; Píppi Meialonga, de Astrid Lindgren; A cavalo della scopa [Acavalo na vassoura], de Bianca Pitzorno.)

É verdade que se pode fazer muito para promover a leitura, para apaixonar e contagiar as crianças, porém é também verdade que, se a experiência de leitura com um livro não é positiva, qualquer esforço nesta direção será em vão.

Ao contrário, mesmo na ausência de uma promoção adequada, um livro pode capturar o leitor e promover a leitura, através das histórias que conta e de seu estilo narrativo e, principalmente, apresentando-se como algo original, apetitoso, desafiador. Para que um livro cumpra essa tarefa, não é necessário que seja fácil. Aliás, é exatamente o contrário: sua complexidade e dificuldade podem ser, precisamente, o que os torna dignos de ações resultantes da vontade e de esforços cognitivos.

São necessárias histórias que respondam à exigência das crianças de inventar alguma coisa que seja só, e tão somente, manifestação de independência pessoal, criatividade, escolha. Uma língua única, compreensível apenas para ouvidos infantis, que estabeleça distância entre o mundo adulto e o da infância, e que seja ainda uma ponte segura de comunicação entre a realidade e a imaginação.

Um exemplo desse propósito seria esse diálogo contido em Allrakäraste syster [Minha querida irmãzinha], de Astrid Lindgren:

Marilu e eu tínhamos inventado uma língua secreta, que só nós sabíamos. O arbusto de rosas, na nossa língua,não se chama assim, se chama Salikon. Ontem de manhã eu estava sentada perto de Salikon, quando escutei Marilu que me chamava: “Vianique!” – é assim que se fala“Vem aqui” na nossa língua. (Sorellina tuttamia, do original suéco Allrakäraste syster [Minha querida irmãzinha], de Astrid Lindgren, da coleção italiana I classici moderni per bambini, ilustrações Hans Harold, tradução Roberta Colonna Dahlman, Milão, editora Il gioco di leggere, 2010, em tradução livre).

 

Também no livro La lingua speciale di Uri [A língua especial de Uri], David Grossman nos oferece uma bela história onde a tendência para inventar e interpretar uma língua se destaca.

Uri, um menino de um ano e meio, acaba de começar a falar, usando apenas as vogais e uma única consoante, o “T”. Por sorte tem Yonatan, o irmão mais velho, de 5 anos, que compreende facilmente a estranha língua de Uri, oferecendo-se como precioso e divertido intérprete.

Uma língua secreta que só as crianças podem compreender, um idioma que lhes dá a possibilidade de viver um mundo diferente do mundo dos adultos, não apenas porque estes não conseguem compreender os significados e, o que os torna ainda mais divertido: trocam alhos por bugalhos.

Penso nas alusões, nas paródias, nos jogos de palavras, nos neologismos presentes nos livros da saga de Harry Potter, de J.K. Rowling, a riqueza narrativa e linguística que não me parece ter desencorajado nem os leitores mais relutantes, ao contrário, criou uma verdadeira geração de apaixonados que ainda hoje contabiliza para grande parte do que o mercado editorial infantojuvenil fatura. Uma das características que tornam um livro envolvente é a presença de neologismos, palavras que muitos autores utilizam nas obras para impressionar, dar mais cor, como elemento subversivo.

Se digo trouxa (babbani em italiano, muggle na versão original inglesa; muggle mantido na tradução espanhola; moldus em francês, dos vocábulos “mou” e “mol”, que se associam a uma imagem de fraqueza e de impotência; muggel em alemão), neologismo inventado por Rowling, hoje em dia ninguém vai arregalar os olhos pela novidade e originalidade, tanto que agora se encontra até no Oxford English Dictionary.

Atualmente já está consagrado que qualquer pessoa sem poderes mágicos é um trouxa. Pensem na primeira vez que um leitor se viu diante desse novo termo.

Imagine a sua reação: é impossível não ter provado um prazer delicado, seja pela surpresa ou pela genialidade da invenção.

Trouxa, a opção da edição brasileira de Harry Potter, é a tradução de muggle, um neologismo irônico e depreciativo que tem a ver com o inglês mug (cara feia, bobo) e faz uma referência negativa à ingenuidade, trouxa é alguém que pode ser facilmente enganado.

É uma árdua tarefa tornar compreensíveis, entre falantes de uma mesma língua, vocábulos dificilmente traduzíveis: de um lado, de fato, é preciso permanecer o mais fiel possível ao texto original, de outro, o tradutor se encontra realizando um verdadeiro ato criativo, não muito diferente do processo da criança, enriquecido, porém, de competências linguísticas e filológicas que façam as “palavras novas” serem perfeitamente adequadas à cultura, à língua e à realidade de destino.

Já com Quidditch, um esporte com regras complexas, vários tipos de bolas, onde os jogadores voam em vassouras mágicas, não acontece a mesma coisa, esse neologismo não acabou no dicionário. Ainda que os nomes das bolas e das diferentes posições dos jogadores recebam traduções diversas ao redor do mundo, na maior parte das línguas Quidditch permaneceu em inglês. No Brasil, Quadribol foi a tradução dada ao nome do jogo mágico que guarda semelhanças com basquete, futebol e polo.

Nem todas as palavras inventadas por Rowling, porém, são neologismos, vejamos, por exemplo, aborto, que denomina uma pessoa, filha de um mago e de uma bruxa, que não herdou poderes mágicos.

Os abortos são, geralmente, mal vistos pelos magos verdadeiros e se encontram em condições de desvantagem no âmbito da sociedade. Sua versão original (Squib), remete a fogos de artifício que não explodem.

Muitos dos neologismos criados por Rowling são palavras-valise, que oferecem informações sobre personagens e sobre palavras.

Animago, por exemplo, combina as palavras “animal” e “mago” para criar uma palavra que define bruxas e magos que podem se transformar em animais. Além disso, inúmeras palavras fundem termos de línguas como o latim e o francês, e é muito divertido pesquisar o significado escondido em cada uma delas.

Se pensarmos no nome do principal adversário de Harry Potter, Voldemort, derivado do francês vol de mort, que significa “voo da morte”, indicativo da vontade de imortalidade e do desejo de matar (Ilaria Katerinov, Lucchetti Babbani e Medaglioni Magici. Harry Potter in italiano: le sfide di una traduzione, Monselice, Camelozampa, 2012).

Se Rowling introduz em seus livros uma quantidade enorme de neologismos dando muito trabalho a tradutores do mundo inteiro, na realidade o que ela faz nada mais é que se inserir em uma longa e consolidada tradição.

Das obras de Rabelais às de Swift, chegando às de Joyce e Borges, a invenção de idiomas é uma técnica psicolinguística, que enriquece o texto e pode assumir também uma valência metalinguística, como reflexão sobre os limites da linguagem humana. Da presença de expressões incompreensíveis, como o dialeto pseudobergamasco dos carvoeiros no Barão nas àrvores, de Italo Calvino, chega-se a verdadeiras línguas inventadas com a finalidade narrativa, como é o caso das línguas faladas por comunidades imaginárias, como as dos elfos e outras criaturas no Senhor dos anéis de Tolkien.

 

Para se ter uma ideia mais ampla das línguas imaginárias, aconselho a consulta ao Dizionario delle lingue immaginarie [Dicionário das línguas imaginárias], de Paolo Albani e Berlenghiero Buonarroti (Bologna, Zanichelli, 2011). Um guia documentado que provoca a curiosidade e a fantasia e ao qual os autores aconselham uma aproximação com “espírito lúdico”, a ser lido como um romance incompleto.

Limitando-nos às invenções linguísticas que têm o objetivo de divertir e invocar a fantasia das crianças, é exemplar a criatividade léxica de Roald Dahl, que faz um grande uso de neologismo dentro das suas histórias, nos nomes dos seus personagens, das criaturas imaginárias, das receitas, das comidas e bebidas e principalmente por ter criado a linguagem usada no BGA.

 


O BGA, de Roald Dahl, ilustração Quentin Blake, São Paulo, editora 34, 1999

 

Esse romance contém, sem sombra de dúvida, o maior número de neologismos em relação a qualquer outro livro de Dahl. Na verdade, parece que as histórias fantásticas oferecem maiores possibilidades em relação àquelas realistas: não é estranho que o BGA, que vive no País dos Gigantes, fale de um modo agramatical e use palavras bizarras como saborbosa, serumanos, guarda-comida, anibolinho, pulestrada, nabobrinha, cascabeça, nojência.

Os neologismos de Dahl podem ser subdivididos em três grandes categorias (palavras reais porém de uso incomum e raro, palavras reais mas usadas com significado diferente e palavras inexistentes) e, ao contrário daquelas inventadas por Carroll, não necessitam de muitas explicações, portanto é mais por um prazer estético que está para ser publicado o volume Oxford Roald Dahl Dictionary [Dicionário Oxford de Roald Dahl] (Oxford University Press), coordenado pela linguista Susan Rennie.

Assim como um vocábulo novo, uma palavra inventada pode tornar-se compreensível ao leitor se usada com cuidado e atenção, reduzindo o esforço cognitivo necessário para entender seu significado.

Dahl, por exemplo, às vezes insere a explicação da palavra dentro da própria narrativa, outras vezes utiliza o recurso da repetição ou o da associação com outras palavras.

Tomemos por exemplo a palavra frobscottle, clacloclola na tradução em português de Angela Mariani: em poucas linhas não só é explicado o significado, mas o termo é repetido quatro vezes, de modo que antes que a página termine o leitor já sabe pronunciá-lo e pode imprimir-lhe um significado.

 

O BGA, de Roald Dahl, ilustração Quentin Blake

 

‑ Clacloclola ‑ respondeu o BGA ‑ Todos os gigantes bebe clacloclola.

‑ É tão horroroso quanto as nabobrinhas? – quis saber Sofia.

‑ Horroroso! – espantou-se o BGA. ‑ Nada de horroroso! Clacloclola é uma coisa doce e saborbosa! – Ergueu-se da cadeira e foi até um imenso armário. Abrindo a porta, apanhou uma garrafa de vidro que devia ter uns dois metros de altura. Dentro dela havia um líquido verde claro, e a garrafa estava pela metade.

‑ Aqui está a clacloclola! – ergueu a garrafa cheio de orgulho, como se exibisse um vinho precioso. – Clacloclola deleciosa, cheia de bolhas! – gritava. Sacudiu a garrafa, e o líquido começou a a espumar dentro dela.

(Roald Dahl, O BGA, ilustração Quentin Blake, São Paulo, editora 34, 1999, p. 84).

 

Outras vezes o significado de um termo é claro porque é explicado diretamente pela ação. Sofia não precisa de nenhuma explicação com relação à palavra whizzpopper, fizpunzinho em português) já que logo vê o efeito que a clacloclola faz.

‑ Fizpunzinhos! – o rosto do BGA brilhava de alegria. – Nós gigantes faz fizpunzinhos o tempo todo! Fizpunzinho é um sinal de felicidade! É música pros nossos ouvidos! Você não vai dizer que um fizpunzinho ou outro é coisa proibida pros serumanos? (Idem, p. 89)

 

Um neologismo que diverte e, ao mesmo tempo, rompe um tabu falando/inventando uma palavra nova.

E se nos concentrarmos na musicalidade de certos vocábulos, mais do que no significado, será impressionante o efeito emocional, como está claro no seguinte trecho do BGA:

 

‑ Serumanos tem sua própria música deles, correto ou torto?

‑ Correto – disse Sofia. – Muitas músicas.

‑ E tem vez que quando um serumano escuta uma música que é do jeito que ele gosta muito, fica todo arrepiado, correto ou torto?

‑ Correto.

‑ Então aquela música disse uma coisa para ele. Mandou uma mensagem. Eu pensa que o serumano nem sabe muito bem qual é essa mensagem, mas gosta de todo jeito.

‑ É isso mesmo – concordou Sofia.

‑ Mas aí, por causa dessas orelhonas de abano que eu tem, eu não só escuta a música que os sonhos faz, mas também entende o que quer dizer.

‑ Como assim, entende?

‑ É como ler – explicou o BGA. – É como se falasse comigo, numa espécie de língua.

‑ É difícil de acreditar – disse Sofia.

‑ Eu aposta que você também acha difícil de acreditar em serumaninhos verdes que vem voando lá das estrelas.

‑ Claro que não acredito – disse a menina.

O BGA olhou-a muito sério. – Você vai me dar uma desculpa – disse – mas eu acha que os serumanos pensa que é muito esperto, mas não é nada. Eles é quase tudo bobalhudo e bocozildo.

‑ Ei, calma aí – disse Sofia.

‑ Os serumanos tem um problema – continuou o BGA. – Eles não gosta nem um pouco de acreditar em qualquer coisa que eles não tá vendo bem na ponta do nariz. Claro que existe serumaninhos verdes. Eu vê eles toda hora. Até conversa com eles.

(Ibidem)

 

Afirmação confirmada e validada se fossem convidados a pronunciar em voz alta a palavra Stralisco, vocábulo inventado por Roberto Piumini, que serve de título a um de seus livros mais bonitos, e que nasce no meio de uma brincadeira entre o pintor turco Sakumat e Madurer, um menino gravemente doente por quem o pintor tinha sido encarregado de embelezar as paredes brancas dos seus aposentos, onde era obrigado a viver segregado.

‑ Não é um grão? Mas parece grão: um grão fininho…

‑ Sim, parece um grão, mas são espigas de stralisco.

‑ Stralisco? Essa planta não conheço ‑ disse Sakumat, aproximando com curiosidade a face a uma das espigas pintadas, para estudá-la melhor.

‑ Ninguém a conhece ‑ disse Madurer ‑, é uma espécie de planta luminosa.

‑ Luminosa?

‑ Sim, brilha nas noites serenas. É uma espécie de planta-vagalume, entende? Nós agora não a vemos brilhar, porque é dia. Mas de noite o stralisco ilumina o gramado.

(Roberto Piumini, Lo Stralisco, ilustrações Cecco Mariniello, Torino, Einaudi Ragazzi,1993, tradução livre)

 

Não apenas é auspicioso estimular as crianças a alargarem o próprio vocabulário para que ampliem os limites do próprio mundo; deveríamos nos dar conta de que, ao experimentar a linguagem, a criatividade é automaticamente estimulada. Como acontece ao jovem estudante Nick Allen em Drilla, que, ao aprender a utilizar o dicionário como instrumento indispensável para o enriquecimento linguístico, descobre que a fantasia se alimenta da riqueza das palavras. E assim será mais fácil compreender o tédio diante da banalidade de certos livros para leitores iniciantes.

Da mesma forma, não deve nos surpreender o prazer de Mina, a protagonista do homônimo romance de Almond, que na sua fase de aprendizagem para com frequência pra brincar com as palavras, para prová-las, separando-as em sílabas, para escrevê-las em maiúsculas, para saboreá-las seja visual ou verbalmente, como, por exemplo, acontece com paradoxal.

 

Uma palavra não inventada, porém nova para a menina, uma palavra difícil e atípica, tão bela ao ponto de fazer que Almond exclame através da boca de Mina:

Enfim, tentarei dar um jeito para que as minhas palavras escapem das gaiolas da tristeza para que cantem de alegria.

 

Uma palavra tão bonita que nos convida a olhá-la, escutá-la, a lê-la em voz alta, experimentando aquele gosto estético das palavras para além de seu significado.

Uma palavra nova que, como as palavras inventadas, abre as portas do mundo das maravilhas e das infinitas possibilidades de criar e recriar.

Para concluir, uma observação que nos conduz a considerar a pluralidade e a unicidade de outras linguagens que podem coexistir com aquelas consideradas “convencionais”: a propósito do BGA, omiti o fato de que a inspiração para a linguagem esquisita do Bom Gigante Amigo tenha chegado a Roald Dahl por uma tragédia que atingiu sua família: Pat (Patricia Neal), sua primeira esposa, sofreu um derrame cerebral em 1965, que lhe provocou danos no lobo parietal do cérebro, área responsável, entre outras funções, pela interpretação da linguagem.

Depois disso, a convalescente pronunciava palavras sem sentido como “porteedo” ou “muggled” ao invés de “confused”, vocábulos que Dahl inseriu no BGA.

Palavras de quem está reaprendendo a falar, mas também de quem poderia falar de outro jeito, como em O vigário de Mastigassílabas, último livro de Roald Dahl, onde um pároco afetado de uma forma especial de dislexia deforma as palavras (e na versão italiana, também faz anagramas com elas), obtendo efeitos irresistivelmente divertidos. No posfácio do livro italiano, as tradutoras explicam as dificuldades encontradas para traduzir do inglês os duplos sentidos que inundam o texto em língua original, ao ponto de obrigá-las a uma pequena licença de tradução que acabou por duplicar a dislexia do reverendo, adicionando àquela retroativa (duplos sentidos) uma misturadora (anagramas).

Também no livro So B. it [Deixa rolar], de Sarah Weeks, a dificuldade de se expressar na língua habitual gera a invenção de palavras inexistentes, mas tão significativas que acabam virando o centro propulsor da narração.

Em The true tale of the monster Billy Dean [A verdadeira história do monstro Billy Dean], livro dedicado a um público de jovens leitores e adultos, David Almond experimenta uma escrita nova, que empresta os movimentos da língua oral, criando uma linguagem sem gramática, baseada na fonética.

Billy Dean, o protagonista, um menino nascido de uma relação proibida, protegido e escondido aos olhos do mundo em um quarto murado, tem uma história pra contar e para isso usa a única língua que conhece: aquela que se origina dos sons que escuta do pai e da mãe. Aquela que, como autodidata, aprenderá sozinho a ler e escrever, através dos livros álbuns e da Bíblia.

‑ Dizem que aprenderei a escrever esta istória quando vou escrevendo ela. Uma palavra dipois da outra e umoutra ainda. Diz qui é só movimentar u lápis.. É avançá como passo na pueira, deixandopra trás seus traços. É só deichar pra trás us sinais como os pássaros e animais deixam no barro suas pegadas misteriosas. Deve só preencher as páginas. Uma palavra um sinal uma palavra um sinal.

(David Almond, The true tale of the monster Billy Dean, Massachusetts, Candlewick, 2011, tradução livre)

 

Enquanto ele nos conta a sua história, lançando no papel palavras que se transformam em frases, capítulos que viram livros, nós aprendemos a decifrar esta nova linguagem ou, se quiserem, a escutar o som, bem como o próprio Billy Dean nos sugere no início do livro:

 

Tentem decifrar as palavras. Ou escutem o som delas. Ou façam aquiloque lhes convêm para deixá-las entrar em vocês. Eu sou Billy Dean. Est’é a verdade. Est’é a minha istória.

(David Almond, The true tale of the monster Billy Dean, Massachusetts, Candlewick, 2011, tradução livre)

 
 [i] Na íngua do Pê: A(PA) NI(PI) MA(PA)
Bibliografia
Gianni Rodari, Gramática da Fantasia, Summus editorial, São Paulo, 1982.
Rita Valentino Merletti, Leggimi forte. Accompagnare i bambini nel grande universo della lettura. Milão: Salani, 2011.
Emanuela Bussolati, Tararì Tararera. Milão: Carthusia, 2010.
Lewis Carroll, Jabberwocky, ilustração Raphaël Urwiller, tradução Masolino D’Amico. Roma: Orecchio Acerbo, 2012.
Lewis Carroll, Jaguadarte, tradução Augusto de Campos, ilustrações Rita Vidal. São Paulo: Nhambiquaras, 2014.
Lewis Carroll, Alice através do espelho e o que ela encontrou lá, tradução Alexandre Barbosa de Souza. São Paulo: Cosac Naify, 2015.
Giuseppe Caliceti, In ogni Pinocchio, ilustração Gaia Stella. Milão: Topipittori, 2016.
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Astrid Lindgren, Sorellina tuttamia, ilustração Hans Harold, tradução Roberta Colonna Dahlman, I classici moderni per bambini. Milão: Il gioco di leggere, 2010.
David Grossmann, La lingua speciale di Uri, tradução Bianca Pitzorno, ilustração Manuela Santini. Milão: Mondadori, 2011.
Claudia Cataldo, C’è più gusto. Far crescere e stimolare il piacere della lettura. Roma: Armando editore, 2009.
Ilaria Katerinov, Lucchetti Babbani e Medaglioni Magici. Harry Potter in italiano: le sfide di una traduzione. Monselice: Camelozampa, 2012.
Paolo Albani e Berlenghiero Buonarroti, Aga magéra difúra. Dizionario delle lingue immaginarie. Bolonha: Zanichelli, 2011.
Roald Dahl, O BGA, ilustração Quentin Blake, tradução Angela Mariani. São Paulo: 34, 1999.
David Rudd, ‘Don’t Gobblefunk Around With Words’: Roald Dahl and Language, em Roald Dahl, organização Ann Alston e Catherine Butler. Nova York: Palgrave Macmillan, 2012.
Roberto Piumini, Lo Stralisco, ilustração Cecco Mariniello. Turim: Einaudi Ragazzi, 1993.
Andrew Clements, Drilla, tradução Beatrice Masini, ilustração Brian Selznick. Milão: Bur ragazzi, 2016.
David Almond, La storia di Mina. Milão: Salani, 2011.
Peter Ranscombe, Roald Dahl and the big friendly neuroscientist, The Lancet Neurology, Volume 14, Numero 12, p. 1159, dez. 2015. < http://www.thelancet.com/pdfs/journals/laneur/PIIS1474-4422(15)00180-5.pdf>, consultado em 10/03/2017.
Roald Dahl, O vigário de Mastigassílabas, ilustração Quentin Blake, tradução Alexandre Cataldi. São Paulo: 34, 2016.
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David Almond, The true tale of the monster Billy Dean. Massachusetts: Candlewick, 2011.

 

Tradução Claudia Souza

Imagem Emanuela Bussolati, Tararì Tararera, Milão, Carthusia, 2001