As relações entre imprensa e literatura têm sido amplamente discutidas, mas há uma grande lacuna quando nos referimos às produções para as crianças. A formação e a história da literatura infantil brasileira vai muito além dos livros.

Quando pensamos em literatura, logo nos vêm à mente nossos autores e obras preferidos, seus livros preservados em estantes. Quando pensamos na imprensa ou mesmo no jornalismo, surgem os jornais e as revistas como meios de comunicação voltados para a atualidade e para a informação, efêmeros em seu conteúdo e materialidade.

Entretanto, essa distinção nem sempre foi clara, tendo em vista que livros e periódicos, enquanto suportes, assim como seus respectivos gêneros, transformaram-se ao longo dos tempos, confundiram seus conteúdos, suas formas e mesmo suas funções sociais.

No Brasil, no final do século XIX e início do século XX, diferentes periódicos – jornais, revistas, almanaques e suplementos – multiplicaram-se significativamente  e assumiram-se como os mais eficientes germinadores e divulgadores da literatura. Graças à mídia impressa, além do livro, vários autores puderam registrar sua arte na história da literatura. Há uma lista enorme: Olavo Bilac, José  de Alencar, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, entre muitos outros.

Tal multiplicação dos periódicos se deve a um certo aperfeiçoamento técnico, com o surgimento de novas tecnologias, um grupo de profissionais capacitados e melhores condições de transporte com novos meios de locomoção, como os trens. E ao eminente surgimento de um mercado consumidor,  um público leitor em formação, carente de entretenimento, cultura e informação.

Mas como criar um mercado consumidor de leitura em um país de raízes escravocratas, com escolarização precária e cuja maioria da população é analfabeta? Daí o papel das revistas ilustradas. Elas demandavam baixos custos, rápida circulação e podiam reunir diferentes assuntos, com possibilidade de ilustrações e caricaturas, uma forma de crítica política bem humorada.

Nesse contexto, as revistas ilustradas brasileiras, seguindo principalmente os moldes franceses, destacaram-se e se tornaram responsáveis pela formação de diferentes comunidades leitoras, de diferentes faixas etárias e gêneros, com destaque para as mulheres e posteriormente as crianças.

Entre algumas revistas brasileiras podemos citar Lanterna mágica, de Araújo Porto Alegre, de 1834; a “comportada” Semana ilustrada(1860-1876), de Henrique Fleuiss, e a “contestadora” Revista ilustrada (1876-1898), de Ângelo Agostini, sendo este, inclusive, um dos primeiros ilustradores da revista O Tico-Tico.

No século XX,  temos ainda as revistas literárias como Revista Klaxon e Revista de antropofagia, além de outras mais genéricas, como Revista do Brasil, Vida-moderna, A Cigarra, O Malho, entre tantas outras.

Este movimento no Brasil não foi um caso isolado. Apesar de esse tipo de periódico ter surgido nos séculos XVII e XVIII em países com tradição de leitura, como Inglaterra e França, foi no século XIX que alcançou maior notoriedade na Europa, principalmente pelo espaço concedido aos romances em forma de folhetim, pelo espaço dado à literatura de forma geral e às demandas da publicidade impressa.

No caso específico da literatura infantil, a mídia impressa é citada entre as diferentes produções para crianças, mas não lhe é dada a devida importância como coadjuvante na construção da história da literatura infantil brasileira.

Grandes estudiosas da literatura infantil, como Marisa Lajolo, Regina Zilberman e Nelly Novaes Coelho,  até reconhecem o valor da mídia impressa, mas não como espaço de produção de literatura para crianças. Destacam a revista O Tico-Tico, por exemplo, por sua relevância como divulgadora das histórias em quadrinhos, pela contribuição de suas personagens no imaginário infantil, ou mesmo como um produto da indústria cultural, sem levar em conta sua faceta como suporte literário, tão válido quanto os livros.

Tico-tico

Revista O Tico-Tico, 1905

 

O livro foi eleito na formação de nossa literatura infantil como único promotor literário, tornando-se o suporte ideal para a educação formal das crianças. Já os jornais e as revistas assumiram-se como coadjuvantes nesse processo, por meio de uma abordagem mais informal e lúdica. Todavia,  tanto periódicos como livros demonstravam  seu interesse em formar e educar seus pequenos leitores a partir das concepções de infância e  das doutrinas pedagógicas vigentes.

A mais relevante revista para crianças no início do século XX foi O Tico-Tico1, publicada de 1905 a 1962, pela Sociedade O Malho, na cidade do Rio de Janeiro.  A revista  apresentava diferentes gêneros, como contos, poemas, fábulas, mitos , folhetins e histórias em quadrinhos. Entre os principais escritores que contribuíram para esse periódico, podemos citar Cardoso Júnior, Coelho Neto, Olavo Bilac, Murilo Araújo, Catulo da Paixão Cearense, Bastos Tigre, Maurício Maia, Malba Tahan, Max Yantok (Nicolau Cesarino), Wenceslau Semifusa, Humberto de Campos, Oswaldo Orico, Galvão Queiroz, Carlos Manhães, Américo Cllia, Josué Montello, Leonor Posada, entre outros. Um de seus leitores mais famosos foi Carlos Drummond e Andrade:

Fim
Por que dar fim a histórias?
Quando Robinson Crusoé deixou a ilha,
Que tristeza para o leitor do Tico-Tico.
Era sublime viver para sempre com ele e com Sexta-Feira
Na exemplar, na florida solidão
Sem nenhum dos dois saber que eu estava aqui. 

Largaram-me entre marinheiros-colonos,
Sozinho na ilha povoada,
Mais sozinho que Robinson, com lágrimas
Desbotando a cor das figuras do Tico-tico.                                                                                   

 

A partir dos anos de 1940, a revista começou sua decadência e , entre  as várias causas, podemos citar o  surgimento de revistas concorrentes,  exclusivas  para a publicação de  quadrinhos, no estilo dos comic books americanos.  Um bom exemplo é  a revista Gibi, tão inovadora e popular para a época que sua denominação, gibi, passou a se referir a qualquer revista de HQ.

 

 Gibi     Gibi

Revista O Gibi, 1939

 

Nos anos de 1950,  nossa literatura infantil, com raras exceções, entrou em um surto de didatismo e falta de inovação. Entre essas raridades, citamos Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida, em 1957, que resgatam a fantasia até então condenada. No geral, o período foi composto por republicações de obras já consagradas.

Já a produção literária para crianças nos anos de 1960, época em que se iniciou a Ditadura Militar no Brasil, apareceu como  uma preparação para  “o grande surto criador que se deu nos anos 70”,  segundo Coelho,  com destaque para as obras de Lúcia Machado de Almeida, Lucília J. de Almeida Prado, Maria Heloisa Penteado, Maria José Dupré e Odette de Barros Mott. Alguns escritores com experiência nas publicações para adultos, como Clarice Lispector, José Mauro de Vasconcelos, Maria Dinorah  e Stella Carr, também publicaram algumas obras infantis.

Nos anos de 1970, além de obras que seguiam a tradição, sem grandes inovações, surgiu uma grande quantidade de escritores e escritoras com novas propostas para a literatura infantil, a partir de um experimentalismo da linguagem, uma nova estruturação narrativa, questionamento de valores pré-estabelecidos  e muito visualismo. Houve,  portanto, segundo Nelly Novaes Coelho, “ (uma) substituição da literatura confiante/segura por uma literatura inquieta/questionadora”,  muito   conhecida de nós atualmente.

Nesse período, essa produção literária entrara em um processo de renovação e qualidade, fortalecendo-se enquanto arte e exigindo para si uma crítica literária específica.

São vários os escritores dessa época, entre os quais podemos citar Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Bartolomeu campos Queirós, Edy  Lima, Elias José,  Ganynedes José, Giselda Laporta Nicolelis, João Carlos Marinho, Lygia Bojunga, entre tantos outros.

Nesse contexto,  eis que surge,  em 1969, ao custo de apenas 1 cruzeiro,  um periódico que contribuiu significativamente para a divulgação dessa nova literatura infantil que surgia: a revista Recreio.

Essa publicação  permaneceu até 1981 com a mesma concepção, de divertir e educar, conforme seu slogan já antecipava: “Leia e pinte, recorte e brinque”. Em seu subtítulo ainda se lê: A revista brinquedo Recreio escolar.

Assim,  como ocorrera com a revista O Tico-Tico, a Recreio  assumiu-se como um novo espaço de divulgação da literatura infantil.  Nela se destacaram, entre tantos escritores, as já citadas Ana Maria Machado e Ruth Rocha, sendo que a obra desta última, o famoso Marcelo, Marmelo, Martelo (1976) foi publicada originalmente na revista nº 50 em 1970.

 

Recreio

Revista Recreio, 1970.

A híbrida função, divertir e educar, assim como o baixo custo, acessível à classe média,  transformaram a revista em um sucesso de público em plena Ditadura Militar. Uma história diferente era publicada a cada semana, cercada de brincadeiras, jogos, adivinhações, músicas, quadrinhos, peças para montar cidades, circos, navios, entre outros.

Em 2000, a publicação foi relançada e remodelada, diferindo muito da primeira versão. Essa nova versão apresenta curiosidades, passatempos, piadas,  tiras cômicas, pequenas notícias, reportagens sobre temas variados(meio ambiente, alimentação, saúde, entre outros), entrevistas,  dicas de filmes, teatro, leituras e games. Usualmente, é acompanhada por itens colecionáveis como miniaturas de dinossauros.

Atualmente, a literatura infantil encontra-se bastante solidificada e diversificada, seguindo diversas tendências. Vários gêneros da literatura infantil podem ser encontrados nos livros, nas páginas da Internet ou em revistas exclusivas de HQ, sendo que no Brasil, há ainda o predomínio das publicações de Maurício de Souza. Nas revistas, jornais e suplementos infantis,  esses gêneros são cada vez mais raros.

Contudo, não podemos nos esquecer de que a revista Recreio contribuiu consideravelmente  para o “renascimento” da  literatura infantil brasileira  nos anos de 1970, assim como fizera a Tico-Tico em décadas anteriores,  sendo também responsável pela  divulgação de novos escritores e pela formação dos pequenos leitores, devendo, assim, ser incorporada à história da literatura infantil por meio de estudos específicos.

 


Nota

1. Carlos Drummond de Andrade, “Boitempo”(1968). Em: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1973, 391.


Bibliografia

Ana Luiza Martins, “Revistas na emergência da grande imprensa: entre práticas e representações (1890-1930)” . Em: Márcia Abreu e Nelson Schapochnik (org.) Cultura letrada no Brasil: objetos e práticas. Campinas: Mercado de Letras/ Associação de Leitura do Brasil; São Paulo: FAPESP, 2000.

Lígia. R. M. C. Menna, A literatura infantil além do livro: as contribuições do jornal português O Senhor Doutor e da revista brasileira O Tico-tico.Tese de doutoramento. São Paulo: FFLCH-USP, 2012.

Marisa Lajolo e Raquel Zilberman, Literatura infantil brasileira, história e histórias. São Paulo: Ática, 2007.

Nelly Novaes Coelho, Panorama histórico da literatura infantil e juvenil. São Paulo: Ática, 1991.

______. Dicionário crítico de literatura infantil. São Paulo: Edusp:1995.

______. Literatura infantil: teoria, análise e didática. São Paulo: Moderna, 2000.

 

Roger Chartier, Cultura escrita, literatura e história. Conversas de Roger Chartier com Carlos Aguirre,  Jesús Anaya Rosique (et al).  Porto Alegre: Artmed, 2001.