Um texto a meio entre duas línguas.

Que podemos fazer na Galícia senão deslizar a língua pelas possibilidades que nos dão sons e estruturas tão próximas, ossos, pele e carne de idiomas líquidos e montanhosos?

 

 Sobre la pasta dura del álbum hay un paisaje pintado. Una montaña con pico nevado, un manantial al pie de la montaña, una llanura con pastos verdes por donde corre el manantial. Las ramas de los árboles son delgadas y frías. Se presiente la nieve pero todavía no es el invierno.

Pedro Badrán. El día de la mudanza (p. 7)

Pressente-se a neve, e ainda não é inverno. No entanto, ele está lá, avizinham-se desconforto e privação. A natureza se recolhe, o corpo reclama do sentimento de desazón, inventa estratégias para sobreviver, enquanto anseia pelas estações temperadas, pelo verão.

Na América Latina, há muito foram abandonadas as estações do bem-estar. As mazelas e os processos de independência deixaram sequelas que se fazem sentir até o presente, marcado pela corrupção, escolaridade deficiente, acesso desigual a serviços públicos de saúde, problemas estruturais na administração pública, tendência ao Estado paternalista e demagógico, existência de fortes grupos oligárquicos no poder, gritantes mentiras políticas e desigualdades sociais. A tudo isso se dá, mais ou menos, o verniz da democracia. Não são privilégio da latinoamérica, essas condições, mas o recurso e a crença nos caminhos legais para resolvê-las, inscritos nas constituições das repúblicas, costumam ser bem mais enviesados que na Europa ou nos Estados Unidos da América do Norte. Uma sensação constante de mau pressentimento quanto à precariedade do exercício dos direitos humanos e da efetiva democracia alimenta expressões estéticas de alto vigor nessa parte da América nomeada de latina para atender aos interesses da nação francesa, contrapondo-se ao império norte-americano, de base anglo-saxã (Lacerda, 2010, s/p.).

Na expressão literária contemporânea que crianças e jovens também podem ler na América Latina, o mal-estar abre-se como vertente vigorosa e se apresenta ao lado de três outras linhas de força: a poética da identidade, voltada tanto à exploração do eu, quanto àquela que se refere às raízes culturais ou nacionais; poética da gratuidade, a palavra como signo opaco que reverbera na polissemia; poética do signo verbal, com a perspectiva das ficções metaliterárias e metatextuais – uma tônica na produção da pós-modernidade. Temos tomado, em tal produção, o mal-estar como uma das poéticas mais instigantes, geradoras de reflexões sempre oportunas entre ética e estética.

El dia de la mudanza, do colombiano Pedro Badrán, cujo fragmento inicial abre esta reflexão, pode ser lido como retrato da Colômbia em suas falências, projeto iluminista abortado nas lutas pela independência do país. Deslizar da condição social confortável para o limbo da sobrevivência envergonhada é estar abandonado ao próprio coração do inverno. O autor possibilita o mergulho radical naquilo que Freud anunciou em princípios do século XX, quando o promissor progresso tecnológico prognosticava a felicidade total para a humanidade. O grão do mal-estar ameaçava fazer apodrecer o cesto de maçãs. Grão?

Freud nos alerta que:

[….] el hombre no es una criatura tierna y necesitada de amor [….] (y que) el prójimo […] le representa […] un motivo de tentación […] para ocasionarle sufrimientos, martirizarlo y matarlo. (1981, p. 3046)

Questões fundamentais da existência como a natureza do humano, o mal, a morte, violência na escola, sexualidade, homoerotismo, guerra, suicídio, corrupção costumam apresentar-se como temas considerados polêmicos para a literatura, e as várias instâncias de controle da leitura costumam considerar as obras que os apresentem como perigosas e inadequadas para crianças e jovens. Mas se “De todas las palabras de la alfombra ésa era la que más me gustaba: alfanje.”, como afirma o Badrán (p. 28).

Censurar esse alfanje, cortar o sabre do texto (o texto como alfombra) é impedir ao leitor a residência nos lugares do humano, tocando o abismo que a nós nos toca. As estações temperadas, o conforto do verão não costumam ser gratos à literatura.

Primeiro autor brasileiro a conceber um projeto de literatura destinada às crianças, Monteiro Lobato evidencia absoluta clarividência quanto ao que representa a literatura, em termos de comunicação entre autor e leitor, conforme o pensamento de Georges Bataille. Em A chave do tamanho, de 1942, os personagens do sítio do Pica-pau Amarelo sofrem de forma direta as consequências do conflito no Velho Mundo, e dona Benta, a terna avó, pedagoga natural, defensora do humanismo, expressa a um só tempo a consciência da humanidade e a depressão que o autor confessa nos escritos pessoais. Sem maniqueísmos, arriscando-se a explorar o humano na sua complexidade, Lobato problematiza o mal-estar. As crianças que lêem Lobato e que a ele escrevem (é um autor de alta interação com seus leitores) podem, então, formar-se na consciência de que “A humanidade forma um corpo só.”

As ditaduras e guerras que varreram o século XX fomentaram na Europa consciência crítica e memorialística, expressa de variadas maneiras. Na América Latina, franquear a memória é tarefa custosa. Como acreditar que

[…] secuestros, centros clandestinos de detención, el exterminio como arma política, la impunidad con que los represores se movían, actitudes de la iglesia, de algunos funcionarios, cómo se coordinaba la represión en toda Latinoamérica, documentos, lista de detenidos desaparecidos, niños, embarazadas y adolescentes torturados. (Graciela Bialet)

foram cometidos impunemente e por cidadãos de um país em relação a seus compatriotas? Na Europa, ao menos, os judeus eram estrangeiros. E houve juízo para os crimes de guerra. No Brasil, anistiam-se igualmente torturadores e assassinos abrigados pelo Estado, pensadores dissidentes e jovens guerrilheiros.

Com Los sapos de la memoria, a argentina Graciela Bialet enfrenta o mal-estar imprescindível à reconstrução factual para que a história não seja um amontoado de versões fraudulentas e a identidade não passe de fantasia de carnaval. Nessa empresa, muitos adultos, a pretexto de proteger crianças e jovens de uma realidade cruel, podem acabar borrando a memória, encobrindo ou minizando a violência social ou de Estado. Los agujeros negros, de Yolanda Reyes, relata a violência na Colômbia, com o mérito de não simplificar a questão: “ – […] Hay trabajos que no le gustan a cierta gente. – ¿A quién no le gustan? ¿Quiénes eran los malos, abuela? – No sé –dijo–. No es nada fácil. No es como en los cuentos.”

A arte não cede à tentação de apontar culpados. A via do maniqueísmo, presente no entretenimento e nos discursos didáticos, livra-se de conflitos, ao atribuir aos fatos e às pessoas posições esquemáticas. O mal-estar, ao contrário, surge da consciência da gama de variações de caráter e responsabilidade inerentes a cada indivíduo, frente às variadas circunstâncias. O leitor experimenta assim, na experiência estética, a vivência ética. “– ¿Si le han dicho que soy inmortal? [..] “Me salvé porqué vomité los renacuajos – [….] “No comas renacuajos, si no te quieres morir […]” (Ibañez)

A novela do colombiano Francisco Montaña Ibañez revolve o leitor, que acompanha perplexo e nauseado o trajeto de fome de cinco crianças, abandonadas à própria sorte e fadadas a um desfecho trágico, em face da omissão dos adultos que as cercam. Uma última refeição, feita de uma calda de girinos, é a causa da morte de todos os irmãos, na sublimada versão de David, único sobrevivente de um massacre em que o assassino e também suicida é o irmão mais velho, que devia obedecer à ordem do pai mantendo os irmãos juntos até que ele voltasse. Mas o pai não voltou, e a fome os leva a se alimentar de larvas. David, o Imortal, empreende o longo trajeto de volta a si mesmo amparado pelos laços de afeto de uma menina, filha de presos políticos, recolhida à mesma instituição que ele. Se Ibañez sacode o leitor às raias da injustiça e da irresponsabilidade adulta para com as crianças, cumpre igualmente com o projeto ético de apontar a expectativa do vindouro, irrefreável na literatura cujos receptores privilegiados são crianças ou jovens, conforme aponto nas Cartas do São Francisco: conversas com Rilke à beira do rio.

Em tal expectativa, deve-se igualmente abrigar a liberdade da experiência radical que o brasileiro Luiz Raul Machado permite a seu protagonista em Cartão-postal. Na recusa à instrumentalização da literatura para modelagem de um comportamento de vitrine, o autor acolhe o desespero e o silêncio como manifestações legítimas também da infância, reconhece a opção do menino de tornar-se boneco de pau, no reverso do trajeto exemplar de Pinóquio. Da mesma forma que Kronfly, Machado considera que as crianças não devem ser usadas como “[…] materia futura donde se juzga posible garantizar la expulsión de toda incertidumbre […]”. (Kronfly)

A poética do mal-estar recebe com dignidade as áreas delicadas da mente humana na clareza de que não lida com heroísmos ou esquemas, mas com opções que se abrem como leque em que nenhum dos extremos é livre de impurezas. O mal atrai, toca as pessoas com seu abraço viscoso, como representou Lygia Bojunga em O Abraço, e seu contato pode propiciar a experiência ética, advinda da inquietação e da comunicação do abismo.

“– Vá, meu filho. E não volte […]”. A ordem imperiosa da mãe moribunda visa a empurrar o filho para o salto que pode ser mortal, mas é a única possibilidade de permitir o caminho ao tempo de segurança e abastança a Miúdo, o Marginal à esquerda. Nessa obra-prima, Angela Lago retoma a náusea e a esperança de Cena de rua e oferece a seu protagonista confrontar-se, na favela brasileira, com os verbos futuros da própria vida, a se sustentar nas cordas de seu violino e pautas de Vivaldi, longe dos esgarçados e corrompidos laços familiares.

“No sé por qué presiento que algún día me va a suceder algo malo. […] no hay nada más definitivo y real que la mudanza”, diz Camila, no subúrbio bogotano, que recende aos odores de gordura da fábrica vizinha, em El día de la mudanza. Nos fios de um sonho, ela pode reencontrar a velha casa, a condição social de respeito e abastança, mas o cenário e os personagens estão inteiramente corrompidos e manequins ocupam a casa, tomada pela derrota e ausência de saída. Apenas a velha alfombra sobre a qual o imaginário se tecia outrora, em histórias de coragem e libertação, resiste. Mas é sobre ela que sentam-se os manequins.

 


* Texto apresentado no 32° Congresso Internacional do IBBY, em 2010, em Santiago de Compostela.


Referências

Angela Lago. Cena de rua. Belo Horizonte: RHJ, 1994.

______. Marginal à esquerda. Belo Horizonte: RHJ, 2009.

Fernando Cruz Kronfly. “¿Desgracia o alegría de la especie?”. Em: Memorias. 27° Congreso IBBY. Cartagena de Índias, Colômbia, 2000 (p. 55).

Francisco Montaña Ibañez. No comas renacuajos. Bogotá: Babel, 2008 (p. 197).

Georges Bataille. A literatura e o mal. Trad. Suely Bastos. Porto Alegre: L&PM, 1989 (p. 10).

Graciela Bialet. Los sapos de la memoria. Córdoba: CB Ediciones, 2008 (pp.105-7).

Luiz Raul Machado. Cartão-postal. Il. Anna Göbel. Belo Horizonte: Formato, 1996.

Monteiro Lobato. A chave do tamanho. São Paulo: Círculo do livro, s/d (p. 10).

Nilma Gonçalves Lacerda. Cartas do São Francisco: conversas com Rilke à beira do rio. 3ª ed. São Paulo: Global, 2003 (p. 23).

______.  Disponível somente online, aqui, 2010.

Pedro Badrán. El día de la mudanza. Bogotá: Babel, 2007 (p.69).

Sigmund Freud. “El malestar en la cultura”. Em: Obras completas. 4ª ed. Trad. direta do alemão por Luis Lopez-Ballesteros y de Torres. Madri: Biblioteca Nueva, 1981. Vol. III (p. 3017- 67).

Yolanda Reyes. Los agujeros negros. Bogotá: Alfaguara, 2008 (p. 39)

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Imagem Ângela Lago, Cena de rua