Dependência da América Latina da edição espanhola

Esta é uma breve reflexão sobre os alcances e as particularidades da relação editorial e da distribuição de livros entre a América Latina e a Espanha; uma relação que condicionou a forma de editar e os canais de circulação do livro em espanhol na região.

Editoras espanholas por toda América Latina
Editores espanhóis abriram suas próprias editoras em toda América Latina e, para formar cada um de seus catálogos, alimentam-se de duas fontes: dos livros publicados na Espanha, e dos editados em cada país com os autores nacionais, responsáveis pela sua “cor local”. Isso não representaria maiores problemas se não fosse porque esses autores locais só circulam nos seus próprios países e não chegam a atravessar fronteiras. Atravessar a fronteira é um dos interesses que os faz privilegiarem essas editoras em detrimento das locais. Desejo que só será cumprido, se se tornarem best-sellers tão importantes que os editores das sucursais da América Latina (raramente da Espanha) não duvidem de que aquele livro possa “funcionar” em outro país. Cada editora de origem espanhola monta, assim, um catálogo nacional próprio, que tem por trás uma pequena editora, semelhante em tamanho e circulação às editoras locais e cujos livros circulam apenas no país de origem do autor. Ou seja, os livros colombianos são lidos na Colômbia, os argentinos na Argentina, os peruanos no Peru, os mexicanos no México… e os espanhóis em toda a América Latina.

De tal maneira que da Patagônia ao Alasca, as crianças de língua espanhola na América leem os mesmos livros vindos de editoras espanholas e transformaram o espanhol da Espanha na língua comum de toda a região. Mas, esse espanhol “neutro”, como alguns editores o chamam, só é comum na língua escrita. A língua falada continua mantendo as suas especificidades e a sua riqueza local. As crianças da América Latina perderam a possibilidade de enriquecer a sua língua com as particularidades que as distinguem em cada um dos nossos países. “Em outro país, as crianças não reconhecem a sua língua e são incapazes de ler…”, segundo a opinião dos editores espanhois e assim limitar a circulação, no resto da América Latina e, claro, na Espanha, de autores latino-americanos.

Essa prática tem sido recorrente nos últimos anos, mas por que permitimos que isso aconteça dessa maneira? Faz pouco mais de 25 anos que começou a edição formal de livros para crianças na América Latina, de modo que quando os editores espanhóis começaram a sua aproximação, as editoras locais eram poucas e incipientes. Não se pode negar que colaboraram para o desenvolvimento da edição local apostando na publicação de autores que estavam apenas começando a se envolver no mundo da literatura infantil. Mas o que, a princípio, parecia uma grande colaboração, não cresceu, não arriscou, limitou-se a uma mera aposta comercial para a inserção de um projeto mais amplo e ambicioso de comercialização dos livros produzidos na Espanha.

No entanto, na última década, na América Latina, começaram a aparecer novos projetos de editoras locais; projetos com o propósito de transcender fronteiras que entendem que o desenvolvimento de um corpo literário tem dois níveis: um local, que se constrói com sua particularidade, e que, na busca dessa mesma riqueza, constrói o segundo nível, para além de suas fronteiras, no enfrentamento dessa mesma literatura com o resto do mundo.

 

Espanha: filtro da América

Outro problema sério enfrentado pela América Latina, em sua dependência da edição em espanhol, é que a Espanha tornou-se um filtro editorial em relação a outros países. Editoras espanholas, pela sua tradição e pelo mercado global que representam, tiveram mais chances de comprar direitos do resto da Europa e de outros países para os seus catálogos. Portanto, na América, fomos obrigados a nos conformar, durante muito tempo, com a seleção que a Espanha fazia para traduzir a esse idioma “neutro”…

 

Como pular a barreira espanhola?

Existem duas formas para que a edição europeia pule a barreira que representa a Espanha e chegue à América Latina: primeiro, as compras governamentais em vigência em vários países; e a mais cobiçada por todos de língua espanhola, o projeto de compras para as bibliotecas públicas, escolares e de sala de aula da Secretaria de Educação Pública do México; compras que oscilam entre 25 mil e 150 mil exemplares por título não passam despercebidas para a indústria editorial global. Segundo, as pequenas editoras da América Latina, que se impondo com a qualidade de seu trabalho, pouco a pouco tem conseguido incluir no seus catálogos autores e projetos editoriais em de outras nacionalidades.

 

Pulos ao contrário…

Tenho conhecimento apenas de três editoras latino-americanas presentes no mercado espanhol. As três com três origens distintas e três maneiras diferentes de se firmar nos mercados. A mais próxima, a Editorial Norma, empresa colombiana que, seguindo o exemplo das multinacionais europeias, criou editoras também “independentes” em vários países da região, nas mesmas condições: NENHUMA circulação, NENHUMA integração, NENHUM interesse pela produção para além da própria fronteira, apenas quando for uma aposta comercial muito bem-sucedida. A Editorial Norma comprou alguns selos editoriais espanhóis e opera na América Latina como uma multinacional europeia e seus fundos de catálogo nacionais não conseguem, através da compra desses selos, a menor representação.

O Fundo de Cultura Econômica do México, com um catálogo de alto prestígio e como empresa editorial subsidiada pelo Estado, soma sua presença em outros países a uma forte penetração cultural e livreira através da qual, além do próprio catálogo, têm grande presença os catálogos que circulam localmente e uma grande influência na cultura local do livro.

O caso mais recente da presença latino-americana na Espanha é o de Ediciones Ekaré que, frente aos problemas internos da Venezuela, deixou nas mãos de distribuidores seu catálogo na América Latina e se lançou para a conquista da Europa, fundando uma editora em Barcelona.

A presença desses três projetos na Espanha tem importância individual, porém não contribue para dar visibilidade à América Latina na Europa. A presença mais forte, sem dúvida, é a de Fundo de Cultura, graças a seu projeto editorial produzido quase exclusivamente com base no seu próprio catálogo integralmente mexicano. A presença de atores (autores e ilustradores) de outros países de América Latina se faz por meio das premiações promovidas pela editora.

 

Problemas de distribuição

Existem dois grandes obstáculos para a viabilização de uma verdadeira, ampla e inclusiva ciculação de livros em cada um dos países, capaz de garantir a presença contínua de catálogos grandes e pequenos, que cheguem a grandes e pequenos compradores em todos os cantos do Continente e que garantam uma circulação democrática e inclusiva.

Geografia e legislação
Além dos impedimentos puramente físicos, como o tamanho da região e sua acidentada geografia que tornam os custos de transporte inviáveis para os preços dos livros, há outros fatores que impedem a agilidade do intercâmbio cultural na América Latina. As diferenças de legislação entre os países por exemplo: apenas três países da região obedecem à lei do preço fixo e três países têm altas taxas de impostos para o livro –; além disso, as precárias e sucateadas redes de livrarias que, com exceção de Argentina, Brasil e México, têm uma participação e presença mínimas no mercado.

Todas as legislações latino-americanas do livro, assim como as do mundo todo, incluem na definição de livro nacional “todos os livros com ISBN (nacional)”. O ISBN nacional é obtido basicamente imprimindo uma “nova edição” do livro localmente, daí o inchaço da edição na América Latina, que leva em conta os livros editados na Espanha e em circulação por toda a região: os livros de sucesso, originalmente editados na Espanha, podem ser encontrados em todos os países latino-americanos, cada título com tantos ISBNs quanto for o número de países onde tenha sido publicado.

Ausência de distribuidores especializados
A América Latina carece de distribuidores especializados nas diferentes áreas da edição. Na medida em que a região foi se constituindo como uma grande compradora de livros, foram sendo criados grupos, primeiro como representantes das editoras espanholas, depois, com investidores menos poderosos e, portanto, menos competitivos, quando elas decidiram abrir suas próprias editoras na América frente a necessidade de continuar o desenvolvimento de empresas já estabelecidas.

A distribuição de livros para crianças foi uma questão marginal até o momento em que os diferentes países iniciaram projetos importantes de compras públicas para bibliotecas com ênfase nos livros infantis. É por isso que as distribuidoras estabelecidas decidem sair à “caça” de catálogos infantis, primeiro na Espanha e, em seguida, pela primeira vez no resto da América, incluindo os EUA e Canadá. Esses catálogos circulam deficientemente e, na maioria dos casos, exclusivamente para projetos governamentais, sem presença real no mercado, com presença mínima nas livrarias, representados por distribuidores que pouco ou nada sabem sobre o assunto e que põem em circulação, ao mesmo tempo, catalogos muito sofisticados e outros de qualidade mediana.

 

Comentário final

Com este panorama, não pretendo outra coisa senão esclarecer uma situação que não pode ser inferida a partir de estatísticas, ou da análise do ISBN em cada país, ou mesmo dos olhares numéricos e econômicos dos organismos internacionais como o CERLALC. Essa realidade faz parte do dia a dia do mercado editorial da América Latina. Ele se transformou em nosso modo de fazer as coisas, normal, sem questionamentos: assim são as coisas deste lado do mundo…

Certamente, as soluções para essas questões não estão nas mãos dos editores latino-americanos de LIJ. Porém, gastar alguns minutos do nosso limitado tempo como editores para pensar em nosso trabalho de uma forma mais integral, para além do nosso cubículo, observando como a nossa produção se insere na proposta editorial de um país e, para além disso, numa comunidade global que fala espanhol, é uma tarefa pendente.

Para que nossa produção circule para além dos limitados mercados locais, para poder expandir-se num mercado saudável fortalecendo uma circulação ampla e inclusiva que permita um desenvolvimento coerente da edição de livros para crianças, é necessário que as legislações estabeleçam com mais clareza o que é e o que não é um livro nacional. Que se consolidem as redes livreiras, especialmente as independentes, aquelas que expõem o livro não como um produto mais do grande supermercado global, mas como parte de um património cultural. E que por meio das compras do governo para as bibliotecas públicas e escolares, essas livrarias se fortaleçam e tenham condições de levar os livros para todos os cantos do país. Livros escolhidos com critérios transparentes e de qualidade nesses espaços, símbolo da bibliodiversidade.

 


TRADUÇÃO: DOLORES PRADES / IMAGEM FEIRA DO LIVRO DE GUADALAJARA 2016.