Não venho, em absoluto, armado de verdades definitivas.
Minha consciência não está imbuída de resplendores essenciais.
No entanto, com toda franqueza, penso que seria bom dizer algumas coisas que valem a pena ser ditas.
Franz Fanon, 1974, p.7.

 

Desestabilizar o que dá suporte a meu exercício como leitora é o que pretendo. Sacudir as minhas certezas. Desbaratar os corpos teóricos até encontrar suas entranhas, os latidos, seus vazios. Investigar os conceitos – para além do dito – até chegar aos seus silêncios. Aproximar-me das práticas, das minhas, colocá-las nas entrelinhas.

As práticas: ler textos escritos com outros, criar espaços em que a leitura se instala como interlocutor, como centro. E em torno da leitura: os sujeitos que leem em voz alta e os que leem escutando. Um encontro que transita entre a literacidade e a oralidade. Uma leitura coletiva, compartilhada.

Esta experiência com a leitura da palavra escrita contida nos livros, a que faço sozinha e de maneira compartilhada, geraram em mim uma experiência, no sentido abordado por Jorge Larrosa (2013), “como o que nos passa, nos acontece ou nos chega. Não o que passa, acontece e chega” (p.87). Esta experiência, que nem sempre forma, mas que também de-forma, transforma, me levou a pensar, a me perguntar, acerca da significação que pode ter este exercício de ler em voz alta com os outros.

Minha intenção aqui é problematizar essas certezas estabelecidas nos discursos e dos marcos de referência que sustentam muitos dos projetos destinados a esta prática da leitura em voz alta. Problematizar, não por mera elucubração, mas para relacionar a reflexão com a prática. Relembrando os questionamentos de Fals Borda (1999) e sua IAP (Investigação de Ação Participativa), destaco a importância de ligar o exercício dessa prática cultural à reflexão sobre ela; não considera-los como dois elementos que se excluem e que estão destinados a diferentes atores. Nesse sentido, o presente exercício de reflexão é, em si mesmo, um exercício prático e político; um exercício que pretende crescer até inserir-se no cerne dessas práticas culturais. Esta postura crítica procura problematizar a comum e ordinária essência da leitura.

Esta posição revisionista implica questionar nosso papel como protagonistas dessa prática cultural. E, depois de uma leitura apaixonada de “Calibán” de Fernandez Retamar (2004), perguntarmos: somos como os que se gabam de ter conhecimento e, portanto, do direito de transmiti-lo? A serviço de qual colonialismo estamos? Ou somos, ao contrário, Calibanes dispostos a maldizer com nossa linguagem e, simultaneamente, descobrirmos e reconstruirmos a nós mesmos junto ao outro (não é ao outro”)? Dito em outros termos, a partir de uma leitura de Rama (1984): somos letrados dispostos a reproduzir a ordem imposta?

Me inclino pelo caráter utópico da leitura coletiva e, nesse sentido, por aquela educação social da qual Simón Rodriguez fala (Rama, op.cit), que longe de querer aculturar ou inculturar o outro, reconhece-o como diferente, vê neste um sujeito com o qual quer construir conhecimento. Se abre como uma possibilidade de interculturação, no sentido dado por Walsh (2007) a esse conceito: “processos de construção de de conhecimentos outros”, de uma prática política “outra”, de um proceder social “outro”, e de uma sociedade “outra”” (p.22). Outro entendido como uma forma de pensar através da práxis política e desde a diferença. Uma interculturação que de nenhuma maneira é evangelização ou educação que domina ou civiliza. Trata-se de outra leitura compartilhada.

A promoção da leitura – como categoria a partir da qual se pensou comumente a leitura compartilhada – se torna problemática e traz um grande problema. Essa maneira nominativa: promoção. Como se a leitura fosse um produto que se vende, que gera ativos e passivos; um produto que está na base de um marco normativo que diz apostar na criação de cidadãos críticos e, ao mesmo tempo (grande engano), um capital humano apto para trabalhar e contribuir com o desenvolvimento do país. Qual é a percepção dos sujeitos considerados interlocutores necessários do exercício de leitura compartilhada? Que tipo de leitura é a que se quer dar (ou para me expressar em termos do discurso construído: fomentar-promover-animar)?

A partir do discurso, se argumenta que a promoção da leitura leva à construção de sujeitos críticos. Desde o fim do século XX, foram se construindo várias posturas teóricas que afirmam a relação que tem essas práticas culturais com a construção de sujeitos mais conscientes em sua relação com seu contexto, que refletem e questionam o sistema-mundo. Uma leitura coletiva que é enunciada como possibilidade de construir sujeitos críticos, reflexivos, sujeitos capazes de fazer frente àquele colonialismo do poder de que nos fala Grosfoguel (2006) em seu ensaio sobre Aimé Cèsaire: “[esse] sistema enredado de múltiplas e heterogêneas formas de hierarquias sexuais, políticas, epistêmicas, econômicas, espirituais, linguísticas e raciais de exploração e dominação em escala mundial” (p.155).

A promoção gera a imagem de um outro assimilado ao discurso, recortado, mentido: o sujeito que lê escutando. A leitura compartilhada funciona de uma maneira economicista, que se distancia das fabricações que os consumidores culturais fazem com ela. Constrói-se a figura de um espectador médio, ouvinte médio e leitor médio, a quem se atribuem capacidades mentais, conhecimentos e gostos médios. O leitor, então, como diria De Certau (2000): “perde seus direitos de autor, para se tornar, aparentemente, um mero receptor, o espelho de um ator multiforme e narcisista. Em última instância, seria a imagem dos aparatos que já não tem necessidade dele para se produzir” (p.37).

Assume-se uma certa postura unívoca que se torna absoluta e invariável (seria esta uma certa violência interpretativa, tal como propõe Ricoeur?), que pressupõe uma onipotência do texto, que não leva em conta o exercício pelo qual os leitores leem, isto é, a experiência prática que a configuração do texto lhe provoca, o que Ricouer, no capítulo três de seu livro Tempo e narração (2004), formula a respeito da mímesis III, essa “intersecção do mundo do texto com o mundo do ouvinte ou do leitor” (p.140).

Para poder falar de práticas de leitura compartilhada é necessário falar das fabricações que os consumidores culturais fazem com estas práticas, o que implica situar-se, segundo Grosfoguel (op.cit.), desde uma geopolítica do conhecimento, localizada do outro lado do corpus teórico elaborado até o momento, ou seja, a partir do lugar da enunciação que ocupamos como consumidores culturais dessa prática, em oposição ao lugar habitual do discurso: a instituição que formula os projetos. À produção ruidosa e espetacular da política pública e dos projetos públicos e privados, opõe-se a produção dispersa – quase invisível – dos leitores e dos ouvintes, que recebem, segundo sua própria capacidade de acolhida, em relação a sua própria situação no horizonte do mundo (Ricouer, op.cit., p.148).

Nesse sentido, se faz necessário seguir estudando a relação que esse ouvinte ou leitor estabelece com o texto e, portanto, com a experiência prática que o precede, com esse tempo prefigurado que, graças à configuração da obra, permite uma reconfiguração no exercício leitor do ouvinte ou do leitor, colocando em jogo não só o mundo do texto, mas o mundo da própria vida (ibid., p.297). E quando me refiro ao texto que se lê não contemplo exclusivamente a obra, o livro. Trata-se de um exercício no qual a leitura é mediada por um outro agente que lê em voz alta e maneja o livro em suas mãos, a própria ação se toma como texto, a relação entre ouvinte e leitor, a disposição do espaço, os tempos em que se dá a palavra a um e a outro participante, o olhar conjunto dos ouvintes e o leitor nas páginas dos textos que se compartilham.

Meu interesse está, então, não na imagem de um outro assimilado no discurso – recortado e enganoso – mas na indagação por (e de) esse sujeito ouvinte, que lê escutando, com a consciência de que este exercício de descobrimento continua acobertando. Que significados o leitor constrói? Que rumos toma? São essas as perguntas que rondam incessantemente. Nessa aproximação hermenêutica do problema, em que o protagonista não é mais o texto, indago pelas operações que surgem nessa tripla mimese que conectam o leitor a um mundo que, nas palavras de Ricouer (op.cit.), é “o conjunto de referências abertas por todo tipo de textos descritivos ou poéticos que li, interpretei e gostei” (p.152). Procuro a figura de um leitor e um ouvinte que não é mero receptor e que, inclusive quando cala, talvez esteja elaborando o que De Certau chamaria de produção silenciosa.

A leitura compartilhada tomou corpo da mesma forma que aconteceu com o ensino, cuja corporatização, segundo Ileana Rodríguez (1998), levou à “sua redução a técnicas de leitura e escrita; [à] sua tendência a homogeneizar “o cultural”, ou ensinar desde postos de transmissão, cuja localização é determinada pela rentabilidade” (p.3).

Um assunto para ganhadores ou calibanes? Ou perguntando de maneira menos metafórica: a leitura compartilhada pretende fazer frente ao colonialismo do poder ou reproduz estruturas metamorfoseadas deste? A promoção de leitura pressupõe uma onipotência do texto que não leva em conta o leitor; é uma visão que se toma como absoluta, universal, invariável, e já sabemos o dano que podem causar as categorizações, os binários hierarquizantes (letrado/não letrado, humano/bárbaro), que nos impede de pensar de maneira articulada (Quijano, 2000).

Esta articulação deve interessar aos sujeitos que levam a cabo dessas práticas. Interessa deixar de pensar de maneira absoluta, ou seja, impossível. A leitura em voz alta deve ser pensada como a construção dessas redes e organizações autônomas, sobre as quais fala Gonzáles Casanova (2006), isto é “como alternativa de luta com crescentes capacidades de enfrentar o sistema dominante, desde que articule e reestruture as forças heterogêneas que não só deem valor primordial à autonomia necessária, mas à dignidade, inalienável, de indivíduos e coletividades” (p.22).

A leitura compartilhada como exercício que permite outra leitura (não a da promoção), uma leitura que não torne o leitor um objeto, pelo que se pressupõe que ele possa chegar a fazer com essa leitura, ou pelo que se supõe que a leitura produza nele. Não interessa outro tipo de leitura que não leve em conta o geo-corpo-político de ambos os atores que se encontram na leitura: o sujeito que lê em voz alta e o que lê escutando. Uma estratégia que corporifique o outro, não que o assimile a partir do que o discurso quer que seja. Cada projeto de leitura compartilhada deveria se pensar como possibilidade de construir conhecimento de maneira conjunta, e isso só é possível se ambos os atores se levam em consideração. E, para isso, as determinações geo-corpo-políticas são essenciais.

O sujeito que lê escutando é definido pelo discurso da promoção de leitura, como se tal definição fosse possível. Me assusta essa espécie de boom do leitor que escuta  – analogia que estabeleço com o boom do subalterno de Moraña (1998); o leitor que escuta se torna essência se homogeniza:

Me atreveria a dizer que para o sujeito latino-americano, que ao longo de sua história foi sucessivamente conquistado, colonizado, emancipado, civilizado, modernizado, europeizado, desenvolvido, conscientizado, “desdemocratizado” (e, com toda impunidade, redemocratizado), e agora globalizado e subalternizado por discursos que prometeram – cada um em seu contexto – a liberação de sua alma, a etapa presente poderia ser interpretada como o modo em que a esquerda que perdeu a revolução tenta recompor sua agenda, sua missão histórica e sua centralidade letrado-escriturária, buscando definir uma idade nova” para passar, “de fora e de cima”, da representação à representatividade. E que esse mesmo sujeito que foi súdito, cidadão, “homem novo”, entra agora na épica neocolonial pela porta falsa de uma condição degradada elevada ao status de categoria teórica que, justamente agora, em meio ao vazio deixado pelos projetos de esquerda que estão – eles também – recompondo seu programa, promete reivindica-lo discursivamente. Mas sempre se poderá dizer que são as armadilhas da alienação as que impedem a esse sujeito de reconhecer sua imagem nas elaborações que o objetivam (p.5-6). 

A leitura compartilhada deve constituir-se a partir do lugar mesmo em que se realiza o exercício, do lugar em que se encontram o leitor que lê em voz alta e o leitor que lê escutando. O protagonista não é mais o texto, mas o sujeito (os sujeitos) que leem. Não se pode confundir o outro com o que o discurso quer que esse outro seja, e, nesse sentido, se faz necessário transcender a lógica, baseada em simplismos e prejudiciais assimilações. Nesse sentido, como diria Lander (1999), se faz urgente trabalhar por:

Efetivas comunicações interculturais não coloniais – e, portanto, livres de dominação, subordinação e exclusão – transcender o debate do interior das disciplinas oficiais das ciências modernas e abrir-se aos diálogos com outras culturas e formas de conhecimento (p.6). 

E isso não é possível sem a pergunta, sem o questionamento. Mas este é apenas um primeiro passo. Não é suficiente. Talvez os passos nunca sejam suficientes. Como conseguir construir um outro conhecimento? Uma palpitação utópica insiste em que é  possível. E, então, é necessário empreender o caminho ao encontro do outro, mas do outro que desconheço. Diz Anzaldúa (1987):

Quero a liberdade de poder talhar e cinzelar meu próprio rosto, cortar a hemorragia com cinza, modelar meus próprios deuses a partir de minhas entranhas. E se ir à casa me é negado, então, terei que me levantar e exigir meu espaço, criando uma nova cultura – uma cultura mestiça – com minha própria madeira, meus próprios ladrilhos e minha própria arquitetura feminista. 

Me aproprio deste grito libertário quando o leio e se agitam, então, nas minhas entranhas, a necessidade de escutar, de mobilizar o grito – o meu e o dos outros. A leitura compartilhada não é – do que dela conheço – o silenciamento do grito. É um motivo. Mas esse motivo só se manifesta quando o outro não é assumido como o produto de um discurso, quando não há um eu e um outro definidos, preestabelecidos. É importante continuar se perguntando pelo tom e conteúdo do grito, caso se escute.

Gritos diferentes. Leitores diferentes. Leitores diferentes que realizam consumos também diferentes. Leitores e consumos que, como já disse anteriormente, podem escapar às lógicas normativas e, também, à análise que eu mesma pretendo. Mas esta incompletude, esta opacidade ou latência, que escapa de qualquer tentativa de veracidade, não impede a aproximação, a revisão, a análise.

Perguntemo-nos pelo grito que pode gerar a leitura, pelos mundos que esta pode despregar. Façamos a pergunta sem perder de vista os atores, consumidores culturais, fabricantes, leitores em voz alta e leitores que escutam. Certamente existe a possibilidade de que o texto possa despregar determinados mundos, alguns mundos, pois acredito, como diria Ricouer (op.,cit.), que “em grande parte1, devemos às obras de ficção a ampliação de nosso horizonte de existência” (p.152).

Quais horizontes? Quais mundos? Essas são perguntas que nenhum acontecimento normativo pode (ou se interessa em) dizer. Eu mesma busco aqui um “como se”…como se pudesse capturar as ressignificações fugidias dos outros com quem compartilho leituras.

 


Nota

1. “Em grande parte”, isto é, este tipo de leitura não é o único âmbito da vida capaz de gerar ampliação em nossos horizontes. O que ela gera tem que se colocar em relação necessária com os outros âmbitos da vida.


Referências bibliográficas

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TRADUÇÃO THAIS ALBIERI / IMAGEM SIMON GLUCKLICH (1863 / 1943), APRENDENDO A LER, 1889.