buxaA bruxa e o espantalho
Autor e ilustrador: Gabriel Pacheco
Editora: Jujuba
Páginas: 48
Formato: 30 X 24

 

 

À medida que viramos as páginas de um livro,
um pequeno mundo encerrado em um quadrilátero recortado se abre e fecha.
A última página é virada.
A história chegou ao fim.
O livro é fechado.
O mundo também é fechado.
E então ele é rapidamente colocado no canto de uma estante.
Arte que pode ser posta em uma estante. 
Arte do tamanho da estante. Bem, isso não é maravilhoso?
[Susy Lee, A trilogia da margem (Cosac Naify)]

A arte em múltiplas dimensões, formas e tamanhos. E, assim, pode ser, também, um encontro entre a bruxa, o espantalho e o olhar do leitor! Um encontro com a poesia. Afinal, por meio de surpreendentes imagens, o autor e ilustrador mexicano Gabriel Pacheco, nos presenteia com uma grande arte que pode ser colocada num canto da estante, como assinala Suzy Lee: ao alcance rápido das mãos e dos olhos. E, nesse universo de contatos e aproximações com arte, imagem e poesia, reflexões podem ser tecidas ao longo dessa incrível narrativa, maiores que o tempo e o espaço. Um encontro para “ver” com olhos, coração, e ir além…

 

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Num primeiro contato com o livro, ao segurar as duas faces, capa e quarta capa, e começar a percebê-las, o leitor pode orquestrar os movimentos dos olhos diante das imagens e encontrar informações importantes acerca da história. O título, nominal, apresenta os personagens principais: a bruxa e o espantalho; o espantalho aparece com o olhar voltado para o leitor, como se estivesse buscando a possibilidade de interação. A sua imagem está sangrada no lado direito pelo limite físico da capa. Seria esse um convite para virarmos a página e seguirmos? E a bruxa, temos pistas sobre ela? O que faz uma roda entre as nuvens no canto superior esquerdo da quarta capa?

Assim como o título, em amarelo, encontramos no trecho da quarta capa: “Lá de cima cai uma bruxa e se espatifa no chão. Como alcançar novamente o céu?” Aqui, mais uma chamada à reflexão. O que pode estar implícito no advérbio “como”, presente na pergunta? Será que alguém deseja alcançar o céu? Quem? O leitor?

Diante destas pistas lançadas, em que o leitor é convidado a olhar, parar, olhar novamente, podemos inferir que se trata de um livro cujo formato horizontal, aspectos cromáticos, opção plástica, comunicam harmônica e tenramente, um mundo de possibilidades de sentidos a serem construídos pelo leitor. Segundo Sophie Van der Linden (2011), o formato horizontal (dito “à italiana”), mais largo que alto, permite uma organização plana das imagens, favorecendo a expressão do movimento e do tempo, e a realização de imagens sequenciais.

Nesse sentido, ao movimentar a capa e abrir o livro, encontramos as guardas estampadas por uma imagem que ocupa a totalidade da página dupla. Nessa imagem, há o predomínio do azul oceânico e do preto, tons que se harmonizam com o clima inicial proposto na capa, criando uma atmosfera misteriosa, onírica.

 

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Seguindo além, podemos observar, na página de rosto e nos elementos dispostos no canto esquerdo, a sofisticação presente e o cuidado em cada detalhe. Por meio de colagens, jogos de recortes, fotografia e desenhos, encontramos, organizados num fundo claro, uma casa vermelha com gramado azul – o que, de certa forma, rompe com o clima criado anteriormente -, uma nuvem, uma estrutura de madeira, um monociclo, um cachecol e um fio. A partir dessas observações, o leitor pode refletir: nesse emaranhado de pistas, existe alguma relação entre esses objetos e as informações que encontramos na capa e o título do livro?

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Pistas por pistas, perguntas e mais perguntas podem nascer, a partir da interação imagens e leitores. Nesse sentido, a narrativa segue e o leitor é magicamente transportado para uma cidade, numa noite de lua cheia. E, mais uma vez, aparece a imagem sangrada no canto superior direito da página. Isso pode comunicar algo? Agora não visualizamos apenas a roda, como na quarta capa, dois pés e a barra de uma saia podem ser descobertos pelos olhos atentos e curiosos do leitor. As imagens das casas também aparecem sangradas pelo enquadramento. Isso nos remete ao ponto de vista do leitor, que, partindo desse ângulo, pode ver uma parte do céu e uma parte das casas. Além disso, o repertório das texturas que compõem as casas, as linhas, a perspectiva, o céu, as nuvens e os diferentes tons de cinzas, beges e azuis, apresenta um cenário envolvente, curioso e instigante.

 

bruxa

 

Nas páginas seguintes, as imagens elevam os olhos e imaginação do leitor para o alto, e, surpreendentemente, o seu ponto de vista muda e ele é colocado à frente de um grupo de bruxas!  O que essas personagens têm em comum? E de diferente? De onde vieram? Para onde vão? O que as suas expressões podem sugerir? Em meio a tantas possibilidades acerca das pistas presentes nas imagens, o leitor continua sendo convidado a notar, também, a presença de um pássaro, aparentemente, voando na mesma direção.

 

buxas

 

A cada página movimentada, é possível sentir a força da ilustração e notar, à medida que ampliamos o olhar, a maneira como a sequência das imagens aparece para marcar o tempo e o desenvolvimento da narrativa. Em alguns momentos da história, o ritmo se rompe, por meio do foco no personagem, como se fosse um zoom. Nesse sentido, Sophie Van der Linden destaca que o desenvolvimento narrativo é mais lento, em imagens mais relacionadas à descrição de uma situação (como na página seguinte) do que à figuração de uma ação (exemplo desta página).

 

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Dessa vez, por exemplo, o olhar do leitor é levado para próximo à face do espantalho. A sua imagem aparece isolada a direita da página, enquanto o seu rosto está levemente inclinado para o alto, na direção do pássaro. O que essa imagem pode sugerir acerca do espantalho?

Na sequência, voltamos às nuvens e acompanhamos a bruxa caindo do seu monociclo e interagindo com o pássaro. Se detivermos o olhar, podemos sentir o vento, a leveza e o instante de movimento presentes nessa cena. Instante este, motivado pela forma como as nuvens estão dispostas na página dupla, inclusive, sobrepondo a imagem da bruxa. Qual a relação desse pássaro com os outros personagens? Qual a reação da bruxa ao vê-lo?

 

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O horizonte do leitor volta ao plano mais baixo, ao chão, no momento da queda da bruxa. Os seus pertences se espalham e ela aparece numa situação frágil e vulnerável.

Em que medida, então, as sutilezas e detalhes da ilustração contribuem para a caracterização da personagem e o provável surgimento de vínculo do leitor com ela?

 

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A força sugestiva da imagem caracteriza o instante da ação em que uma das bruxas, que está à frente do grupo, se remete à outra. É possível observar que elas usam chapéus de cores diferentes. Terá isso alguma relevância para a construção da narrativa? A postura das personagens e os detalhes presentes na ilustração apresentam novas pistas acerca do perfil das bruxas?

 

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A bruxa reaparece solitária, caminhando no meio da floresta. O seu olhar está direcionado para o céu, em direção ao voo das outras do grupo. Podemos ver, também, uma casa de fundo, a mesma que aparece na página de rosto.

 

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Na próxima dupla de páginas, o espantalho reaparece nos lembrando da sua condição estática, sempre no mesmo lugar, preso ao solo. Mais uma vez, o seu olhar está voltado para o alto, observando o voo das bruxas que se vão. A casa também aparece ao fundo. O que se pode inferir? O cenário também segue contribuindo para a caracterização do personagem e ambientação da narrativa. As cores frias se mantêm, marcando a narrativa com profundidade, tensão e mistério. Enquanto que o vermelho, uma cor mais quente, se destaca do lado direito. Seria uma maneira de incentivar o leitor a seguir a ordem de leitura da esquerda para a direita? De chamar a atenção para outros detalhes presentes no ambiente além das marcantes árvores?

 

espantalho

Num jogo de idas e vindas, Pacheco constrói a narrativa e nos conta, paralelamente, um pouco do percurso de cada um dos personagens, antes do encontro. Nesse contexto, voltamos à bruxa e ao momento em que ela abandona o seu monociclo e se desloca em direção a casa. O pássaro, dessa vez, reaparece atrás da bruxa, como se estivesse observando a cena.

 

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Essa é a primeira vez em que os dois aparecem no mesmo espaço. A bruxa olha para o alto. Percebeu a presença do pássaro? Do espantalho? O Espantalho percebe a bruxa? O pássaro? O que podemos observar nesse encontro?

 

espantalho

 

Ela segue caminhando, cabisbaixa, e o pássaro também se vai. Folhas vermelhas aparecem flutuando, sutilmente, trazendo a sensação do movimento produzido pelo vento noturno. O espantalho, por sua vez, desloca a cabeça na direção da bruxa, e seus olhos de fecham.

 

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O olhar do leitor está, mais uma vez, próximo ao espantalho. Diferente das outras imagens, o seu corpo está ocupando as duas páginas. Mas o que esse pássaro faz pousado em seu braço? O espantalho não é para espantá-lo? Com o bico, o pássaro desata o nó que prende o espantalho a terra. Quais metáforas estão implícitas nessa cena?

 

espantalho

O movimento da imagem anterior é condensado por meio da imagem sangrada de parte das pernas do espantalho. O seu corpo aparece mais ao lado esquerdo da página, as palhas caem no solo. É a primeira e única vez que seus pés aparecem na narrativa. Mas o que está acontecendo? Instaura-se um silêncio carregado de significado.

Nas palavras do poeta alemão, Rainer Maria Rilke:

[…] as coisas não são todas tão compreensíveis nem tão fáceis de se expressar quanto geralmente nos fizeram crer. A maioria dos acontecimentos são inexprimíveis; ocorrem no interior de um recinto no qual jamais palavra nenhuma adentrou. E mais inexprimíveis do que qualquer outra coisa são as obras de arte. […]

 

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Na imagem seguinte, o leitor volta a vê-lo por completo. A composição da imagem se organiza para acentuar a expressão de movimento do corpo produzido pelo vento. Cachecol, nariz, palhas, tudo solto no ar, tocando o chão. O espantalho se desfez. No canto superior direito, podemos observar o pássaro seguindo… O que isso significa? Quais efeitos de sentido essa imagem pode produzir?

 

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A bruxa se vira ao sentir as palhas do espantalho trazidas pelo vento. A folha vermelha se destaca à luz da lua e, nesse instante, fica ainda mais evidente a intervenção cuidadosa e requintada do ilustrador.

 

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No meio da floresta escura, o leitor encontra o que sobrou do espantalho. Para onde foi, espantalho? Muito do seu corpo voou pelo vento? Ganhou a liberdade?

 

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O leitor pode observar a bruxa de trás. O que ela está fazendo? As gramas brotam azuis? Por que elas se renovaram? O que isso quer dizer? E o pássaro, o que ele fez com as palhas?

Palhas podem ser  transformadas em liberdade para voar? Palhas transformadas em ninho para fazer a vida brotar? Na solidão que lhe cabe, o espantalho assume o simbólico do afastamento do outro e da impossibilidade de sairmos do lugar para buscarmos outras experiências, longe do que nos paralisa. Nessa posição de engessamento e de rigidez, está o instigante personagem, cumprindo o seu papel bravamente. E, se chove ou faz sol, não importa. Ele sempre estará ali, fiel à solidão e à tarefa de, mesmo depois de desmontado e dissolvido pelo tempo, ainda servir para nutrir os campos e torná-los férteis em relação ao surgimento de novas vidas e novas possibilidades. E quiçá novos encontros.

 

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Assim, com a vassoura pronta nas mãos, a bruxa, olha mais uma vez o céu e encontra o pássaro. O pássaro que surge voando é o mesmo que estava no ninho?

 

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Para onde foi a bruxa? Por que o espantalho se transformou? Podemos dizer que os personagens evoluem durante a narrativa?  Eles mudam externamente? Internamente?

Esse livro suscita muitas perguntas que podem ser respondidas pela imaginação do leitor. São muitas as chaves que abrem as portas para inúmeras possibilidades de encontro com a poesia das imagens e da prosa e com os sentidos que nascem dessa interação entre texto e leitor.

 

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Daí, ser A bruxa e o espantalho, um livro transgressor, desafiador, encantador, aberto.  Um trabalho elaborado de forma magistral, no que se refere ao ritmo, relação entre as imagens, técnicas, arte. Um livro vivo e para ler e reler com os olhos do coração. Um livro que exige um leitor atento. Um livro tão intenso, que se torna inefável. Nele, Gabriel Pacheco nos apresenta diferentes faces para olhar a vida, o outro, as transformações, a nós mesmos. Ele nos convoca a olhar com poesia. Nesse sentido, Ana Siro, em seu texto “Repensar o poético no contexto escolar”, apresenta um relato de Laura Devetach, que sintetiza bem essa ideia:

Quando eu era pequena, a menina me disse enquanto se coçava: “Tenho passarinhos no pescoço” e nunca ninguém conseguiu elaborar uma síntese tão precisa de uma sensação. Eu a entendi, porque “ter passarinhos no pescoço” não é o mesmo que “está pinicando”. E se aquele que escuta considera esse amplo caminho aberto por uma criança, vai saber onde pode chegar! Outro dia ela me disse: “Você tem caramelos nos olhos”. Glup!, fiz eu, porque nenhum espelho, nenhum juiz, me devolveu um olhar dessa maneira. Somente os poetas […]. O que aconteceria num mundo onde essa maneira de olhar fosse praticada como forma de vida cotidiana?

Caro leitor, que tal praticar e inspirar outros a desenvolver essa maneira de olhar, na companhia da bruxa e do espantalho? Bom encontro com o chão repleto de palavras e céus repletos de poesia. Sinta-se à vontade para fazer parte dessa história você também!


Bibliografia:

Ana Siro, 30 olhares para o futuro: repensar o poético no contexto escolar. Rio de Janeiro: Escola da Vila-Centro de Formação, 2010.

Carole Scott e M. Nikolajeva, Livro ilustrado: palavras e imagens. São Paulo: Cosacnaif, 2011.

Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta. São Paulo: Globo, 2001.

Sophie Van Der Linden, Para ler o livro ilustrado. São Paulo: Cosacnaif, 2011.


* Texto originalmente apresentado como trabalho de conclusão na disciplina “Poesia: a infância da linguagem”, ministrada pela Profa. Cristiane Tavares, no curso de pós-graduação Livros, crianças e jovens: teoria, mediação e crítica, no Instituto Superior Vera Cruz (ISE), em 2016.