Formar leitores autônomos, fortalecer uma comunidade de leitores e favorecer a construção de percursos leitores foram os nortes para a realização da exposição Eu, leitor, realizada com (e pelos) alunos do 6º ano do Ensino Fundamental da Escola da Vila, escola particular, localizada na cidade de São Paulo. No início de junho de 2014, as duas unidades da escola abrigaram exposições com perfis de leitores, trabalhos nos quais os alunos do 6º ano encontraram suas formas pessoais de olhar para os percursos de leituras, refletir sobre eles, comunicar os próprios perfis e compartilhar um pouco da experiência leitora com o restante da comunidade escolar.

Esse trabalho, no entanto, tem início muito antes: desde que os alunos são pequeninos leitores, no 1º ano do Fundamental 1, carregam consigo um caderno chamado Memórias do leitor. Nele, registram as leituras que realizam, anotam impressões, gostos, desgostos, descobertas, surpresas, ilustrações e o que mais desejarem a respeito das leituras que realizam em suas vidas. De um ano para o outro, as crianças levam sempre o mesmo caderno (até que as folhas se acabem) e nele vão construindo o seu percurso leitor particular e comunitário – já que diversas das leituras registradas em seus “diários” são compartilhadas com colegas, professores, pais, com toda a comunidade de leitores que os cerca.

Quando chegam ao 6º ano, trazem um caderno recheado de ricas experiências, que serão recuperadas e ampliadas no trabalho com leitura autônoma realizado nas aulas de Língua Portuguesa e Literatura. Durante o 6º ano (e desde muito antes disso também), os alunos são incentivados a ler sozinhos e por prazer livros indicados e compartilhados em rodas de bibliotecas, situações nas quais, vão à biblioteca, conversam com os bibliotecários e com os colegas e, a partir das recomendações, escolhem livros para levar para casa e ler sozinhos. Durante o trabalho, os professores promovem situações em que os alunos possam compartilhar o andamento de suas leituras. 

A leitura autônoma, continuada, silenciosa, de gratificação imediata e livre escolha, é imprescindível para o desenvolvimento das competências leitoras. É imprescindível para que o próprio texto “ensine” a ler, tal como expusemos anteriormente. É imprescindível para que os alunos formem sua autoimagem como leitores aprendendo a avaliar antecipadamente os livros, criando expectativas, arriscando-se a selecionar, acostumando-se a abandonar um livro que decepciona e a levar emprestado aquele que lhe parece atraente. Se a escola não assegura um tempo mínimo de prática para essas funções, quem o fará?
COLOMER, Teresa. “Ler sozinho”. In: Andar entre livros: a leitura literária na escola. São Paulo: Global, 2007, p. 125.

Os nossos principais objetivos de aprendizagem ao promover situações como essas podem ser sintetizados pelas palavras de Teresa Colomer citadas acima, ou formalizados como:

Promover o fortalecimento de uma comunidade de leitores;

 Incentivar a leitura por prazer;

Ajudar os alunos a construir uma autoimagem como leitores;

Ajudar os alunos a escolher obras, levando em consideração o próprio percurso leitor, as indicações dos colegas, professores e bibliotecários;

Promover situações em que os alunos coloquem em jogo autonomamente as aprendizagens literárias construídas nas situações de leitura guiada e compartilhada.

Os perfis de leitor

Convém propor trabalhos sobre os livros lidos?
Sim, se os trabalhos atendem a determinadas condições. Se nutrem uma boa relação com os livros, os alunos costumam gostar de saber informações sobre seus autores e ilustradores favoritos ou realizar atividades sobre as histórias lidas. O contexto escolar cria um sentimento de naturalidade em relação a essas tarefas, que não devem ser consideradas sem sentido. Tudo depende, então, do tipo de trabalho que se propõe. As crianças se mostram interessadas em atividades criativas de extensão de suas leituras, como dramatizar, ilustrar, discutir ou escrever sobre poemas, personagens ou autores, bem como sentem prazer em aprofundar suas leituras de maneira que passem a se dar conta de muitas coisas que haviam passado inadvertidas. Não se deve subestimar nunca o interesse pelo conhecimento, algo que é próprio dos seres humanos, ainda que a escola se empenhe tão frequentemente em esterilizar.
COLOMER, Teresa. Introducción a la literatura infantil y juvenil. Madri: Síntesis, 1999.

A principal proposta de trabalho durante as rodas de biblioteca é a produção, em etapas, de perfis de leitor individuais. Logo no começo do ano, os alunos são convidados a escrever em seus cadernos Memórias do leitor um texto em que se apresentem como leitores. Algumas questões são apresentadas para orientá-los, mas o trabalho é bastante livre, de modo que cada um possa encontrar a sua maneira pessoal de se expressar para comunicar o seus hábitos, preferências, histórias marcantes etc. Algumas das questões que propomos são: Alguma experiência ou situação de leitura te marcou (positiva ou negativamente)? Por quê?; Qual(is) o(s) seu(s) gênero(s) preferido(s); Tem algum livro, personagem ou coleção preferido? Qual? Você costuma ler com que frequência? Sozinho ou acompanhado?.

Conforme as rodas de biblioteca vão se desenvolvendo, os alunos reformulam seus perfis, de modo a incorporar novas experiências, rever posicionamentos, revelar descobertas, encontrar formas mais significativas de expressão etc. Trata-se, portanto, de um texto construído em etapas e os alunos costumam incorporar informações como:  a descoberta de um autor, de uma coleção, de um personagem, a primeira vez que leu um livro inteiro em um dia, a primeira vez que não conseguiu entender uma obra e quaisquer outros tipos de experiências que gostariam de compartilhar.

Trata-se, portanto, de um momento importante para: favorecer a ideia de leitura e aprendizagem como um percursos e ajudar os alunos a construírem uma autoimagem como leitores. Registrar seu percurso pode colaborar para a construção da autoimagem – para a tomada de consciência de seu perfil. A escrita obriga tempo, explicitação e reflexão. Isso pode impactar a consciência do aluno sobre o que ele gosta de ler, o que não gosta; como gosta de ler, como não gosta. Colabora, também, para explicitarmos a ideia de ler como verbo transitivo: quando o aluno diz “não gosto de ler”, está generalizando e fechando uma posição que precisa ser problematizada: não gosta de ler o quê? O fato de escrever sobre seu percurso leitor pode colaborar com a construção de uma resposta para essa pergunta. A ideia é, também, favorecer quebra de estereótipos: mesmo quem gosta de ler, às vezes se aborrece com a leitura, mesmo quem se autodefine como “não leitor” pode desfrutar de momentos de leitura. A escrita pode favorecer essas tomadas de consciência.

Hacer emerger los conocimientos implícitos y dar palabras para hablar sobre los libros es una parte esencial del trabajo escolar. Los niños tienen que aprender a explicarse para poder comunicarse e intercambiar con los demás más allá del “me gusta”.
COLOMER, Teresa e SILVA-DÍAZ, María Cecilia. “¿Qué programa la escuela? Líneas de avance en el aprendizaje literario escolar”. Material elaborado para a disciplina “Aprendizajes literarios”, ministrada na primeira edição do Máster en Libros y Literatura para niños y jóvenes.

Os alunos, ao final do percurso, escolhem a melhor maneira de apresentar os seus perfis: fazem cartazes, pequenos livros, histórias em quadrinho, textos em forma de pequenas narrativas, descrições mais tradicionais ou o que quiserem e, para o restante da classe, apresentam-se como leitores.

A exposição Eu, leitor

Em 2014, ao receberem os perfis de leitor dos alunos, as professoras, inspiradas por relatos de colegas a respeito da importância da voz e escolha por parte dos alunos e da relevância de dar aos projetos uma audiência real e externa1, além de deslumbradas pela qualidade dos trabalhos, resolveram propor aos alunos que expusessem seus perfis para toda a comunidade escolar. Assim, nasceu a exposição Eu, leitor, que contou com a preparação dos alunos para realizarem visitas guiadas e com a visita especial de Cristiane Tavares, colaboradora da Revista Emília, especialista em Literatura Infantojuvenil, formadora de professores e mãe da escola.

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Expor ou não os trabalhos foi escolha de cada aluno, tratou-se de uma atividade totalmente optativa – mas que contou com enorme adesão dos alunos. Além disso, a montagem da exposição foi inteira de responsabilidade deles – coletivamente, escreveram o texto de abertura, decidiram a melhor forma de expor cada trabalho e colocaram a mão na massa, montando varais, pendurando cartazes, pregando imagens, grudando seus textos em murais…

O ponto alto, no entanto, foi a possibilidade de realizarmos visitas guiadas. Alguns alunos – por sorteio ou por escolha – foram guias da exposição e tiveram a oportunidade de acompanhar as visitas dos pais, de classes de outras séries e de Cristiane Tavares. Para serem guias, eles se prepararam, lendo diversos perfis, pensando em como explicitar as aprendizagens que tiveram durante o percurso, recordando-se de como foi elaborar o trabalho para que pudessem fornecer informações de qualidade aos visitantes. Os pais e outros professores puderam marcar horários para as visitas guiadas, em que os expositores se colocavam a disposição, como monitores de um museu!

Tratou-se de um momento privilegiado para fortalecimento da comunidade de leitores e, também, de uma oportunidade rica para que os alunos se colocassem no centro do próprio processo de aprendizagem – sendo responsáveis por apresentar o próprio trabalho e as próprias aprendizagens. Compartilhar com os alunos essas responsabilidades nos pareceu extremamente formativo.

Na quarta-feira, dia 04.06, foi a vez de Cristiane Tavares visitar a exposição. Ela conversou com os alunos guias a respeito de seus perfis, colocando perguntas, compartilhando experiências, valorizando os relatos deles. Cristiane contou sobre seus livros mais marcantes, sobre seus hábitos, maneiras de ler, enfim, compartilhou o seu perfil de leitora com os curiosos alunos. Em seguida, gravou um depoimento para ser transmitido para o restante dos alunos do 6o ano, que não estiveram presentes durante a visita, no fechamento do trabalho. Foi uma deliciosa conversa entre leitores, que explicitou um investimento no fortalecimento de uma comunidade de leitores de literatura.

A conversa com a Cristiane, além de um momento privilegiado para encerrar o trabalho com os Perfis de leitor, tratou também de abrir as portas para o próximo projeto em que os alunos se envolverão: o Projeto Resenhas. Durante o 3o trimestre, os alunos aproveitarão toda a experiência acumulada durante as rodas de biblioteca, lerão muitas resenhas e publicarão, no site da biblioteca da escola, as suas próprias resenhas críticas de livros infantojuvenis. No momento de preparação, os alunos visitam a Revista Emília e leem algumas resenhas publicadas no site. Fazem parte do nosso corpus, desde o ano passado, os textos: “Livros inteligentes para crianças inteligentes”, Bárbaro – todo traço guarda significado e Lampião e Lancelote.

Aproveitamos, portanto, a experiência de Cristiane Tavares como resenhista, para conhecer mais sobre as atividades e responsabilidades dessa profissão. Os alunos visitaram a Revista Emília e quiseram saber como trabalha um resenhista, como é o processo de construção de uma resenha, quais são os principais desafios, além de conversarem sobre alguns livros resenhados pela autora. Esperamos, agora, os frutos dessa rica troca no momento de leitura e produção de resenhas literárias!

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O que dizem os alunos

Parece-nos que a melhor forma de encerrar esse relato deve ser apreciar as vozes dos alunos a respeito de suas leituras. Selecionamos, portanto, alguns trechos dos Perfis de leitor. Boa leitura!

Um livro que nunca vou esquecer, até porque tem muitos registros dele no Memórias do leitor, é Marcus Robô. Li este livro no 2o ano e meu primeiro registro no Memórias foi um desenho do robô e duas meninas do lado (…). Neste mesmo ano, li o livro “O B.G.A” e amei o livro, ele conta a história de um gigante, mas ele é bem diferente dos outros gigantes e conhece uma menina chamada Sofia e a leva para a terra dos gigantes. O que mais lembro e gosto do livro é que no fim fala que o gigante virou escritor e escreveu a própria história e para mim isso era a mais pura verdade”.

Eu gosto de ler à noite porque acho que me sinto mais confortada para dar um tempo, para repensar em tudo o que eu já tenho em mente sobre o livro, eu sento na minha cama, ligo a luz e abro a cortina da janela. Sento-me perto da janela e leio a história em voz baixa

Ler é  algo importante para mim, se não fosse ler, não teria tantas coisas no meu vocabulário e acho que teria poucas ideias sobre o mundo, e outras coisas. Ler para mim é como se eu criasse um novo personagem que pousa no livro para me ajudar a compreender mais coisas que estão dentro dele, como se esse personagem corresse sempre para o lado direito, fazendo sua velocidade e pensamentos virar a página para outra aventura que ele gostaria de descobrir. 

Quando começo a ler um livro que gosto muito, não consigo para de ler. Tem vezes que eu sinto que estou dentro do livro. Quando isso acontece, parece que não tem nada nem ninguém em volta de mim, somente os cenários e os personagens das histórias.

Muitas pessoas questionam por que demoro tanto para ler um livro […]. Eu nunca respondo do jeito como queria responder. Eu demoro porque gosto de pensar nas impressões […] gosto de pensar que frases poderiam compor outra história, gosto de ler com calma e analisar o que o escritor e o personagem criado, na parte em que estou lendo, querem mostrar para nós, para os leitores.

Tenho o péssimo costume de pegar o livro que estou lendo e começar a folhear o que ainda não li, às vezes descubro coisas que, podemos dizer, são reveladoras…

[…] desde pequenininha adorava imaginar que eu estava naquelas aventuras […]. Até hoje me imagino dentro dos livros, me pergunto o que faria no lugar daquele personagem.

Desde pequenininha leio bastante seguindo a influência de minha vó (bibliotecária), que sempre me dava livros antigos de sua biblioteca. Eu gostei de ler  a partir daí…

Descobri nesse projeto que cada um tem um gosto diferente e é legal compartilhar isso!

Os livros de ação, suspense e terror são os que mais me trazem esse sentimento [de viver a história], porque deixam sempre o final com aquela dúvida que não sai da sua cabeça durante semanas.


[1] Em abril de 2014 alguns professores e diretores da Escola da Vila realizaram uma Viagem Pedagógica Internacional para a Califórnia, em que visitaram escolas direcionadas pelo PBL (Project Based Learn). Ao compartilharem suas experiências com o restante da equipe, competências consideradas importantes para a educação no século XXI nos foram caras: a importância de dar aos alunos voz e escolha e de dar aos projetos uma audiência real. No trabalho com projetos didáticos, a ideia de produto final (com leitores reais)  já era muito arraigada em nosso trabalho. No entanto, com a proposta vista na Califórnia, novos contornos foram dados para essa ideia