Falar de fantasia é uma aventura arriscada. Fantasia é uma terra perigosa, com armadilhas para os incautos e masmorras para os destemidos.
J.R.R Tolkien1

Tudo que não invento é falso
Manoel de Barros2

Quando Elizabeth Serra propôs para eu falar sobre este tema, a primeira reação que tive foi de que não era um tema para mim. Há anos venho trabalhando, não apenas no nível da reflexão, mas em especial da ação, com políticas públicas de leitura e escrita, com a necessidade da leitura, da escrita e da literatura, com a necessidade da ficção. O tema da literatura infantil também está próximo dos meus interesses, assim como aqueles relacionados às bibliotecas e às escolas, a formação dos professores e dos bibliotecários e a forma como se escolhem os livros que se propõem às crianças e aos jovens em diversos cenários e instituições públicas. Mas se pensarmos além, exatamente na necessidade da ficção, da ficção literária como direito, falamos diretamente sobre a matéria das minhas preocupações e é a partir disto que vou desenvolver o tema desta mesa.

O meu primeiro impulso foi buscar nos textos lidos e escritos elementos que me permitissem decifrar a razão pela qual a fantasia deve ser objeto da nossa preocupação, do nosso trabalho e da nossa reflexão. Por que devemos nos interessar pela literatura fantástica ou pela fantasia na literatura que se oferece às crianças? Sem negar que esta literatura é de grande interesse e relevância para outras disciplinas relacionadas à literatura.

Graças a essa pesquisa encontrei nos meus arquivos físicos, não digitais, pois estes têm uma data posterior às minhas preocupações e às minhas anotações, um artigo que escrevi há mais de 30 anos sobre a vigência dos contos de fadas. Ele tinha como propósito responder à negação que deles se fazia na escola sob o argumento de que não eram atuais, que apresentavam problemas que não correspondiam à humanidade daqueles dias e, ainda pior, que seriam prejudiciais, pois geravam medos e até mesmo terror nas crianças. Também circulavam, especialmente naqueles tempos, os argumentos de gênero, que repudiavam os contos maravilhosos pelo papel secundário e submisso que outorgavam às mulheres. Cito alguns trechos desse artigo:

“Uma das maiores desconfianças frente aos contos tradicionais [ou seja, os contos maravilhosos, contos de fadas, contos, em suma, fantásticos] reside no possível perigo que constituiriam para a criança, na medida em que supostamente favorecem a criação de medos ou alimentam suas angústias interiores [pois a maioria deles relata episódios violentos ou seus personagens são assustadores ou representam o mal].”

Em seguida, acrescentava:

“ao contrário, o conto tem uma função libertadora para a criança na medida em que ela encontra projetados, materializados sob a forma de ficções literárias (o lobo, por exemplo), seus próprios temores e obsessões.”

Naqueles dias, começaram a circular as teses de Bruno Bettelheim, as quais, a partir da psicanálise, me ajudaram a reivindicar a importância dessa literatura para o fortalecimento da autonomia e da segurança psicológica, por sua contribuição à saúde mental de crianças saudáveis ou não.

Passaram-se muitos anos e as razões pelas quais se critica o “excesso” de fantasia oferecido às crianças na literatura e em geral nos livros para crianças podem variar, em termos, mas a censura continua e segue se manifestando de diversas formas. Parece que os temores frente à fantasia, e mais amplamente frente à imaginação, continuam aparecendo em vários momentos da história dos livros oferecidos às crianças. Por exemplo, nesta revisão, encontrei a cópia de uma entrevista publicada pela revista Veja, em março de 1993, onde um psicanalista francês chamado René Diaktine, que participou de um congresso de neurologia e psiquiatria infantil em São Paulo defende, contra a opinião geral, a necessidade e o gosto das crianças por encontrar nos contos os temas mais angustiantes da humanidade: a origem da vida e da morte, o abandono, a perda dos pais, os quais geralmente se encontram nos contos e especialmente nas narrativas fantásticas. Meu objetivo com essas palavras é que tratemos de estabelecer a natureza deste controle, a partir da autoridade, que os adultos exercem sobre as crianças.

Mas antes quero ressaltar que nesta apresentação quis referir-me ao termo fantasia no seu sentido mais amplo e falar da ficção em geral, da criação literária na qual entra em jogo a imaginação que transgride as regras da natureza mas também as da razão.

Cito Tolkien mais uma vez:

Fantasia […] não tentarei definir ou descrever uma coisa dessas de forma direta. Não há maneira de fazê-lo. Fantasia não pode ser capturada em uma rede de palavras, porque uma de suas qualidades é ser indescritível, embora não seja imperceptível.”3

É verdade que o tema tem sido objeto da preocupação de muitos estudiosos, entre os quais alguns consideram a fantasia como um gênero, outros não; alguns incluem nela os contos maravilhosos ou de fadas, outros a reduzem aos contos de terror. Autores, como Todorov, a relacionam ao estranho, ao fantástico, ao maravilhoso e ao extraordinário. Borges, em outro extremo, refere-se ao fantástico não no sentido do sobrenatural mas do impossível.4

Mas não são esses os aspectos que me interessam no momento. O que me parece importante ressaltar é que, como disse Enrique Aljuria Ibarra, que reúne em sua tese de doutorado conceitos de destacados especialistas sobre a fantasia:

“a fantasia implica uma transgressão do mundo real no qual habita o personagem, um mundo real com o qual o leitor está familiarizado […] a narração fantástica se deleita em nos apresentar as pessoas como nós, subitamente colocadas na presença do inexplicável…”5

Acho importante ressaltar que as origens dessas criações podem ser remetidas, como manifesta Tolkien, às origens da linguagem e do pensamento, e que seu poder

“reside nas suas manifestações; e entre elas está o cumprimento de alguns desejos humanos primordiais, um dos quais o de percorrer as profundezas do tempo e do espaço”.6

Ítalo Calvino, por sua vez, na introdução da sua antologia de contos fantásticos do século XIX, afirma:

“O conto fantástico […] é o que mais nos diz sobre a interioridade do indivíduo e da simbologia coletiva […] o fantástico diz coisas que nos tocam intimamente […] coisas extraordinárias que talvez escondam sob a aparência mais banal uma segunda natureza, inquietante, misteriosa…”7

Assim acontece em alguns dos livros de Lygia Bojunga: A corda bamba, para citar apenas um exemplo.

Mas, entremos no assunto, ao menos no que me interessa ressaltar agora. Sempre e até hoje, quando já caíram alguns tabus e se desmitificaram tantas crenças e quando tanto se fala da autonomia das crianças e da sua capacidade de discernimento, se exerceu um controle sobre o que as crianças podem ou não podem ler. E não estou sugerindo que a seleção do que se oferece às crianças não deva ser submetida a um trabalho cuidadoso e rigoroso e que nela não intervenham vários critérios, especialmente os que têm a ver com a qualidade.

Esses controles são exercidos em todos os níveis e em todos os espaços e em todas as instâncias a partir dos quais se escolhe o que oferecer às crianças nas escolas, nas bibliotecas e em outros espaços não convencionais. São exercidos quando são feitas seleções para aquisições de livros que serão oferecidos nas diferentes redes publicas de leitura, quando um professor escolhe os livros para suas aulas, quando um bibliotecário tem a responsabilidade de fazer as seleções para as aquisições e quando um promotor de leitura escolhe os livros para uma atividade.

Pois então, com frequência nessas seleções se questionam e censuram, ainda que quase sempre de forma implícita, obras em que a fantasia é considerada muito transgressora.

A meu ver, são muitas as posições de onde se estabelecem o controle e a censura. Mas acredito que possam ser agrupadas em duas:

1) O controle sobre a forma como a criança constrói o real, isto é, o que deve ser verdadeiro e o que deve ser falso.

Dentro deste grupo, eu incluiria todos os argumentos que têm a ver com o medo do desconhecido, o inquietante, a incerteza. O dano que supostamente as ambiguidades, condições inerentes à fantasia, causam à sensibilidade infantil.

O jogo, muito relacionado à fantasia – alguns estudiosos concebem a fantasia como um jogo que convida o leitor a entrar mediante aceitação prévia de suas regras –, também faz parte da categoria do censurado. Seriam aceitos apenas os jogos que não inquietem, não surpreendam, classificados como inofensivos, legalizados pelo adulto. Daí a tendência atual de colonizar o jogo mediante certos tipos de brinquedos e brinquedotecas, onde as regras do jogo são estabelecidas pelo adulto.

Este controle é exercido também quando se comparam desordem e imaginação. Existem preconceitos por meio dos quais se associa a imaginação à desordem. Com frequência, fala-se que as mentes imaginativas são confusas, com tendência ao caos.

Afirmou-se ainda que a imaginação contribui para fechar as crianças em si mesmas, em seu mundo interior, e que os desconecta do mundo real e cotidiano.

2) O pragmatismo escolar que privilegia o conhecimento científico e técnico, negando a contribuição que a fantasia oferece à razão e à ciência. Nossa educação é uma educação positivista, que nega qualquer coisa que não possa ser controlada pela razão. E, exatamente como disse Borges, a Fantasia é transgressora dessas regras. Então, tudo o que está associado a ela é considerado ou perda de tempo ou diversão, às vezes necessária apenas como forma de evasão ou descanso.

Georges Jean, uma das pessoas que na minha opinião fez uma das reflexões mais importantes sobre o poder da imaginação e a necessidade de abrir espaço para ela na escola, cita Pascal: “para aprender a pensar bem é preciso também aprender a imaginar”.

Vejamos algumas de suas considerações sobre este último ponto:

“Tudo se faz tanto no nível da instituição escolar como, frequentemente, no da ‘autoridade’ paterna, para excluir o imaginário da seriedade da formação, para colocá-lo à margem […] da fantasia, sem a qual a ação da inteligência careceria de força e de alento. Parece-me, no entanto, de uma evidência absoluta, que a razão, assim como o coração, não pode afirmar-se senão por meio da fantasia.”8

E Sartre, autor a quem gosto de recorrer quando preciso reforçar meus argumentos em favor da necessidade da literatura, dizia:

“o imaginário representa a cada instante o sentido implícito da realidade”.

Ele diz também:

“a imaginação não é um poder empírico e adicional da consciência, é a consciência inteira em tudo o que inclui; toda situação concreta e real da consciência no mundo está repleta de imaginação sempre que se apresenta como uma superação do real…”9

E Tolkien, no já mencionado ensaio, afirma:

“A Fantasia é uma atividade inerente ao homem. Está claro que nem destrói nem fere a Razão. E tampouco inibe a nossa busca ou ofusca a nossa percepção das verdades científicas. Ao contrário, quanto mais acentuada e nítida for a razão, mais próxima estará da Fantasia. Se o homem algum dia chegasse a um estado tal, que o impedisse ou privasse da vontade de conhecer ou perceber a verdade (fatos ou evidências), a Fantasia definharia até que a humanidade se recuperasse.10

Até aqui citei apenas autoridades nos assuntos que pertencem ao campo da literatura e da arte. Mas há também muitas vozes que estão mais próximas da ciência que, da mesma forma, referem-se à fantasia como motor do seu pensamento. Citarei apenas uma, talvez a do mais proeminente cientista do século passado e de muitos tempos, Einstein:

“Quando examino meus métodos de pensamento, chego à conclusão de que o dom da fantasia significou mais para mim que o meu talento para absorver o conhecimento positivo.”

Mas por que essas verdades ditas por tantas autoridades e que parecem tão evidentes não são ouvidas pela educação?

Permitam que eu lance uma hipótese, talvez um pouco arriscada e de difícil comprovação. Parece-me que a escola – pressionada pela sociedade – está empenhada em uma educação pragmática e tecnocrática – o que não é sinônimo de científica. Não se trata de formar criadores, inventores, pessoas com capacidade de criar e reconstruir o mundo, não é a razão criadora a que propicia a escola, mas uma razão que compreenda e aceite o que foi criado. Não está interessada em formar criadores, mas usuários do que foi criado por outros.

Por último, quero fazer referência a outro tipo de controle: o controle midiático e a apropriação da fantasia por interesses econômicos.

A fantasia se tornou uma das fontes de exploração mais rentáveis por parte das indústrias audiovisuais e editoriais. Séries e sagas que apresentam uma fantasia homogênea, estéril, desprovida de qualquer capacidade de provocar a mínima inquietação, sem a ambiguidade inerente às obras fantásticas, e que oferecem ao leitor a segurança do já conhecido. Em resumo, se coloniza a fantasia despojando-a de toda a sua força criadora e desestabilizadora.

O pior, porém, é a forma como essas obras são promovidas pelos grandes meios de comunicação, excluindo da circulação verdadeiras obras de qualidade.

E mais grave ainda é como esta promoção tem eco e influencia nas seleções de escolas e bibliotecas, sob o pretexto de que ao leitor deve-se dar o que ele pede, o que configura o círculo perverso em que ele só pede o que conhece através dos meios.

Roger Chartier, em uma entrevista recente ao jornal El País da Espanha, afirmava que: “É uma contradição do mundo global onde se tende a dar mais voz ao que já tem e se descuida do que não tem, quando isso poderia abrir novos caminhos de conhecimento”.11

Ana Maria Machado também havia alertado sobre isso durante uma palestra em Medellín, em 1999, na qual afirmava que a censura naqueles tempos se dava não com a proibição explícita de obras mas com o silêncio frente a outras: “não é dizer NÃO a algum livro que se queira eliminar, mas dizer SIM ao que se quer impor. Mas um sim repetido centenas de vezes.”12

Essas palavras são apenas algumas aproximações do tema. Espero que a discussão nos leve a mais aprofundamentos.


Notas

1 Tolkien, J.R.R. Sobre los cuentos de hadas” En: Árbol y hoja. Barcelona: Minotauro, 1994. P 13.

2 Barros, Manuel. “A infância Inventada. São Paulo: Planeta, 2003.

3 Tolkien, J.R.R. Op. cit., p. 20.

4 7 conversaciones, Bs. As, Casa Pardo

5 Aljuria Ibarra, Enrique. Tesis de la Universidad de las Américas de Puebla. México.

6 Tolkien, J.R.R. Op cit., p.24.

7 Calivino, Italo. Cuentos fantásticos del XIX. Madrid, Siruela, 2005.

8 Jean, George. Los senderos de la imaginación infantil. México, FCE, 1990, pp.64-65.

9 Sartre. L’imaginaire. Paris, Gallimard, 1971, 1940.

10 Tolkien. Op. Cit., p. 69.

11 Roger Chartier El País: http://cultura.elpais.com/cultura/2014/05/22/actualidad/1400790021_386846.htm

12 Machado, Ana Maria. Censura, literatura, basura y otras “uras” poco oscuras. En De Antología. Bogotá, Asolectura, mayo 2002.


TRADUÇÃO CAROLINA PEZZONI