Da Argentina nos chegam a música, a linha, a cor, o riso e as palavras de uma pessoa curiosa, cheia de vida, de ideias, de histórias e repleta de projetos: Isol. Na última Feira de Bolonha seu trabalho foi reconhecido com o prêmio ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award), um reconhecimento universal ao seu trabalho criativo e aos seus livros. Obrigado, Isol, estamos seguros que nossos leitores desfrutarão tanto como nós o temos feito.

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Isol nasceu em 1972 em Buenos Aires, Argentina. Estudou Belas Artes na “Escuela Nacional Rogelio Yrurtia”. Há onze anos dedica seu tempo a fazer livros para crianças; mas além de ilustrar livros e histórias em quadrinhos, escreve contos, canções, poemas, desenha e canta. Foi a voz do trio musical Entre Ríos, atualmente faz parte, como soprano, do grupo de música barroca e renascentista The Excuse, do grupo de synth pop Alsace Lorraine, e tem seu próprio projeto musical: SIMA. Seu estilo artístico no mundo da ilustração se tornou inconfundível e muito pessoal por sua simplicidade nas linhas, pela expressividade e ingenuidade de seus personagens, pela concepção de suas imagens, pelos tons pastel que a definem e pelo humor que os seus trabalhos destilam.

 

Javier Sobrino – O que te atraía nas ilustrações dos livros que lia em sua infância?

Isol – As ilustrações de que mais me lembro são as dos artistas que puseram sua personalidade nos livros, uma opinião forte. Também a fixação com certas imagens tem que ver, me parece, com os textos que ilustravam; alguma coisa acontecia entre as duas linguagens que fazia desses livros algo diferente. Os ilustradores que mais me impactaram sempre foram inovadores e inquietos, um pouco atordoados e com uma marca pessoal forte, por sua escolha figurativa, cor ou narração visual de um texto.

 

JSQuais foram esses ilustradores que te impactaram?

I – Napoleón, Hermenegildo Sabat, Ayax Barnes, Alba Ponce, Carlos Nine, entre outros, e os de humor gráfico como Quino, Fontanarrosa, Caloi, todos grandes narradores.

 

JS – Que papel o desenho desempenha em tuas ilustrações? Por que suas transformações no traço?

I – Cada vez estou mais relaxada com o desenho e os materiais, e os diferentes projetos foram me levando a certos lugares que antes não conhecia, buscando encontrar novas texturas visuais, novas histórias. Às vezes volto à minha linha grossa, relacionada com a xilografia, tudo depende do projeto. No momento em que a abandonei, foi porque me sentia presa a essa técnica e necessitava de outra para o livro que queria fazer, um livro de Jorge Luján que tinha uma estética textual nova para meu repertório, digamos, uma estética muito simples e delicada, doce. E, ao modificar o traço, a imagem se modifica bastante, o diálogo com o leitor muda. Uma linha grossa e negra como a da gravura salta aos olhos de forma diferente que uma linha de lápis. Também usei colagem, fotos, carvão, óleo, técnicas que variam e que me ajudam a não me repetir.

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JS – O que você busca com cada nova técnica que utiliza?

I – O que busco ao definir uma técnica é que me comova por conta de alguma coisa na imagem que se gera a partir dessa escolha, que me surpreenda ou me desafie, e que se relacione com o que o texto me provoca; que o balanço entre as duas linguagens seja aquele que produz em mim a vibração correta, o que me sugere que assim a história ou o poema pode brilhar melhor em consonância com o desenho, no objeto livro.

 

JSSua primeira publicação data de 1993, autoeditada, e é uma história em quadrinhos, O circo, baseada em uma canção. O que a história em quadrinhos te possibilita, como gênero ao qual retorna com relativa frequência, na hora de contar, de narrar?

I – Quando menina, li muitas histórias em quadrinhos; meu avô era roteirista de HQ e algo disso deve estar em meus genes. A história em quadrinhos, como o livro ilustrado, possui uma estrutura em que a imagem e o texto se conectam e poetizam de forma casada o que querem contar. Minha adolescência foi marcada pelas revistas que li, nas quais grandes autores como Moebius, Nine, Muñoz, Cachimba, Breccia, Altuna e muitos outros levavam o gênero a alturas de vanguarda artística inédita, com muita inteligência e profundidade na escolha de planos, de técnicas de desenho, com interpretações narrativas muito pessoais e textos ótimos. A HQ tem muito do cinema também, com a vantagem que produzi-la é muito mais barato, e se pode ler na fila do banco, deter-se na sequência dos quadros… Creio que a história em quadrinhos é uma linguagem única e não é uma mera ilustração da história nem uma arte bastarda da literatura e da plástica, mas uma linguagem em si, extremamente maleável e rica (ver, por exemplo, o livro Cardiogramme, de Anne Herbauts). Claro, cada um escolhe como usar essa linguagem. Para mim, fazer uma história em quadrinhos é como fazer um pequeno curta animado, mas melhor, porque posso manter o silêncio e as elipses entre os quadrinhos. Gosto de sua estrutura narrativa, permite muitos jogos gráficos, é muito dinâmica.

 

JSSeu primeiro livro ilustrado é de 1997, Vida de perros, publicado pela FCE, e depois vieram outros mais em quase dezesseis anos. Como decidiu que o livro ilustrado iria ser sua maneira predileta de expressão?

I – Me sinto cômoda e livre fazendo livros ilustrados. Não sei se recentemente alcancei um momento de muita abertura, mas sinto que posso expressar-me dentro deste gênero e encontrar muitos interlocutores, crianças e adultos. Gosto de contar histórias através das imagens, gosto da literatura e da poesia, do gráfico e do objeto livro em si. Faço algo que eu consumo como leitora: histórias desenhadas. Este gosto pelo gênero me guia em minhas escolhas ao fazer meus próprios livros.

JS – Como surgiu este gosto pelas histórias desenhadas?

I – Ao terminar a escola de Belas Artes, já me agradava pensar em imagens para ilustrar histórias, e costumava colocar uma epígrafe em meus desenhos e pinturas. Em seguida, aconteceu muito naturalmente a passagem para fazer tiras, ilustrar na imprensa (uma ginástica incrível para um ilustrador, ter que sintetizar um texto em um único desenho, e com muito pouco tempo), e terminei fazendo livros ilustrados, que das três opções é a que mais se adéqua ao ritmo de produção que quero ter e na qual sinto que posso projetar-me melhor através de meu trabalho, conectar-me com as pessoas através de um objeto que se produz em quantidade e é acessível, de maneira que se pode levar para casa e apropriar-se dele, coisa que não ocorre com um quadro, que é único e muito caro. O equilíbrio entre a preocupação em fazer um produto artístico, com qualidade no produto final e respeito pelo autor e pelo leitor, encontro neste meio muito mais que em outros, e essas são coisas muito importantes para mim.

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O que o livro ilustrado possui que o diferencia de todas as outras formas de criação?

I – O livro ilustrado é um tipo de livro em que a ilustração, a narração visual, tem muita importância, tanta que pode prescindir do texto escrito às vezes. Mas continua sendo uma narração, uma sucessão de imagens planejadas para ser vistas em certa ordem, não todas de uma vez, já que se distribuem em páginas, e constituem um corpo que se propõe ser lido de uma determinada forma. Quando há um texto escrito, em geral, não ocupa muito espaço e não é a voz única do livro, como nos livros que só têm algumas ilustrações aqui e acolá. O diálogo entre as linguagens deve levar a um terceiro texto compartilhado, onde um se resignifica através do outro, onde o livro não pode ser explicado ou contado apenas por seu argumento, sem descrever as imagens. Às vezes, de fato, o texto pode dizer uma coisa e a ilustração desmenti-lo, como parte do jogo que o livro propõe. O resultado final depende desse diálogo.

 

JSVocê escreveu muitos de seus livros ilustrados, como Vida de perros, Secreto de família, El globo, Piñatas, Griselda o Nocturno. O que quer contar com esses projetos?

I – Bom, cada livro tem temas que me interessam. Em vários de meus contos brinco com a ideia da identidade e do olhar, gosto de me surpreender ao observar o mundo de um lugar sem preconceitos. Desde meu primeiro livro, Vida de Perros, brinco com a ideia da certeza (que a mãe do menino tem) e a pergunta sem preconceito acerca de si mesmo (o menino que se pergunta se não será um cachorro). O livro não responde esta pergunta, mas brinca de por a prova a tese da mãe, com o que a certeza se prova construída sobre uma interpretação bastante subjetiva e talvez errônea. Há uma espécie de brincadeira sobre o desejo de algumas pessoas de por cada coisa em “seu” lugar para que nada destoe que é o lugar da mãe no conto e talvez do que podemos chamar uma instituição conservadora. A felicidade do livro é liberar-se disso, sair dessa convenção. Confiar em nossa própria identidade independentemente de como isto seja classificado por outros. Mas também jogo com a ideia de não aferrar-se a uma identidade rígida, e poder ter empatia com o que pode estar passando pela cabeça de outros, como ocorre em Tener un patito es util, no qual as mesmas situações produzem duas narrações distintas quando muda o narrador. Cada vez mais me parece que a pessoa vive a vida da maneira em que a narra. Não me agrada fechar meus livros em um significado, em uma lição de moral, etc.; prefiro que continuem abertos para seguir mantendo algum mistério, uma pergunta.

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JS – As mães e as relações familiares estão muito presentes em teus livros, te preocupam, te ocupam?

I – Há muitas mães em meus livros, e são personagens conflitantes. Creio que por ser a primeira pessoa em nossas vidas, que se relaciona conosco e se converte em referência (sobretudo para uma menina), é um personagem rico em associações, muito potente, ou pelo menos assim aparece em meu imaginário.

 

JS – O tema da mãe como modelo aparece em Secreto de familia como um problema e um susto acerca de ser diferente dos demais. Sei que muitas crianças sentiram isto de querer trocar a seus pais por outros, ou idealizar as vidas alheias. Dizem que a família é o lugar onde experimentamos como nos relacionar com os demais, antes de sair para a grande selva humana. 

I – Interessa-me tomar com humor estes conflitos de relação, da busca de si mesmo, para poder vê-los, e desdramatizá-los. Minhas histórias saem de minha própria necessidade de tocar em alguns temas e divertir-me com eles; de deixa-los sair, de brincar com os fantasmas para que se tornem mais leves e visíveis.
Isto também acontece com Piñatas, que é uma história acerca do medo, acerca de arriscar-se e crescer, e com Elglobo, uma história curta e absurda que pode ser lida como algo terrível ou como algo muito liberador e cômico, em que a mãe gritona da menina se transforma em bexiga: o que é melhor? Este é um livro que provoca algumas controvérsias.

 

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JSComo você vê este tema que acaba de abordar sendo mãe, agora?

I – Bom, não deixo de ser filha por ser mãe! Talvez algumas ideias se modifiquem nas novas histórias, porque eu vou me transformando, claro. Mas acredito que não vou me portar de modo corporativo agora que estou no bando das mães. Mas agora talvez lhe (nos) tenha um pouco mais de compaixão, jajaja.

 

JSVocê disse em uma entrevista em “Imaginaria”: “No nível da ilustração, me movo de acordo com meus referentes pictóricos (são muitos e se modificam, mas devo mencionar a DuBuffett, a pintura oriental, Schiele, Miró…) e também tenho muita escola de história em quadrinhos de autor, como a obra de Breccia, o Winsor McKay (o de Little Nemo), além de tudo o que está sendo produzido agora e que me interessa. em algum lugar, eu penso nesses olhares, os de meus mestres, no das pessoas que admiro.” Qual é o olhar que você projeta sobre o que te rodeia? Teu olhar mudou desde 1997? Em que?

I – Acho que estou mais aberta a desfrutar expressões artísticas de outras pessoas, creio que tenho menos arestas conservadoras e rígidas, e essa mesma liberdade me dou a mim mesma. Com menos medo de errar, de ser julgada, se pode investigar e desfrutar mais.
Penso que é importante para o mundo que haja artistas, é uma parte da alma humana coletiva que nos conecta com o que não é utilitário, mas espiritual. Assim funciona a arte em minha vida, me ajuda a passar por certos momentos, se converte em minha voz quando não posso falar (a linguagem tem muitas limitações às vezes). Algo em mim floresce ao conectar-me com certa música, com os livros, com o cinema que me comove, com a arte contemporânea. Funcionam como reflexos, estímulos e conexão sensível de mim com o mundo interior e exterior. Espero conseguir isso com meus livros, de alguma forma, para que  isso aconteça com outras pessoas.
Sigo mantendo essa vontade de rir do solene, e a ilusão de fazer arte em meu trabalho, no sentido de romper com as estruturas estabelecidas que não me servem, de alcançar algo fresco e genuíno, de seguir investigando.
Cada ano não tenho ideia de que tratará o próximo livro que irei fazer, e tenho muita curiosidade, porque sei que me dirá algo novo sobre mim.

 

JSOnde encontra a inspiração para os novos projetos de livro ilustrado?

I – Justamente nesse estar em contato com o que me comove e inquieta. Dessa fonte surgem as histórias, talvez como uma maneira de brincar com essas percepções internas e levá-las para algum lugar 

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JSSua paleta de cor foi se definindo com o passar dos livros e dos anos. O que essas cores te oferecem?

I – Sempre gostei de dar um lugar importante para a linha em meus desenhos, e manter uma paleta de cores apagadas com um ou dois tons brilhantes para marcar uma direção do olhar. Leis da plástica bastante gerais, na realidade. O único livro em que podemos ver algo mais retumbante é Tic Tac, mas aqui a cor vermelha, tão brilhante, é a que desenha a linha e faz vibrar as demais, que são bastante pastéis.
Minha intenção é que a linha seja quase sempre a voz solista do desenho, por donde passa a maior parte da expressão da imagem, e que as cores acompanhem essa ideia. Gosto das paletas que tem bastante amarelo, que são como esses livros velhos que tomaram sol. Não costumo usar azuis sem amarelo, por exemplo, e tendo a “sujar” um pouquinho toda a paleta, talvez por alguma lembrança dos livros antigos que meus avós me davam, onde as cores estavam meio apagadas ou fora de registro (coisa que também utilizo muito), e tinham uma qualidade atemporal, misteriosa. Também deixo sombras e manchas do papel no original final. Todos estes elementos dão certo clima aos desenhos, certo calor. E o tema de não “preencher” os desenhos encerrando a cor na linha é também uma escolha que ajuda a separar o desenho do plano colorido, e dá dinamismo à composição. Muitas destas coisas vêm de minha experiência com a xilografia e a serigrafia, técnicas nas quais as cores se aplicam em separado, e a linha também. Como fazer uma serigrafia é muito trabalhoso e é preciso fazer uma prancha por cor, te obriga a decidir muito bem que cores serão usadas, tirando o maior partido dessa escolha para não ter que fazer muitas passadas de tinta (eu fiz minhas primeiras auto-edições em serigrafia caseira, e é um trabalho matador).

 

JSO que Griselda representa como tipo humano em seu universo criativo de personagens? 

I – Griselda é a primeira protagonista adulta de um de meus contos (ainda que seja bastante infantil e ingênua). A figura da princesa perfeita é atraente e também um ideal pavoroso. É um personagem, não é um ser humano, é toda ela um exagero de um arquétipo. Esta história apareceu em um momento de minha vida em que cresci e vi algumas ideias sobre o amor e a mulher como prejudiciais para uma relação real e concreta. Interessava-me que ao final do conto aparecesse alguém com quem tenho empatia como leitora (o bebê). Tampouco julgo Griselda, me parece muito graciosa, simplesmente está confusa, não entende muito da vida e da dor. Quando ao final conhece o amor, seu sorriso ao perder a cabeça é muito belo. Como em El globo, é uma historia para ser lida com sentido do humor. Creio que é também uma história muito feminina e selvagem. Pouco depois de escrever esta história engravidei.

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JSO que significa Nocturno em sua concepção de livro ilustrado?

I – Nocturno surge de minha própria fascinação desde menina com a tinta glow in the dark, que se carrega com a luz e brilha no escuro. Pensei como usar esta tinta para fazer algo narrativo, que tivesse um desenho escondido durante o dia e outro durante a noite, como dois atos de uma história que não podem ser vistos ao mesmo tempo. Os aspectos técnicos da tinta e o tempo que leva para carregar cada página me guiaram a criar uma estrutura narrativa que funcionasse em cada página de maneira independente, com poucos elementos. A ideia dos sonhos terminou de organizar o livro. Parece-me que é importante a ideia de preparação e surpresa que este projeto encerra, que necessita do escuro, da luz e de um leitor ativo. Em seguida, a edição foi muito importante para ir refinando a potência do livro (que possa ser apoiado sobre uma superfície de maneira vertical, que tenha uma espiral, e sobretudo, que a tinta carregue rápido e brilhe muito). No nível plástico, gosto de ter tentado uma ferramenta nova como esta tinta, sem usá-la somente como um efeito decorativo, mas como elemento fundamental para a narração. Estou muito contente com Nocturno e com o que acontece com ele e com as crianças.

 

JSSua colaboração com Jorge Luján está sendo muito produtiva. Do que você gosta nos poemas de Jorge?

I – Gosto de trabalhar com Jorge porque ele tem muito desejo de fazer livros ótimos, e tem uma paixão e uma abertura mental acerca do trabalho que é muito estimulante. Quando faço um projeto com Jorge, é porque algo do que seu texto me propõe me faz pensar que vou me divertir, aprender, que posso fazer algo novo. Assim me aconteceu com Equis e Zeta, uma pequena história que me levou a modificar minha linha para encontrar sua estética, com Tic tac, que me levou a uma coisa quase “fauvista” com a qual queria replicar a doçura do texto, e com os primeiros poemas que ilustrei (Mi cuerpo y Yo, e Ser y Parecer) que me deram asas para fazer um tipo de livro pictórico em que a história não necessitava ser narrada através dos desenhos, mas que eu sentia que devia ser tão poeta como ele.
Nos une uma misteriosa obsessão que faz com que cuidemos muito dos projetos que fazemos juntos, mas sem temer nos colocarmos em coisas que não sabemos aonde nos levarão. Ele me mostra muitas coisas que escreve até que eu escolho a que me chama mais por alguma razão, e me deixa levar o tempo que preciso para trabalhar até encontrar algo de que goste. Somos muito afinados quanto ao que nos comove em uma ilustração, e nos temos respeito e carinho para poder discutir e influenciar o outro em um caminho que nos enriquece. Isso é uma benção em qualquer âmbito, não é verdade?

 

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JSQuando você se depara com uma história, em que aspectos se fixa mais? Sobre que parte coloca sua atenção e sua ênfase na hora de ilustrar?

I – Bom, cada texto é uma experiência. Em geral, o texto tem que me interessar, senão não o ilustro. Também pode ser que seja uma oportunidade para experimentar uma nova técnica, uma boa desculpa. Então reflito acerca do que é o que me toca nesse texto, que ideia fica quando o leio, que imagens me ocorrem enquanto me enfrento com ele, e como poderia levar isso que me comove a uma narração gráfica, agregando outra linha sensível  à história. Muitas vezes começo a desenhar no verso do texto, para ver que personagens ou visões me aparecem sem pensar muito. Trato de ver qual é minha opinião a respeito, e por que gostaria de ilustrá-lo. Em geral, tardo em encontrar a técnica para cada livro e, às vezes, encontro uma estrutura que indiretamente tem que ver com minha leitura do escrito. Por exemplo, nas ilustrações que fiz do texto de Paul Auster o Conto de Natal de Auggie Wren, me entusiasmava poder usar fotografias como parte da técnica de ilustração, jogando com a ideia do livro acerca de uma pessoa que tira fotos, mas por sua vez isto se associava com a ideia de que não se sabe se o conto é uma anedota real ou inventada (as fotos com intervenções jogam com isso também, mesclando objetos reais e pinturas sobrepostas) ou talvez apenas algo que o escritor fabula sentado em seu escritório. Então usei todos os objetos que poderiam estar no escritório do autor, como quem brinca de inventar imagens com as coisas que tem à vista. Não é algo que eu planejei ao começar as ilustrações, mas que foi tomando forma conforme ia escolhendo o que fazia, como se o desenho estivesse ajudado pela conexão que eu senti com o texto, por esse guia. Nesse caso, o texto já narrava as situações íntimas do personagem, as reflexões, etc., motivo pelo qual me senti livre para jogar com outras linhas narrativas. São decisões, todo o tempo.
Creio que para o ilustrador é muito importante ser um bom leitor de textos, e poder questioná-los, andar ao redor deles para ver o que guardam nos bolsos, para nos conectar com o que escondem e usá-los como trampolim e causa para nos atirar na piscina de nossa imaginação.

 

JSImprensa e animação são outros campos em que você trabalha de forma esporádica. O que significam para você esses espaços criativos? 

I – Me agrada fazer a arte gráfica de cartazes e notas de imprensa porque são peças únicas que requerem síntese e potência, é um lindo desafio. Animação não tenho feito muito, porque não gosto, é muitíssimo trabalho. Mas quando outros animam meus desenhos e posso trabalhar com os animadores, é muito gratificante ver surgir movimento e linhas paralelas à história pensada por mim… É realmente outro formato, e há gente muito talentosa nesse campo.

 

JSFale-nos de sua paixão pela música.

I – Canto desde muito pequena, em minha família há vários músicos, e sempre foi um momento de diversão, alegria e criação quando nos reuníamos para tocar e cantar. Na escola, o cantar me aproximava das pessoas como uma atividade em que podíamos participar vários, e ao mesmo tempo se relacionava com o contar histórias, transmitir sensações aos demais e, por que não, ser o centro de atenção por um tempo. Estudei canto desde que saí do colégio secundário, canto lírico, e participei de diversos espetáculos, cantando desde música clássica contemporânea a canções de cabaré de Kurt Weill, mas foi há sete anos que comecei a cantar de forma mais frequente e em projetos mais visíveis. Com Entre Ríos, um grupo de pop eletrônico com quem viajei por muitos países, pude aprender a cantar de outra forma e experimentar como é estar em diferentes cenários sendo a voz e a cara de uma banda, escutei muitas músicas que não conhecia e entrei de alguma forma na modernidade, eu que vinha de algo mais clássico; tudo foi uma descoberta. Ao mesmo tempo, quase simultaneamente, formei o meu próprio grupo de música barroca (The Excuse), com quem continuo cantando até hoje. Com Entre Ríos não canto mais, hoje tenho meu próprio projeto de música com meu irmão Zypce, com quem gravamos um CD que se chama SIMA, no qual escrevo pela primeira vez as letras e melodias que canto.
Cantar é uma sensação corporal fabulosa, talvez pela energia das endorfinas, pelo exercício que supõe, ou por ser você mesmo um instrumento; se gera uma situação que acontece nesse instante e não se repete nunca igual. O ar passa e sai, e algo se libera. É uma situação muito física, que complementa minha vida como desenhista e escritora. É muito estimulante estar em um cenário e compartilhar esse momento com o público, sentir essa relação que não está mediada como com o livro. Ao mesmo tempo, é um gasto de energia muito grande dar concertos, por isso é um bom equilíbrio ter o meu tranquilo estúdio para ficar reclusa e desenhar em solidão depois de um tempo de shows.

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JSSua lista de prêmios vai crescendo. Como os avalia? O que significa para você representar seu país na exposição que teve a Argentina como país convidado na Feira de Bolonha há alguns anos? E ser finalista do Andersen? E ganhar o ALMA há poucos meses?

I – A verdade é que estou muito surpresa pelo que foi acontecendo, e agradecida. Vejo que algo do que eu valorizo ao fazer livros é valorizado por outros, e isso é muito bom, sentir que o que faço comove de alguma maneira. Pouco a pouco vou assumindo que não é só questão de sorte, mas que fui construindo e escolhendo de acordo com o que espero de um livro ilustrado, seja meu ou de outro autor, e minhas decisões e compromissos me levam a ter uma linha de trabalho como a que tenho. Mas também tive a sorte de que pessoas muito valiosas gostaram de meu trabalho (como Daniel Goldin, Jorge Luján, Angela Lago, etc.) e o fizeram ser conhecido por outros. Em relação ao fato de representar o meu país, não me levo tão a sério, porque sou somente uma das muitas pessoas que estão fazendo coisas interessantes, ainda que seja talvez a que agora está tendo mais repercussão internacional, possivelmente pelo fato de que minha produção é publicada no México e na Europa. De todas as formas, é uma responsabilidade e espero estar à altura da confiança que meus colegas e padrinhos artísticos depositaram em mim. E que isto abra mais possibilidades para todos os artistas argentinos, pois há muitos e muito talentosos.
Além disso, os prêmios me animam a seguir trabalhando com este compromisso, tentando novas histórias e contos, porque sinto que quanto mais arrisco, mais ganho. Não é tampouco que sinta que faço algo muito estranho ou difícil, mas meu desejo ao fazê-lo é que seja algo que eu não tenha visto antes, que sacie meu próprio apetite de movimento e aventura artística, que me mobilize de alguma forma. E isso me custa bastante trabalho.

 

JS – Em que projeto você está imersa no momento atual?

I – Estou preparando um livro novo que me entusiasma, espero poder mostrá-lo no ano que vem. Este ano está um pouco complicado porque tenho muitas viagens, mais o bebê e as atividades relacionadas ao prêmio, mas tenho muito desejo de terminá-lo. Não quero adiantar muito, mas o protagonista é muito, muito pequeno e acaba de chegar a este mundo. Nada muito original.

 

 


Seus livros receberam reconhecimentos e prêmios, entre os quais destacam

*Premio Astrid Lindgren, 2013.

*Finalista do “Premio Hans Christian Andersen 2006 e 2008”, eleita entre os cinco melhores ilustradores de livros para crianças de mundo (IBBY/International Board of Books for Young People, Suiza).

*“Premio ALIJA” (Asociación del Livro Infantil e Juvenil Argentina) pelo livro Piñatas como “Mejor Libro Integral de 2004”.

*“Premio Golden Apple” na Bienal de Ilustração de Bratislava 2003, Eslovaquia, pelas ilustrações do livro Tic Tac.

*Menção Especial “The White Ravens List 2003” (Internationalen Jugendbibliothek, Munich) pelo livro El cuento de Navidad de Auggie Wren.

 *Seleção “The White Ravens 2002” pelo Globo e em 2004 por Secreto de familia.

*Primeiro Prêmio de Ilustração no “Concurso Internacional de Diseño para Prensa” (Porto Alegre, Brasil, 1998).

*Menção Honorífica no Certamen “A la orilla del viento” de Fondo de Cultura Ecomómica, em 1997.

 

Seleção bibliográfica

Vida de perros. FCE, México, 1997.

Cosas que pasan. FCE, México, 1998.

Regalo sorpresa. FCE, México, 1998.

Aroma de galletas de Antonio Fernández Molina. Media Vaca, Valencia, 1999.

Tic-Tac  de Jorge Luján. Alfaguara, México, 2001.

El globo. FCE, México, 2002.

El cuento de Navidad de Augie Wren de Paul Auster. Lumen, Barcelona, 2003.

Conto de Natal de Augie Wren de Paul Auster. Companhia das Letras, São Paulo.

Secreto de familia. FCE, México, 2003.

Segredo de família. Fondo de Cultura.

Piñatas. Del Eclipse, Buenos Aires, 2004.

Mi cuerpo e yo de Jorge Luján. Kókinos, Madrid, 2005.

Petit, o monstruo. Serres, Barcelona, 2007.

Numeralia de Jorge Luján. FCE, México, 2007.

Ser e parecer de Jorge Luján. Kókinos, Madrid, 2008.

Pantuflas de perrito. Almadía, México, 2009.

Pantufas de cachorrinho de Jorge Lujan. Autêntica, Belo Horizonte.

La Bella Griselda. FCE. México, 2010.

Nocturno. FCE, México, 2011.


TRADUÇÃO PAULA STELLA