Kveta Pacovska nasceu em 1928 na cidade checa de Praga. Estudou Artes Aplicadas na Escola Superior de Belas Artes de sua cidade. Começou a criar livros para crianças nos anos 50. Ela desenha, pinta e cria colagens com as quais experimenta com o texto e a imagem.

Sua obra é admirada em muitos países nos quais seus  livros foram traduzidos, se escutam suas conferências e contemplam suas exposições. Seu talento foi  reconhecido na forma de prêmios; entre as numerosas condecorações que lhe foram outorgadas podemos destacar: Manzana de Oro de la Bienal Internacional de Bratislava 1983, o Gran Premio Catalonia de Barcelona 1988, o Grand Prix Allemand de Literatura Infantil, la Lettre d’Or de Franckort, o Pinceau d’Argent de Amsterdam, Premio Especial de Bolonia 1988, o Premio Johan Gutemberg de Leipzig 1984 y 1989, o Sankei Book Culture Award de Tokyo, Premio H.C. Andersen em 1992 e  Illustrad’Or 2006, da Asociación  Profesional de Ilustradores de Cataluña (APIC).

Kveta Pacovska

 

Kveta Pacovska criou um conceito próprio de livros para crianças cuidando e intervindo em todas as facetas da obra: papel, desenho, formato, tipografia, facas, recortes… Seus livros irradiam força, intensidade e ousadia, mas também destilam ternura, delicadeza e mimo. Pacovska está em constante busca, sempre explora espaços novos, formas distintas, suportes inusitados. Com o passar dos anos reafirmou seus postulados artísticos e cada novo livro é um canto à liberdade, à imaginação e à criatividade.

 

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Javier Sobrino Iniciamos esta entrevista com Kveta avaliando sua trajetória e como se sente aos 84 anos com mais de 60 anos de carreira artística. Como avalia sua trajetória como criadora de livros depois de seis décadas de trabalho?

Kveta Pacovska – Estou satisfeita com a direção tomada para criar os livros sobre números, letras, formas, cores, e para fazer do papel um bonito amigo.


JS
Como se sente depois de ver seus livros neste tempo? Agraciada, satisfeita, alegre…?

KP – Feliz, naturalmente.
JSAcredita que o mundo da literatura infantil entendeu e valorizou sua obra? E os leitores, crianças e adultos, eles compreendem e apreciam seu trabalho? Que sensação tem?

KP – Espero que o mundo da literatura infantil entenda e valorize meu trabalho, espero e creio nisso. As crianças sei que me entendem, sempre o fizeram.
Entrevista KP-livro aberto

 

JS O que pensa quando escuta ou lê que seus livros são modernos, ousados, inovadores? O que busca com seus livros?

KP – Penso que são assim, que seguem sendo assim: modernos, valentes e ousados. Espero que sejam una grande experiência para o leitor.


JS
Falando um pouco sobre os inícios de sua vocação artística: em que momento descobriu a ilustração como forma de expressão?

KP – Poderia dizer que quando nasci. O certo é que a descobri muito cedo. Mais tarde, em  companhia de minha querida avó que me ensinou muito sobre as coisas belas feitas com as mãos; como um bolo de Natal que fiz com ela e que descreveria como minha primeira escultura.
JS – Que movimentos pictóricos, teatrais, musicais mais lhe influenciaram na configuração de seu estilo artístico?

KP – Penso que a pintura foi, e segue sendo um dos meus favoritos; e a escultura também. Posteriormente, o movimento Bauhaus e o estudo da historia da arte e da arte moderna.

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JS Quais são suas recordações sobre a literatura infantil? Os contos que liam para você na infância foram relevantes em suas obras posteriores?

KP – Quando era menina, lia muitas vezes os contos de Hans Christian Andersen, que era um dos meus autores preferidos. Em seguida, li Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll. Adoro esse livro, tanto que teria desejado ilustrá-lo, embora seja algo que nunca tenha podido fazer.
JS Que influência teve em você o clima cultural e político de Praga nas décadas em que estudou? Havia maior liberdade na criação para um público infantil que no mundo da arte?

KP – Era assim. Adoro estar em estreito contato com o mundo da  arte e encontro o espaço para isso no livro; essa é a razão pela qual comecei a fazer os livros para crianças.
JS Seguimos falando sobre a gênese e os distintos elementos que formam suas obras. Como é o caminho que percorre um livro, desde que a ideia aparece em sua cabeça até que o tenha impresso em suas mãos?

KP – É um processo muito longo que, às vezes, me leva anos. Depois, quando o tenho claro em minha mente posso criá-lo em muito pouco tempo.
JS Em seus livros você une todos os componentes: ilustrações, papel, texto…. Pretende que seus livros se convertam em algo mais que um livro, em una obra de arte em seu conjunto e em sua globalidade?

KP – Tento fazer os livros como objetos de arte em papel, como pequenos museus para a palavra e as imagens. Sempre procuro fazer meu trabalho em direção a um objeto de arte. Sei que esse não é o caminho para todo o mundo, mas é exatamente o meu caminho.

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JSA repetição de personagens em suas diferentes obras nos faz pensar que nos encontramos diante de um mesmo livro em distintos capítulos. Em que direção quer conduzir seus leitores,  crianças ou adultos, com esse mundo artístico pessoal?

KP – Meu livros tem um sentido de continuidade, o que é muito importante porque é meu próprio universo. Eu convido os leitores a adentrarem em meu mundo de criatividade e me sinto muito satisfeita quando o convite é aceito.
JS Sua paleta cromática é limitada e muito contrastante: vermelho, verde, amarelo, azul e branco, principalmente. O que você sente quando as usa? O que quer mostrar com as cores que utiliza? Por que permaneceu com esses tons para seus livros?

KP – Quando era criança, me preguntava como era possível que as pessoas não soubessem que cada dia tem sua própria cor, que pode mudar dependendo das situações ou dos sentimentos do  momento. Se trata de una questão emocional.
Gosto de todas as cores mas, sobretudo, gosto de escolher aquelas que produzem um máximo de contraste: o máximo contraste significa máxima beleza, una espécie de sentimento supremo com uma grande tensão.


JS
Através dos livros-conceito você se aproxima de temas como as cores, as formas o os números. O que dessa temática lhe atrai?

KP – Meu conceito sobre estes temas básicos, que adoro, é que me aportam o mais importante: são um campo de liberdade aberto para aqueles que gostam deles e desejam entrar neles.

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JS Qual é a diferença no método de trabalho entre ilustrar um conto abstrato ou um que segue um esquema narrativo tradicional?

KPEl pequeño rey de las flores (O reizinho das flores, Martins Editora) se baseia principalmente em uma história mas, geralmente, a diferença é mínima. Os temas são muito concretos, como um rei, flores, pássaros, um castelo, etc. Principalmente, o que faço é reduzir as figuras em busca da melhor forma para meus personagens, com a intenção de que sejam legíveis como signos. Nunca crio universos abstratos desde um primeiro momento. Não deveria ser uma simples fase dentro do  processo.
JS As metamorfoses de seus personagens e o uso de personagens híbridos, combinando componentes de distintos seres, estão muito presentes em seu trabalho. Por que?

KP – Porque os trabalhos com personagens que sofrem metamorfoses são para mim muito excitantes, divertidos e me dão a oportunidade de criar a forma e a direção que eu gosto.
JS Seus livros estão cheios de referências ao mundo animal, e em especial ao rinoceronte, a quem dedicou um livro como Rotrothorn. Qual é o significado do rinoceronte, ou simplesmente se trata de um animal escolhido ao azar ou por qualquer outro motivo?

KP – Alguns animais me agradam muito por causa da sua forma ou de sua filosofia simbólica, como por exemplo, o rinoceronte. Por outro lado, há razões de tipo gráfico como seu aspecto enorme, redondo, quadrado, pequeno, diagonal. Em qualquer caso, todos eles são meus atores e meus melhores amigos e me ajudam a encontrar o caminho quando sinto que estou me perdendo.

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JSCom qual de seus personagens você se identifica mais: com a lua, o lápis, o rinoceronte, uma letra, a rainha das flores, Chapeuzinho…?

KP – Me identifico mais com a lua, com  uma letra e com o rinoceronte. Principalmente devido a sua forma.
JS As histórias são escritas por você  ou são  contos tradicionais? O que encontra nos contos populares para recorrer a eles como fonte de inspiração criativa?

KP – Habitualmente, escrevo  meus próprios textos. Muitas vezes, as ilustrações contam a história por elas mesmas. Um conto popular não é una fonte de inspiração, é muito mais.
JS Como percebe a interação de seus personagens em universos alheios, quer dizer, em narrações de terceiros (como em Das Tier mit den Funkelaugen de Annelies Schwarz)?

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KP – Annelies Schwarz foi uma das exceções, me pediu que fizesse as ilustrações para sua história – foi uma questão de amizade com ela naquele tempo. Mas nos últimos vinte anos me dediquei principalmente a ser a autora de meus próprios livros. Isso indica que eu mesma faço a arquitetura do livro, sua composição e as ilustrações como uma unidade.
JS Que possibilidades lúdicas o formato multimídia lhe oferece para suas criações artísticas?

KP – Minha base é o livro como objeto real de papel. Transferir alguns livros a um formato multimídia é muito interessante, mas há que fazê-lo bem. No CD ROM do Alfabeto colaborei com a editora francesa e tenho a sensação de que está muito bem feito.

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JS A perspectiva de artista é a mesma quando trabalha ilustrando ou esculpindo ou se impõe uma mudança de atitude pelas diferenças entre as duas matérias?

KP – A escultura está muito próxima da ideia do livro como um objeto artístico, assim a sugestão de uma influência por parte de um trabalho escultórico é uma atraente possibilidade.
JS E terminamos a entrevista como no começo, falando de seus sentimentos. O que sente quando ilustra um livro?

KP – É difícil pensar nesse momento. Eu gostaria de ver algo de um artista jovem bonito e novo. Também luto todo o tempo por fazê-lo o melhor possível. Desejaria que os livros fossem bons e bonitos no sentido da ideia e no da forma, como um objeto de papel.

JS O que você gostaria que os leitores sentissem depois de ler, ver e tocar uma de suas obras?

KP – É decisão do leitor sentir em cada momento. Eu desejo que as ame, as leia, as toque e as torne  suas.
JS Nós, seus leitores, tornamos nossos os seus livros, Kveta, e agradecemos sua generosidade e seus livros repletos de liberdade, valentia e sensibilidade.

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* Agradeço a Rebeca Luciani, ilustradora, Arianna Squilloni, editora, Diego Gutiérrez do Valle y Marta Dueñas, tradutores do inglês para o espanhol, por sua ajuda na realização desta entrevista.

A Revista Emília agradece a Kevta Pacovsca e Javier Sobrino (Revista Peonza).


Seleção bibliográfica de Kveta Pacovska

Das Tier mit den Funkelaugen. Annelies Schwarz, Belz Verlag, 1990.

Le petit roi des fleurs. Minedition, 1991. Edição brasileira: O reizinho das flores. Martins, esgotado

Mitternachtsspiel. Verlag Neugebauer Press, 1992. Jogo da meia-noite. Edição brasileira: Ed Ática, esgotado.

Couleur, couleur: le livre des couleurs. Seuil Jeneusse, 1993.

Ronde-Carré: le livre-jeu des formes. Seuil Jenuesse, 1994.

Tour á tour. Nord-Sud Verlag, 1995.

Alphabet. Ravensburger Buchverlag, 1996. Edição brasileira: Alphabet, Melhoramentos.

Jamais deux sans trois. Seul Jeneusse, 1996.

Le fleur couleur. Nord-Sud Verlag, 1998.

Corne rouge. Nord-Sud Verlag, 1999.

Rotrothorn. Ravensburger Buchverlag, 1999.

Ponctuation. Seuil Jeunesse, 2004.

Un, cinq, beaucoup. Minedition, 2005.

Un livre pour toi. Seuil Jeunesse, 2004.
Les petites filles aux allumettes. H.C. Andersen, Nord Sud Verlag, 2005.

Le petit chaperon rouge. H. Grimm, Minedition, 2007.

Hänsel y Gretel. H. Grimm, Minedition, 2008. João e Maria, Cosac & Naify, 2010.

A l’infini. Editions du Panama, 2007.

Cendrillon. Perrault, Minedition, 2010.

Couleurs du jour. Editions des Grandes Personnes, 2010.

L’invitation. Editions des Grandes Personne, 2012.


TRADUÇÃO PAULA STELLA