O bebê tem necessidade de leite, de carinhos e de histórias… colocar livros e histórias poéticas à disposição das crianças em lugares inesperados, faz com que até as pessoas mais sérias se encantem com o interesse delas. Este é o caminho mais seguro para que um dia elas compreendam o mundo e tenham o desejo de transforma-lo.”

René Diatkine*[i]

 

Muito antes de ir para a escola, desde o seu primeiro ano de vida, os pequeninos podem descobrir que os livros contam histórias e que as “pequenas manchas pretas”, engraçadas, possuem um sentido e fazem falar os adultos. O bebê inicia esta “pesquisa”, como em todas as novas coisas que encontra, a partir de um contato físico e sensorial. Ele explora o objeto livro colocando-o na boca, brincando com ele. Explora suas formas, suas cores, seu odor, sua diagramação, suas ilustrações, “chupa”, “come”! São as primeiras apropriações da língua escrita que fazemos com o corpo inteiro, com os gestos, primeiro tentando pegar a imagem, para depois tocá-la, tendo tanto o prazer de escutar de perto quanto de longe, do outro lado da sala, enquanto fazemos outras coisas. Estas explorações abrem um caminho que parte do corpo de quem lê e se desenvolve em direção ao imaginário da criança.

Logo que o bebê se apropria do livro e faz dele seu objeto, começa a procurar, além deste contato físico, sensorial e estético,  compreender: o começo, o final, a ordem das páginas, o direito e o avesso, as ilustrações e os personagens representados, as letras, suas organizações e repetições… O bebê rapidamente entende que as palavras do livro “contam o mundo”.

Os bebês tem direito à leitura, à cultura, a ter uma história e a ouvir muitas histórias, brincando com as palavras e com a linguagem. Eles necessitam de sonhos e da possibilidade de descobrir o mundo em que vivem com tempo e calma! Por isto é importante criar espaços para a leitura onde os bebês vivem: nas creches, nas brinquedotecas, nos hospitais e em casa.

 

Importância das narrativas

Na vida cotidiana, nós empregamos espontaneamente duas formas de linguagem: a factual e a narrativa.

A linguagem factual é empregada quando dois interlocutores estão presentes em uma mesma ação; esta linguagem é acompanhada de múltiplas expressões corporais: mímicas, olhares, risadas… etc. que complementam o que está sendo dito.

A linguagem narrativa se dá quando se conta um fato passado ou futuro, ou ainda imaginário. Ela tem um começo e um desenvolvimento que nos encaminha para o desfecho, para o final. É uma forma de linguagem que permite o acesso ao imaginário e ao pensamento. Esta é a forma de linguagem das histórias literárias e da poesia.

Desde cedo, a forma narrativa permite que a criança brinque. Ela vai brincar mentalmente, através de seus balbucios, com essa segunda forma de linguagem que a encanta.

Em nossos tempos o veículo concreto da linguagem narrativa é o  livro. Em relação à infância, por exemplo, esta é a sua função principal. E o adulto tem um papel importante, pois é ele quem reconstitui as narrativas escritas através de sua voz, de sua leitura e da apresentação das ilustrações. Ele significa assim, para as crianças, a escrita e as imagens, acompanhando-as no contato com conteúdos e imagens que são para elas desconhecidos, impressionantes e até inquietantes.

Dito de outra forma, quando uma mãe canta, para ela mesma e para o seu bebê, acompanhando a sua voz de movimentos ritmados; a voz, a melodia e o gesto fazem parte deste contato que se inscreve no registro sensível de um encontro.

Diante de um bebê, os adultos falam entre eles e o anseio de entrar na intimidade destes dá à criança o desejo de se apropriar de suas palavras. Da mesma forma, quando familiarizamos os bebês com os livros e as leituras, eles querem se apropriar das histórias que os livros contam, e, mais tarde, no momento da aprendizagem formal, este desejo e o conhecimento já adquirido facilitarão sua aquisição da escrita e da leitura.

A criança que começa a falar não se engana, percebe rapidamente a importância dos dois aspectos de linguagem – o factual e o narrativo -: a sua interação e o seu duplo jogo no tempo – real e ficcional, (ou seja, o tempo da narrativa e o tempo no qual a leitura com o adulto acontece) -, pelas palavras, fatos e seres que a cercam. É desta capacidade de jogo com a linguagem que dependerá, em grande parte, o desenvolvimento de seu espaço psíquico interno, de sua capacidade de imaginação, abstração (de desenhar, brincar, contar histórias, pensar, aprender etc.).

Em relação a este aspecto, como desenvolveu René Diatkine, podemos encontrar diferenças importantes no desenvolvimento psíquico das crianças que viveram, desde que nasceram, em culturas nas quais a linguagem que conta histórias predomina e aquelas onde reina a concretude e as tensões mal elaboradas; entre as crianças de famílias que tem livros e a leitura é praticada e aquelas que vivem excluídas deste universo. O desenvolvimento psíquico e o desenvolvimento da linguagem dependem de dois fatores: da segurança psíquica (emocional) das crianças e de comportamentos externos que lhes permitam o acesso à linguagem e acesso à transmissão cultural. Existem crianças que vivem cercadas de livros e outras que não tem nenhum. Por isto é importante reuni-las, com a presença de pessoas que leiam livros para elas.

Não estamos falando aqui de aprendizagem precoce da leitura ou da escrita mas da promoção e valorização de ações que possibilitem que as crianças desfrutem da riqueza da cultura a qual pertencem desde o seu nascimento – e que auxiliem a transmissão cultural entre as gerações. Facilitamos, desta forma, a leitura do mundo, transmitimos a importância do ato de compartilhar, a importância do lúdico, da estética e fundamentalmente da poesia.

 

Lendo para os bebês!

Dificilmente nos encontramos na situação de ler somente para os bebês, pois sempre lemos para eles e para as pessoas que cuidam deles (mães, pais, enfermeiras, educadores) e isto é importante porque amplia nossa ação, mas também é delicado pois entramos na intimidade da vida de uma família ou instituição. É importante não esquecer disso,  respeitar os movimentos daquele que cuida do bebê.

Quando lemos para uma mãe e seu bebê, em lugares de sua vida cotidiana, potencializamos o espaço de troca, de comunicação e de transmissão da linguagem entre eles. Além disto, ao perceber o prazer e as reações de seu bebê a mãe também sente vontade de mostrar os livros e de lê-los para suas crianças. Esta é a melhor forma de explicitar que as histórias são importantes para todos nós: fazer junto!

Vamos ver como isto acontece de fato: escolhi três exemplos de situações que  ilustram bem alguns dos aspectos importantes que permeiam a leitura para os bebês e seus familiares: Estou me propondo a conversar sobre Rafael (12 meses), Breno (2 meses) e sua mãe, Cássio (3 meses) e sua mãe e Lia (recém nascida) e sua mãe.

“De 1997 a 1999 fui a psicóloga responsável pelo berçário de um abrigo em São Paulo e a leitura de histórias foi uma das práticas introduzidas junto aos bebês. Lembro de um dia em que fui ler para os bebês  enquanto estávamos no parquinho. Eles tinham idades muito variadas, entre 1 mês e 2 anos e apresentavam, em sua maioria, um atraso de linguagem e de desenvolvimento motor. As razões para estarem nesta instituição também eram variadas e poucos ali recebiam a visita da mãe ou familiares.

Neste dia entre tantos livros e álbuns ilustrados para pequenos, escolhi Tanto, Tanto! para ler. Este livro de Trish Cooke e Helen Oxenbury conta a história de uma família que espera o pai para uma festa de aniversário. A narrativa escrita é longa mas apresenta, assim como as ilustrações, uma grande diversidade de estruturas e formatos. Este livro costuma encantar a todos, por suas cores, seus detalhes, sua melodia, as onomatopeias – trim,trim…- e suas repetições! Mas também agrada por falar de uma família que se reúne, do afeto que circula em cada um que chega, faz carinho e brinca com o bebê “tanto, tanto”! O livro propõe uma grande riqueza, semântica, estética e lúdica.

A educadora lia e eu também, enquanto vários bebês exploravam os livros livremente. Rafael (1ano), assim como as outras crianças, me conhecia bem e tinha acabado de começar a andar. Titubeando, ele se aproxima (desde o começo da história vejo que está atento), e fica vidrado, olha para mim, para o livro, para minha boca, para o livro de novo, sorri e emite barulhos e a cada vez que a sutil imagem de um bebê em preto e branco aparece no pé da página ele jubila e bate com a mãozinha no desenho. Rafael me solicita a ficar nestas páginas mais tempo. Quando acabo de ler, fecho o livro e Rafael reclama, senta no chão, faz biquinho, chora. Começo a falar com ele, pergunto se ele quer ouvir novamente a história, ele se acalma, não responde nem sim, nem não, (ainda não tem este código de linguagem estruturado) porém parece entender o que estou lhe propondo. Quando abro o livro para a releitura, dá um grande sorriso e se coloca novamente de pé: Lá vamos nós compartilhando sorrisos, exclamações, palavras, imagens, gestos, emoções e textos! (Patrícia Pereira Leite, São Paulo, 1997)

Rafael pede que eu releia “Tanto, Tanto” através de sua atitude, faz uma escolha de narrativa (sendo que ele ainda não sabe falar); sustenta sua atenção durante o longo tempo desta leitura; interage comigo e com crianças menores e maiores, que também estão presentes sem quebrar o momento que ali se instalou entre os bebês, os mediadores e os livros. Ele nos mostra e exercita competências complexas.

A mediação de leitura propiciou o contato de Rafael com o adulto e com as outras crianças e também com o livro e com as histórias. Através desta atividade os vínculos foram enriquecidos e o desenvolvimento das crianças foi estimulado.

 

A escuta e a repetição da história

Rafael escuta e solicita a repetição de uma história que é longa, e nas duas vezes sustenta sua atenção, participando com prazer. Demonstra assim que os bebês são capazes de escutar e de se interessar por longas histórias, o que constatamos quando inserimos a leitura na rotina de suas vidas.

Solicitando a repetição da história Rafael prolonga o momento de contato com o adulto, mas também brinca com a narrativa e com as imagens . Explorando nesta segunda leitura um universo rico e conhecido, portanto protegido. Isto para os bebês é importante. Os bebês necessitam de tempo para apreender o mundo, são muitas as coisas novas com as quais eles entram em contato.

 

A escolha da narrativa

Através de sua atitude Rafael faz uma escolha de narrativa. É indispensável, para a saúde, que existam espaços de liberdade, sem avaliação nem expectativa, onde possamos explorar novos conteúdos e situações, exercitar o que sabemos, refletir e criar, isto em qualquer idade ou situação de vida. Por isto  dizemos que estes momentos de mediação de leitura devem ser conduzidos pelas escolhas das crianças e em seu ritmo.

É comum ficarmos tentados a propor livros que gostamos ou achamos interessantes para determinada criança ou situação, mas, nesses momentos é importante termos clareza do que estamos fazendo. Os bebês têm sua própria forma de pensar e parte dela não conseguimos apreender. Eles absorvem suas vivências e desenvolvem um pensamento elaborado, à sua maneira, em outro momento. Um bebê é uma pessoa que está se formando, ainda enigmática, precisamos por isto cuidar dele, respeitar seus movimentos e perceber os sinais que nos dá sobre sua escuta.

Quando lemos uma história e mostramos as imagens, os elementos da narrativa estão lá e o bebê escolhe o que, naquele momento, é relevante para ele. Por isto é importante ler, se calar e ficar atento ao que a criança propõe, para não ir diretamente ao centro daquilo que nós achamos essencial para ele. No exemplo acima fui eu que escolhi o acervo para a mediação e fui eu quem escolhi inicialmente ler este livro. Claro que este é um belo e bom livro, e eu já sabia que pequenos e grandes gostam de ouvi-lo. Por isto, mesmo sem ter pensado naquele momento, não poderia dizer que foi por acaso que escolhi esta história que fala de vínculos e encontros. Mas é interessante que Rafael, que tem de dividir a atenção dos educadores com muitos bebês, cotidianamente, aponta nesta história para o desenho onde o bebê aparece só, ativo e capaz de expressar suas emoções e competências. Não podemos afirmar o que se passou exatamente com Rafael, mas podemos ver que ele gostou do “Tanto Tanto” e que este momento de mediação foi importante para ele.

Podemos e devemos, como no exemplo, propor histórias como “Tanto, Tanto”, para crianças que vivem em uma instituição longe de sua família, desde que sejamos extremamente respeitosos quanto à relação que a criança terá com ela, aceitando até a escuta distante, a recusa, o silêncio ou as repetições que ela solicitar.

O livro, graças à narrativa, à história transmitida, à diversidade de situações propostas, é uma ferramenta que permite abordar mesmo as situações difíceis com alegria e prazer. Ele nos conta sobre experiências desconhecidas, a partir das quais podemos imaginar e aprender. Isto, me faz lembrar de uma outra história que Madalena de Oliveira (educadora do Instituto Fernandes Figueira- Programa Saúde e Brincar, Rio de Janeiro) me contou uma vez : Ao sair para um passeio, com um menino que nunca saíra antes do hospital, este olhou para o céu, apontou uma nuvem e perguntou: – Quem desenhou? Vemos como, para esta criança, várias coisas e situações do mundo tinham sido introduzidas a partir dos livros e das leituras que esta equipe fez para ele.

 

O Bebê designa a imagem

Rafael também nos mostra e exercita competências complexas, através de sua alegria, de seus balbucios e dos delicados tapinhas que dá na imagem. Demonstra que se reconhece na ilustração do bebê em preto e branco. Este bebê, “em preto e branco”, representa um elemento da história sutil, mas fundamental, que não aparece na narrativa escrita. Nestes detalhes do livro o bebê aparece ativo: brinca, lê, dança, pede colo, dá risada, observa o adulto, corre, fica bravo, e chupa seu dedo com sono. Estes detalhes interessam Rafael, que chama minha atenção, assim como a das outras crianças, e me faz falar sobre eles. Ao bater sobre a imagem Rafael a está designando. É uma situação banal como quando apontamos com um dedo para algo. É a primeira vez que ele faz isto e este momento é fundamental para a criança que ainda não fala, pois quando ela designa a imagem, é capaz de separar, discriminar esta imagem- objeto, de todo o resto. Nessa hora, o adulto se identifica com a criança e em geral nomeia o objeto e um jogo se instala entre o bebê e o adulto, um jogo que vai e volta em torno deste gesto que precede a linguagem. É provável que em pouco tempo, surgirão as primeiras palavras: bebê, mamãe, papai, não…

 

Interagindo com outros bebês

Rafael interage comigo e com os outros bebês e, apesar de todos os estímulos externos – intervenção das outras crianças, barulho e brincadeiras que acontecem no parquinho, ele participa atenta e ativamente da leitura da história.

Os bebês necessitam e buscam um vínculo privilegiado com o adulto e inicialmente este é mais interessante e atraente que a interação com as outras crianças.

Percebemos nesta situação com Rafael, que a leitura feita por um adulto que ele conhece bem; o contato físico (Rafael mantém-se de pé apoiado em meus joelhos) e o contato do olhar (olha para mim e para o livro, olha para onde eu olho: para as outras crianças, adultos, imagens e letras), o ajudam a ficar envolvido com a leitura, a desfrutar das inúmeras trocas de linguagem entre as crianças e a interessar-se por estas tantas janelas que se abrem para o mundo, através das palavras, das ilustrações, das metáforas, das entrelinhas, das reações das crianças e dos adultos…

 

Formas de prestar a atenção

Costumamos também pensar que os bebês são seres dispersos, que não fixam a atenção por muito tempo, o que de certa forma é verdade, se usarmos como parâmetro o adulto. Porém, seria melhor dizer que os bebês tem outro ritmo, outra forma de atenção. Não são os estímulos externos que os fazem se desinteressar de uma história. Na maior parte das vezes são os estímulos internos. Um bebê que interrompe uma história, que  escutava atentamente, e se afasta para brincar de outra coisa, ou adormece, ou fecha o livro, na maior parte das vezes o faz porque necessita de distância, de silêncio, de repouso para organizar e elaborar tantas novidades.

Ele precisa de bastante tempo para construir uma idéia, um pensamento, a memória da história. Como para tudo, ele não aprende a falar, a andar ou a jogar bola de uma vez só, e ele necessita ser acompanhado no contato com este objeto – livro e com as histórias.

Ler para o bebês?

“Fui para a UCINE, lá estava Breno, de 2 meses, todo serelepe. Li para ele várias histórias, ele prestava atenção na voz, e às vezes fixava os olhos em algum ponto do livro. Li: Opostos Divertidos, Joaninha Rabugenta e Procure e Ache. Li para sua mãe e para outra mãe que estava no mesmo quarto, O Rei Gilgamesh.

Ao sair deste quarto uma mãe, que estava no quarto ao lado, solicitou leitura para seu filho, dizendo: Na semana passada o Cassio (3 meses) estava dormindo, mas hoje não está, e eu quero que ele escute historinhas! A mãe ficou encantada com as histórias. Li Opostos Divertidos, O Explorador Experto e Brincadeiras Cintilantes, e ela demonstrou estar feliz pela atenção dada a seu bebê. Ele, por sua vez, estava sonolento e parecia não estar entendendo muito o que estava acontecendo, mas sua mãe estava irradiante!”

(Adriana Servilha Gandolfo – ICR- 13/07/2001)

Já li muitas histórias para bebês e já escutei relatos de outros colegas. Algo importante que estas experiências nos revelam é que apesar do bebê nos ser próximo, pelo coração, sentimentos, ele ao mesmo tempo nos é estranho e isto as vezes nos deixa perplexos, como se descobríssemos algo de estranho em nós mesmos.

Quando lemos para um bebê, entramos em contato com ele, nos sentimos bizarros e engraçados. Os bebês costumam ser mais silenciosos, sérios e tem reações muito mais sutis que as crianças maiores. Ficamos na verdade mais uma vez intrigados diante da maneira que o bebê registra e recebe, no sentido profundo do termo, o que estamos propondo. Não sabemos tudo que os pequeninos podem captar, nos sentimos ignorantes e isto é desconcertante.

Ler para bebês portanto nem sempre é fácil. Temos vontade, quando percebemos que não estão atentos, ou que mostram que estão cansados, de mobilizá-los, modificando o tom de voz na leitura, mas o que é importante não é quanto tempo lemos, e sim que propomos  livros, abrimos espaços para as histórias, para os bebês e suas mães, no tempo que é possível, sempre com bastante regularidade.

Quando estamos lendo em um contexto como o que nos narra Adriana, acima, não temos só um ouvinte. As mães observam, desfrutam das histórias e dos livros e também desejam escutar histórias. É neste movimento que provavelmente assumirão o papel de leitoras para o seu bebê e para os outros membros de sua família. É fundamental deixar sempre aberto o espaço para se surpreender, desta forma fica mais fácil descobrir os infinitos matizes e possibilidades que a leitura de histórias para os pequenos propõe!

Por que ler para os bebês no hospital?

“Eu me aproximei de uma incubadora, do lado a mãe e um bebê. Cleurimar, que é a mãe, me contou que a filha tinha uma semana de vida e estava com problemas no coração. Ofereci as leituras para a mãe, ela aceitou.

Comecei a ler, Cleurimar se emocionou e começou a chorariquei preocupado e perguntei o que tinha acontecido, ela me pediu para aguardar com a mão, ela precisava chorar, desabafar. Depois ela me contou a história de Lia, a sua bebê.

Depois de me contar, perguntei se ela queria que eu continuasse a ler para ela, ela aceitou novamente e li alguns livros e ela riu em algumas passagens. No final, disse que seria bom ela contar, cantar e falar com a filha. Quando me dirigi para Lia, na incubadora, e comecei a falar com ela, o medidor de batimentos começou a acelerar. Disse à mãe que, se ela quisesse, podia pegar livros no 2o andar…”

Ilan Brenman – Hospital Pediátrico – São Paulo, 2001

 

Além dos elementos que venho destacando, ao longo do texto, vemos aqui como a leitura consegue resgatar um espaço de comunicação e expressão e o quanto isto foi importante para esta mãe e provavelmente para a sua filha.

Quando a adversidade da vida é excessiva, utilizamos menos a linguagem narrativa e muitas vezes nos encontramos impedidos de sonhar e de pensar.

A leitura das histórias permitiu à mãe se expressar, falar dela, resgatar a sua história e a de seu bebê. Após chorar, falar de si e de sua filha, a mãe consegue sorrir, aproveitar a leitura e ocupar aquele momento com outros pensamentos, que não só os de tristeza e de inquietude. Ela observa o Ilan falar com a pequena Lia, percebe o movimento que isto traz no mediador e em seu bebê. A “rede“ de linguagem que se instala, auxilia a mãe a sustentar sua angústia e permite o movimento em direção à expressão e ao pensar. Apostamos neste trabalho, como a possibilidade de brincar, de pesquisar, pensar e se expressar a partir das histórias, entendida como manifestação de vida e saúde. Acreditamos que a arte e a literatura compartilhadas a partir da leitura e intermediada pela relação, auxiliam as pessoas a conversarem consigo.

É claro que sabemos que as diversas situações de conflito, que vive uma criança ou um jovem, suas referências culturais, suas condições de vida e seu bem estar, têm um peso importante para seu futuro – mas acreditamos também que as transformações sempre são possíveis. Encontros e/ou situações aleatórias podem acontecer e ter importância decisiva no destino de cada um ou de um grupo, sem que isto seja previsível. Neste sentido, pensamos que viabilizar a relação de alguém com o que a língua escrita e a literatura transmitem, de forma que os indivíduos possam estar inseridos em sua cultura e localizem-se na história da humanidade, é um ingrediente fundamental. E isto deve começar desde cedo!

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Livros de Literatura Infantil citados

TANTO, TANTO!, Cooke T, Oxenbury H. São Paulo: Ática, 1997.

O REI GILGAMESH, Zeman L. São Paulo: Projeto, 1997.

A JOANINHA RABUGENTA, Carle E., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

OPOSTOS DIVERTIDOS, Steer D. São Paulo: Brinque- Book, 2010.

O EXPLORADOR ESPERTO, Dijs C. São Paulo: Melhoramentos

BRINCADEIRAS CINTILANTES, Yoon S. São Paulo: Salamandra

PROCURE E ACHE, Hill E., São Paulo: Martins Fontes, 1989.


[i] René Diatkine foi Pedopsiquiatra e Psicanalista Fundador da Associação A.C.C.E.S. – Actions Culturelles Contre Les Exclusions et les Segregations fundada em 1982, em Paris, França.

Imagem Mimi Kichner