Os discursos sobre a leitura são, à primeira vista, isentos de conflitos: todos consideram muito importante ler e professam a necessidade de que sejamos um país leitor. Vemos, a todo momento, ao lado de lamentos de que os brasileiros leem pouco, campanhas mercadológicas e governamentais em torno da leitura, postagens positivamente valorativas com citações de escritores, muitas vezes sem fontes confiáveis, nas redes sociais, suvenires (canecas, sacolas, camisetas) com frases e imagens de autores. Ao mesmo tempo, nos últimos anos, houve uma explosão de projetos para a democratização do acesso à leitura desenvolvidos pela sociedade civil: bibliotecas comunitárias implantadas em improváveis espaços, livros na borracharia e na peixaria, bibliotecas ambulantes em bicicletas, jegues e carroças, além de pontos de leitura em praças e parques. Festivais, feiras, festas e eventos literários, por outro lado, extrapolam as capitais e as cidades de grande porte e ganham os pequenos municípios. As três esferas governamentais se articulam com a sociedade civil para a elaboração e a consolidação de planos municipais, estaduais e nacional de livro e leitura.

Como reflexo, consciente ou não, da importância atribuída à leitura, termos a ela originalmente vinculados são ampliados e utilizados em contextos distintos. As palavras analfabeto e letramento, por exemplo, tornaram-se sinônimo de falta e competência, respectivamente. Mais que o sujeito que não sabe ler e escrever, que não participa da cultura escrita, o termo analfabeto vem designando muitas faltas no mundo contemporâneo: analfabeto digital é aquele que não domina as tecnologias, assim como analfabeto político, analfabeto visual, analfabeto cultural, analfabeto secundário e tantos outros designam outras faltas.

 

Letramento

Na contramão, o termo letramento, que originalmente diz do sujeito que lê, escreve e faz uso social satisfatório da língua, vem sendo utilizado no aspecto positivo: o letramento literário diz da pessoa que lê literatura, assim como o letramento digital, letramento musical ou letramento visual, para ficar em apenas três exemplos, dizem de uma competência que foi alcançada.

Tudo isso leva a crer que, se a leitura ainda não conta com o devido investimento de que necessita para que seja efetivamente acessível a toda a população, de seu ensino e aprendizagem nos bancos escolares à sua prática ao longo da vida adulta, algumas atenções ela já recebe.

Mas, por que ler? Para essa pergunta muitas têm sido as respostas, quase todas sustentadas pelo senso comum. Lê-se para ter informação, para escrever melhor, para ter mais chances no mercado de trabalho e, quando se trata de ler literatura, para viajar por mundos maravilhosos e ter prazer.

É certo que a leitura é uma fonte de informação, mas não é a única. Uma pessoa pode se informar pelos telejornais, por programas de rádio ou até mesmo conversando com outras pessoas. Também é provável que a leitura contribua para a melhor apropriação da língua, para a familiarização com a escrita, o que

amplia a habilidade do sujeito de se comunicar e se expressar dessa maneira. Consequentemente, uma pessoa bem-informada e hábil no uso da língua tem mais chances no mercado de trabalho.

 

Prazer

A leitura de literatura, por sua vez, pode ser prazerosa, como anunciam as campanhas publicitárias e os discursos sobre essa prática. O que elas não dizem – e que também escapa a muitos profissionais ligados à formação de leitores – é que a leitura de prazer pressupõe trabalho intelectual. Para um leitor, ler é

prazeroso: há deleite nas imagens produzidas pelas palavras, nas associações de ideias deflagradas pelo texto, na beleza construída pela escrita, na liberdade conquistada pelo pensamento, no tangenciamento da fantasia e até mesmo no sofrimento partilhado por um personagem. Porém, alcançar a condição de leitor que se abre a esse tipo de prazer exige trabalho, pois esse prazer não se estabelece somente pelo conteúdo do que se lê, mas pela junção de forma e conteúdo e pela compreensão do que se faz quando se lê.

Antonio Candido ressalta a importância da forma, das palavras escolhidas e ajuntadas de tal ou qual maneira em um texto: “Quando digo que um texto me impressiona, quero dizer que ele impressiona porque a sua possibilidade de impressionar foi determinada pela ordenação recebida de quem o produziu.

Em palavras usuais: o conteúdo só atua por causa da forma, e a forma traz em si, virtualmente, uma capacidade de humanizar devido à coerência mental que pressupõe e que sugere.”

Assim, a sensação agradável e divertida de conhecer uma história, seu enredo, como a oferecida por uma telenovela, por exemplo, é bastante distinta do prazer vislumbrado no pacto entre um leitor e o texto. Ler e encontrar prazer na leitura pressupõem disposição para o trabalho intelectual: em primeiro lugar, é preciso decidir ler e encontrar tempo e condições para isso. Depois, são necessárias as habilidades linguísticas para decifrar o código e transformá-lo em conteúdo. Junto a tudo isso, o conhecimento e o desvendamento das formas, inferências e analogias, conscientes e inconscientes, com outros conhecimentos, tempo de contemplação e reflexão, entre muitos outros fatores. Desse modo, a promessa de prazer feita pela leitura em nada se aproxima do lazer e do entretenimento, mas se traduz numa convocação ao exercício intelectual e num convite a questionamentos acerca da vida e do mundo.

A qual forma de ler nos referimos, no senso comum, quando dizemos que o brasileiro lê pouco? De que leitor falamos? O que esperamos de um país que lê?

A resposta, ou pelo menos um ensaio de resposta, a essa pergunta pode seguir por dois caminhos.

O primeiro deles diz respeito à leitura de caráter pragmático, que permite ao sujeito se mover na cidade, trabalhar, consumir lazer e entretenimento, comunicar-se pela escrita. É a habilidade medida, em maior ou menor complexidade, pelos indicadores e sistemas de avaliação educacionais. Esse leitor faz a engrenagem funcionar, atende às demandas da sociedade urbano-industrial e alimenta as estatísticas econômicas.

A segunda direção nos leva a um tipo de leitura que não se satisfaz no enfrentamento do cotidiano. A leitura como especulação da vida, como vislumbramento do mediato, exige um outro tipo de leitor e um universo mais ampliado de textos. Esse leitor não interessa ao sistema produtivo, pois carrega consigo a rebeldia, as angústias, os sonhos, os medos, a compaixão e todo o espanto de viver encontrados nas narrativas literárias, nos textos filosóficos e históricos, nas artes e na ciência. Esse leitor, mais que ler e escrever satisfatoriamente para resolver os problemas cotidianos, participa da cultura escrita e entende o que significa ler e também o que representa a privação desse direito. Ele não pode ser contado nas estatísticas, para além do que se avalia num viés pragmático da leitura, pois ainda não foram inventados indicadores para a intimidade e a liberdade, nas quais o leitor se constitui. Ainda não se criou uma fórmula ou uma equação que meçam o desejo pelo conhecimento.

 

Cidadania

É bastante comum, nos discursos sobre a importância da leitura e das bibliotecas, a justificativa de que a leitura ajuda na construção e no fortalecimento da cidadania. Não seria interessante pensarmos a questão de uma maneira invertida? Se considerarmos o desenvolvimento como uma ampliação de liberdades, como professa o prêmio Nobel de economia Amartya Sen, é a condição cidadã que nos permitirá ser mais leitores, mais formalmente educados para pensar o mundo para além do imediato e do possível. De outra maneira, num viés pragmático, nossos índices e práticas de leitura servirão apenas para alimentar e consolidar o que hoje temos. E o pior, a educação continuará sendo compreendida como meio, e não como fim.

 


* Texto publicado originalmente no Caderno “Pensar” do Jornal Estado de Minas, em 20/9/2014.