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Artigo de minha autoria publicado no suplemento dominical de Il Sole 24 Ore sobre uma descoberta que fiz sobre fontes de “Onde vivem os monstros”, de Sendak.

Em 2013, por ocasião do 50º aniversário da primeira publicação de Onde vivem os monstros, a editora Babalibri pediu a 50 ilustradores italianos que reinterpretassem, para uma exposição, as Criaturas Selvagens de Maurice Sendak. Encontrei-me, junto com meus colegas, observando, pela primeira vez com muita atenção, aqueles monstros. Eu os conhecia. Os havia encontrado no início da minha carreira de ilustradora; mas como eram as suas patas? E os olhos? Quem eram eles, exatamente? Quais fontes poderiam ter inspirado Sendak? 

Durante o trabalho preparatório para a minha mesa, fiz uma descoberta curiosa: os monstros de Sendak têm origens distantes e nobres em nossa própria terra. É possível que, na gênese das Criaturas Selvagens de Sendak, estivessem presentes a Quimera de Arezzo, as feras da Divina Comédia (a onça, a loba, o leão), o Minotauro e Cérbero, mas também o classicismo e as tonalidades rosadas de Piero della Francesca.

É verdade que seguir em retrospecto a árvore genealógica de um monstro quase sempre termina em terras gregas ou italianas, mas, no caso de Maurice Sendak, ilustrador culto e refinado apreciador da arte, essas referências não poderiam ser aleatórias.

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A divina comedia de William Blake e Onde vivem os monstros de Maurice Sendak.

 

Munida de entusiasmo e uma certa intrepidez epistemológica, em dezembro passado, levei a minha descoberta para a Biblioteca Nacional da França, durante dois dias de estudos e colóquios dedicados à obra de Sendak: Max et les maximonstres a 50 ans: réception et influence des oeuvres de Maurice Sendak en France et en Europe [50 anos de Max e os maximontros: recepção e influência das obras de Maurice Sendak na Franca e na Europa]. 

Entre outros autores de descobertas sobre as fontes exegéticas do livro, estavam presentes críticos, psicólogos, especialistas em literatura iídiche, tradutores, editores: fechar o círculo em torno do livro de Sendak parecia, para quem estava na sala, uma tarefa impossível. 

O amor de Sendak pelo Renascimento e pela arte italiana é conhecido, mas eu não tinha percebido, até o momento de redesenhar os seus monstros, o quanto ele estava presente no livro. Penso até que seja exatamente este classicismo, mesclado em doses alquímicas ao traço do quadrinho norte-americano, o que confere ao livro de Sendak um sabor inconfundível: nem dramático, nem alegre. Nem jocoso, nem sério. Uma ambiguidade insolúvel, talvez na raiz do sucesso atemporal da obra.

Uma página dupla lembra, pela atmosfera rosada do pôr do sol, pelo formato da cabana e pela posição adormecida dos personagens, O Sonho de Constantino, de Piero della Francesca. Mas, no lugar do soldado adormecido, no livro se vê um monstro com gestos estranhos, caricaturais. Um efeito que poderia ser cômico e não é – e que, ao contrário, no contexto épico e muito sério da aventura de Max, confere à cena uma nota suave.

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Onde vivem os montros de Maurice Sendak e Il sogno di Costantino de Piero della Francesca

A cabra montada no leão, que junto com os outros monstros dá as boas-vindas a Max na ilha, parece uma versão moderna da Quimera de Arezzo, o leão com dorso de cabra forjado em terra etrusca no século V a.C. O híbrido monstruoso torna-se, assim, passível de descomposição: menos arcaico, mais fácil de domar.

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No livro, encontramos até as feras da Divina Comédia, provavelmente chegadas a Sendak através das gravuras de William Blake, o célebre ilustrador inglês, que Sendak considerava o seu mestre supremo. (O último livro de Sendak, My Brother’s Book, publicado postumamente, é uma homenagem declarada ao poema Milton, de Blake).

Quando eu comparei algumas páginas de Onde vivem os monstros com as gravuras de Blake me pareceu impossível que as referências não fossem um tributo ao Inferno dantesco imaginado por Blake. O equilíbrio delicado das cores e das pinceladas de aquarela é quase idêntico. Assim como a forma de desenhar as folhas, os olhos amarelos, alguns monstros (ver o Grifo). Mas é a composição de algumas cenas que lembra de forma patente a Divina Comédia de Blake; por exemplo, aquela na qual os monstros cumprimentam (ou ameaçam devorar) Max da encosta. Também neste caso é a confecção caricatural de alguns detalhes do corpo dos monstros sendakianos que determinam a diferença de registro.

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A divina comedia de William Blake e Onde vivem os monstros de Maurice Sendak

 

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À esquerda Sendak e à direita Blake

Mas Sendak conhecia o texto da Divina comédia? Seria interessante descobrir qual edição da Divina comédia ilustrada por Blake possuía Sendak nos anos em que preparou Onde vivem os monstros, se tinha uma, e se esta conteria o texto integral. Blake morreu antes de terminar as ilustrações e não viu as próprias gravuras com os versos de Dante.

O gesto de Max de amansar as Criaturas Selvagens olhando fixamente em seus olhos amarelos me lembrou o de Virgílio, quando magicamente acalma as três cabeças vorazes do Cérbero no Canto VI da Divina Comédia. É uma coincidência que este canto seja aquele que recebe os “gulosos”, aqueles que não sabem se controlar na qualidade e na quantidade do alimento, tal como Max, que quer devorar tudo e termina sem o jantar?

 

 “Tinha os olhos vermelhos, a barba untada e atra, / o ventre largo e garras / que arranham os espíritos, e esfolam e esquartejam.” (Dante, Inferno, Canto VI).

Os olhos das Criaturas de Sendak são amarelos, não vermelhos, mas pensar na jornada de Max como uma jornada na floresta selvagem de Hades, incluindo a travessia do Estige, é tentador. Uma viagem iniciática, onde, entre as Criaturas Selvagens que Max deve domar, existe também a ideia da morte. O sarcófago de pedra de estilo renascentista do qual sai um dos monstros – que eu não havia notado antes de associar o Inferno de Blake ao livro de Sendak – reforça a sensação aterradora que eu sempre experimentei observando as imagens.

 

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A divina comedia de William Blake e Onde vivem os Monstros de Maurice Sendak

 

A viagem de Max é uma viagem iniciática e épica contra as forças subterrâneas mais obscuras. Contra aquelas “coisas selvagens” que, como os leões e os dragões dos mapas antigos, vivem onde termina o mundo que nós conhecemos. Mas o barco sobre o qual ele viaja é de papel, assim como as esquisitas criaturas que ele encontra, com seus pés grandes, jubas leoninas, bocas largas, garras inofensivas. Talvez Sendak quisesse convidar a todos a não terem medo de partir.

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Onde vivem os monstros de Maurice Sendak e A divina comedia de William Blake

 

+ Documentario da Tate Modern onde ele fala de seu amor por  W. Blake:

 


© Il Sole24ore, 27 de abril de 2014. As imagens foram publicadas apenas no blog Le Figuri del Libri em 28 de abril de 2014. Depois de meses de tentativas infrutíferas de obter dos advogados de Sendak (que detêm seus direitos mundiais) a permissão de reproduzir as imagens do mestre, o artigo saiu sem as ilustrações. Decidi então postá-lo no blog completo com todas as imagens. Estudar as fontes que inspiraram Sendak não diminui a magnitude da obra; ao contrário, demonstra a imensa riqueza cultural que permeia cada traço e cada linha da sua obra-prima atemporal.


TRADUÇÃO CAROLINA PEZZONI / IMAGEM WILLIAM BLAKE