“Vou a Espantapájaros1 para morder crianças”, anunciou Elisa, uma menina de dois anos, a sua assustada mãe. Se vocês estão supondo que se trata de uma frase inventada para começar algum conto, se equivocam. Elisa é uma menina absolutamente real, e a cena aconteceu quando sua mãe estava preparando sua lancheira para retornar à escola, depois das férias. Claro, a mãe ficou preocupadíssima e me telefonou algumas horas depois para perguntar como sua filha estava se comportando. Quando lhe respondi que estava muito bem, (que tinha brincado feliz com as bonecas, preparado comidinhas e corrido com seus amigos) não parecia convencida, e então me contou a história. Certamente, Elisa havia mordido uma ou outra bochecha rosada de seus companheiros quando era menor  – quer dizer no semestre anterior – mas isso já era coisa do passado. Agora usava sua linguagem cada vez mais conotativa, rica e versátil, para treinar-se em “fazer de conta”. Se anunciou suas intenções para preocupar a mãe, para expressar a ansiedade do primeiro dia de aula, para exercer algum controle sobre sus instintos, para dar rédea solta a sua imaginação ou para todos os fins anteriores, ninguém poderia assegurar com certeza. Mas coloco em pauta a anedota, como prova irrefutável da coexistência desses dois planos – fantasia e realidade – nos quais nos movemos, sem limites tão definidos nem tão estritos, desde a mais tenra infância.

Digamos que por razões de ofício estou familiarizada tanto à literatura como às crianças, e talvez seja o fato de mover-me nesses âmbitos o que tenha me vacinado contra a tentação de ser simplesmente uma “pessoa sensata”. Apesar de que muitas vezes, e por questões de sobrevivência adulta, devo ter os pés muito bem colocados sobre a terra, sinto que minha vida seria incompleta – além de estéril e aborrecidíssima – sem essa outra dimensão: a mesma que leva Elisa a dizer aquela frase, ou a que leva Silvana a dizer em tom de gozação, quando lhe perguntam sua idade, “tenho dois anos… e medo…¡buuu!”.

No fundo, o germe de toda criação humana – atenção, porque não me refiro somente à criação artística – é esse jogo, sempre transgressor, sempre renovado e recém descoberto entre o real e o fantástico. Como as crianças, quando preparam comida invisível em pratos diminutos de brinquedo e se alimentam desses pratos que nós não vemos, o mundo e todos seus inventos foram construídos mediante esse movimento perpétuo de vaivém entre o visível e o invisível; entre o dado e o possível. Pensem, por exemplo, em algo tão habitual e ao mesmo tempo tão misterioso como a Internet. Que nossos filhos nos digam que estavam falando com um amigo em Tóquio e que os continuemos vendo ao nosso lado, sem terem saído de casa, parece um ato de magia e, contudo, é parte de sua realidade cotidiana, impensável uns anos atrás.

Onde se fundem os cabos invisíveis dessa realidade; como chegamos a isso; que outros mundos possíveis seguiremos descobrindo? A criatividade humana parece infinita, como o horizonte que vai se distanciando, a medida que caminhamos. Resulta impossível atrever-se a predizer quais serão os novos produtos. O que parece uma constante é esse “aperto de parafusos” que leva os seres humanos a enriquecer a realidade mais do que incentivar a fantasia. Um conto, uma novela, uma nave espacial, uma sinfonia, uma ponte suspensa sobre o mar, um castelo de areia ou uma construção de lego compartilham essa arquitetura erigida a meio caminho entre o tangível e o intangível, entre o real e o sonhado.

Apesar de que o mundo atual parece movido por semelhante alento fantástico tão próximo do “fazer de conta” infantil, a educação parece não ter tomado consciência disso. Submetam, se têm dúvidas, os currículos ou as referências de qualquer área – linguagem, matemáticas, ciências –  a uma prova simples: valendo-se de um processador de palavras, peçam a seus computadores que “busquem palavras” pertencentes a famílias como “inventar”, “criar”, “imaginar”, “transformar”, “brincar”, “fantasia”, “fantástico”, etc., nos documentos curriculares. Podem ir mais longe e valer-se da estatística para contar quantos “identificar” ou “reconhecer” há para cada “inventar” ou quantos “analisar” há para cada “criar”, e no âmbito específico de a literatura, quantos “expressar nossas ideias” há em comparação com os “sintetizar as ideias de outros”. Não é que eu pretenda negar o aporte do “dado” para construir o “possível” – ao contrário, todo o tempo me referi a essa tensão permanente entre o conhecido e o por conhecer – pretendo, simplesmente, sublinhar esse desequilíbrio que persiste como leit motiv da educação e que nos treina para ser mais receptores que produtores, mais repetidores que transformadores.

Com a ingenuidade antiquada de que viveremos em um mundo previsível, estático e não neste, em que os conhecimentos se desatualizam com a velocidade com que se substitui um gravador por um mp3, nos ensinam a ser mais conformistas e menos imaginativos, como se sonhar, inventar ou criar fossem operações mentais reservadas a um punhado de gênios isolados e não necessidades vitais para aportar para a transformação deste mundo cada vez mais mutável e, por desgraça, cada vez mais nas mãos de uns poucos.

Daí que a proposta de ensinar literatura na escola, mas não como o exercício estéril de ler e sublinhar as ideias principais ou de identificar as sequências narrativas ou de repetir o que o autor quis dizer, e sim como a possibilidade de explorar mundos possíveis tanto fora, como dentro de nós, resulte mais urgente no mundo de hoje. As possibilidades interpretativas e a grande riqueza emocional e cognitiva que a ficção mobiliza proveem o substrato – como aqueles nutrientes invisíveis dos pratinhos das bonecas – para que cada ser humano desenvolva, desde o começo e ao longo das distintas etapas de a vida, alternativas ricas e diversas para seu crescimento contínuo como sujeito interpretativo, imaginativo, sensível, crítico e criador: autor e coautor  a um só tempo, em diálogo permanente com o dado e com o que cada pessoa tem para dizer.

Nesse “tempo outro”, construído com essas “coordenadas outras” da ficção, se inaugura a passagem a essa linguagem, também outra, que vai mais além do fático e que é a porta de entrada a esses reinos invisíveis nos quais se erguem o pensamento e a imaginação humanos. A ficção permite falar do ausente recorrendo ao presente e nos ajuda a iniciar o contato com as formas discursivas mais complexas, distintas da língua  do imediatismo. Para retomar o exemplo do começo, Elisa aos seus dois anos, já não tem que morder os seus amigos. A linguagem lhe permite “fazer de conta” que morderá; quer dizer, apertar os parafusos de seus instintos, graças ao mecanismo simbólico de anunciar em um “registro outro” o que não fará no âmbito do real. Mas o descobrimento desse “registro outro” como possibilidade decifradora, transformadora e catártica, não se dá por geração espontânea, e requer alimento permanente. E precisamente por isso, necessitamos trabalhar deliberadamente essas possibilidades de construção simbólica que a literatura e a expressão artística oferecem para o desenvolvimento da imaginação infantil.

Nas frases de Elisa ou nas de Silvana está presente esse jogo que testemunha seu incipiente contato com as  coordenadas “outras” da ficção e que as situou no amplo texto da cultura, para indicar-lhes como a linguagem permite transformar nossas pulsões e instintos. Continuar enriquecendo e alimentando esse desenvolvimento progressivo da linguagem – ou, melhor, “das linguagens”– mais além do fático, para que empreendam viagens cada vez mais distantes do aqui e do agora e para que se aventurem por lugares e tempos ignotos, seria o desafio para os educadores, não apenas destas meninas, mas de todas as nossas crianças.

Ou digamos com as palavras de Harold Bloom: “Uma criança a sós com seus livros é, para mim, a verdadeira imagem de uma felicidade potencial, de algo que sempre está a ponto de ser. Uma criança com talento utilizará uma história ou um poema maravilhosos para criar um companheiro. Esse amigo invisível não é uma fantasmagoria enferma, mas uma mente que aprende a exercitar todas suas faculdades. Quiçá seja também esse momento misterioso em que nasce um novo poeta, um novo narrador”.

“Uma mente que aprende a exercitar todas suas faculdades no exercício de inventar histórias e de inventar-se a si mesmo”. Talvez não existam palavras mais pertinentes para indicar o lugar da literatura na educação. Por isso, proponho desenvolver a imaginação e a fantasia, como faculdades por excelência para que todos nossos meninos e meninas comecem a participar da tarefa coletiva de decifrar, mas também de  reinterpretar e de transformar o mundo. Nesse movimento de vaivém entre o dado e o possível poderia situar-se o lugar da educação.

Notas

1 Espantapájaros é um projeto cultural de formação de leitores, dirigido não apenas as crianças, mas também a mediadores e adultos dirigido por Yolanda Reyes e situado em Bogotá, Colômbia. Instituto Espantapájaros.

 

TRADUÇÃO PAULA STELLA / IMAGEM BIBLIOTECA CASA NA ÁRVORE, SINGAPURA.