Comecemos pelo congresso Tools of Change for Publishing, o TOC. Foi o segundo ano de encontro em torno do livro digital infantil em Bolonha, assunto premente que reuniu no auditório 350 pessoas (100 a mais do que no ano passado) interessadas em respostas e definições. Em comparação a 2011, as novidades são poucas. Dos palestrantes às discussões, pouco se avançou em termos de respostas para algumas das questões centrais, como divulgação, definição do preço e, o que é mais fundamental, algum consenso sobre o que, afinal, deve ser esse livro.

O que se viu foram vários exemplos dos mais diversos formatos de experimentações em torno do universo, cada vez mais amplo, chamado de livro infantil digital. Na verdade, o leque se abre e nele cabem desde simples animações de livros, games, puros desenhos animados, até narrações interativas – uma infinidade de “testes”, sendo que, na maioria das vezes, fica difícil identificar o livro e, principalmente, tudo o que até hoje constituiu a base de uma experiência leitora. A palavra de ordem é a de que é nisso que reside o futuro do livro e da leitura.

Sem querer me contrapor às tendências, já mais do que delineadas, gostaria apenas de reiterar a impressão de que continuamos apenas no início de um longo caminho. Para as grandes corporações que estão de fato investindo em novos formatos, a ideia da experimentação – da necessidade de abrir e explorar novos caminhos, sem uma preocupação imediata com os resultados – é bastante clara. O investimento é muito alto, as plataformas são diversas, as atualizações constantes. Para alguns, pegar carona na era digital e no livro infantil significa renovar o mercado em cima de produtos já existentes – basta pensar em alguns produtos da Disney ou em grandes licenças, que no meio de toda a gama de variedades colocam o livro como mais um item entre seus produtos, algo novo que talvez ajude a fazer a diferença de seu produto no mercado. Dentro do quadro de incertezas e indefinições, as experiências digitais com vocação educativa apresentam resultados mais palpáveis e revelam um universo de possibilidades efetivas e promissoras.

Uma rápida sondagem entre alguns participantes, depois do encontro, deixou clara a insatisfação de muitos diante da expectativa frustrada de ver questões práticas resolvidas e modelos de negócios desenhados. Tudo indica que os avanços efetivos em torno do livro digital infantil serão mais lentos que as demandas de crescimento do mercado. Porém, algumas intervenções, ao contrário do ano passado, se esforçaram em trazer para a realidade alguns dados que dão uma dimensão mais concreta da extensão e da natureza do livro digital infantil.

 

Bolonha Book Fair 2012

Bolonha/entrada
© Thais Caramico

Talvez seja uma certa “acomodação” imposta pela forte crise europeia que – ao contrário do ano passado, quando muitos foram pegos de surpresa – fez recobrar um certo otimismo à Feira. Se não fosse pela redução de dois pavilhões e por alguns espaços vazios transformados em pequenas salas, nos anos anteriores ocupados por stands, talvez não ficassem tão evidentes os sinais da crise no mundo editorial. Porém, como no ano passado, muitos editores reduziram os dias de sua presença na feira, assim como o número de seus representantes. Alguns chegaram a dividir stands com mais editoras ou nem alugar.

No entanto, o mais incrível foi verificar como os opostos são colocados em evidência durante uma crise. Assim como também não houve muito espaço para o meio-termo. Numa feira em que as novidades e os projetos mais ousados puderam ser contados nos dedos de uma mão, duas coisas chamaram a atenção: de um lado, a forte presença de projetos comerciais; de outro, o sucesso de algumas editoras médias e pequenas, cujos catálogos vêm pautados por investimento em qualidade gráfica e literária.

O Brasil, mais uma vez, se destacou pelo seu stand e pela forte presença de autores, editores e ilustradores. Continuamos sendo a porta de entrada e o cartão de visita da América Latina. Dizer que o mundo olha para nós deixou de ser uma força de expressão. Em sete anos de Bolonha, foi a primeira vez em que testemunhei o interesse real de vários editores pela produção editorial brasileira. Quem pôde observar a movimentação nos stands, tanto no da FNLIJ como no das editoras, promovido pela CBL, percebeu a movimentação constante e o forte interesse despertado pelos livros lá expostos. Para vários autores e ilustradores que investiram na ida a Bolonha, a viagem valeu a pena e o resultado é o seguinte: a volta com perspectivas bem avançadas de futuros negócios.

Portugal, o país homenageado, nos brindou com uma exposição de ilustradores com muitas boas surpresas e algumas pequenas editoras novas que prometem. Comparado aos anos anteriores, me pareceu que havia menos jovens ilustradores pelos corredores e que o mural onde eles deixam seus contatos não ficou tão tomado. Provavelmente, este é mais um sinal da crise, assim como a desigualdade entre os expositores da mostra oficial dos ilustradores, uma das mais fracas dos últimos anos. Bolonha 2012 reitera a importância do álbum ilustrado como o suporte mais favorável à experimentação e ao diálogo cada vez mais rico, feito da união entre texto e imagem.

Bolonha/estade Tangerina
© Thais Caramico
É visível como o cuidado com a qualidade se afirma como uma estratégia entre as editoras de maior destaque. Menos é mais, num mercado onde a produção descartável dá o tom também na edição do livro para crianças e jovens num mundo globalizado. Uma feira num mundo assolado pela crise, que pontua a importância da qualidade e do conteúdo, e que impõe prudência e economia nas escolhas – o que não é pouco para um mercado orientado pelo descartável e pelas novidades. Já fechando a agenda para 2013, preparem-se! De 25 a 28 de março, vale a pena a ida e a torcida, pois o Brasil deverá apresentar seu programa para 2014 quando será, pela segunda vez, país homenageado.

Dolores e Thais em Bolonha

Cena típica na Feira de Bolonha: Thais Caramico seguindo os passos apressados de Dolores Prades. Por Daniel Kondo.