Autor: Constantino Bértolo
Tradução: Carolina Tarrio
Editora: Livros da Matriz – Coleção Emília
Ano: 2014
Páginas: 240

 

O banquete dos notáveis – sobre leitura e crítica, de Constantino Bértolo,  inaugura a Coleção Emília publicada pela editora Livros da Matriz. O livro foi lançado no Seminário Conversas ao Pé da Página 2014, que contou com a presença do autor em dois momentos distintos. Bértolo compôs a mesa “Muitas leituras, muitos leitores – discutindo paradigmas”, ao lado de Carlos Alberto Gianotti e participou das Conversas Paralelas realizadas na Biblioteca Municipal Monteiro Lobato. Simultaneamente, a Revista Emília publicou uma entrevista com o autor, realizada por Dolores Prades.

O livro foi editado originalmente na Espanha, em 2008, e resgatar o contexto da publicação no Brasil é importante por várias razões. Primeiro, para ser coerente com a própria ideia de relevância editorial defendida pelo autor; segundo, para situar o leitor diante desta publicação que nasce de uma demanda legítima: “zelar por uma saúde pública semântica”, nas palavras do próprio Bértolo.

No que diz respeito a relevância editorial, O banquete dos notáveis aprofunda e questiona o papel político da leitura e da crítica, entendendo a literatura como pacto de responsabilidade inserido num contexto econômico, social e cultural. Voz dissonante dos discursos que enaltecem de forma generalista e ingênua o suposto papel redentor da leitura, Bértolo deixa claro seu pensamento marxista, posicionando-se de maneira crítica:

“Esse pacto exige uma situação de igualdade, de comunidade, que está muito longe de se produzir no quadro das relações sociais existentes nas sociedades deslocadas pela luta de classes, pela divisão do trabalho e por um individualismo ideológico e econômico que não contempla outra ideia de bem comum que não seja a soma de interesses privados.” (p.122)

Nas páginas finais do livro, o autor faz questão de confessar ao leitor que o tom pessimista de seu discurso não é sinônimo de derrotismo. Sua lucidez ácida não o cega e sua generosidade intelectual indica luz no fim do túnel: “O difícil é saber quem é o inimigo e não esquecê-lo. Precisamente, para não esquecê-lo, para lembrá-lo, para que nos seja lembrado, precisamos não ficar sozinhos, precisamos nos organizar. A partir de que lugar? O mais longe possível do inimigo.” (p.237)

Já no que diz respeito ao “zêlo por uma saúde pública semântica”, conceitos e termos usados largamente nos discursos atuais que “promovem” a leitura – comunidade, leitura individual e compartilhada, experiência coletiva – são revistos pelo autor, à luz de referências clássicas como Freud, Ortega y Gasset, Eric Hobsbawn, Pierre Bourdieu, Terry Eagleton, incluindo ainda pensadores contemporâneos menos conhecidos por aqui, como os espanhóis Emilio Lledó e Juan Carlos Rodríguez. As inúmeras e explicativas notas de rodapé do editor ajudam a tornar mais acessível esse vasto embasamento teórico.

Nas palavras do próprio autor, os oito capítulos do livro refletem principalmente sobre três chaves que envolvem o entendimento da atividade literária à qual ele se dedica há anos, como editor e crítico: a escrita, a leitura e a crítica – com destaque para a ficção narrativa. Os quatro primeiros capítulos tratam a escrita e a leitura de forma articulada. O primeiro, intitulado “A doença de ler”, apresenta diferentes perfis leitores tomando como referência personagens literários específicos – Emma Bovary, Martin Éden e Naneferkaptah. A partir desta análise, Bértolo retoma o conceito de pacto de leitura, inserindo na já conhecida relação entre o texto e o leitor, um terceiro elemento – o contexto social. No capítulo “A operação de ler”, o autor apresenta o que chama de “geologia da leitura”, desmembrando em quatro principais níveis o processo ocorrido durante a leitura literária: o textual, o autobiográfico, o metaliterário e o ideológico. Bértolo dá a esse processo constituinte do leitor o nome de “urdidura” ou trama leitora, resultado da soma destes quatro planos.

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Ilustração: David Plunckert

 

O capítulo seguinte, “O Deus leitor e outros leitores” apresenta uma tipologia de leituras definidas de acordo com a qualidade de cada “trama leitora”. Embora separe didaticamente os tipos de leitura, Bértolo enfatiza o caráter multidialógico da operação de ler. Resumidamente, os tipos que apresenta são: a leitura adolescente, na qual o leitor tende a projetar sua própria imagem sobre a narração; a leitura inocente, passiva diante do texto e alienada diante do contexto; a leitura sectária, na qual prevalece o sectarismo, ou seja, o nível ideológico monopoliza o multidiálogo; a leitura “letraferida”, na qual o “eu literário” do leitor se funde com o texto, hipertrofiando o elemento metaliterário; a leitura civil, na qual o leitor, implicado ativamente em seu contexto social, cultural e político, transforma o processo de leitura num mecanismo dinâmico, intenso e fértil; e, por fim, a leitura do crítico, que se diferencia do leitor comum uma vez que seu discurso é público, sobre textos públicos, o que implica uma responsabilidade também pública. Segundo Bértolo, o leitor crítico lê sua leitura e deve saber a partir de que trama leitora leu. Vale ressaltar que ao término deste capítulo o autor coloca-se humildemente diante da impossibilidade de realizar uma reflexão conclusiva sobre estes tipos de leitura: “a leitura, enquanto modo de relação com a realidade, apresenta um rosto dialético (…) Um processo apaixonante no qual ninguém, nem nada detém a última palavra.” (p.93)

O quarto capítulo, “A soberba de escrever” discute a responsabilidade do narrador numa comunidade democrática, a partir do conceito de bem comum. Bértolo analisa tipos diferentes de narrador, novamente partindo da relação que algumas personagens literárias estabelecem com a leitura e discorre principalmente sobre dois tipos: o narrador camaleão que muda suas estratégias discursivas de acordo com o destinatário e o narrador desonesto, que não se comporta democraticamente frente ao leitor. É neste capítulo ainda, que o autor apresenta o importante conceito de pacto de responsabilidade, já mencionado anteriormente, analisando a ideologia dominante em algumas estratégias de escrita, como por exemplo, a sedução – “já não se trata de que alguém queira seduzir, mas de que todos querem ser seduzidos, sem que a base falsa ou ardilosa sobre a qual possa estar construída a sedução origine reclamação alguma” – e a relação entre a obra e o prestígio do autor – “os autores descobrem que a chave de sua capacidade para serem ouvidos reside de maneira primordial no prestígio de sua marca como autor, o que os obriga a submeter a sua identidade pública às regras midiáticas.” (p.124)

É a partir do quinto capítulo, “O lugar da crítica”, que Bértolo passa a refletir sobre a crítica literária na sociedade de consumo e sobre as funções que o crítico pode assumir nesse contexto. É também nestes capítulos finais que seu discurso torna-se ainda mais enfático, assumindo contornos radicais ao discutir a relação entre o poder e as palavras. O importante conceito de comunidade, esvaziado demagogicamente nos discursos sobre leitura na contemporaneidade, é definido pelo autor neste capítulo: “entendo por comunidade um conjunto de pessoas que não só vivem em comum, mas que participam ativamente de uma mesma visão de suas vidas e compartilham, portanto, uma escala de valores.” (p.130)

Bértolo avança neste conceito, discutindo-o também do ponto de vista literário. Para isso, retoma historicamente a passagem da leitura oral para a escrita e o nascimento da crítica, em oposição às monarquias absolutas, “como um questionamento das palavras de poder”. Passa, a seguir, para uma análise da relação entre crítica e mercado, estendendo-a para uma reflexão sobre as mercadorias “artísticas”, dentre as quais se pode incluir um certo tipo de crítica literária. Se analisa a crítica, o livro e a literatura como mercadorias, nada mais coerente do que pensar no editor dentro deste contexto.

O autor reclama a existência de ao menos três tipos de editores: o humanista, aquele que tem os meios para produzir livros e está disposto a gastá-lo em sua publicação; o híbrido entre humanista e capitalista, cujo critério de seleção na aquisição de direitos de publicação compreende considerações de ordem econômica, mas também elementos não econômicos, como o desejo de que chegue ao público um texto que julgue importante e o capitalista selvagem, aquele que, para sobreviver como editor, gera lucros suficientes para manter o seu capital, entendendo por suficientes aquilo que lhe permita resistir à concorrência. Paralelamente a estes tipos de editor, Bértolo apresenta também três categorias de críticos: os catadores, que legitimam seus juízos nos próprios gostos, quase sempre coincidindo com o gosto dominante; os guardiões, escassos, possuem certa visão metafísica da literatura, sólida bagagem técnica e recorrem a uma linguagem objetiva, enfática e categórica; e por fim, os tribunos, que desenvolvem uma crítica política, no sentido aristotélico do termo, e enquadram os textos literários no contexto inevitável e geral da vida comum. Segundo Bértolo, atualmente, traços dessas três categorias se cruzam na prática cotidiana prevalecendo posições próximas às que ocupa a publicidade: “o marketing como poética”.

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Ilustração: Mimi Kirchner

 

Dos três últimos capítulos que seguem aprofundando a discussão sobre as possibilidades e impossibilidades da crítica literária na atualidade, com exemplos extraídos da imprensa espanhola e um discurso com alta voltagem argumentativa, vale destacar o que dá título ao livro, “O Banquete dos notáveis”. É neste capítulo que o leitor vence qualquer possível estranhamento causado pelo título. Trata-se de uma menção a um trecho da novela escrita em 1886, The Mayor of Casterbridge, pelo romancista e poeta inglês Thomas Hardy (não traduzida no Brasil). Nesta obra, o personagem Henchard é um humilde arrendatário de terras que se torna, por meio de seus negócios, poderoso comerciante de grãos, ascendendo velozmente até ser nomeado prefeito do município. A cena que dá título ao livro de Bértolo narra um grande banquete público para o qual não foi convidado o público, mas no qual costuma se deixar os portões abertos para que todos possam ver e escutar o que ali se passa. Essa simples descrição já seria suficiente para entender a metáfora do “banquete dos notáveis”, associando-a às inúmeras situações de desigualdade social que imperam nas sociedades capitalistas.

Mas há neste jantar uma peculiaridade que vale mencionar para que não restem dúvidas ao leitor de onde as reflexões propostas por Bértolo podem chegar. Em determinado momento da ceia, o poderoso Henchard se levanta e começa a discursar diante dos convidados, narrando uma anedota pessoal na qual se dera bem. Todos gargalham relaxadamente até que a voz de um sujeito sentado na ponta oposta da cabeceira da mesa, onde ficava o grupo dos pequenos comerciantes, de nível social mais baixo, interpela Henchard com uma pergunta inesperada: “Tudo está muito bem! Mas o que acontece com o pão, que está ruim?”. Sua fala ecoa justamente no público externo, que participa apenas como ouvinte, e passa a entoar em coro e sem constrangimentos, inúmeras cobranças ao senhor prefeito. Sem exatamente se antepôr à anedota insignificante compartilhada por Henchard com os convidados, o sujeito da ponta da mesa desloca o discurso para um outro eixo, já presente de forma subliminar: a má qualidade do que se oferece ao público.

Bértolo explica a escolha – genial – da metáfora que dá nome ao livro e sela com seu público leitor, de modo íntegro e coerente, o pacto de responsabilidade que defendeu, do início ao fim: A cena da novela de Hardy propõe e exemplifica o espaço próprio da narração crítica: o colocar em dúvida a legitimação das narrações alienantes, ao mesmo tempo em que, narrativamente, esclarece o lugar da crítica – questionar em público, a partir do público e do que é público, o discurso do poder.” (p.174)