Malika Favre

 

Recentemente tive a oportunidade de trabalhar em uma feira de livros vendendo diretamente a pais, mães, avós, avós, tios (e crianças). Foi muito estimulante comprovar como os pais podem encorajar seus filhos nas leituras, mas também – muitas vezes – a experiência de comprar livros com as crianças pode se transformar em um pequeno drama. Diferentemente de quando se vai a uma biblioteca, em uma feira de livros, há mais coisas em jogo: orçamento, dinheiro, escolher diante de tantas e variadas ofertas (às vezes é difícil de controlar os desejos de uma criança, a quem afeta, sobremaneira, a publicidade e os modismos), ver muitos livros em um dia. Contudo, a compra de livros – e já vamos falando disso – ajuda a formar uma biblioteca pessoal, ajuda nas boas memórias, e dá suporte a uma indústria cultural que permite ter livros de qualidade. Já demos outros conselhos a bibliotecários e professores, assim, nos animamos agora a dar ideias aos pais, avós, tios etc. Apresentamos oito ideias para fazer bibliófilos. Estas ideias foram inspiradas nos momentos da feira em que todos franzíamos a testa e olhávamos para outro lado.

 

1. Colecionar é bom. Quantos de nós se lembra dessa pequena biblioteca doméstica a que recorríamos em momentos de tristeza ou para buscar um pouco de sossego? Muitos adultos guardaram com carinho esses livros tão queridos para compartilhá-los com seus filhos. Os livros podem ser lidos muitas vezes e é um prazer encontrar histórias amadas quando alguém precisa. Por isso me incomodou muito quando uma criança se agarrava com paixão a um livro e escutava: “Esse não, porque você já tem ele na escola”.

 

2. Ser generoso, também. Vamos a uma feira de livros? Então, temos que quebrar o cofrinho. Se vamos visitar uma feira com mais de 300 stands, temos que levar dinheiro suficiente para gastar e não provocar tensão na hora de comprar. E isso pode ser feito porque as feiras ocorrem uma vez por ano. Pode-se estabelecer uma quantidade razoável para que as crianças comprem quatro ou cinco livros e voltem para casa felizes, com as sacolas, marca páginas e presentinhos. É fácil se, desde o começo, for negociada a quantidade e todos tiverem claros os limites. Por isso, me incomodou muito escutar: “Escolhe bem, porque vamos comprar só um”.

 


Aleks Senwald

 

3. Repetir não é ruim. Nas feiras, muitas crianças encontram livros que já leram em algum momento e preferem escolher essas leituras “seguras”. A cara de emoção, prazer, felicidade e alegria é indescritível, pois representa um momento de conexão entre a vida real (a rua) e a obrigação (escolar). Um livro que leram na escola, na biblioteca ou em alguma roda de leitura, que gostaram e que encontram expostos, produz uma grande alegria. Ter o livro de que tanto gostou é quase um prêmio. Por isso, me incomodou ouvir: “Esse não, porque você já leu”.

 


Maria Luisa Torcida

 

4. Os livros devem ser tocados. Sim! Os livros devem ser abertos, observados, apreciados, vistos e revistos antes de pegar o dinheiro da carteira para pagar. Se não for assim, como fazemos? Foi uma delícia ver os pais que ajudavam seus filhos a passar as páginas, ou crianças que, apesar da pouca idade, eram muito conscientes do momento de “pegar e ler”. Mas sempre me deu tristeza escutar esta frase: “Não se deve mexer nos livros”, porque o que ela realmente queria dizer é: “não vamos comprar nada”.

 

5. Às vezes, as crianças escolhem. É bom que as crianças aprendam a organizar suas compras. Como todas as pessoas, algumas vezes gastarão seu dinheiro melhor, também comprarão por impulso e, às vezes, pensarão sobre o que compraram. Gastar bem se aprende gastando e as crianças têm o direito de errar. Por isso me incomodou (ainda bem que só escutei isso uma vez) esta frase, que levou o menino a desordenar seus modestos critérios: “Querido, vamos comprar o livro que você quiser, mas este não”.

 

6. Às vezes, os adultos escolhem. Como as crianças não conhecem todas as ofertas, nem as demandas, é bom escolher por eles. Nós lemos jornais, revistas especializadas, escutamos as recomendações de outros pais e, o que é mais importante: em uma feira, temos pouquíssimo tempo para folhear e ler rapidamente muitos livros. Escolha os que gostam para que a seleção das crianças seja complementada pela dos adultos. Leve em consideração que, até certa idade, é muito difícil para as crianças decidir sobre as coisas. Por isso me incomodou escutar (com muita frequência) dos pais que diziam às crianças de dois anos ou menos: “Pode escolher o que quiser”.

 


Claire Elsom

 

7. As regressões não são ruins. Muitas crianças que estão aprendendo a ler experimentam momentos de desânimo e precisam de leituras mais sensíveis. Sobretudo quando é um livro de presente: procuram os ilustrados, que prometem ser mais fáceis e que os levam a momentos mais felizes. Os adultos também devem atuar aí. Quando estamos cansados ou fazemos uma longa viagem, tendemos a leituras mais sensíveis e rápidas. Por que negar isso às crianças? Nada vai acontecer se lerem algo que está abaixo de seu nível. Por isso me incomodou muito ouvir três versões de uma mesma inquietação: “Esses são para crianças menores que você”, ou: “Este tem pouco texto para você”, ou ainda: “Este tem muitos desenhos”.

 

8. Comprar é um prazer. Sim, sobretudo comprar livros. Se você for com esse espírito a uma feira de livros, será excelente, pois aprenderá a saber de que seus filhos gostam, conversar sobre os livros por sua aparência, descobrirá livros novos, e voltarão para casa carregados de sacolas que não darão peso na consciência. O melhor momento da feira (quem viveu isso foi uma amiga e não eu) foi quando uma senhora se aproximou com seu neto de quatro anos. O menino escolheu um livro, com total liberdade e prazer. Quando foram pagar, o pequeno disse: “Isto é um vício, vovó! Um vício”!

 


* Texto publicado originalmente no blog da autora, no dia 17 de junho de 2014.

 


 

TRADUÇÃO: THAIS ALBIERI / IMAGEM Claire Elsom