Reflito sobre as coisas, não com amplitude senão com toda a profundidade de que sou capaz (…). Vario quando me convém e me entrego à dúvida e à incerteza, e a minha maneira habitual é a ignorância.
Michel de Montaigne

Marguerite Yourcenar, de origem belga, considerada a mais célebre escritora contemporânea de língua francesa, cuja vida e obra é um reflexo lúcido e estarrecedor de nossa época, poucos meses antes da sua morte, expressou em uma entrevista que concedeu a Matthieu Galey:

Digo com frequência que se não aceitássemos, durante gerações, ver os animais asfixiar-se nas jaulas ou quebrar as patas, como acontece com tantas vacas e cavalos, enviados ao matadouro em condições absolutamente desumanas, ninguém, nem mesmo os soldados encarregados de escoltá-los, teriam suportado os vagões fechados dos anos 1940-1945. Se fomos capazes de escutar os uivos dos animais caçados em uma armadilha (sempre por causa de suas peles) e roendo as patas para tentar escapar, prestaríamos mais atenção na imensa e irrisória angústia dos presos de direito comum, irrisória porque vai contra o objetivo, que seria a de melhorá-los, reeducá-los, fazer deles seres humanos.
Quando, diante das esplêndidas cores do outono, vejo um indivíduo envolvido em sua roupa térmica e impermeável, com sua dose de whisky no bolso da calça e uma carabina com mira para ver melhor os animais, sair em seu carro, beirando um bosque, para não ter o trabalho de andar, e vai caçar para satisfazer seus desejos sanguinários trazendo, de noite, no capô do carro sua caça, digo que esse bom homem, talvez um bom marido, bom pai ou bom filho, se prepara, sem sabê-lo, para os “May Lia” do futuro. Em todo caso, já não é um homo sapiens.

Marguerite Yourcenar não faz rodeios e atribui aos seres pensantes: o direito de exercer um critério, valor em si, inerente e substancial ao ser humano singular o e ao sujeito de direito, ao cidadão que participa e se compromete com o destino de seu país. Ao humano que só existe em humanidade.

Porém, poucos ou muito poucos se preocupam em considerar a importância, tanto individual, como social, que traz consigo qualquer ato valorativo. Longe de incorporar a imprescindível carga de responsabilidade e rigor que deveria caracterizá-la, a valoração demanda um pensar, sentir e fazer perigosamente superficiais. Esquece-se com facilidade espantosa que qualquer ação valorativa exige uma tensão extrema de todas as faculdades intelectuais, emocionais e volitivas, concentradamente dirigidas ao encontro das essências, das infinitas qualidades e relações que caracterizam a atividade humana, com o objetivo de aprofundar seu conhecimento, para expô-las, não com o afã de sua diminuição ou engrandecimento, mas com o ânimo que, ponderadas adequadamente, se reconheçam o que são, tomem posse de seu equilíbrio e evidenciem que valorar não é assunto alheio ao juízo ou à justiça, mas que são parentes muito próximos, em primeiro grau de consanguinidade.

Um juízo de valor é, então – e por caráter transitivo – um critério a que se chega depois de investigar – com extrema diligência e cuidado – as causas, as consequências, as motivações ocultas ou explícitas do comportamento de um sujeito qualquer, de um acontecimento político, de um sofrer do mundo animal, vegetal ou industrial, de ser e de suceder a própria vida. Um juízo de valor, como mostra bem Yourcenar, entranha todo o interior e vai além.

Por isso, a autora não se limita a comentar sobre o horror dos vagões de 1940-1945, como também relaciona o fato com a indiferença culpável com a qual todos assistimos à agonia dos animais que, rumo ao matadouro, não têm outro fim que não alimentar a fome insaciável e indiscriminada que nos consome, e, por cuja satisfação estamos dispostos a pagar qualquer preço, até o de, voluntariamente, deixar de ver, ouvir, pensar, tomar partido, sentir compaixão. A alusão ao sofrimento animal que antecipa o sofrimento dos judeus rumo aos campos de concentração e às câmaras de gás é um alerta eloquente.

Yourcenar não admite que nos separemos de nossas obrigações humanas e, por fim, cidadãs. Sabe que a tácita decisão – que tomamos dia a dia – de não nos envolvermos – nos encaminha dolorosamente e sem que sequer nos atentemos – a conviver com um silêncio cúmplice, que debilita e nos condiciona a aceitar, já sem remorso, sem o benefício da dúvida, sem compromisso algum, os relatos inverossímeis, mas não menos cruéis, que dão conta de populações civis massacradas em lugares obscuros de nosso Planeta, em nome de ideais sem nome. Guerras preventivas são assim chamadas sem pudor algum, no lugar de guerras de rapinagem; danos colaterais, em lugar de genocídio; bom pai ou bom filho, clama Yourcenar, no lugar de assassinos frios e uniformizados mariners em May Lai.

A escritora vai além da denúncia e nos coloca no lugar do caçador, ávido por emoções primitivas fortes, que treina primeiro matando veados inocentes para depois, eficaz e também impunemente, assassinar crianças e velhos indefesos. Obriga-nos a encarar o cheiro insuportável dos vagões, a respirar a plenos pulmões o sabor do sangue do veado desgarrado e senti-lo correr, capô abaixo, até ofuscar o brilho de nossos sapatos.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano também vai além, quando descreve em O livro dos abraços uma curiosa atividade lúdica infantil que ocorreu em uma cidade norte-americana, mas que poderia muito bem acontecer em qualquer outra parte deste mundo “grande e alheio”, como nomeou o peruano Ciro de Alegría, por volta dos anos 40 do século passado, coincidentemente os mesmos anos dos vagões da Alemanha nazista:

Tracey Hill era uma criança do povoado de Connecticut, e se divertia com as brincadeiras próprias de sua idade, como qualquer outro anjo terno de Deus, no estado de Connecticut.
Um dia, com seus amigos de escola, Tracey começou a riscar fósforos e a incendiar formigueiros. Todos aproveitaram muito esse saudável divertimento infantil; mas Tracey ficou impressionada com algo que os demais não viram – ou fingiram que não viram – mas que a deixou paralisada e, para sempre na memória: diante do perigo, as formigas se separavam em pares de dois em dois, bem juntas, bem coladas e esperavam a morte.

Não devemos estranhar neste relato de Galeano – quase um conto curto, o que as crianças podem entender…? E por que não? – a intenção explícita na linguagem direta e clara de Yourcenar. Como a intenção de Galeano é outra, escolhe percorrer o caminho todo. Não lhe interessa expressar abertamente sua opinião, ainda que, claro, ela exista. Prefere, então, com um tom carregado da mais fina ironia, apresentar e qualificar como ingênuo e trivial o jogo infantil, que é o mesmo que acostumamos a fazer com os adultos.

Galeano não joga limpo, mas caímos por inércia em sua armadilha, porque ele nos conhece muito bem. Sabe que nosso espírito relaxará e, sossegado, tranquilo, ficará feliz de ver como “Tracey Hill se divertia com brincadeiras próprias de sua idade, como qualquer anjo de Deus”. Com essa artimanha, nos faz crer que está do nosso lado. Nos dá confiança e, como ela está em perigo, com um mínimo movimento de mãos, nos surpreende, muda o jogo, interrompe nossa cochilada e, quando estamos despertos, decide terminar o conto:

(…)Todos aproveitaram muito esse saudável divertimento infantil; mas Tracey ficou impressionada com algo que os demais não viram – ou fingiram que não viram – mas que a deixou paralisada e, para sempre na memória: diante do perigo, as formigas se separavam em pares de dois em dois, bem juntas, bem coladas e esperavam a morte.

Este é o momento em que o mago uruguaio nos abandona. Privados de sua companhia, só nos resta nos unir a Tracey Hill. Com um truque, nos obriga a nos colocar na pele da menina que é diferente: mais observadora, sensível, menos frouxa, já para sempre menos incoerente, para que andemos e desandemos em nossos caminhos em estado de alerta máximo, para que subamos ao final com bagagens leves, mas donos de nossas próprias cabeças, troncos e membros, de três em três, juntos, bem colados. Íntegros de corpo e alma porque a integridade também é um valor em si, dono e substancial ao ser humano singular e ao sujeito de direitos, ao cidadão que participa e se compromete com o destino de seu país. Ao humano que só o é em humanidade.

Até aqui lemos e refletimos juntos sobre os dois textos anteriores, como disse Montaigne “não como amplitude, mas com toda a profundidade de que somos capazes”, e extraímos conclusões, verdades, para cada um com quem compartilhamos e valoramos, a partir do que foi expresso por dois artistas – pensadores – fecundos e mais que reconhecidos, mas não fizemos como se os textos fossem literários, porque não são. Pelo menos não necessariamente.

Talvez, não nos propusemos avaliá-los nesse sentido. Lemos, simplesmente, e nesse ato de ler, não podemos nos desprender de, no mesmo ato leitor, submeter a juízo o que foi lido. Talvez não poderíamos deixar de fazê-lo. Talvez não seja possível ler determinados textos ou qualquer texto sem nos submeter a um acurado processo de valoração. Talvez ler seja também valorar. Talvez ambas as atividades essencialmente humanas estejam relacionadas como no mundo mecânico estão a porca e o parafuso.

De qualquer forma está bom o que fizemos, porque desde o início deste texto, concordamos com Montaigne que “íamos variar segundo o gosto e nos entregar à dúvida e à incerteza” e assumir como nossa “sua maneira habitual de ser e de se comportar, que é a ignorância”.

Diante da ignorância, uma pergunta é obrigatória: “seria ler um valor em si?” E outra mais peremptória ainda: “o que é ler”? Encontrar uma cifra que se aproxime das incontáveis definições que pululam ao seu redor e selecionar uma entre tantas, não é prático tampouco original. Então, exerçamos, sem grandes pretensões, nosso direito de continuar refletindo juntos; em consequência, proponho discutir minha resposta a tão controverso assunto.

Como em algumas ocasiões o que parece complexo pode ser simples, não seria incorreto, com o objetivo de baixar um pouco o tom de tantas especulações referidas sobre o ato de ler, comparar o processo leitor – ainda que fosse de forma muito epidérmica, geral e somente para melhorar a intelecção – com o processo de alimentação. Depois de tudo, se a luta é considerar ler um ato fundamental para a vida humana, é difícil encontrarmos outro processo de comparação mais vital que o de alimentar-se. Com esta comparação, obteremos uma vantagem considerável, que não se deve desprezar.

Enquanto existe um caos notável, uma evidente ladainha e uma discordância sobre o fato de se as pessoas leem ou não, com quem leem, com que frequência lê, quanto tempo se dedicam à leitura etc, sendo este etc quase infinito, existe absoluto consenso no que concerne à alimentação. Não há o mínimo acordo sobre o fato de se as pessoas leem ou não, ou quanto o ato leitor se esconde e quanto ele reproduz o mesmo sentido da vida, e, por conseguinte, se alguém o perde…Mas existe unanimidade de critérios quanto à importância da alimentação: todo mundo deve se alimentar e quem duvida disso, paga com a própria vida. É o processo de alimentar-se o que primeiramente nos aprisiona na sobrevivência e, gostando ou não, a ele se subordinam os demais.

A partir desta analogia, ainda que elementar, mas precisa e indiscutível, ler como processo participa, em essência, de eventos e momentos significativos muito similares aos da alimentação e, ainda que este ponto de vista possa parecer simples, muito do que ler significa para a vida humana se ilumina quando se contempla dessa perspectiva. Porque, por mais que se tente superá-los, os aspectos físico, emotivo e mental são inseparáveis e estão intimamente ligados.

O cérebro depende do resto do corpo, as células que o compõem são nutridas pelo sangue elaborado a partir dos alimentos que se ingere, não só do que se come, como também do que se bebe e, sobretudo, do que se respira. Esta verdade apenas é levada em consideração quando se pensa que a qualidade do sangue depende de como se digerem os alimentos, de como se metabolizam e se depuram os resíduos metabólicos produzidos.

A relação entre o mental e o emocional também é muito direta. No cérebro, de cima a baixo, estão bem definidas as três partes seguintes: a massa encefálica, que regula as funções vitais básicas (respiração, metabolismo e reações automáticas), o sistema límbico (tálamo), que regula as emoções; e o córtex e o neocórtex, que proporcionam as capacidades de memorizar e pensar, que equivale também a repensar, a aprofundar, refletir, apostar tudo quanto somos nesse desentranhamento do que inquieta e estimula nossa insaciável curiosidade, aquilo que não podemos deixar de julgar, ao que estamos – quem sabe se fatalmente ou não – predestinados a valorar por decreto da espécie.

O indivíduo, como sujeito da alimentação, seleciona (ou, no pior dos casos, o fazem por ele) o que vai comer, assim também, como sujeito leitor, escolhe seu “alimento”, qual o texto, a leitura, o conteúdo, o objeto de processamento, o que processa. Este “alimento” é o que se decodifica, se conhece enquanto leitura, se interpreta enquanto suas múltiplas sugestões e conotações, aquilo em que se encontra o sentido. Este é o objeto de valoração de que se aproveita e desfruta a partir de múltiplas arestas com diversa fruição. Com maior intensidade que depende de sua elaboração, como diz Amós Oz “de alguém capaz de criar uma nova palavra e fazer que se integre no sistema circulatório da língua”.

E assim como o texto escolhido, depois da leitura, decorrem múltiplos meandros dos sistemas físicos, mentais e emotivos. E é assim também que, nesse decorrer, o sujeito leitor, como uma integração, vai incorporando, de acordo com a qualidade e a natureza de seu próprio sistema processador – e segundo a qualidade e a natureza do conteúdo do processo -, cada um dos momentos que caracterizam, condicionam e integram o nível de assimilação dos “nutrientes” do texto, como ocorre com os nutrientes próprios do processo alimentar.

Se a analogia entre ambos os processos é válida, resultaria pertinente trazer a afirmação que faz em seu livro A dialética do cérebro, o neurobiólogo francês Jean-Marie Bourre: “comer mal atordoa” para, por simples transposição poder afirmar que “ler mal atordoa”. Trata-se do mesmo – aceitemos isso ou não – já que de nosso consentimento não depende a marca real, nem sua veracidade – que é o conteúdo que se processa – o processado – influi determinantemente nas características do processo em si, o aperfeiçoa e o faz qualitativamente mais produtivo o que, ao contrário, o deteriora até obrigá-lo a inverter seu signo e sua direção atuais.

Então, se ler é um valor em si, se ler é valorar, é imprescindível abordar obstáculos que se alçam a seu redor – desde que começaram a discutir isso no século XIX – e partir dos argumentos certeiros que expõem Luis Álvarez:

A meditação sobre os valores de uma exigência permanente, e não ocasional […] como costuma ocorrer quando se aborda um tema de tamanha complexidade […] termina por se chamar valor a qualquer elemento […] o primeiro aspecto que é necessário assumir é que os valores não são nem coisas, nem meras vivências, nem emblemas, nem lemas, nem essências […] os valores são assunto de profundidade de vida […] não existem por si mesmos, mas requerem uma entidade concreta – elemento da realidade, conduta humana, atitude individual ou social, obra realizada pelo ser humano –, da qual é portadora e seu modo de manifestação concreta […] são qualidades sempre associadas a um ente concreto, por isso falamos da integridade de uma pessoa, da qualidade estética de um filme, da utilidade de uma chave de fenda, do sentido humano de um professor. Enquanto qualidades de caráter especial, os valores são propriedades objetivas de uma entidade, mas que só cobram realidade através da percepção de um sujeito adequadamente formado para percebê-las.

Concordar com as indicações de Álvarez obriga a considerar que os valores são – antes de tudo – o resultado de uma relação dialética sujeito-objeto, que só existe e tem sentido em situações sociais concretas e que, por tal razão, como concebe Risieri Frondizi: “Se se denomina situação a cadeia de fatores e circunstância físicas, sociais, culturais e históricas, sustentamos que os valores têm existência e sentido somente no meio de uma situação concreta e determinada”.

Afirmar que “somente em uma situação concreta e determinada” há existência e sentido, o ato de ler nos motiva a ir além e pontuar: mais que uma situação concreta e determinada e, sem desconhecê-la, pode-se afirmar que se trata de uma atmosfera cultural determinada. Neste caso, o primeiro seria precisar que a cultura, no mundo de hoje, é um inegável assunto de leitura, ou seja, de compreensão ativa dos múltiplos subsistemas de signos que garantem o funcionamento dinâmico da própria cultura em si mesma. Considerar a leitura como o desafio principal da cultura significa, nesta ordem de coisas, ter uma compreensão mais clara da cultura contemporânea como microssistema de comunicação no qual o subsistema da comunicação por via dos textos escritos é fundamental.

Por isso, é tão difícil aceitar as ideias em voga, critérios prováveis a considerar que a leitura de textos escritos está ausente da vida contemporânea. Nas palavras que abrem “Minha leitora, meu leitor”, do livro de contos Rabo de estrelas e outras histórias loucas, Nilma Lacerda afirma: “Quando assisto à televisão, quando leio livros, jornais ou revistas, são as histórias o que primeiro vejo”.

Quando o ser cotidiano que somos lê os letreiros que traduzem ao espanhol, ao português ou à língua do receptor, os diálogos originais, em francês, do filme Intocáveis; quando os adolescentes leem em folhetos de divulgação científica as recomendações acerca dos benefícios do sexo seguro; ou o indígena da Amazônia soletra as primeiras letras do alfabeto, nem tanto por iniciativa própria, mas por conta de uma civilização predatória de suas origens e de seu hábitat, ler e não outra atividade que não seja essa é o que todos, sem exceção, realizam.

Quando um comerciante angustiado devorador de internet lê que está mais pobre por causa da queda do Iene; ou quando diante da preocupação com a chegada dos sessenta anos, decidimos seguir as instruções de um livro de autoajuda escrito por um guru, que garante que, através da meditação diária – e somente em noventa dias – está garantido o retorno à época de nossa anos felizes; ou quando uma mãe lê a receita da torta que pensa fazer para o almoço da família do domingo, ler não é outra atividade que não seja ler, e é a que todos, sem exceção, realizam, seguramente com a máxima atenção e cuidado. Verdade cotidiana e repetida de Pero Grullo, que intencionalmente se ignora.

Quando um estudante de Cambridge lê em seu tablete Dom Quixote, de Cervantes ou As elegias de Duino, de Rilke, O outono do patriarca, de García Márquez, A pedra lunar, de Collins, ou a vasta poesia de Carlos Drummond de Andrade, ler e não outra atividade que não seja ler, é a que se realiza, ainda que neste caso a leitura tenha outra conotação que a distingue das anteriores, porque estes textos pertencem ao universo literário e, conotativos por excelência, exigem outro nível, outra maneira de ler, mas que compartilha as essências dos atos anteriores enquanto processo leitor dependente das qualidades do processado – no último exemplo, que concerne à literatura, o escalão mais alto do ato de ler – isto é, do ato de ler em si. Verdade cotidiana e repetida de Pero Grullo que intencionalmente se ignora.

Ignora-se devido aos que padecem de agonia porque a humanidade não lê; estes tratam de nos convencer que o ato de ler está circunscrito ao literário. Não concebem a leitura como um processo que, de maneira também muito similar à alimentação contradiz as prescrições autorizadas – científicas, bem avaliadas e, sobretudo, saudáveis – que dia a dia a família abastada recomenda à família menos abastada alimentação saudável, mas esta mesma que recomenda, ingere McDonald´s, uma bola de gordura e de “coisa” moída e de origem incerta, mas de destino seguro, cujo ataque mortal a duras penas logram sobreviver nossos delicados aparatos digestivos.

Voltar aos argumentos de Álvarez pode nos ajudar a encontrar uma pista sólida que nos oriente a encontrar uma boa resposta sobre o que se passa realmente no ato de ler:

Se os valores formam um conjunto de elementos de muita importância, não se pode descuidar de um processo que os faz vigentes: a valoração […]. – um conjunto de operações intelectuais, volitivas e emocionais realizadas pelo sujeito e também pelo grupo social, para perceber e aceitar ou rechaçar os valores e antivalores […] de grande importância e, ainda mais que os valores, pelo qual deve ser objeto de atenção primordial para a educação, as políticas culturais e outros dispositivos de organização e desenvolvimento social.

Mas, como a valoração é um processo que está intrinsecamente ligado ao pensamento crítico e este se caracteriza por se perguntar sem descanso sobre a importância dos conceitos, afirmações e pressupostos, ou a validade de duvidar cartesianamente de qualquer informação, pensar de maneira crítica é negar-se a ser arrastado em uma direção de pensamento não referendada pela comprovação, é questionar até encontrar o verdadeiro sentido de um discurso ou de uma ação por mais difícil que esta possa ser, é analisar, sintetizar, descobrir causas e medir consequências, é chegar, em resumo, a conclusões próprias, e tais alcances do pensamento crítico só são possíveis se existem habilidades de valoração consequentemente desenvolvidas.

Ao mesmo tempo, como aponta Álvarez, “tanto o pensamento crítico, como o desenvolvimento das habilidades de valoração e, por fim, a formação cabal em valores exige a existência de habilidades criativas e afetivas” que requerem desenvolvimento pleno da sensibilidade humana, suas evidentes ausências alarmam e são motivo de preocupação mundial. São muitos os que, a partir de qualquer parte do conhecimento, afirmam com o mexicano Rugarcía Torres que a “formação de valores é, sem dúvida, o problema mais importante da educação contemporânea”, e acrescenta:

Creio que três carências dos egressos do sistema escolar estão causando esta situação preocupante: não entendem o que sabem, não são capazes de pensar por si mesmos e não desenvolveram as atitudes pertinentes para sua felicidade nem para sua saudável interação social. Nossos egressos falam, mas não entendem o que dizem; sabem, mas só de decoreba; decidem, mas sem muito refletir; […] resolvem sem entender o que resolvem; longe deles qualquer ideia nova; e vivem sem ter questionado de verdade a que dedicarão sua vida.

A situação descrita é, certamente, muito grave e está relacionada com tendências que afetam áreas cada vez maiores do planeta. Relaciona-se também com a deterioração da responsabilidade de muitos professores, como continua Torres:

O culto ao conhecimento sem reflexão aprisionou as consciências e a maneira de ser das pessoas cuja tarefa é educar, que se comportam como meros transmissores de conhecimento. O critério de verdade que se argumenta com frequência é o do filósofo, do sociólogo ou em geral, do cientista prestigiado e não do próprio sujeito, como deveria ser. Acreditamos mais na ciência do que em nós mesmos, mas o dramático é que a ciência não enfrenta a vida, senão a nós mesmos.

No século XIX, o pensador cubano José de La Cruz y Caballero, professor por profissão de fé, enunciava que “instruir qualquer um pode, educar, somente quem seja um evangelho vivo”, afirmação que corrobora com a do notável escritor e professor cubano Luiz Álavrez, que afirma:

A educação, em valores, não pode ser considerada como uma abstrata descrição de alguns, realizada em um momento particular de uma aula ou um conjunto de aulas, mas sim, relacioná-la a um processo de desenvolvimento do pensamento, da capacidade de refletir e de criar, que devem caracterizar o trabalho ensino-aprendizagem, e marcar as atitudes tanto dos estudantes como dos professores. Isso é o que permite uma formação adequada de habilidades para a valoração, sem as quais não é possível incorporar os valores da própria vida, como também, no melhor dos casos, repetir suas definições sem entendê-las.

O trabalho que temos pela frente é árduo. O ato de ler requer também empregar valor em sua segunda acepção: o valor como coragem, como força que se sobrepõe à própria fraqueza, a nossa humana deficiência. Não será com campanhas, com slogans que se repetem e que são vazios, que atingiremos nosso objetivo. Se ler, como muitos dizem, se aprende lendo, ao reconhecer no ato leitor sua consciência valorativa e atuar em consequência, só poderá aprender-se em constante exercício de um pensar próprio, de sentir o coração palpitar.

Os mediadores não estão só para mediar, para interceder. Estão para comprometer-se até as últimas consequências com o texto que recomendam e só quando as palavras que contam a história do texto afetarem a sua vida até estremecê-la, eles cumpriram seu destino até o final. A próxima leitura não requererá contágio. Contagiará por si mesma. Basta ver as livrarias inundadas de livros que são fáceis de ler, mas que pouco dizem e não perduram. O fácil é o alimento descartável, o que caracteriza os fast foods.

A leitura da literatura, a que nos interessa, porque nela estão todas as palavras e, se nos tiram, como nos alertou Saramago, perdermos com elas os sentimentos, requer, para seu entendimento, entregar-se aos sentimentos. Somos porque sentimos e o que sentimos é, na verdade, o outro, porque só quando o outro está, quando o reconhecemos em nós, seu existir é real. É no reconhecimento do outro que reconhecemos o que somos: sujeitos de valoração. E nesse saber quem somos reside o segredo de nossa pequenez e de nossa infinidade.

O ato de ler literatura está mais próximo dessa infinidade e mais longe da pequenez, como mostra Paul Valéry:

A memória intervém a cada instante, para cada palavra; a obra que, sobretudo, por sub-rogações e não por sensação direta, pondo em jogo, simultaneamente e concomitantemente, as faculdades intelectuais abstratas e as propriedades emocionais sensíveis […], a que compromete e utiliza o maior número de partes independentes: sons, sentidos, formas sintáticas, conceitos, imagens.

A literatura, juiz e parte de nosso exercício vital, terá, em relação a seu leitor, um único fim, que será, a uma vez pragmático e generoso, o de oferecer um sustentáculo, a partir do qual possa sobressair seu eu que nasce autêntico e esquadrinha o horizonte que se estende a seus pés, em um exercício similar ao do grande norte-americano que nos presenteou com a definição poética – se é que definição e poesia podem, em algum momento, andar juntas – ainda que sempre pensemos “por que não”?: “Eu sou Walt Whitman […]/ Um cosmos […]/ O filho de Manhattan”. Versos incríveis nos quais o criador de multidões se declara eu diante da imensidão: ele, em um nome completo que o designa como um entre todos, e o filho de Manhattan, a porção de mundo que o assume nesse afã telúrico, e um cosmos. Não o cosmos, porque aqui – assim é a poesia – o que parece ser não necessariamente é, não há humildade, senão agonia de imensidão.

Um cosmos é o Cosmos e “uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa” como ocorreu de boca em boca o verso de Gertrude Stein. Como uma gota de água é tudo o que somos apressados e repartidos no azar das figurações do universo, nos dizeres de Einstein, finitos em sua infinidade.

Se os versos antes citados explicam o valor da hora que compartilhamos, se isto é literatura, se isto é o que ela quer que aconteça, se isto é o ato de ler, valemos a pena. Bem que merece que a levemos a sério, que a amemos naquilo que vale. E merece crédito o exercício de treinamento que realizamos no afã de esclarecer nosso papel como mediadores.

Lemos juntos, compartilhamos o ato de ler, estamos melhor preparados para mediar leituras maiores e leitores que aspiram crescer até alcançar a dimensão de suas leituras. Vale a pena acreditarmos que é assim, porque o ato de ler é também um ato de fé. E a fé, como diz o ditado, move montanhas.

 


Bibliografia

Amos Oz, Una historia de amor y oscuridad, Ed. Siruela, 2004, p. 86.

Armando Rugarcía Torres, Los valores y las valoraciones en la educación, Universidad Iberoamericana, México, 1991.

Eduardo Galeano, El libro de los abrazos. Las hormigas, tomado de Días y noches de 1997, Agenda. La República, Uruguary [s. d.].

Luis Álvarez, Discurso de aceptación del premio “Maestro de Juventudes”, La Habana, 15 de noviembre del 2012. Inédito. Una versión abreviada de este texto fue publicada el 19 de noviembre de 2012 en el diario Juventud Rebelde de La Habana.

Marguerite Yourcenar, Con los ojos abiertos, EMECE, Buenos Aires, 1982, pp. 266-267.

Nilma Lacerda, Rabo de estralla  y otras historias locas,  Ed. Gente Nueva, La Habana, 2009, p. 9.

Paul Valéry, Obras completas, EMECE, Buenos Aires, 1994.

Rizieri Frondizi, ¿Qué son los valores? Introducción a la axiología, decimosexta edición, Fondo de Cultura Económica, México, 2000.

Walt Whitman, Hojas de hierba; selección. Ed. Arte y Literatura, La Habana, 2006. 

 


 

TRADUÇÃO THAIS ALBIERI/ JAMES ABBOTT McNEILL WHISTLER (1834-1903), READING BY LAMPLIGTH, 1858.