Conheci a obra de Ivar Da Coll muito antes de conhecê-lo pessoalmente. Acho que foi no final dos anos 1990, quando dirigia a coleção “Sopa de livros”, da editora Anaya, para quem lhe encomendei uma obra. Durante vários meses, trabalhamos na edição de um conto em verso, ilustrado por ele, intitulado Pies para la princesa, publicado em 2002.  Era uma das minhas primeiras experiências de trabalho com um criador, de quem não tinha nem rosto nem voz, e nem sabia como se relacionava com o seu trabalho, ou com o seu editor.

A experiência foi muito boa. Se não fosse assim, não teríamos voltado a colaborar, e muito menos teríamos começado, anos mais tarde, um trabalho em conjunto: um texto meu por ele ilustrado, Lo que más me gusta, publicado pela nossa amiga comum Maria Osório, em sua pequena e maravilhosa Editorial Babel, na Colômbia. Este álbum foi publicado exatamente por ocasião de uma viagem minha à Bogotá em 2010, e pudemos lançá-lo junto com seus originais, expostos na livraria.

Desde então, o trabalho de Ivar tinha se desenvolvido muito, e ele estava trabalhando no excepcional Tengo miedo, publicado em Babel Livros1, em 2012, para mim, o seu melhor livro, e uma das obras mais importantes da ilustração espanhola e latino-americana deste século.

Mas voltemos alguns anos atrás, antes de chegar a este livro. É em meados da década de 1980, quando Ivar cria o personagem que talvez tenha lhe dado mais popularidade entre os leitores colombianos, e, por extensão, da América Latina: Chigüiro, cujo primeiro livro, Chigüiro chistoso, nasceu em 1986, na Editora Norma de Bogotá.

Espanha ainda vive de costas para um continente ao que sempre considerou menor de idade em termos de literatura infantil. Ainda parece manter essa posição, pois que Tengo miedo seja invisível para os leitores espanhóis é uma lacuna importante no nosso mercado.

O chigüiro, a capivara, é um roedor nativo da América do Sul e o de tamanho maior, pode chegar a medir até 120 centímetros de comprimento e pesar 60 quilos. O Chigüiro de Ivar parece um bicho de pelúcia, que ficou em pé e se humanizou, embora em seu nascimento e em sua infância, como os bebês humanos, ainda não fale.

Os livros desse personagem, foram livros de imagens, mudos, até 1992, quando chigüiro começou a falar, no livro Chigüiro se va… Seis livros compuseram esta primeira série de um personagem, amável e criativo, que sempre aparece em situações nas quais os aprendizes de leitor podem muito bem se identificar, pois as suas peripécias remetem a esse olhar infantil.

Um ano antes, em 1991, o editora Ekare, de Venezuela, publica o primeiro volume em que aparece um novo personagem com um nome muito eufônico, Hamamelis,  e que, infelizmente, não vai, ter continuidade a não ser em mais um livro. Refiro-me a Hamamelis y el secreto e Hamamelis, Miosotis y y el señor Sorpresa, este segundo publicado em 1996.

Obras de maior complexidade estética e temática, e que, na minha opinião, representam, junto com Yo no fui (1998) referências importantes na evolução gráfica, e não só, do nosso ilustrador.

A poética de todos estes livros, nos remete à obras de artistas da importância de Janoch, Arnold Lobel ou Helme Heine. Chigüiro bem que poderia visitar um dia a Sapo e Sepo; certamente estes o convidariam – a tomar um chá e a conversar sobre seus respectivos sonhos; e, claro está, se encontrassem à Tigrecito e à Osito em sua viagem ao Panamá, não hesitariam, não só em perguntar-lhe como se chega até esse lugar, mas eles o convidariam certamente a se juntar a eles.

Não seriam eles, talvez, Hamamelis e Miosotis, de alguma forma, alter egos desta entranhável dupla de Janoch?

Se John, o crocodilo José, o tamanduá e Simon, o porquinho da india de Yo no fui, tivessem se encontrado com Juan Raton, Paco Gallo e Lunas Gorrino, Los tres amigos, moradores da fazenda La Cochambrosa, de Helme Heine, certamente teria sido o inicio de uma nova série de aventuras, agora, entre os seis, que tanto poderia ter sido escrita pelo ilustrador alemão como por Ivar.

 

Sim, na minha opinião, a atmosfera que envolve todos estes personagens, de confiança — exatamente a atitude oposta que os humanos da atualidade mostram em relação à  alteridade —  de ternura, de imaginação, de espontaneidade e de curiosidade frente à vida, é comum a todos esses personagens, e gostaria de acreditar também, de seus criadores. Pelo menos, eu sei, que é a do ilustrador de que estamos aqui tratando.

Tengo miedo foi publicado inicialmente em Carlos Valencia, Bogotá, 1990, e mais tarde, em 2006, em Babel Livros. Nele, encontramos o gato Eusébio, que tem medo de todos os tipos de monstros que podem existir, mas graças ao bom trabalho de seu amigo — de novo, a ternura e a solidariedade entre pares — o pato Ananias, encontra consolo.

Mas aqui, quero voltar agora para a edição de Babel, de 2012, que por si só, mereceria um comentário em profundidade, pela inteligência e beleza de sua edição, imagino que também mérito de Maria Osório.

É inevitável que, contemplando este trabalho excepcional, pensemos em Onde Vivem os Monstros de Maurice Sendak, mas primeiro e acima de tudo em Una pesadilla en mi armario, de Marcer Mayer, mais próximo a este trabalho.

Desconheço se Ivar tinha em mente, ao fazer a ilustração que corresponde ao fragmento de texto: Eusebio não consegue dormir: está com medo, a imagem inicial do livro de Mayer, com o texto: Havía um pesadelo no meu armário. Mesmo que assim não fosse, a homenagem, neste caso inconsciente, parece evidente.

Mas há uma diferença sutil, na minha opinião, essencial: Os monstros de Eusébio são monstros pobres, em comparação com os da criança da obra de Mayer, que são ricos. Como assim, respectivamente, os quartos de ambos os protagonistas. À de nosso gato tem, por exemplo, um pequeno fogão a gás, junto a um modesto, recipiente onde estão os talheres e uma pilha de pratos mínima; uma vela na boca de uma garrafa na mesa de cabeceira, tão rústica como o resto do mobiliário. Mas, isso sim, há vários livros na estante e numa prateleira na parte de baixo da mesa de cabeceira.

Diante desse cenário, tão pobre como digno e limpo, o quarto de  Una pesadilla en mi armario é o de um garoto rico: a cómoda, o abajur de pé aceso, os brinquedos espalhados pelo quarto, com a espingarda e o canhão em cima da cama, como armas defensivas são uma prova disso, e o capacete no chão, que bem poderia ser o de um general norte-americano, apesar destes só ter três estrelas. A porta está aberta e não dá para a rua, como a de Eusébio e a cortina é empurrada para dentro do quarto e revela uma lua crescente  diferente da de Ivar — talvez o único elemento  “mais” — que está cheia.

 

Sim, os monstros de Ivar Da Coll encenam seus temores frente a personagens, aos que não estamos habituados, no primeiro mundo, a contemplar. E, também, em outros cenários e com outros objetos do cotidiano muito diferentes. Uma mostra, na minha opinião, da dignidade da pobreza, algo que, agora, no Ocidente rico, envergonha; por isso, os pobres vestem seus filhos com marcas caras falsas, para fingir o que não são.

Mas aqui, no universo de Ivar, sim cabem dois versos, nesse mesmo sentido, do grande poeta que nosso ilustrador iluminou, Quevedo:

¿Quién con la humildad levanta
a los cielos la cabeza?
La pobreza

(enquanto escrevo estas linhas, descubro que morreu um dos donos da Espanha, o Sr. Botín).2

 

Mas para além disso, Tengo miedo é um livro de uma rara beleza plástica que transcende o impecável e inteligente ​​ discurso gráfico. O texto cuidado, conciso, com qualidades literárias, algo muito raro nos livros ilustrados. O livro todo, da capa até a última guarda compõem um “objeto” editorial que, quase poderíamos dizer, é mais do que apenas um livro.

A diagramação, a apresentação dos textos em duas cores, a relação entre o texto e as ilustrações — excelente exemplo de uma obra que responde a um único processo criador — os cenários, a construção dos personagens, as impecáveis composições em que todos os elementos se integram — texto, cenário e personagens — que as compõem, o domínio do desenho, a paleta de cores e suas gradações…

Estamos diante de um objeto editorial, um livro ilustrado,  que oferece excelência.

Se te serve de consolo, Ivar, dedico a você esta anedota que Eduardo Galeano conta,  sobre quando em sua juventude, visitando, juntamente com outros admiradores fervorosos, a um Juan Carlos Onetti já postrado na cama. Um dia, se separou do grupo que ia embora para mostrar seus poemas à sós, ao professor. Depois de uma breve leitura, Onetti respondeu: Olha, garoto, se Beethoven tivesse nascido nas Antilhas, não teria ido mais longe de ser o diretor da banda de sua cidade.

Você chegou bem mais além, e eu estou feliz.



Antonio Ventura e Ivar da Coll

 


*Texto escrito por ocasião da premiação de Ivar da Coll que ganhou o Prêmio Iberoamericano de Literatura Infantil e Juvenil em 2014.


 

Notas

1. No Brasil será publicado pela editora Livros da Matriz, no começo de 2015.
2. Dono do Banco Santander, uma das maiores fortunas de Espanha.