“Não promovemos a leitura: administramos a vida”. Isto foi dito há alguns dias no México pelo filósofo, editor e ex-secretário do Plano Nacional de Leitura do Brasil, José Castilho Marques Neto, presidente da Editora Unesp.

Uma frase assim movimenta muitas coisas, inspira, principalmente ilumina um caminho que vejo em retrospectiva. Durante os últimos dez anos, em distintas trincheiras, e mais recentemente como colaboradora na direção geral de publicações do Conaculta (Conselho Nacional para a Cultura e as Artes), no México, conheci centenas de voluntários, de mediadores de leitura, compartilhei com eles o pão, o sal e os livros: administramos nossas vidas ao redor da leitura.

Há pouco tempo perguntei a um membro dos Fabuladores – um grupo de policiais de Querétaro dedicado a ler em escolas e responsável por uma sala de leitura itinerante –, que transformações ele observava nas pessoas para as quais lia. Começou falando das transformações que ele mesmo havia experimentado ao ler. O que significou deixar de pertencer aos corpos de elite da polícia e tornar-se um simples leitor. Seus companheiros o viram como um pobre homem caído em desgraça, um rato de laboratório em um experimento cujo objetivo era transformar a má imagem dos comissários: o capacitaram para aprender a ler em voz alta, para contar contos, e o levaram às escolas para começar com sua tarefa diante de crianças e jovens que não davam crédito ao que viam: um sujeito uniformizado com um livro nas mãos, que lia muito bem, era bom conversador e escutava. Este policial conquistou outros companheiros para sua causa e encontrou os argumentos necessários para convencer as autoridades de que outorgassem as permissões e recursos necessários para continuar com seu amoroso trabalho.

Qual o papel do Estado na promoção da leitura?

E qual o valor da participação da sociedade civil? Ao formar leitores contribuímos para formar cidadãos, pessoas capazes de ler a si mesmas, ler seu mundo – como dizia Paulo Freire – e também confrontá-lo, transformá-lo. Isto é algo que a leitura já alcançou com os policiais de Querétaro. Depois de conhecê-los, não posso imaginar que acatarão uma ordem para executá-la sem pensar, sem avaliá-la, mas não o digam a ninguém.

Uma missão fundamental do Estado é propor una política consistente de fomento à leitura. No momento, temos no México vários programas institucionais, não necessariamente articulados, não necessariamente propostos de acordo com a mesma concepção do que é a leitura ou do que entendemos por promover a leitura. Como se percebe a presença ou a ausência de uma política pública na vida simples, cotidiana? Seguindo o exemplo de meu amigo, o policial fabulador, contarei um pouco sobre a forma pela qual livros chegaram a minha vida, porque, como no caso dele, houve uma instituição por trás, uma política pública que os tornou disponíveis.

Eu tinha 10 anos e meu irmão menor tinha acabado de morrer, depois de passar cinco anos em um devastador tratamento contra a leucemia. Minha casa era como uma balsa de náufragos… e como em todo naufrágio, se foram e chegaram coisas vindas não se sabe de onde nem como. Foi-se a televisão porque quebrou e meu pai pareceu triste com a ideia consertá-la, talvez porque meu irmão já não poderia assisti-la. Eu não me atrevi a pedir que a consertassem, e duvido que tivessem sequer me escutado. Então não havia nada que fazer. Mas um dos meus tios que veio ao funeral havia esquecido um livro em casa. Tratava-se de una novela escrita na forma de um diário, o de uma jovem, filha de um comerciante de sedas, chamada Désiree Clary, que tinha um noivo chamado Napoleão. Era baixinha de estatura e chorou junto ao rio Sena quando descobriu que seu noivo iria casar-se com uma tal Josefina. Désiree foi descoberta por um homem maduro, muito alto, precisamente quando chorava junto ao Sena e ele a fez desistir do plano de atirar-se nas águas escuras. Era um marechal do exército de Napoleão. Imaginem quanto tudo isso se complica: este marechal se casa com Désiree, eventualmente renuncia à cidadania francesa e se converte em rei da Suécia. E a filha do comerciante de sedas se converte em rainha.

Esta história é mais ou menos uma novela, porque os personagens eram pessoas que existiram de verdade, e vários fatos históricos descritos na trama são verificáveis. Até hoje gosto de ver na revista Hola! os herdeiros da coroa sueca e tratar de adivinhar como seria o rosto daquela moça, filha de um comerciante de sedas de Marselha, que escreveu um diário tão volumoso e fundou uma dinastia.

Nesses dias tão tristes li minha primeira novela e também comecei a escrever um diário. Não sou das pessoas que pode contar que em sua infância leu Verne ou Salgari. Em minha casa, como em muitas hoje em dia, a maioria, a leitura se associava com seus usos mais funcionais, como resolver uma tarefa. Se não, para que ler? Assim, em casa havia, isso sim, muitas enciclopédias e dicionários, e uma biografia de Abraham Lincoln, que li muitas vezes (perguntem-me o que quiserem sobre a batalha decisiva do Potomac).

Aconteceu comigo o que Michèle Petit descreve muito bem em seu esplêndido livro A arte da leitura em tempos de crise: “Os livros lidos ajudam às vezes a suportar a dor ou o medo, a distância, a transformar as penas em ideias e a recuperar a alegria”.

Quando cheguei à escola preparatória e decidi que escrever uma pequena novela era mais importante que ser aprovada em matemática, já havia lido uma quantidade de bons ou maus livros sem que houvesse uma biblioteca escolar ao alcance; eram títulos que minhas colegas e amigas da escola me emprestavam. Praticamente trocávamos os livros que havia em nossas respectivas casas.

E então o destino me alcançou. Ter sido reprovada em matemática durante três semestres me confinou durante o mesmo número de verões a estudar na biblioteca pública do Parque Melchor Ocampo de Cuernavaca para ser aprovada na recuperação. Sem dar razão às vozes que opinam que estes espaços podem melhorar muitíssimo seus serviços, para mim a biblioteca se converteu em uma segunda casa. Descobri uma coleção de livros coerente, de primeira qualidade, descobri os grandes escritores, descobri o empréstimo de livros. Fui aprovada em meus exames e até dei aulas de álgebra a meus companheiros atrasados; simplesmente passei alguns verões muito felizes na biblioteca pública.

Agora pensemos em todos mexicanos que não tem acesso aos livros. Vislumbremos essa maioria que não tem a oportunidade de ler um livro e cuja realidade estatística às vezes nos deixa com a sensação de que nunca faremos o suficiente, apesar de que nos últimos anos houve sim um desenvolvimento mais ou menos consistente dos programas governamentais de promoção da leitura.

O acesso ao livro ainda não é equitativo. Calcula-se que no México exista uma livraria por cada 100 mil habitantes, em contraste com a Espanha, por exemplo, onde há uma livraria por cada 12 mil habitantes, ou Argentina, onde há uma por cada 15 mil; em Costa Rica há uma por cada 27 mil; no Brasil há uma livraria por cada 49.365 habitantes.

O México tem uma importante infraestrutura: um dos maiores programas de distribuição de livros didáticos gratuito no mundo, através da Comissión Nacional del Livro de Texto Gratuito (Conaliteg). Temos 7.320 bibliotecas públicas e 850 mil bibliotecas escolares patrocinadas pela Secretaria de Educação Pública. Há 4.500 Salas de Leitura geridas por mediadores voluntários.

O cenário é complexo: temos um país quase totalmente alfabetizado, mas com escassa compreensão do que se lê. Temos infraestrutura, mas nosso problema central é que não conseguimos trabalhar vinculando efetivamente os esforços. Nas escolas se recomenda ler como uma tarefa a cumprir, por um tempo determinado ao dia, relógio em mãos, ao passo que em outros espaços, também institucionais, falamos de ler sem cronômetros e ainda defendendo a ideia de que ler e escrever não são uma obrigação, mas um direito, e ainda vamos mais longe: também falamos que existe o direito de não ler.

Necessitamos una política consistente.

Política de leitura e a necessidade de mediadores

E volto à minha biblioteca pública do Parque Melchor Ocampo em Cuernavaca. Uma decisão governamental, amparada em uma Lei Geral de Bibliotecas, colocou ao meu alcance um acervo em que se incluía o livro de álgebra de Baldor, para que eu pudesse resolver a tarefa e ser aprovada na recuperação. O ócio e a curiosidade me levaram às prateleiras em que os livros tinham em sua lombada o número 800: a classificação Dewey para a literatura. O ponto é que as desastrosas circunstâncias que me iniciaram no mundo da leitura não são necessariamente as da maioria neste ou em outros países da América Latina. Que as livrarias ou as bibliotecas estejam abertas, disponíveis, não significa que o acesso a esses lugares esteja garantido em nossas sociedades. A verdade é que necessitamos de mediadores, que podem ser bibliotecários, voluntários, livreiros, professores, enfim, pessoas formadas para um trabalho essencial: compartilhar livros, no suporte que for. Não é somente um livro o que se compartilha, trata-se de afeto, de confiança, de generosidade, de abrir universos.

Em outra experiência, profissional, acompanhei Laura Emilia Pacheco, a Diretora General de Publicações de Conaculta. Há três anos praticamente refundamos o Programa Nacional Salas de Leitura, que conta com 17 anos de vida e 4.500 espaços cidadãos geridos por voluntários da sociedade civil, aos quais as pessoas comuns podem ir para se socializar como o fazem na praça pública, mas também podem ir e ler. Conaculta outorga aos cidadãos-mediadores um acervo inicial de livros especificamente selecionados, e uma formação. Temos muito claro o quão importante é contar com um bom acervo, mas a verdade é que se tivéssemos que escolher entre distribuir livros ou formar mediadores de leitura, faríamos o segundo, porque essa pessoa entre livros e possíveis leitores é essencial: quem e como falará ao outro de um livro, quem e como o convidará para uma sessão de leitura; quem e como manterá um espaço hospitaleiro para que todos comecemos a associar livros, leituras e conversações com experiências afetivas. E voltando à minha história pessoal: um mediador do calibre dos que temos nas Salas de Leitura ou um bom bibliotecário na escola teria colocado em minhas mãos Salgari ou Verne muito antes que eu mesma pudesse fazê-lo.

O poder das palavras

A experiência das Salas de Leitura permitiu que se criassem novos espaços, outras maneiras de sair ao encontro de leitores não identificados, gente que nunca se imaginou leitora. E o que é que se faz quando se promove a leitura? Transformam vidas. Não apenas as dos leitores, também as daqueles que acompanham os outros em suas leituras. Uma jovem mediadora de Querétaro leu O pato, a morte e a tulipa, de Wolf Erlbruch (Cosac Naify) para um grupo de crianças do pavilhão de Oncologia em um hospital. Um dos pequenos lhe pediu que voltasse a ler o livro, somente para ele. Escutou-a atentíssimo. Em seguida lhe disse que graças a esse conto já não temeria a morte. Também lhe pediu que, por favor, o acompanhasse durante a cirurgia a que seria submetido em uns dias, e lá esteve ela, segurando sua mão enquanto lhe aplicavam a anestesia. Depois teve que deixar o centro cirúrgico. O menino não sobreviveu à cirurgia, e ela conheceu com muita dor outra coisa que a leitura podia alcançar, e o compartilhou com alguns amigos: ler também pode nos ajudar a perder o medo. Disse isto com toda a candidez de sua juventude, e estava certa.

Quais são nossos desafios? Há una grande rede de mediadores de leitura trabalhando dispersos, com programas desvinculados entre si, escassamente avaliados e com pouco acesso à formação profissional para fomentar a leitura. Ainda que as bibliotecas públicas se encontrem estabelecidas em 2.277 municípios – 93% do total existente no país –, não são espaços onde leitores estejam sendo formados.

Na realidade, não faz muito tempo que o Estado mexicano está investindo em programas de leitura. O Programa Nacional de Leitura da Secretaria de Educação está fazendo 10 anos, por exemplo. Mas pode ser que seja este o momento de capitalizar os ganhos, de aumentar a massa crítica de leitores que já formamos entre os cidadãos aos quais alcançamos com programas como os de bibliotecas escolares e Salas de Leitura. Temos que pensar em como articular agora nossas experiências.

Fomos capazes de ampliar o espectro de mexicanos que leem, agora necessitamos socializar o livro como um objeto presente fora da escola. Um objeto presente antes da escola, tão necessário em casa como o pão.

Temos que vincular mais solidamente os programas de formação de leitores executados pelo Estado com iniciativas da sociedade civil; a todos nos move, finalmente, o mesmo afã: formar leitores plenos.

Ninguém pode ser excluído de uma visão em que todos possam exercer seu direito à leitura: é preciso garantir o acesso à cultura escrita tornando-a disponível; é aqui que os mediadores, de carne e osso, ou através do twitter, do facebook, são fundamentais.

Temos que apostar em um trabalho no qual toda a cadeia do livro seja indispensável. E resta esse universo incrível, rico em possibilidades e desafios do livro eletrônico, no qual o México já incursiona. Em pouco tempo será necessário trabalhar diminuindo a brecha digital, e nesse grande contexto é indispensável vincular a leitura às novas tecnologias em espaços tanto escolares como não escolares.

Iniciei com una frase de José Castilho: “não promovemos a leitura, administramos a vida”. Quer dizer, a esperança, o poder das palavras na boca de todos, um futuro.


 * Texto apresentado no 9º Congresso Ibero-americano de Editores, realizado entre 21 e 23 de novembro de 2012, no México.


TRADUÇÃO PAULA STELLA