Em menos de dois meses participei como jurada do Prêmio Hans Cristian Andersen (HCA – desde 1956)  e do Prêmio Bologna Ragazzi Prize (BRP – desde 1963): um enorme aprendizado e a prova dos 9 dos critérios e concepções que orientam o quase sempre solitário trabalho de crítica e seleção.

Se cada um destes prêmios carrega décadas de experiência, compará-los permite compartilhar a dimensão desta riqueza e das múltiplas possibilidades que diferentes processos de crítica e seleção apresentam e promovem. Enquanto o HCA é considerado o Nobel do livro para crianças e jovens –, e consiste na premiação de um autor e ilustrador pelo conjunto de sua obra – o BRP reconhece o trabalho editorial, de um ano, materializado no livro como produto.

Dois prêmios distintos, com lógicas diferentes, mas que exigem dos membros do júri o mesmo tratamento e grau de exigência e representam ambos enormes desafios. O HCA exige dos jurados uma dedicação anterior de muitos meses (no mínimo 6), pois supõe receber e organizar centenas de livros, e ler e comentar todo o material. Imagine o que é receber semanalmente dezenas de livros ao longo de alguns meses: para 34 países, com uma média de 6 livros e o dossiê correspondente a cada candidato. Pelo meus registros, entre março e maio de 2015, recebi perto de 500 exemplares impressos e PDFs.

Tomando conta de todos os espaços, os livros foram tomando conta da vida. Foram 10 meses de trabalho, de muita dedicação e concentração para dar conta – organizar, conferir, ler, conhecer e pesquisar sobre cada autor e ilustrador. Foram muitas planilhas, muitas checagens do material e muitos cronogramas para tentar cronometrar os tempos. Um esforço cujo resultado, confesso, sempre foi mais sugestivo do que real, mas ajudou a colocar certa ordem no trabalho. Disto resultou uma produção de resumos, avaliações, comentários, resenhas, análises críticas que precederam e prepararam a reunião do júri, as quais são a base de todas as argumentações antecedentes à tomada de decisão final. 

Todos os membros do júri do HCA passaram por processos semelhantes e dedicaram tantas horas quanto eu tentando se organizar – e foi um alívio saber disso! Compartilhar essa primeira dificuldade te faz sentir um pouco menos atrapalhada. Essa identificação imediata de cara quebrou o gelo, com a ajuda da condução impecável da equipe de organização e da presidência do júri, que fez desta experiência de 3 dias de intensa convivência um momento muito especial e marcante de encontro, intercâmbio e compartilhamento de responsabilidades.

O que pode parecer difícil e até impossível visto de fora – me refiro a prazos, tempos etc. – tem um patamar de anos de experiência, em ambos os prêmios. No HCA a reflexão comum começa pelo estabelecimento dos critérios, já  discutidos previamente ao longo dos meses em um blog do júri. Porém, a argumentação presencial, a troca de ideias, o esforço de argumentação são responsáveis pelo patamar comum orientador de todo o trabalho posterior. E, ao mesmo tempo, momento fundamental revelador de posições e preferências de cada um.

A argumentação construída na base dos parâmetros previamente estabelecidos, o esforço de cada um em se fazer entender em uma língua que não é a sua, o espirito aberto e sem preconceitos para considerar a posição do outro conduziram muitas vezes (muitas) a rever posições, a repensar em função dos argumentos do outro. Um contexto de riqueza pura, em termos de reflexão, discussão e intercâmbio. Tudo isto, sob olhares construídos a partir de realidades e padrões culturais muito distintos. É de uma dinâmica assim que nesses prêmios, considerando as particularidades de cada um, se chega ao resultado final.  

O processo decisório é difícil, exigente e sofrido em muitos momentos. No caso do HCA estamos diante daqueles candidatos que pela sua trajetória são apresentados como os melhores de cada país. No caso do BRP estamos diante de parte considerável da produção mundial. Diferentes candidaturas, cada uma com suas dificuldades e exigências específicas. Disto resulta um trabalho difícil, em alguns casos dificilíssimo, de seleção. Mas trata-se disso. Daí a importância da configuração destes juris, cujos membros contam a seu favor com uma reflexão sobre critérios e referências, fruto de um amplo conhecimento dos diferentes mercados, das diversas teorias e reflexões e da diversidade de seus olhares, de acordo com as suas distintas formações e inserções profissionais.

O HCA tem como propósito destacar um autor e um ilustrador, a partir do conjunto de sua obra, do impacto por ela causado no seu entorno, da influencia e receptividade provocada pelo seu trabalho. Daí a necessidade de ir a fundo no conhecimento de cada candidato. O BRP, ao contrário, representa uma imersão na produção mundial de um ano, tendo como propósito destacar o viés editorial, considerando os livros produzidos. Aqui a visão horizontal, panorâmica,  implica em outro tipo de olhar, menos profundo mas muito mais amplo e abrangente em termos do mercado, da produção global na hora de comparar e selecionar.

Comparar é um dos  procedimentos fundamentais de qualquer seleção, pois toda escolha só pode se dar em relação ao outro. Daí a importância quando se avalia qualquer premiação, de levar sempre em consideração o conjunto dos  candidatos, em relação aos quais se escolhem os premiados. A dificuldade que pressupõem estas escolhas é enorme, tanto no amplo leque de possibilidades, de características distintas, de elementos que cada tomada de decisão implica como na enorme satisfação quando finalmente se chega a um determinado resultado, com o aval da grande maioria ou, na melhor das hipóteses, com consenso.

 

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Os concorrentes ao Prêmio Bologna Ragazzi Award 2016

 

Se o HCA exige dos jurados uma dedicação de meses, o BRP os faz mergulhar durante dois intensos dias numa destacada mostra da produção mundial, que este ano foi de 1.500 títulos, separados em 5 categorias (Fiction, Non Fiction, Opera Prima, New Horizons, Desability – esta, nova categoría criada este ano). De cara um grande susto! Mas conhecer o mercado internacional, vários títulos e editoras são elementos facilitadores para encontrar e identificar agulhas no palheiro. Um trabalho árduo e exigente, mas altamente compensador em termos de todo o processo que conduz as seleções finais.

A visão do mercado mundial e de suas tendências, a identificação dos países que realizam um trabalho mais uniforme, constante, em termos da qualidade, ou quem começa a se destacar, quem investe em originalidade e avança na produção de livros conectados com a contemporaneidade, enfim estas e muitas outras questões acabam se colocando naturalmente depois destas experiências. Este mergulho, no caso dos dois prêmios, potencializa uma visão mais ampla do mercado, uma visão mais crítica e mais aberta. Afinal, são muitas referências, muitas informações, muitos pontos de vista que resultam em um grande aprendizado.

A Feira de Bolonha é o maior encontro do livro para crianças e jovens e este prêmio é o mais importante, no que se refere ao reconhecimento internacional  do mercado editorial.  As editoras enviam os livros, mas para isto elas devem ter stand na feira ou participar de algum stand coletivo. Senti falta de vários títulos não apenas do Brasil, mas da América Latina em geral, que poderiam concorrer em condição de igualdade com muitos dos livros inscritos.

Este prêmio investe no destaque do trabalho de pequenas editoras independentes e nesse sentido é necessário incentivar e garantir a presença de todas aquelas que tem feito um trabalho de qualidade. Daí este chamado: editores, acompanhem a convocatória, mandem seus livros! É uma grande oportunidade para conquistar visibilidade mundial. A presença na feira e no BRP é fundamental para isto. No caso do HCA, a participação se dá de modo representativo: são os IBBYs, por meio de suas seções nacionais, que indicam os candidatos e se responsabilizam pelos seus dossiês e pelo envio de todo o material.

Outro aspecto fundamental e decisivo é a configuração do júri. Esta percepção é antiga e resulta de minha experiência de 5 anos como organizadora do Prêmio Barco a Vapor no Brasil. Desde então, sempre ficou muito claro que todo e qualquer resultado depende em grande parte da combinação dos membros. Considerando minhas duas experiências recentes, ambos os júris tiveram uma configuração excelente, resultado de grande complementariedade de pontos de vista e sensibilidades, tudo isto coroado com posições de muito respeito e ao mesmo tempo muito consistentes e afirmativas nas argumentações. A convivência com todos meus companheiros dos dois jurados foi extremamente rica e a troca um grande aprendizado.  Assim como a condução dos júris é fundamental para o andamento dos trabalhos, em ambos os casos impecável. A todos agradeço imensamente.

Toda premiação séria é muito mais do que o resultado de uma dinâmica sujeita a muitas determinações distintas. É fruto de um processo intrincado de argumentações,  concessões, escolhas, defesas mais entusiasmadas que, quando orientadas pelas melhores argumentações e reflexões,  resultam num processo genuíno de seleção. Dai, a importância do coletivo que põe em cima da mesa um novo patamar que marca o caminho das escolhas e implica no difícil processo de saber administrar a opinião individual. Sem dúvida, mais um grande aprendizado!

 

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O jurado do Hans Christian Andersen 2016

 

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O júri do Bologna Ragazzi Prize 2016

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Vale fazer uma ponte para falar do trabalho sério e criterioso que o grupo do Destaques Emília tem feito ao longo dos últimos 3 anos. A discussão e revisão permanentes a que se propõe também se reproduziu nesta discussão dos júris. Os aspectos levantados eram coincidentes: a confirmação de que não existem critérios fechados, mas apenas uma preocupação contínua por parâmetros para entender cada livro, cada autor, cada ilustrador. Os critérios se constroem e se ampliam a cada momento, a partir, é claro, de algumas referências universais que promovem o diálogo e fomentam a discussão. E o reconhecimento da importância de uma interlocução de qualidade, de uma troca de referencias, de uma reflexão conjunta, da escuta e do respeito por outros olhares, muitas vezes, fruto de outros referentes culturais. Mas acima de tudo, a busca pela qualidade, independente de nacionalidades e de gostos pessoais.