quem mandaQuem manda aqui?
Um livro sobre política para crianças
Autores: André Rodrigues, Larissa Ribeiro, Paula Desgualdo e Pedro Markun
Projeto gráfico: Estúdio Rebimboca
Editora: Companhia das Letrinhas
Páginas: 48
Formato: 20,5×20,5
Ano: 2015

 

 

 

 

O livro Quem manda aqui? Um livro sobre política para crianças assume o desafio de falar sobre um tema bastante complexo, há muito entendido como próprio apenas ao universo adulto: a política. Lendo com atenção, é possível notar que a poética não está “subordinada” ao assunto pretendido, ou seja, o texto não é mero pretexto para se falar de política. E isso faz toda a diferença.

O título Quem manda aqui? pressupõe ideias de autoridade, governança e poder, próprias das percepções típicas que se tem dos reis, já tão presentes nas narrativas clássicas infantis. Não por acaso, a primeira ilustração com a qual o leitor se depara ao abrir o livro é justamente, a de um castelo e, a seguir, um rei. O subtítulo explicita a quem se destina a obra: “um livro sobre política para crianças”. Sim, para crianças, sujeitos que, por seu estatuto “infantil” são destituídos, muitas vezes, de voz e da possibilidade de falar o que sabem e o que pensam sobre política, embora, inegavelmente, a vivam em situações cotidianas.

Nas páginas que seguem encontramos repetidas vezes o conhecido “Era uma vez”, expressão empregada nos contos de fadas. É como se as narrativas de encanto e a realidade a qual o texto tantas vezes alude se fundissem – onde uma começa e onde a outra termina? – , provocando e transcendendo a realeza do universo encantado do “Era uma vez” para as nossas relações cotidianas. Esse recurso lingüístico confere ao texto, simultaneamente, tonalidade poética e contemporaneidade que não trazem em cena apenas clássicos personagens dos contos infantis (como o rei), mas também o índio, a escrava, o militar, a prefeita, a professora, a família (em suas diferentes configurações) e o próprio leitor. É possível, com isso, perceber uma narrativa em versos que aproxima cada vez mais o leitor da política nas suas diferentes instâncias e relações.

Toda a poética margeia as fronteiras entre autoritarismo (a ordem, o mando e desmando) e a democracia (liberdade, escolha, autonomia):

Era uma vez um rei muito ruim e mandão,
dono de qualquer desmando e decisão.
Não foi escolhido por mim ou por você,
nem por uni duni tê.

**

Era uma vez uma prefeita.
Bem, ela não era perfeita.
Só que essa a gente escolheu,
Pessoas comuns, como você e eu.
 

O livro ainda brinca com a sonoridade por meio das rimas e da forma fixa das estrofes (quadrinhas). O aspecto lúdico se revela no brinquedo de escolha feito comumente nas rodas infantis: o “uni duni tê” usado para decidir quem lidera ou quem “manda” na brincadeira. Neste mesmo fragmento, o rei aparece na ilustração com trajes de realeza, e, quando se questiona o porquê de ser ele rei, se não foi escolhido por ninguém, a própria imagem dá conta de gradativamente destituí-lo de sua condição de autoridade através da indumentária que vai apresentando-o cada vez sem uma peça de roupa, até ficar nu (“o rei está nu!”) e tatuado, o que confere também uma conotação transgressora ao livro se comparado a outras produções editoriais para o público infantil.

 

reizin

 

É um livro em que texto e imagem dialogam entre si. A escolha pela técnica utilizada nas ilustraçõess, bem como o conteúdo, decorrem de um processo que contou com a participação de crianças em seis oficinas, nas quais foram compartilhadas, experimentadas e discutidas ludicamente noções sobre modos de governar e tomar decisões. Foi a partir dessa matéria viva (as vozes das crianças) que se construiu o livro. Nas páginas destinadas a biografia dos autores há uma menção às crianças que participaram das oficinas (faixa etária entre três e dez anos) e o leitor também é incluído entre os autores (“você é quem constrói esta história a partir daqui”).

Ainda sobre a relação texto e imagem, vale ressaltar que buscam equiparar questões relacionadas ao gênero: há um equilíbrio entre personagens masculinos e femininos e alternância nos pronomes de tratamento. As cores evitam reiterar estigmas históricos na relação entre negros, indígenas e brancos. O livro ainda traz elementos de nossa história, como a invasão do europeu às terras indígenas e o processo de escravização do negro. A esse respeito, também é preciso ressaltar que não traz esses personagens (índios e negros escravizados) de forma subjugada, o que poderia provocar indagações das mais diversas, já que estamos falando de um livro de política para crianças. É com muita sagacidade que após este trecho:

Era uma vez uma escrava
que trabalhava obrigada.
Se não cumprisse as ordens,
apanhava, era castigada.

Aparece:

Jogou capoeira e correu para a mata,
Para ser livre e fugir da chibata.

Olhando sob esse prisma, estamos diante de um livro que transgride um lugar comum: o da “história oficial” que faz menção a fatos históricos a partir de uma perspectiva sempre eurocêntrica, excluindo as vozes de outros grupos e povos.

 

ilustra 

Do ponto de vista da linguagem, o livro aborda o tema de forma aberta e bastante provocadora. As palavras de uso comum não esvaziam o sentido e o valor poético do texto, tampouco subestimam as crianças, já que abrem espaço para pensar e questionar as relações de poder, as escolhas e a participação popular nas diferentes esferas, além do poder nas relações cotidianas, o que pode provocar uma reflexão mais abrangente sobre o que é política.

E por falar em participação, são recorrentes as conversas diretas com o leitor, o que confere maior intimidade e um pacto de compromisso entre texto, leitor e conteúdo temático:

Pessoas comuns, como você e eu. 

A troca de saberes também se observa:

Era uma vez uma professora,
Mulher sabida e conhecedora.
De tanto estudar e ler,
Duvidou que ainda pudesse aprender.
Tinha esquecido que saber depende:
Aprender se ensina e ensinar se aprende.

É nesses trocadilhos que novamente texto e imagem conversam. Nesta última estrofe, o estudante, além da professora, também aparece como sujeito dotado de “saber”. Ainda a esse respeito, é possível perceber como o texto afirma e valida os conhecimentos e as experiências infantis. Não se furta, igualmente, de falar sobre as relações de mando também no universo da casa e da família, em seu sentido abrangente e diverso:

Era uma vez uma casa.
Uma não, muitas casas.
Em uma mandavam pai e mãe.
Em outra, pai e avó.
Também tinha pai e pai,
Mãe e mãe, tia e avó,
Cachorro… Ou mãe, e só.

Neste circuito de relações que envolve o rei, o índio, a escrava, o militar, a prefeita, a professora, a família, dentre outros, o leitor também é colocado em cena assumindo diferentes posições que reproduzem diversas relações de autoridade:

 Era uma vez você […]
Que não é a mais forte, a mais velha,
a mais alta, a mais rica nem a mais bonita.

O diálogo travado entre texto e imagem neste trecho traz como recurso a ilustração de um espelho. Será que alude a como nos vemos frente a essa questão? É de forma astuta que, não parando por aí, o livro abre novamente para a possibilidade de escolha, nas páginas finais: 

Alguém que às vezes manda
e às vezes tem de obedecer.
Mas que descobriu
que também pode escolher.

 

O livro também está disponível gratuitamente para download.

 


Texto apresentado como trabalho final da disciplina Poesia: a infância da linguagem, no curso de Pós-graduação Crianças, livros e jovens: teoria, mediação e crítica, do Instituto Vera Cruz, em abril de 2016.