Para começar,  gostaria de fazer duas considerações: a primeira é que a cultura escrita é um bem público e um meio para a construção individual e coletiva do público, e a segunda, que a biblioteca, enquanto espaço social complexo sustentado por uma rede de relações, é também um bem e um espaço para a construção do público, capaz de desempenhar um papel na construção da democracia e na dignificação do espaço público e das pessoas que nele habitam, desde que cumpra determinadas condições.

Mas, por outro lado, antes de afirmar se as bibliotecas contribuem ou não para reduzir distâncias entre ricos e pobres, entre privilegiados e excluídos, é preciso fazer algumas perguntas sobre o lugar que a leitura ocupa em nossas sociedades.

Recentemente, a partir do momento em que a sociedade reconhece como inaceitável que um grande número de pessoas esteja privado dos bens considerados fundamentais, começamos a descobrir as bibliotecas como aliadas na luta contra a exclusão.

Se reconhecemos que a função mais importante da biblioteca é facilitar o acesso à cultura escrita, assegurar a leitura como direito, é preciso considerar antes algumas reflexões sobre o valor que a sociedade concede à leitura, à escrita e ao livro, e se eles fazem parte dos bens considerados essenciais à existência humana.

Como a sociedade imagina a leitura? Que sentido esta prática tem para ela? Como a exerce e com que fins?

Há pouco mais de dez anos, em um encontro realizado em Madri por Felicidad Orquín, da Fundação Germán Sánchez Ruipérez, duas pessoas referiam-se justamente ao sentido que a sociedade atribui à leitura. Entre elas, o sociólogo espanhol Enrique Gil Calvo dizia que, no início do século 20, a leitura era considerada como “destino”, uma vez que individual e coletivamente representava um instrumento de construção de futuro, e que essa antiga ideia de leitura foi substituída no final do século por uma “leitura de entretenimento ”, ou seja, para os momentos de folga, uma leitura mais consumista e ociosa. (Gil Calvo, p. 13-25)

A escritora argentina Graciela Montes, por sua vez, tem questionado há mais tempo e com maior beleza e profundidade muitos lugares comuns criados em torno da leitura, ponderava se “em vez de acumular argumentos (e às vezes sofismas) em torno do conceito [de leitura], podemos começar a nos perguntar se existe um lugar significativo [… para ela]. Sem este lugar, não há legitimidade para alcançar. […] Parece que o nosso tempo […] perdeu a confiança na leitura, não está muito certo de sua serventia e envergonhado de ter desistido de algo tradicionalmente tão valioso – ora compõe poesias sobre ela, ora a mascara, fazendo-a dançar como um macaquinho”. (Montes, p.86)

A maioria dos acontecimentos, discursos, eventos, é fruto dessa formulação de desejos de muitos que acreditam que a leitura deveria continuar tendo um lugar na vida das pessoas, embora nem todos imaginem que este lugar seja o mesmo ou igual para todos.

Para começar, a leitura tem um lugar em nossa época. Fala-se sobre ela, é tema de eventos e motivo de preocupação por parte de autoridades da educação e cultura, assim como de pais e professores. Livros são produzidos, bibliotecas são construídas, promove-se a leitura por meio de várias atividades e estratégias. Tenta-se capturar leitores de mil maneiras. Não há dúvida, a leitura tem um lugar.

Mas que lugar? Qual é o seu sentido e com que propósitos são dedicados tantos esforços à sua promoção?

Sou levada a pensar que a leitura não tem, como afirmava Gil Calvo, “o monopólio sobre a construção da realidade” e que deixa de ser “critério de estratificação social”. Ou seja, não é mais usada para saber no que acreditar ou para perguntar sobre o mundo e a realidade, nem nos diferencia entre cultos e incultos, entre informados e ignorantes.

 

Flip 2012
Écio Salles, Silvia Castrillón e Alexandre Pimentel na Flip 2012.

 

Pode ser que a incerteza que existe sobre a leitura se origine em um modelo de sociedade capitalista, agora chamado de economia social de mercado, que a considera pouco lucrativa em termos de produtividade e, portanto, não privilegia a leitura a não ser como forma de acesso à informação – valorizando somente as leituras científicas e técnicas, a partir do pressuposto que seriam as únicas com uma utilidade concreta – ou como consumo de um bem em sua condição de mercadoria, também com uma utilidade concreta para determinados setores.

De qualquer maneira, ainda que se trate somente da leitura com fins utilitários imediatos ou da chamada leitura de entretenimento, não podemos renunciar à sensação de que é importante e de que estamos deixando de fazer alguma coisa. Portanto, é preciso abrir um espaço para ela,  para falar dela, propor sua democratização, torná-la objeto de política pública, formular planos nacionais e locais de leitura. Mas, ao mesmo tempo, e talvez devido à falta de clareza quanto a sua utilidade, ela é cada vez mais deslegitimada, até mesmo dentro das instituições que, por definição, teriam de assegurar não apenas o acesso a ela, como também criar um sentido para a sua prática: a escola e a biblioteca.

Poderíamos dizer, então, que a leitura que permite, como afirma Graciela Montes, “encontrar uma solução, uma chave. Interpretar sinais, buscar sentido. Ver o outro lado das coisas. Vasculhar e se aprofundar. Penetrar, elaborar, julgar e tecer, construir um relato.” (Montes, p. 88) – essa leitura, creio, foi a que perdeu lugar na sociedade.

E, no entanto, é justamente essa leitura que, em minha opinião, poderia contribuir mais profundamente para alcançar transformações; transformações que trazem com elas uma sociedade mais justa e inclusiva, porque permitiria a essa maioria excluída assumir um distanciamento diante do mundo e diante de realidades criadas e consolidadas, além de imaginar e participar ativamente na construção de mundos possíveis. É a leitura que propicia algum tipo de rebeldia, muito diferente da leitura proposta como evasão.

Vejamos rapidamente o que está acontecendo com essa leitura nas duas instituições responsáveis por formar leitores e assegurar o acesso à cultura escrita: escola e biblioteca. Quais são os motivos para afirmar que a leitura, ao menos a leitura à qual acabo de me referir, está perdendo seu lugar na sociedade e, por consequência, identidade nessas instituições?

Por um lado, a preocupação atual da escola, em termos institucionais, é muito distante da abertura de espaços para uma leitura que se apresenta como busca de sentido. A escola responde à pressão da sociedade que espera dela pessoas profissionalmente competentes e cidadãos obedientes.

O atual modelo educacional requer um leitor de acordo com esses princípios. Nada que o distraia dessas preocupações é bem-vindo, a menos que seja necessário oferecer pausas que permitam recuperar o estímulo para continuar. Sua proposta é desenvolver as competências básicas de comunicação: ensinar a decodificar e compreender um texto escrito – principalmente um texto informativo ou chamado científico – e, como recompensa pelo esforço, oferecer o prazer de ler através da leitura de entretenimento, com o qual se acredita criar o mal designado hábito.

Mas o que nos interessa é a biblioteca, vou me deter um pouco mais sobre ela, a quem me refiro como espaço público por excelência. Procurarei descrever o que se costuma fazer e o que, em minha opinião, se faz apenas algumas vezes. Parto da experiência do meu país, que tem uma longa trajetória em matéria de bibliotecas públicas, que se tornaram exemplo para países vizinhos e receberam importantes prêmios internacionais.

Na Colômbia, tem-se trabalhado há várias décadas na construção de bibliotecas públicas, principalmente em Medellín e Bogotá, onde se tornaram modelo arquitetônico e de organização.

No entanto, pelas razões mencionadas acima, o tema da leitura, que deveria ser central ao se considerar que a biblioteca pública é provavelmente a única instituição à disposição da sociedade para garantir à população não escolarizada o direito à cultura escrita, não tem lugar principal nessas bibliotecas, nem é assunto de reflexão daqueles que planejam suas ações.

Vejamos do que cuida a biblioteca pública, de modo geral, em nossos países:

Em minha opinião, as duas atividades principais são, de um lado, o apoio à escola e, de outro, o acesso às novas tecnologias, especialmente a internet. É responsável também por outras manifestações de arte e cultura, como a música e o cinema.

 

O apoio à escola

Na falta de bibliotecas escolares em quase todo o território nacional, a educação deixou nas mãos da biblioteca pública uma parte essencial do processo de alfabetização, entendida em seu sentido mais amplo, ou seja, não apenas como o ensino do alfabeto, mas, sobretudo, como aquela que permite uma verdadeira apropriação da linguagem escrita.

Com a substituição da biblioteca escolar pela pública, a prática da leitura pelos estudantes torna-se exercício sem sentido. As bibliotecas públicas fora das escolas, visitadas apenas por alunos e raramente por professores, divorciadas dos projetos educacionais, não podem atender ao propósito de que crianças e jovens descubram o valor do texto escrito, especialmente da literatura, e a importância que ela pode ter em suas vidas.

 

As novas tecnologias

A biblioteca pública, acossada pelo afã da sociedade de não perder o trem do desenvolvimento e de não parecer antiquada, está envolvida no que se tem chamado de alfabetização digital, cibernética, computacional ou informacional. A biblioteca pensa que o tempo da leitura e da escrita, o tempo dos livros, foi superado? Assim afirmam aqueles que dizem que, na escola, a biblioteca deve ser transferida para a sala de informática ou quando um prefeito de um município sem acesso à internet diz: “o que precisamos nesta cidade é de uma biblioteca virtual”.

A preocupação com a alfabetização digital pode responder a uma angústia de preencher as lacunas de uma educação, cujo principal propósito na atualidade é a formação para as exigências do mercado de trabalho.

Durante uma conferência apresentada em Bogotá há alguns anos, Carlos Fuentes disse que “pensar que a recepção massiva de informação e de imagens na era eletrônica pode substituir os valores da língua é expor-se a uma redução progressiva da capacidade de pensar, julgar e imaginar”. (Fuentes, p. 51-64)

 

Promoção de leitura

A biblioteca é responsável, sem dúvida, pela promoção da leitura.

Mas em que sentido faz isso? O que entende por leitura?

A biblioteca pública não quer parecer com a escola e, portanto, investe o tempo que lhe resta em demonstrar que a leitura é agradável, por meio de atividades denominadas lúdicas, termo que há algumas décadas tinha na educação uma dimensão libertadora e agora foi capitalizado pelo mercado das indústrias de entretenimento, que despoja a leitura de seu caráter de ferramenta do pensamento e da reflexão, tentando torná-la fácil com o objetivo de estimular seu consumo massivo.

E, assim, a biblioteca converte a leitura em um jogo de evasão que nega seu convite à reflexão e ao diálogo interior, ao conhecimento do mundo e de si mesmo. Acaba com a intimidade, com o silêncio criador e com seu convite ao questionamento. Nega, como disse Bartolomeu Campos de Queirós, a força que a palavra tem para dar ordem ao caos, para “transformar a desordem em beleza e movimento”, pois com essas atividades a palavra desaparece para tornar-se ruído.

Além disso, o incentivo à leitura tornou-se substituto da qualidade do livro. Qualquer livro, não importa sua qualidade, pode ser valorizado graças à promoção que é feita nas bibliotecas.

No entanto, não gostaria que isso fosse entendido como uma crítica generalizada às bibliotecas públicas. Elas respondem a uma pressão da sociedade e são vítimas da mudança de sentido que a sociedade atribui à leitura.

A partir desse momento, quero destacar o que, em minha opinião, também é feito em muitas bibliotecas e, sobretudo, o que fazem muitos bibliotecários que participam amplamente de questionamentos como o que faço agora e estão convencidos da necessidade de transformar essas situações e de preencher com outro conteúdo a atividade tanto das bibliotecas públicas como das escolares.

Nos últimos anos, tem sido criandos espaços para uma reflexão sobre a leitura, a escrita e sua promoção. O que significa ler, por que ler, por que promover a leitura são questões centrais sendo debatidas com a ajuda de um material teórico, lido e discutido paralelamente à literatura, e com a presença de pessoas que nos acompanham nesta reflexão, como Percival Leme Britto, Cecilia Bajour, Maria Teresa Andruetto, Michèle Petit, entre outros, os quais também têm questionado as campanhas e programas tradicionais de promoção da leitura.

A partir desses grupos de leitura e reflexão, se estabelecem programas de leitura, dentro das bibliotecas e fora delas, que trazem as seguintes características:

  • Colocam a leitura e a escrita a serviço dos seres humanos – crianças, jovens e adultos – e não o contrário, como acontece algumas vezes.
  • Realizam práticas de leitura socializantes, onde os participantes atuam como sujeitos ativos de um processo que lhes permite descobrir, de um lado, as suas potencialidades como leitores e escritores, pré-requisito para o acesso à cultura escrita, e, de outro, que a leitura lhes diz respeito, os reúne, e que precisam dela, pois o que vemos é que a maioria das pessoas se sente rejeitada pela leitura.
  • Propõem – como observa Paulo Freire – que as pessoas que participem deles ampliem suas possibilidades de uma leitura autônoma do mundo, a qual é menos possível sem a leitura da palavra.
  • Partem da suposição que somente com leitura, escrita, reflexão e pensamento é possível fomentar a leitura, a escrita, a reflexão e o pensamento. E que a melhor forma de fazer isso é em grupos.
  • Trabalham com qualquer tipo de pessoas, especialmente com aquelas que se encontram em situações críticas de marginalização, violência e deslocamento por causa da guerra e da pobreza.
  • Privilegiam a leitura da literatura sobre outros tipos de textos escritos, sem desvalorizar ou desencorajar outras leituras. A linguagem simbólica, sugerida e ambígua oferece várias possibilidades de compreensão do mundo e de apreensão de uma memória compartilhada.
  • Partem do princípio de que “só o melhor é bom” quando se trata de fornecer material de leitura àqueles que não o tem.
  • Criam espaços não autoritários ou elitistas e convidam a abandonar o esquema assistencialista que caracteriza a maioria dos programas de fomento à leitura, em que uns poucos que sabem o que os outros precisam levam seus conhecimentos aos que não sabem, ou seja, as crianças e os pobres.
  • São programas que não admitem avaliações quantitativas e estão mais interessados em saber o que acontece por meio de acompanhamentos e observações de cunho qualitativo.
  • Em geral, são programas não institucionalizados, realizados por grupos de pessoas que, embora às vezes trabalhem estavelmente em uma biblioteca, fazem isso por iniciativa própria e não respondem às políticas da instituição.

Por fim, confesso que duvido muito que a solução para a exclusão da cultura escrita, que sofre a maioria das pessoas em nossos países, esteja nas mãos dos professores, bibliotecários ou promotores de leitura. O problema é mais profundo e estrutural, é um problema de exclusão social e econômica que nasce de ambições particulares ilimitadas. Mas também não duvido que trabalhar para alcançar uma distribuição mais justa desse bem público que é a escrita permitiria criar condições para que os que foram excluídos por ela a tornem um instrumento de transformação de suas realidades e de enriquecimento de si mesmos.

Programas como estes, aos quais me referi, podem ajudar algumas pessoas a encontrar na palavra diversas possibilidades de ser e de ter um lugar no mundo.

Finalmente, o que faz uma biblioteca não é o seu edifício nem os livros que possui, nem mesmo sua sofisticada sistematização. Nestes aspectos, pode ser muito ostentosa, mas o que a torna verdadeiramente pública e inclusiva é a sua capacidade de convocar a todos para descobrir este bem público que é a palavra escrita. E, quando falo de todos, me refiro especialmente àqueles que, por várias razões, não se identificam com a capacidade de ler e escrever e de utilizar essa ferramenta para o pensamento e para a reflexão.

 


Bibliografia

Carlos Fuentes, “La educación vitalicia”.  Em: Educar tarea de todos. Bogotá: Fundación Santillana para Iberoamérica, Tercer Mundo, 1999.

Enrique Gil Calvo, “El destino lector”. Em: La educación lectora. Madri: Encuentro Iberoamericano, V Simposio de Literatura Infantil y Lectura, novembro de 1998.

Graciela Montes, “El espacio social de la lectura”. Em: La educación lectora. Madri: Encuentro Iberoamericano, V Simposio de Literatura Infantil y Lectura, novembro de 1998.


* Texto apresentado na mesa José Kleber, na FLIP 2012.


TRADUÇÃO  CAROLINA PEZZONI / IMAGEM BIBLIOTECA PARQUE CENTRO, RJ