Era uma vez um castelo de sonho, o Bücherschloss, ou castelo dos livros, como é chamado pelos alemães.

claudiamendes-1Vista aérea do castelo.**

Seu nome oficial é Schloss Blutenburg, e fica num bairro de Munique chamado Pasing, abrigando a Biblioteca Internacional da Juventude (Internationale Jugendbibliothek – IJB). Para contar a história dessa instituição maravilhosa, seria preciso voltar ao período da Segunda Guerra Mundial, mas isso vai ficar para uma outra vez.

A história agora tem como protagonista o ilustrador brasileiro Roger Mello, premiado, em março de 2014, com o Hans Christian Andersen (HCA), o mais prestigioso prêmio internacional de literatura infantojuvenil, conferido pelo International Board on Books for Young People (IBBY) bianualmente, desde 1956, aos melhores escritores e ilustradores do mundo. A seção brasileira do IBBY, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), apresentou a candidatura do artista nos anos de 2010, 2012 e 2014. Conta Elizabeth Serra, secretária-geral da entidade: “O processo de indicação dos candidatos ao Prêmio é cuidadoso e trabalhoso. Além da escolha em si, que é uma grande responsabilidade, há também o aspecto material da confecção do dossiê e da providência do envio para todos os membros do júri – são confeccionados 15 dossiês para envio ao exterior.”

claudiamendes-2
Roger Mello depois do anúncio do resultado.
A partir da esquerda: Lúcia Riff, o jurado Fanuel Hanan e eu,
escondida atrás do Roger. Foto: Capa Dura em Cingapura

 

Há tempos que Roger ultrapassou as fronteiras nacionais para fazer sucesso fora. Começando sua bem-sucedida carreira no final dos anos 1980, seus livros foram traduzidos para o alemão, francês, chinês e espanhol. Foram vários prêmios nacionais conquistados, entre eles Jabuti, Adolfo Aizen, UBE, chegando a hors concours da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ, e internacionais, como o da suíça Fondation Espace Enfants, além do HCA. 

Quando seus livros chegaram ao conhecimento da IJB, por intermédio da FNLIJ e de várias editoras brasileiras, surgiu a ideia de organizar uma exposição que mostrasse aos alemães um pouco do seu trabalho. Durante o 32º Congresso Internacional do IBBY em Santiago de Compostela, em setembro de 2010, quando Roger foi nomeado um dos cinco finalistas ao Hans Christian Andersen, o convite foi formalizado por Christiane Raabe, diretora da IJB, e Jochen Weber, diretor da área de Especialistas em Línguas da Biblioteca e curador da mostra, e ficou acertada a realização de uma exposição. 

claudiamendes-3Convite para a abertura da exposição com ilustrações de Nau Catarineta. Eva Geck, designer gráfica da Biblioteca, realizou cuidadoso trabalho de programação visual para todas as peças gráficas –  cartaz, convite, folheto informativo etc. Reprodução.

 

Roger e Elizabeth Serra começaram desenvolvendo o conceito da exposição proposto por Jochen: “Delineamos uma linha para a mostra. Conversamos sobre Brasília, sobre animais e plantas do cerrado e a influência da arte popular e contemporânea, muito fortes no meu trabalho. Pensamos em enviar essas ideias com imagens de Brasília, dos artistas, do cerrado, objetos pessoais meus, rascunhos de livros, sketchbooks, cadernos de viagem e as artes, em sintonia com as sugestões de Jochen”, conta o artista.

claudiamendes-4
Páginas do memorial enviado para a IJB pelo artista. Reprodução

Nesse momento é que eu entro na história, para participar nos bastidores da exposição. A IJB oferece anualmente bolsas de estudo a pesquisadores do mundo inteiro interessados em explorar seu extenso acervo, e em 2011 fui selecionada para passar três meses por lá, de agosto a outubro, bem a tempo de colaborar na co-curadoria da exposição que seria inaugurada no final de novembro, numa sincronicidade muito feliz.

Eu já conhecia bem Roger Mello e sua obra (fomos colegas na Escola Superior de Desenho Industrial da UERJ nos anos 1980, e eu tinha concluído em março de 2011, na UFRJ, dissertação de mestrado sobre seus livros ilustrados) e pude participar da seleção e organização visual do material da exposição, fazendo uma ponte virtual entre o artista e a Biblioteca durante a fase de planejamento e pré-produção.

Logo que cheguei na IJB, fiz um levantamento das características e medidas do espaço onde a exposição aconteceria, a Wehrgang Galerie (Galeria da Ameia): um corredor comprido e torto, com uma torre em formato octogonal em uma das extremidades, ligando duas das principais edificações do castelo.

claudiamendes-5Planta baixa com as medidas da Wehrgang Galerie e da torre.

O castelo é um espaço diferente de qualquer coisa a que estejamos habituados. Aqui no Brasil, as construções mais antigas datam do período colonial, já dentro de uma lógica moderna. Embora reformado e com alas modernas, o castelo teve suas origens no período medieval, com subsolos, portas baixas, pequenas janelas cavadas em paredes grossas, além dos corredores tortos e salas com oito paredes (nenhuma delas igual a outra) –um delicioso labirinto onde me perdi muitas vezes.

Nós pesquisadores passávamos os dias examinando os livros do acervo da IJB na Lesesaal (sala de leitura), em um extremidade da Wehrgang Galerie. De lá, eu fazia uma ponte “física” com Jochen, cuja sala fica no prédio na outra extremidade da galeria, e “virtual” com Roger, no Brasil. Trocávamos ideias sobre as possibilidades de explorar o espaço, buscando uma organização visual para os diferentes materiais que seriam expostos.

Dentre os muitos livros ilustrados de Roger, foram privilegiados na exposição os dez que o artista, juntamente com a FNLIJ, apontara como suas principais obras para concorrer ao prêmio HCA em 2010: Maria Teresa, Bumba meu boi Bumbá, Cavalhadas de Pirenópolis, Nau Catarineta, Jardins, Todo cuidado é pouco!, João por um fio, Meninos do mangue, Carvoeirinhos e Zubair e os labirintos, e ainda os mais recentes Selvagem e Contradança. 

Além dos livros em si, que já faziam parte do acervo da Biblioteca (os livros dos candidatos ao prêmio HCA são doados à biblioteca ao final de cada processo bianual de premiação), seriam exibidos também desenhos originais e objetos vários, que Roger levou na bagagem em uma visita preliminar à biblioteca, no final de agosto.

Aí começou o trabalho duro: havia mais material do que espaço disponível, e ambos eram bastante irregulares. Como selecionar o que mostrar e o que excluir? Como organizar e distribuir o material no desafiador espaço expositivo? Como valorizar as obras, contando uma história atraente que fizesse sentido para um público variado e pouco familiarizado com a cultura brasileira, em geral, e com a obra do Roger, em particular – crianças, adultos, leigos, especialistas? Nessa etapa, minha formação e prática profissional como designer vieram a calhar, de modo que coloquei mãos à obra também no planejamento visual da exposição, e fomos resolvendo a seis mãos as muitas questões que se apresentavam.

A exposição aconteceria durante o inverno europeu, quando as árvores perdem suas folhas e a luz fica azulada e fraca – bem ao contrário do que encontramos nos desenhos do Roger, com sua vegetação exuberante e cores tropicais.

claudiamendes-6Paisagem do castelo durante o inverno.

O espaço expositivo não admitia maiores interferências, por ser um prédio histórico, e o orçamento para a montagem era limitado, ainda que não fosse propriamente escasso. Como respeitar as características do espaço, “temperando-o” à brasileira? Como transmitir para o público alemão a “unidade na diversidade” das narrativas visuais do Roger, evitando o caminho do “exótico tipo exportação”?

Como diz Roger, “os fatores obstrutivos são fatores criativos”, e o próprio espaço foi norteando as escolhas e apontando as soluções.

Antes de mais nada, a Wehrgang Galerie pode ser acessada por qualquer uma das suas duas extremidades, então não faria sentido uma distribuição linear sequencial, fosse cronológica ou qualquer outra. Optamos então por agrupar o material em conjuntos, de acordo com critérios de afinidade entre si e com o espaço.

Assim, os objetos – artesanatos brasileiros, sketchbooks, fotos, rascunhos, etc –  foram reunidos e exibidos em uma grande estante de vidro, junto a uma das portas da galeria. Um belo impacto visual acolhendo os visitantes logo na entrada.

claudiamendes-7Estante com objetos do artista, ao lado da porta de entrada da Lesesaal.

 

Na outra extremidade da galeria há um pequeno corredor com uma grande janela de caixilhos de vidro, voltada para o ajardinado pátio interno do castelo, que na época da exibição estaria seco e possivelmente branco, caso nevasse. Ali planejamos outro ponto de impacto visual: os lindos desenhos de Jardins seriam impressos em película transparente autoadesiva e aplicados nos vidros, compondo assim um mosaico multicolorido, contrastando com o exterior e convidando os visitantes a mergulharem no mundo colorido de Roger. Aliás e a propósito, falta contar que o título da exposição era justamente Das fantastiche Farbenreich des brasilianischen Illustrators Roger Mello – “O fantástico mundo de cores do ilustrador Roger Mello”.

claudiamendes-8No corredor pequeno, desenhos de Jardins em adesivo transparente na janela e originais emoldurados expostos na parede oposta.

O mais extenso espaço expositivo era o longo corredor da Wehrgang Galerie que ia da torre à Lesesaal, onde ficava a grande estante envidraçada com os objetos dispostos. Comprido, estreito, torto, com teto baixo e piso desnivelado, esse corredor parecia saído de uma sala de espelhos de um parque de diversões.

Para mim, um charme extra desse inusitado espaço são as seteiras – pequenas aberturas cônicas – distribuídas a intervalos desiguais ao longo das paredes, trazendo luz e deixando entrever o exterior através de seus grossos e irregulares vidros.

claudiamendes-10
Seteira com adesivo transparente de cavaleiro mascarado de Cavalhadas de Pirenópolis.

 

Nas paredes entre as seteiras, distribuímos os desenhos originais de Roger, montados em molduras envidraçadas pertencentes à Biblioteca. Decidimos enquadrar os desenhos com um passe-partout de cor forte, vermelha, para “esquentar” o conjunto e dialogar com as ilustrações. O maior desafio foi selecionar e diagramar os originais dentro das molduras de tamanhos preexistentes, e estas nas paredes de medidas irregulares. Foram várias reuniões, até chegarmos a soluções satisfatórias.

claudiamendes-11Na porta fechada de acesso à galeria, os visitantes são surpreendidos pelo caçador de Selvagem fugindo… 

claudiamendes-12… do tigre que surge quando a porta é aberta, revelando a exposição no interior da Wehrgang Galerie.

 

O coração do espaço expositivo era a torre octogonal. Das suas oito paredes, metade são ocupadas por duas portas, uma janela e um nicho envidraçado, e as demais ficam livres para expor material. No centro fica uma mesa onde se costuma deixar os livros para serem manuseados pelo público, e em toda a volta existem bancos fixos, onde os visitantes se sentam para folhear os livros, ouvir histórias, encontrar convidados.

claudiamendes-13Roger Mello e um grupo de crianças e professores ouvem histórias contadas em alemão por Regina Cayres, arte-educadora brasileira que trabalha dinamizando a Biblioteca Juvenil da IJB.

 

Pensamos então em explorar a singularidade desse espaço, reforçando seu potencial de acolhimento por meio de dois recursos principais:

1. Dando a volta nas paredes, dispusemos reproduções das páginas do livro Todo cuidado é pouco, uma narrativa circular que encadeia uma página na outra, e termina voltando ao início da história. Com alguns cálculos, foi possível mostrar a história completa, combinando a circularidade da narrativa com a do espaço.

 

claudiamendes-14
Plano de montagem das páginas duplas de Todo cuidado é pouco,
dando a volta completa nas paredes da torre

2. Ao contrário do corredor principal, onde o teto é baixo, na torre o teto é muito alto, atravessado por trilhos de metal onde a iluminação fica pendurada, uma configuração que “esfria” um pouco o espaço. Para compensar esse efeito de afastamento, tivemos a ideia de pendurar móbiles nos trilhos, com figuras dos livros ampliadas e recortadas.

claudiamendes-15

claudiamendes-16

Visitantes observam os móbiles na torre octogonal.

Temendo uma excessiva interferência desses elementos, possivelmente chamativos demais, Roger acabou criando desenhos originais empregando uma palheta com três cores – o preto, branco e vermelho dos passe-partouts – num processo artesanal e colaborativo que vale a pena contar. Sobre folhas de compensado, Roger traçou figuras em linhas contínuas e sinuosas, que remetiam, por exemplo, aos desenhos de João por um fio ou às criaturas marinhas de Nau Catarineta. Manfred Fuchs, o prestativo senhor que cuida da manutenção do castelo, habilidosamente recortou as folhas de compensado seguindo os contornos desenhados. No último final de semana antes da inauguração, Roger estava mergulhado na pintura dos móbiles, tendo as pesquisadoras-bolsistas Anna Czernow, da Polônia, e Sanghee Lee, da Coreia, como ajudantes voluntárias, encantadas de participar da produção.

claudiamendes-17
Na copa da Biblioteca, Roger pinta os móbiles na antevéspera da inauguração da exposição.

 

A essa altura, eu já não estava mais por lá para participar da montagem. Minha bolsa chegara ao fim um mês antes, no início de novembro, e eu retornara ao Brasil para o processo seletivo de ingresso no doutorado em Artes Visuais, onde continuo pesquisando a obra do Roger, além de outros autores. 

A tristeza por não poder acompanhar a montagem nem estar presente na abertura acabou sendo suplantada pela alegria com o sucesso da exposição: itinerante, ela seguiu em 2013 pelas cidades alemãs de Wetzlar (Phantastische Bibliothek, 1 a 31 de maio) e Colônia (Semanas Internacionais da Literatura Infanto-juvenil, 8 a 23 de junho) até chegar ao Struwwelpeter-Museum em Frankfurt em outubro, durante a Feira do Livro, quando o Brasil foi o país homenageado. Rumando em seguida para o Oriente, ficou em exibição de 16 de maio a 22 de julho de 2014 no Chihiro Art Museum, em Azumino, Japão, indo a seguir para a Coreia do Sul. Depois disso, quem sabe por onde mais andará!

 


*Agradeço a Elizabeth Serra, secretária-geral da FNLIJ, e a Jochen Weber, diretor da área de Especialistas em Línguas da IJB, pelos comentários.

**Exceto quando mencionado, todas as fotos são da IJB. 


Alguns links sobre a exposição

Feira do Livro de Frankfurt 2013: http://brazil13frankfurtbookfair.com/pt-br/roger-mello/

FNLIJ – Jornal Notícias, dezembro de 2011, p. 4- 6: http://www.fnlij.org.br/site/jornal-noticias/item/121-dezembro-de-2011.html

IJB exposição: http://ijbib.wordpress.com/2014/05/20/roger-mello-in-japan/

Internationale Jugndbibliothek: www.ijb.de