A coleção “Libros para mañana” foi publicada em 2015 pela editora Média Vaca, na Espanha, e no Brasil pela Boitatá. Mais de 30 anos depois da primeira edição, os textos foram mantidos praticamente sem nenhuma alteração – provando-se atuais até hoje, no conteúdo e na forma. Um dos grandes sonhos de todo editor é que seus livros permaneçam atuais e vigentes ao longo do tempo. Intrigadíssima, fiquei pensando quem teria sido a figura ousada e valente que publicou esta coleção quando o processo democrático na Espanha apenas se esboçava.

Por essas coincidências da vida (tem horas que duvido de tanta coincidência!), nas minhas andanças por Madrid fui apresentada à adorável Ainhoa Sanchez, que do nada me disse que conhecia muito Rosa Regàs, editora da coleção na década de 1980. Rapidamente estava eu em contato com Regàs, por enquanto, por mail.

Exemplo de editora, criteriosa, ousada, corajosa, Rosa Regàs é conhecidíssima na Espanha. Foi a fundadora da aclamada editora Gaya Ciencia, diretora da Biblioteca Nacional, e ocupou outros cargos públicos; hoje é escritora.

Feliz com o sucesso da coleção, premiada Bologna Ragazzi Award 2016, respondeu às minhas perguntas com todo entusiasmo. Obrigada Ainhoa, obrigada Rosa!

 

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Dolores Prades Rosa, como surgiu a ideia da coleção?

Rosa Regàs – Em 1975, morreu o ditador que, com uma doença que se arrastou muito, nos deu tempo de pensar sobre o que aconteceria depois de sua morte.

Durante 40 anos ele dominou nossas mentes, nossas consciências, e vivíamos entre o temor do que poderia acontecer quando ele não estivesse mais aqui e com a ilusão de começar de novo, a partir da legalidade que nos havia sido retirada pelo Golpe de Estado. Naquela época, eu tinha uma pequena editora, La Gaya Ciencia, e, precisamente poucos dias antes do ditador Franco morrer, tínhamos começado a imaginar uma coleção de divulgação sobre temas políticos tão distantes – até então – de nossa forma de pensar e de viver, e quase sempre proibido. Tinha a impressão de que a grande maioria da população apenas sabia o que era a esquerda e a direita, o comunismo, o liberalismo, o socialismo etc.

Meu irmão e eu começamos a pensar, lembrar e pesquisar, até que, no começo de janeiro de 1976 (Franco morreu em novembro de 1975), já tínhamos uma lista de 27 títulos, todos imprescindíveis para preparar a abertura política que esperávamos. Iniciamos com lindos livrinhos escritos, quase todos, por figuras que ainda estavam na oposição, com capas fazendo referência aos cartazes da guerra civil e da República, como se tivéssemos a segurança de que as novas formas que nos governariam partiriam da democracia republicana.

 

regas

 

Desafortunadamente, a nova vida política, a Constituição, o fim da Transição aconteceram a partir do mesmo franquismo, com a anistia que deixou limpos os que deram o Golpe de Estado, a igreja que se uniu a eles e os governantes dos últimos anos, alguns dos quais se mantiveram no poder. Mas essa é outra história. A coleção teve muito sucesso, era bonita, muito bem feita e econômica.

Então, se apresentaram à editora dois jovens com um incrível projeto sobre quatro temas políticos fundamentais, para crianças. Cinco anos antes, tinha criado uma coleção para crianças – Moby Dick de Bolso Júnior – que publicava textos na íntegra dos grandes autores clássicos e modernos, que as crianças poderiam entender. Tinha cinco filhos e me guiei pelos livros que eles entendiam e que gostavam. Chegamos a publicar 150 títulos para três idades diferentes: de 8 a 11 anos, de 9 a 14 e de 12 a 16 anos.

Assim, quando aqueles jovens que se autodenominavam Equipe Plantel me mostraram seus livros com os temas bem desenvolvidos, de uma perspectiva moderna inteligente, muito ousados para aqueles tempos, me juntei a eles e decidi publicar. Estávamos no ano 1977, pouco antes da verdadeira queda do regime, da chegada da democracia. A censura continuava vigente, mas esses livrinhos publicados sem nenhum alvoroço passaram despercebidos e foram para o mercado. Os colégios para os quais enviamos a coleção nem sequer nos responderam. Vivíamos sob o medo e ninguém queria tomar partido ou comprometer-se antes de saber o que aconteceria.

 

livros

 

 

DPQuem era a Equipe Plantel?

RR – A equipe Plantel eram uns jovens que rapidamente desapareceram no movimento social que provocou a queda do franquismo; eram jovens jornalistas que queriam entrar para a política. Não voltamos a nos ver e começou uma época de crise e desarranjo, ameaças de golpe de Estado e a chegada dos socialistas –com tudo isso a coleção acabou esquecida e nunca mais soube deles.

 

DPQual foi o seu papel nesse processo?

RR – Eu era a editora e meu papel foi publicá-los, apresentá-los, distribuí-los, divulgá-los, porque acreditava que as crianças tinham que ler esses livros. Estavam à frente de seu tempo, ninguém acreditou que passariam pela censura, mas aproveitando o movimento cultural, social, político em que vivíamos, os publiquei, e a censura, que estava se descompondo, não percebeu.

 

DP – Como você era como editora e qual sua linha editorial?

RR – Antes de acabar a faculdade, trabalhei oito anos na Editorial Seix Barral, com o mítico editor e poeta Carlos Barril. Era a melhor editora da Espanha e naquele tempo, foi a responsável pelo boom latino-americano, com coragem para publicar o impublicável e defendê-lo até conseguir as liberações, o que na maioria das vezes acontecia. Fui muito feliz ali, mas a cobiça que pode tudo, metida no coração do ajudante do sócio de Carlos Barral, Vitor Seix que acabara de morrer em um acidente em Frankfurt, conseguiu o apoio da família Seix que demitiu Carlos. Ele acabou montando uma pequena editora onde, infelizmente, não cabíamos todos.

Assim criei minha própria editora – La Gaya Ciencia – que publicou uma coleção de narrativa com textos de Manolo Vászquez, Eugenio Trías, Oriol Bohigas, Ana Vázquez, María Zambrano e muitos outros; uma coleção Moby Dick Biblioteca de Bolso Júnior; uma coleção de poesia em catalão, castelhano e inglês; uma revista de sociologia e filosofia, os Cuadernos de La Gaya Ciencia; uma revista de arquitetura – Arquitecturas Bis – que durou 14 anos com um conselho editorial, representado pelos melhores arquitetos espanhóis: Federico Correas, Oriol Boñigas, Enric Situé, Manuel Sola Morales, Helio Piñon, Rafael Moneo, Luis Peña Ganchegui, Tomás Llorens, Lluis Doménec e Fernando Villavechia.

 

after

 

A verdade é que eu queria escrever e quando fiz 50 anos, com os filhos grandes, vendi a editora, fui para Genebra fazer o exame de tradutora e comecei a vida de tradutora freelancer, que me permitiu escrever. Isso durou oito anos e só voltei para receber o Prêmio Nadal de 1984, pela novela Azul.

 

DP – Como se sente, depois de tantos anos, vendo uma coleção reeditada sem nenhuma mudança nos textos?

RR – Por um lado, estou feliz porque vejo que não me enganei, que esses livros eram necessários, que durariam por sua relevância; por outro lado, sinto uma tristeza infinita, uma frustração, porque a atualidade deles demonstra que nada mudou realmente, que continuamos nas mãos dos mesmos que estão contra o progresso da sociedade e só entendem o progresso de suas ambições, de tal modo que não foi necessário tirar uma vírgula para que o texto continuasse totalmente vigente. É desolador.

 

DP – Como editora, esse seria um reconhecimento verdadeiro de seu trabalho? Soma-se a isso o reconhecimento do prêmio recebido na Feira de Bolonha em 2016.

RR – É assim que o vivo, assim o sinto e é de certa forma um consolo pelos tantos avatares que meu país viveu, em que milhares se foram e nunca foram reconhecidos por ninguém. Não sinto falta por mim, mas sim por eles. Daí que estes livros, e outros, e sobretudo, o Prêmio da Feira de Bolonha, passem por cima do que se diga e se pense e acabe reconhecendo a todos. Fiquei muito feliz de conhecer os editores da Media Vaca, Begoña e Vicente, que tiveram a ideia de reeditar, procurar a Equipo Plantel e colocar os livros em circulação. Sem eles, nada teria acontecido.

 

DP – Como foi a reação do público à coleção, na época do lançamento?

RR – Na época, havia pouquíssima gente comprometida publicamente, pois era perigoso. As coisas importantes se sabiam um pouco escondidas, e os tempos eram tão convulsivos que a publicação ficou como um de tantos esforços cidadãos para sair da barbárie do franquismo, feita com muito medo, porque até o final de 1978 não soubemos exatamente como acabaria tudo, se em democracia ou em uma ditadura ainda mais feroz.

 


 

TRADUÇÃO THAÍS ALBIERI