Uma fatia simbólica da infância de milhares de leitores de Lobato está em pauta no Supremo Tribunal Federal. Por prudência — já que os anos de psicanálise nunca me levaram a identificar as sequelas que carrego por ter sido uma suposta “vítima” de maus-tratos literários —, parei para pensar, considerando, vale enfatizar, a relação que se estabeleceu, durante anos, entre mim e a literatura infantil de Lobato. E é nesse terreno que situo minha investigação.

Achei razoável recuperar a leitora que fui, quando criança, e compará-la à leitora que sou, considerando agora, além da idade, as condições profissionais de escritora, editora e educadora, que, não tenho dúvidas, começaram a ganhar musculatura quando eu me debrucei pela primeira vez sobre as páginas de Reinações de Narizinho e descobri a chave de um esconderijo paralelo ao meu cotidiano no qual me refugio até hoje: o livro literário.

Assim como eu, crianças de gerações anteriores e posteriores à minha foram marcadas pela força dessa descoberta. A vida nunca mais é a mesma para quem é “picado” pelo inseto da literatura durante a infância, o que compromete, para sempre, o desenvolvimento de seu imaginário, de sua relação com a realidade e de seu mundo interior. No Brasil, as crianças que tiveram acesso aos livros de Lobato entre os anos 1930 a 1970 talvez tenham sido as principais vítimas desse veneno, já que não havia tantos antídotos externos à literatura. Vale esclarecer que não me tornei um adulto alienado, doutrinado, preconceituoso, retrógrado ou “politicamente incorreto” por ter lido as obras de Monteiro Lobato, e com voracidade, entre os 8 e 12 anos. Posso afirmar, no entanto, que me tornei uma criança muito mais imaginativa, mais criativa, mais sabida, mais solidária, mais curiosa, mais confiante e mais questionadora por ter usufruído do mundo ficcional acolhedor e sempre surpreendente das histórias do Sítio do Picapau Amarelo.

A obra de Monteiro Lobato está na categoria de clássicos da literatura infantil. É fato. E clássicos não são abatidos se forem julgados por um tribunal. Clássicos permanecem reinando na memória de seus leitores, independentemente do veredicto que recebam. Porque aos clássicos, os verdadeiros, não sofrem das mesmas mazelas que a literatura passageira, modista, marqueteira, moralista, “a serviço” que, depois de consumida, é facilmente encostada em um canto das estantes e da memória do leitor. Clássicos se fortalecem com as polêmicas que provocam. Clássicos são lidos porque são clássicos, e por que fazem parte da herança cultural letrada da humanidade, e, por isso mesmo, são documentos que não estão alheios ou imunes às tintas sociais da época, como uma tela de espelhos que as reflete sem filtros. As vozes que procuram calar a voz dos clássicos acabam por emudecer algum dia e bem antes deles, já os clássicos continuam com a mesma força de expressão e potencial para serem ouvidos. Por isso são clássicos.

A história da literatura para crianças no Brasil não seria a mesma se dela retirássemos a obra de Monteiro Lobato. E não seriam poucas as perdas que várias gerações de leitores sofreriam se não tivessem conhecido os personagens do Sítio do Picapau Amarelo ou se fossem privados do encantamento provocado pelas inusitadas situações que lhes eram apresentadas, num universo ficcional em que tudo era possível se uma vez imaginado. E nesse território do imaginário, da lógica ilógica, da realidade subversiva, que emoção poderia ser maior que a de presenciar o nascimento de uma personagem não humana, mas dotada de pensamento e linguagem, pelas mãos de Tia Anastácia? A boneca Emília, a personagem lobatiana mais emblemática e atrevida e curiosa e faladeira e desbocada e transgressora e mal-educada e inesquecível. Por que Lobato deu à negra Anastácia o mérito de tal criação? Para se pensar.

Tenho a convicção de que a literatura alimenta nosso mundo interior com iguarias de todas as espécies. E esse alimento é o único que tem propriedade de ganhar diferentes sabores de acordo com “a boca” do leitor. E por ter me fartado tanto com as histórias de Lobato, suponho que me tornei uma pessoa muito bem alimentada. Suas narrativas tinham um ingrediente especial: a valorização e o respeito à inteligência e ao imaginário infantil. Isso fazia com que eu me sentisse uma leitora muito bem tratada.

Os livros de Lobato foram os primeiros que me chegaram às mãos depois dos contos de fadas e, por meio deles, fui apresentada à literatura autoral e, por meio dela, à extraordinária capacidade dos homens de inventarem narrativas sem que as tenham vivido. Ainda me lembro da alegria ao receber na escola, como prêmio de algo de que já me esqueci, uma caixa contendo seis livros de Monteiro Lobato, encadernação de primeira, capa dura, e que guardo comigo até hoje. Lembro também de como mergulhei em cada um deles e entrei em contato com alguns sentimentos e descobertas e conhecimentos que nem sabia ainda nomear. Contatos com os quais, aliás, qualquer boa obra literária é capaz de promover.

Como educadora, apresentei os livros de Lobato a alunos quando lecionava: Reinações de Narizinho, Caçadas de Pedrinho, Memórias de Emília, A Chave do Tamanho e tantos outros. Aliás, iniciei minha carreira como professora em uma escola paulistana fundada no final dos anos 1970, experimental e berço de excelentes profissionais. Chamava-se “Centro de Educação O Poço do Visconde”, em homenagem explícita ao criador e à criatura. Faz tempo. Hoje assessoro professoras que trabalham com esses mesmos livros. O encantamento dos leitores, posso afirmar, continua o mesmo. O que é possível verificar, porém, é que a linguagem datada torna-se, muitas vezes, um obstáculo para a leitura autônoma de algumas crianças, mas que é facilmente superado com a mediação dos professores. Aliás, nada diferente da mediação que também se faz necessária com outros clássicos da literatura infantil, como As aventuras de Tom Sawyer, A Ilha do Tesouro ou Viagem ao Centro da Terra… Exatamente como eu já fazia com meus alunos há mais de 25 anos. Eles também não eram da mesma geração dos netos de Lobato ou dos filhos de Mark Twain ou dos sobrinhos de Júlio Verne…

Personagens como Tia Anastácia, Dona Benta, Pedrinho, Narizinho, Visconde de Sabugosa, Tio Barnabé, Emília e até mesmo a vilã algoz do conto “Negrinha”são registros ficcionais de tipos humanos de seu tempo, que se relacionam com pessoas do seu tempo, que utilizam a linguagem de seu tempo e reproduzem a sociedade de seu tempo — destaco o adjetivo, para evitar que as vozes do texto sejam compreendidas, equivocadamente, como a voz de seu autor, e não como a da ficção, aquela que tem a capacidade de se tornar “realidade” por meio da arte da linguagem.

Monteiro Lobato criou e deu a essas personagens um nome, um tempo, um cenário; introduziu-os em tramas e conflitos; atribuiu-lhes qualidades e defeitos; permitiu que tivessem vozes e que contassem histórias — todas as personagens do Sítio são excelentes narradores. Lobato foi o primeiro autor brasileiro para crianças a construir narrativas imbricadas, uma história dentro da outra dentro da outra; inovador, ao propor diálogos entre personagens de diferentes tempos históricos. Criou polêmicas e fez com que os pequenos leitores tomassem partido ao promover, mesmo que às avessas, o confronto entre as histórias de tradição oral, contadas por Tia Anastácia(em Histórias de tia Anastácia) e Tio Barnabé, com as da cultura letrada e livresca de Dona Benta e do Visconde de Sabugosa. Foi ainda cuidadoso ao tratar da importância das relações afetivas no universo infantil, fossem elas amistosas ou conflituosas. E soube trabalhar como ninguém o jogo simbólico pela linguagem, lúdico e necessário, para o amadurecimento do leitor.

Na literatura de Lobato, e não só na de Lobato, naturalmente, cabe tudo o que é do universo do humano e do imaginário, mas sempre circunscrito no terreno da ficção. E na ficção o autor não está e nem pode estar subordinado às regras e convenções sociais, sob pena de não conseguir criar algo que seja genuíno e significativo, porque estará entre o que “deve dizer” e que se “quer dizer”. E o que se “deve dizer” é um tipo de mordaça que não faz uma boa literatura, não faz personagens que não envelhecem, não provoca novas descobertas a cada leitura. Na ficção, e ainda bem que nela isso é possível, uma personagem pode usar uma metáfora ou expressão “politicamente incorreta”, “racista”, “sexista”, “imoral”, “preconceituosa” para referir-se a outra personagem sem que seus leitores, mesmo que crianças, entendam que é um comando para que pensem ou ajam de determinada maneira.

O leitor não é um ser passivo que recebe do texto, sem questionamento, uma lição de comportamento. A literatura não tem o “poder” de fazer com que nos ausentemos da realidade completamente. A literatura não é uma droga aliciante e a leitura nunca é passiva. Ela implica parceria, curiosidade, posicionamento. O leitor tem sempre as rédeas para interromper ou prosseguir com a leitura. E essa relação exige um consentimento e uma espécie de pacto de convivência e de confiança com a ficção, como se ficasse selado que enquanto a relação entre o livro-leitor estiver ocorrendo, tudo é permitido: o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é mau, o que é justo e o que é injusto, o que agrada e o que desagrada, o que pode e o que não pode. Mas apenas dentro do livro.

Emília ilus
Emília por Manoel Victor Filho em 1981 [imagem gentilmente cedida pela Biblioteca Monteiro Lobato]

 

Não conheço crianças que tenham se tornado racistas após a leitura de alguma obra de Lobato ou que tenham abandonado a leitura por terem se “indignado” com alguma fala supostamente preconceituosa do autor. Conheço, porém, e cada vez em maior número, e ainda bem, crianças que se desconfortam quando não se identificam com alguma ideia do livro que estão lendo. Conheço, também, muitos leitores que perguntam a seus pais ou professores, como um dia meus alunos e meus filhos perguntaram também para mim: “Por que Tia Nastácia foi chamada de “macaca de carvão?” Esse questionamento, próprio de um leitor ativo, e sem preconceitos, é que abre as portas para o diálogo — diálogo entre leitores e diálogo com o texto—, que, quando realizado com respeito à inteligência da criança, colabora para o plantio de uma consciência crítica que vai buscar no conhecimento das mudanças sociais e dos valores de época, explicações que permitirão, ao pequeno leitor, alargar a compreensão de sua própria realidade.

Todo escritor se vale da língua na qual se tornou cidadão, do vocabulário que conquistou em sua trajetória pessoal e dos conceitos e valores que o representam no momento em que escreve suas narrativas. Lobato não é uma exceção, e, como um homem nascido e criado no século XIX ( 1882) não é de se surpreender que traga as marcas de seu tempo em sua linguagem e em sua ficção. Afinal, a ficção se enlaça à realidade, representa a realidade, mas não é a realidade.

Quando Emília diz, em Caçadas de Pedrinho, que tia Nastácia, apesar de ter “carne preta” também será comida pela onça como todos os outros habitantes do sítio, estaria referindo-se à sua criadora como a uma pessoa inferior, ou reconhecendo — “nem tia Nastácia” — uma característica física de sua preceptora, com a habitual falta de censura e franqueza, a mesma que a fez ser rotulada pelas outras personagens como uma “torneirinha de asneiras”? Não creio que se pode responder a essa questão — e muito menos sugerir um receituário de como essa obra deva ser trabalhada nas escolas— com verdades absolutas, sem uma análise profunda das relações sociais da época e que se viam representadas pelas personagens do sítio. Tampouco me parece sensato ignorar as múltiplas análises dos discursos dessas mesmas personagens, e não reduzi-las a apenas uma. Isso não quer dizer, em absoluto, que a fala de Emília não possa ser interpretada como ofensiva à comunidade afro-brasileira quando literalmente recortada, sem que se avente o contexto histórico ou as possibilidades discursivas. E que essa e outras falas não devam ser questionadas à luz dos valores do século XXI. Mas questionar e buscar compreensão não é calar a voz, não é impedir de dizer, não é esconder os livros embaixo do tapete do politicamente correto.

O conto Negrinha foi realmente lido por aqueles que o acusam como uma obra ofensiva à comunidade afro-brasileira e que, por esse motivo, necessitaria de contextualização obrigatória para ser liberada aos alunos? Atrevo-me a dizer, que apenas aos que buscam censurá-la é que seria necessário não uma, mas uma série de notas explicativas interpretando a ironia nada sutil de Lobato. Em Negrinha, ao fazer com que o leitor se sinta profundamente indignado com o sofrimento da menina órfã, nascida em senzala, criada de favor e com requintada crueldade pela senhora da casa, o autor estaria validando o tratamento desumano e racista dos ex-senhores de escravos ou, pelo contrário, denunciando a intolerância, a discriminação, a impunidade, a injustiça social? “Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu.” Se não fosse para condenar os maus-tratos imperdoáveis de que foi vítima Negrinha, representante, sem nome, de tantos outros como ela — por que motivo o narrador atribuiria tanta ironia ao se referir à patroa como aquela que “era mestra na arte de judiar de crianças”? Ou, ainda, como “boa senhora”, “ótima senhora”, “virtuosa dama”?

Creio que nos tornamos mais humanos quando lemos uma ficção que nos provoca descobertas, encantamentos, provocações, dúvidas, emoções, dores, angústias, inquietações, desconfortos, tristezas, indignação, revolta. Tornamo-nos mais capazes de compreender o mundo quando, por meio da literatura, somos convidados a nos posicionar, por exemplo, a partir de algum dilema moral que nos incomoda de tal maneira que somos apresentados a algo em nós que desconhecíamos. Essa é uma das muitas funções da literatura.

Censurar o conto Negrinha ou trechos e obras de Lobato equivale a desconfiar da capacidade de discernimento do leitor, como se este não tivesse condições de distinguir, sem a mão da censura, entre o seco e o molhado, entre as práticas sociais condenáveis e as recomendáveis, entre a virtude e o perverso, entre o real e a ficção. Quando não estão lendo — e quem dera que as crianças vivessem com o nariz enterrado nas páginas dos livros —, meninos e meninas vivem em uma realidade mais perniciosa, violenta e preconceituosa que as páginas de Caçadas de Pedrinho. Censurar os livros de Lobato, qualquer livro de Lobato, é subestimar o potencial crítico de cada leitor para confrontar-se com as vozes do texto e defender-se delas quando necessário. Da mesma forma como qualquer “leitor” precisa se defender com os recursos internos de que dispõe ao confrontar-se com as ações violentas dos filmes que assiste com uma naturalidade espantosa, ou com a agressão gratuita incitada pelos jogos dos video games ou vídeos postados na net, ou com a sucessão de fatos indignos e antiéticos anunciados nos noticiários, ou com os programas de TV que estimulam o riso por meio do desrespeito às condições de vida de outro ser humano..

Colocar tarjas pretas nos títulos infantis de Lobato, com restrições de uso nas escolas e retenção de receita no MEC é também colocar em dúvida a competência dos educadores como mediadores capazes de conduzir o diálogo entre leitores do mundo contemporâneo e um autor genial nascido no século XIX. Mais do que um caso para o Supremo Tribunal Federal, a obra de Lobato poderia servir de mote para ações que de fato promovam a formação de formadores de leitores. Os leitores não precisam de que lhe censurem obras, mas de pessoas profundamente implicadas a amplificar a voz dos livros e a ensinar-lhes a serem leitores críticos.

 

 

 

Imagem Jean Gabriel Villin