Quantos países cabem em uma cidade? E quantos livros, referências, trabalhos de autores e ilustradores eu posso conhecer em uma semana? Essas perguntas não saíam da minha cabeça inquieta quando recebi o convite para ir à Bolonha como repórter da Emília. Ali, eu já sabia: era um caminho apaixonante sem volta.

Estar na maior feira de literatura infantojuvenil era um plano antigo, que ficou mais palpável depois que eu deixei o trabalho de cinco anos em um jornal, no Brasil, fiz as malas e decidi morar em Londres para ser freelancer, estudar escrita para crianças e, consequentemente, ser vizinha de grandes feiras e congressos literários. Sem trepidar, lá fui eu, com todo meu apetite!

Bolonha te ganha de cara, no caminho do aeroporto para o hotel, sem esforços. Já do táxi você se deixa levar pela arquitetura. É a cidade rosa da Itália, onde construções de terracota abraçam o céu em imensos arcos medievais. Portas enormes, janelões, tetos pintados, chão de pedras, ruelas e flores, todos os italianos falando alto, juntos e com as mãos… que coisa linda!

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Como não havia tempo a perder, deixei as coisas no hotel para conhecer melhor a capital da região Emilia-Romagna. Há uma espécie de batismo em Bolonha, cujo ritual eu vou contar. As torres inclinadas, conhecidas como Le Due Torri são o cartão-postal. Mas o primeiro lugar em que se bota os pés é a Piazza Maggiore, centro histórico, onde está a Catedral e o Museo Morandi. De onde, ao lado e do alto, Netuno muito bem esculpido assiste a tudo. É ali também que está a Libreria Per Ragazzi Giannino Stoppani, outro ponto de encontro obrigatório, onde toda tarde um ilustrador assina seu livro.

Sente-se em algum dos cafés e, sem hesitar, peça uma spremuta, bebida dos deuses, que não é um suco de laranja qualquer. Tem cor viva, de acerola com mamão. É doce feito mel, forte e saborosíssima. Um abuso, há de ser declarado, sem ainda nem conhecer restantes de cardápio local.

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Sim, porque Bolonha, dizem, é a cidade onde se come melhor na Itália. Para se ter ideia, leva o apelido de “la grassa”, a gorda. As vendinhas de frutas e cogumelos espalhadas por todo canto não passam despercebidas. Mas são as mercearias com produtos da região – mortadelas, salames, presuntos de Parma e queijos parmesão – pendurados no teto, que vão te convidar. O molho à bolonhesa? É um ragu fenomenal. Os sorvetes? Ah, deixa pra lá. Você vai ver que a felicidade tem gosto de mortadela no balsâmico reduzido, de aspargos gigantes abençoados por um molho rústico de queijo, de alcachofra empanada, de carne de caça e qualquer pasta al dente. Tudo bravo, bravissimo!

Mas Bolonha é também dos estudantes e a Università di Bologna tem grande valor. Onde estudou Dante Alighieri, hoje Umberto Eco dá aula. Gabaritada assim, atrai milhares de universitários o ano todo. Batendo um papo com o senhor Francesco, voluntário do Palazzo D’Accursio, fiquei sabendo que há nada menos do que 100 mil alunos em Bolonha: 60 mil são da cidade e 40 mil vêm de toda parte do mundo.

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Imagine, então, que pelas ruas, praças, bares e bicicletas, o movimento é grande e a noite não tem hora para acabar. Na rua onde estávamos hospedadas, a Via del Pratello, o movimento é dos bons e tem tradição. Foi ali, nos anos 1970, que criaram a rádio universitária Alice, em protesto ao Governo. A história completa é contada no simpático Museu de Arte Moderna, o Mambo, que vale uma visita rápida.

Agora, se já depois de uma lauda, você estiver se perguntando se a garota aqui foi passear ou cobrir a feira, eu explico: trabalhei muito! Acompanhar os passos de Dolores Prades, cheia de amigos e compromissos, não é para qualquer um. Aos poucos, muitas reportagens e entrevistas estarão na Emília. O que acontece, então, é que falar de Bolonha é envolver ofício e diversão, não se separa uma coisa da outra. E a graça é toda essa: uma celebração à literatura infantojuvenil!

Mesmo antes da programação oficial, os cafés e almoços são marcados para rever as pessoas e tratar de negócios. Assim, tudo junto. Caminha um pouco, visita alguns lugares, toma uma spremuta, combina uma conversa para o outro mês, descobre algo, marca um encontro em outra cidade do mundo, volta para o hotel e faz os acertos na agenda do próximo dia. Agenda que foi toda estabelecida há meses. Porque Bolonha exige planejamento. Um ano antes, começa a procura por hospedagem, acerta-se reuniões e, quase que na véspera, as reservas dos restaurantes são feitas.

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E então, é surpreender-se com a feira. Imagine um espaço enorme, com quatro pavilhões que abrigam dezenas de países. Tem estande da Malásia, da China, da Rússia, tendas enormes para os franceses, uma ala só de ingleses, espanhóis e italianos, outra para países nórdicos, uma só para os artistas da Polônia, Turquia e por aí vai. O Brasil? Estava lindo e com destaque. Um estande grande da FNLIJ, com todos os livros selecionados para a feira e, bem na frente, mesinhas separando uma editora da outra. Bonito de ver!

Entre 9h e 18h, o movimento é grande. As reuniões costumam ser marcadas de meia em meia hora, para vender ou comprar direitos de tradução. É que Bolonha não está para brincadeira. Há dezenas de eventos off-pavilhão (e vale muito a pena ficar de olho na programação!). Mas ali dentro, tudo é business. As editoras mantêm suas vitrines, só para mostrar os livros. E o que você vê são profissionais correndo de um lado para o outro para conseguir comprar e vender direitos, anotar mil referências e contatos e, com sorte, assistir a alguma palestra.

Em diferentes salas há debates e apresentações com autores e ilustradores. E me diga: em que outro lugar você pode ver como as crianças da antiga União Soviética liam, como é o processo de criação de um livro maravilhoso, como anda o mercado de edição na Itália, o que Lygia Bojunga tem a dizer e que tipografia árabe foi criada com carimbos em um dos livros premiados? Um evento atrás do outro, sem contar a exposição dos ilustradores do mundo todo e outra só com os artistas de Portugal, país homenageado deste ano.

Depois de um dia todo de congresso digital, o TOC (leia a matéria no PublishNews) e outros quatro de feira, sobrou uma tarde para poder passear. Eu estava praticamente morta, mas a cidade não permite que você coloque os pés para cima sem antes explorá-la a valer. Troquei a caminhada e o táxi por um bilhete de ônibus e preferi ver tudo da janelinha, com direito a descidas em pontos estratégicos. Provei um sanduíche de mortadela, fui ao museu de arte moderna, não resisti a um gelatto, entre tantas outras coisas. Foi ótimo, mas ano que vem eu alugo uma bicicleta, sem dúvida, e não deixo passar nada!

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Se o tempo é curto, programe-se para conhecer, ao menos, o Museo Morandi. Dentro do Palazzo D’Accursio, que é um prédio incrível, você vai ver as obras mais delicadas, uma coleção de natureza morta em tons pasteis, de alegrar o coração. No final, a vista é para a Catedral, cortada por um janelão de ferro, de fazer chorar. Talvez a foto abaixo passe um pouco da imagem. Como eu queria poder adicionar os sons, cheiros e texturas daquela praça, quando, no final da tarde, há sempre algum músico alegrando os visitantes que naturalmente balançam o corpo e seguem relaxados.

Enfim, nesse caleidoscópio que foi minha Bolonha, fico por aqui, à espera. Uma vez por ano, o encontro agora é sagrado. De frente para a Catedral, que está em reforma há anos, mas deve reabrir em 2013, eu prometi: me espere, Bolonha, que dia 25 de março eu estarei aí! E bastante curiosa para ver o que o Brasil, país homenageado em 2014, vai mostrar.

 

Quer saber mais? Fiz uma lista rápida com o melhor dessa minha primeira vez:

Livros  Tabati, de Lara Assouad Khoury / Caso de estudo Trilogia do Limite, Suzy Lee / Migrar, de José Manuel Mateo

Livrarias Libreria Per Ragazzi Gianinno Stopanni / Modo Info Shop

Melhor sanduíche de mortadela Tamburini

Melhores bebidas Spremuta e Aperol Spritz

Melhores restaurantes Osteria De’ Poeti / Da Nello / Al Sangiovese / Antica Osteria Romagnola / Trattoria La Braseria / La Capriata

Museus Morandi / Mambo

Lojinha independente de arte e impressões Inuit

Lojas Fabrica / MUJI (tem uma em Bolonha também!) / E todas as outras de design de móveis

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* As fotos que ilustram este artigo são de Thais Caramico.