Este foi o 14º ano que vou ininterrupdamente à Feira de Bologna e sempre tenho a mesma expectativa e emoção. Os Alpes, não mais tão nevados, anunciam a chegada e a campagna italiana nos dá as boas-vindas.

 

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Bolonha representa novos negócios, novas descobertas, mas acima de tudo, novos e velhos encontros. Depois de tantos anos, nos transformamos em uma grande família. Para muitos editores e profissionais do livro, é quase uma vida “paralela”, com ritmo e uma lógica fora de nosso cotidiano, reforçada a cada ano: um ritual.

Para começar, uma passagem obrigatória pela livraria Giannini Stoppani, ao encontro de Grazia Gotti e Silvana Sola, donas da livraria, e Alessandro, grande livreiro; depois, uma volta por Netunno (com a espetacular Fontana) e pela via Independenza (a rua principal); na sequência, os tão aguardados spremutas e spritzs. Chegamos a Bolonha, a cidade Rossa nos recebe em 2016 com um céu azul inacreditável.

 

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Gianinno Stopanni Libreria per Ragazzi

 

Este ano, falou-se de Bolonha como a Meca, viagem anual obrigatória, para repor e renovar o entusiasmo e a inspiração, tão debilitados pela crise e pela volatilidade do mercado.

2016 trouxe muitas surpresas, talvez porque pela primeira vez fui com um olhar mais institucional do que comercial. Tanto por ser jurada dos prêmios Andersen e do Bologna Ragazzi Award, uma condição excepcional em termos de contatos e de um novo olhar mais crítico, internacional e distanciado. Segundo, como contratada do Ministério de Cultura do Chile para assessorar a presença institucional da LIJ chilena na Feira de Bolonha 2016. Três privilégios, só agradecer.

 

 

 

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Público aguardando o anuncio do Prêmio Andersen

 

Visivelmente, havia mais movimento que no ano passado. Falou-se no último dia de um crescimento de público de pelo menos 30% em relação a 2015. Um sucesso, considerando-se o quadro de crise de muitos países. A China, ganhadora do Prêmio Andersen e a América Latina com as diversas premiações do Bologna Ragazzi Award foram destaque. Daí a importância dos prêmios internacionais que focam e dão visibilidade, no caso aqui, a toda uma região. A premiação do Bologna Best Children’s Publisher of the Year Prize – BOP para a histórica editora Ekaré foi o feixe final deste reconhecimento.

Pela primeira vez, o Bologna Ragazzi Prize criou a seção “Disability”, com base numa seleção dos livros sobre esta temática publicados nos últimos 10 anos. O ganhador foi o ilustrador argentino Gusti, com a obra-prima Mallko y papá. Reconhecimento e garantia de difusão mais do que merecidos.

 

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Este prêmio foi acompanhado por uma mostra dos livros, com curadoria da Giannino Stoppani Cooperativa Culturale, realizada na Fondazione Gualandi – as duas fotos que seguem mostram a beleza e a originalidade do evento. Uma homenagem preciosa aos autores, ilustradores, editoras que desenvolveram um trabalho sobre esta temática (para quem quiser ver mais).

 

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A ilustração como sempre esteve no centro das atividades da feira de Bolonha. O mural dos ilustradores, repleto de referências já no segundo dia, mostra a vivacidade e o frescor dos novos criadores. As exposições imperdíveis evidenciaram tendências e ilustradores novos. O tom político da feira se centrou no apelo à ajuda aos emigrantes e teve vários momentos importantes, e se plasmou na ilustração de Marco Paci do IBBY Itália:

 

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O país homenageado, Alemanha, realizou uma exposição exemplar apenas com ilustradores jovens e pouco conhecidos, uma aposta no futuro e na inovação. E primou pela simplicidade e originalidade na montagem de seu stand.

 

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A livraria internacional, com curadoria pelo segundo ano da Gianinno Stopanni Libreria per Ragazzi, expôs o melhor do mundo do livro para crianças e jovens. E a novidade deste ano foi a abertura da Feira per bambini para o público em geral durante todo o fim de semana seguinte às atividades até então reservadas para o público especializado. Uma ampla programação teve lugar de sexta a domingo, com direito às exposições e muitas atividades.

É visível o movimento da direção da feira no sentido de ampliar o público, agregar e dar visibilidade às pequenas editoras independentes, no plano mundial. Diretrizes claras orientam as curadorias das atividades da Feira, sempre levando em conta o contexto histórico e político de cada caso em particular, procurando olhar para a qualidade e a originalidade. A equipe é enorme, mas gostaria de agradecer profundamente aos mais próximos, como Elena Pasoli, Grazia Gotti, Silvana Sola e Marcella Terrusi – responsáveis pela Feira e por grandes parceiras.

 

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A imagem do Brasil “país do futuro” que, até o ano passado se difundiu com força no mercado internacional, por meio de uma voracidade nas compras e do surgimento de novas editoras, foi rapidamente soterrada. Entre o fechamento da Cosac Naify no final de 2015 e a notória ausência de numerosas editoras na Feira neste ano, principalmente editoras que até meses atrás estavam no páreo por novos títulos, produziu-se uma grande perplexidade e desconforto nos editores estrangeiros frente ao funcionamento do mercado brasileiro.

Mas são muitos os fatores a serem levados em conta, embora os sinais da fragilidade de nosso mercado sejam visíveis: o aquecimento fictício do mercado pelas compras governamentais – bola cantada há anos no México; a morte anunciada da Cosac Naify como projeto inviável de mercado; ou de outras casas, que fecham suas portas antes mesmo de aquecer seus catálogos, entre outros.  Sinais da crise real e profunda, que como toda crise também aponta para aquelas editoras pequenas e médias que apresentam um projeto coerente e dimensionado e encontram fôlego e criatividade para sobreviver.

 

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Nos últimos anos destacaram-se exemplos e estratégias internacionais de sobrevivência. Foi “ontem” uma das feiras mais esvaziadas de Bolonha, quando a crise pegou em cheio a Europa: viam-se stands vazios ou editores que foram apenas os dois primeiros dias. Mas isso passou e as editoras que conseguiram superar este momento crítico continuam marcando presença.

Se tivesse que resumir em uma frase o que aprendi nestes anos todos em termos de estratégias para sobreviver, mas não só, também para construir um projeto editorial sustentável, independente e com identidade, diria simplesmente “menos é mais”. Menos produção e mais qualidade nos produtos, mais investimento na criação e na ousadia.

Não é lugar aqui para ir a fundo nesta questão, apenas gostaria de colocar no horizonte a necessidade de se repensar este nosso mercado para resgatar e renovar a nossa presença no plano internacional. A Feira de Bolonha 2017 está ai! Que tal se preparar para viajar à Meca?