A “Valorização institucional da leitura e incremento de seu valor simbólico”, Eixo 3 do PNLL – Plano Nacional do Livro e da Leitura – abre um amplo campo de referências e contextos em torno da leitura e de seu significado. São muitas as ações para converter o fomento às práticas sociais da leitura em políticas e criar consciência social sobre o valor social do livro e da leitura. Participo ativamente de várias ações nesta direção: a Revista Emília, agora transformada em Instituto; o Conversas ao Pé da Página e a curadoria  da FLUPP Parque: todas ações na mesma direção de formar mediadores e de promoção do livro e da leitura. Com isso, a reflexão sobre a leitura e a formação está muito presente na minha atividade. Mas como avançar nesta valorização institucional? Como aprofundar o caráter simbólico da leitura para além do que já se faz?

 

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Nos meios menos unívocos, já é lugar comum dizer que o livro e a cultura não são, em si mesmos, moralmente valiosos. O editor mexicano Daniel Goldin ilustra bem isto quando faz referência à Segunda Guerra (1939-45), quando afirma que os nazistas se deleitavam com leituras de Schubert ou Goethe, a poucos metros do fornos crematórios.

Esta colocação radical problematiza conteúdos atuais veiculados em torno da leitura e de sua promoção:

  • A leitura como um valor abstrato, universal, responsável por um tom romântico, mítico e transcendente que resulta na afirmação: “a leitura salva”.
  • A leitura e os leitores como realidades fechadas em si mesmas, sem contato ou conexão com o contexto mais amplo histórico-social. Como se a leitura se desenvolvesse em paralelo a tudo e a toda à crise de nosso tempo.
  • A leitura como hábito e não como ato. E como disse um professor de literatura recentemente, “se o hábito não faz o monge” certamente também não faz o leitor!
  • A leitura como mero prazer, como entretenimento, como algo confortável em contraposição à fruição que a verdadeira arte provoca.
  • “A leitura (ler) é uma viagem”, enfatizando o caráter de evasão do texto e não de busca ou encontro.

Uma das razões desta mistificação, certamente decorre da utilização de conceitos e categorias estáticos na análise ou descrição de uma atividade complexa, dinâmica e histórica como é a leitura e como são os leitores. Mas não se trata apenas de pensar novas terminologias, mas sim de buscar uma forma nova de pensar que rompa com fórmulas, hoje bastante desgastadas. É necessário questionar e repensar a o valor simbólico da leitura, a construção de leitores, os conceitos e categorias. Um aprofundamento maior sobre algumas questões como leitura, leitores e literatura, mostram a diversidade de sentidos que coexistem para se falar de um mesmo fenômeno.

Por exemplo,  o termo leitor engloba e serve para designar um sem número de leitores. Desde um leitor estudante que só lê e rabisca o livro para dar conta de um conteúdo disciplinar até alguém que tem na leitura uma atividade essencial de vida, passando pelo leitor funcional, que usa a leitura no seu dia a dia, ou o leitor técnico…

Historicamente, a leitura e a escrita sempre foram exercícios de poucos, elites políticas e religiosas compartilharam desses privilégios durante séculos. Somente muito recentemente a leitura passou a ser um direito de muitos, graças à universalização do direito à educação.

A ideia de um leitor único, silencioso, submerso na sua leitura é uma figura historicamente determinada cada vez mais distante da realidade atual. O que torna mais difícil hoje definir um modelo universal de homem letrado.

 

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Portanto, é necessário contextualizar nosso tempo:

Vivemos um mundo onde o poder da cultura se perde num processo crescente de homogeneização promovido pelo mercado. Pela primeira vez na história a maioria dos bens e das informações que uma nação recebe não foi produzida no próprio território. O fenômeno da globalização cobre com a sombra de suas asas, de modo uniforme, todo o Planeta.

Nunca antes o patrimônio cultural esteve tão ao alcance de todos, graças à informatização da vida; a educação obrigatória é, sem duvida, em países como o nosso, garantia de amplas camadas sociais ao mercado.

Hoje são publicados mais livros e há uma quantidade maior de pessoas com capacidade de ler do que em qualquer momento histórico anterior. O número de usuários da cultura escrita nunca foi tão vasto.

Porém, o modelo leitor que se tinha em mente mudou. Hoje os estímulos vão na contramão dos pré-requisitos básicos exigidos para a formação de um leitor modelo.  Por exemplo: a concentração – um dos pré-requisitos básicos da leitura – é substituída pelo acesso sem limites à informação; o retiro, o silêncio, ou o recolhimento necessários para usufruir da leitura se transformam numa exposição sem limites nas redes sociais. As competências mudam historicamente e com isso os perfis dos leitores também.

Muitos ganharam o acesso à produção cultural, mas também se converteram no principal alvo do mercado. Daí a grande transformação, em todas as artes que leva a convivência, sempre desigual, entre uma produção voltada para o mercado e aquela que pretende resistir ao status-quo.

O leitor não se forma “interagindo apenas com manchas de papel” — se assim fosse talvez a transmissão por osmose seria possível e tudo seria mais fácil e não estaríamos aqui. Mas, a leitura e a escrita são sempre um fator social, historicamente determinado, que se inscreve profundamente na biografia afetiva de cada leitor, naquilo que podemos chamar de nossas histórias leitoras. Por trás de cada leitor há pessoas, presenças e ausências que os livros suprem, recordam ou encontram. Pessoas, corpos, gestos, modulações de voz, palavras e imagens… pessoas que interagem com outras pessoas.

Neste sentido, falar em leitores de modo geral, assim como falar na “valorização da leitura” são afirmações que precisam ser desdobradas para pensarmos o processo como um todo e para que as ações tenham êxito. A formação de leitores tem sido proposta como se por meio da valorização do livro e da leitura se desse uma transformação nas pessoas, dado o benefício social e ético que a leitura e, em especial da leitura literária, proporcionaria. Porém, nem sempre a leitura transforma o sujeito que lê. E nem sempre a boa literatura faz dos seus leitores pessoas mais justas e tolerantes. Lembremos da frase de Goldin referida logo no início.

No campo da valorização da leitura proliferam suposições, boas intenções, declarações pomposas sobre o seu poder, seu valor, muita vezes indiscutíveis, irrefutáveis e redentores. Mas, isto não é suficiente para que a leitura se transforme efetivamente em um elemento constitutivo da vida da maioria.

Hoje em dia temos um número crescente de leitores adeptos da leitura-consumo, da leitura como fonte de evasão, do ócio e do entretenimento – basta ver a lista de best-sellers – “Os mil tons de cinza”, os vampiros, os livros de autoajuda… 

A questão é: toda leitura pode se constituir em um elemento transformador do sujeito leitor? E nesse sentido, o que se entende por literatura?

Fica cada vez mais difícil definir um modelo universal de homem letrado. O mercado toma para si a produção cultural, até muito recentemente à sua margem. Estamos diante de uma realidade onde a multiplicidade de plataformas, de leituras e de leitores convivem e se transformam.

Estamos num terreno onde leitor é muito mais abrangente do que apenas alguém que lê; ele é determinado socialmente pela sua biografia, sua sensibilidade, sua ideologia.

Hoje, enfrentamos uma enorme discrepância entre práticas e discursos em torno da leitura. O consenso a favor da leitura, que presenciamos na atualidade, tem muitos significados e razões. Porém, assim que se ultrapassa o nível mais epidérmico dessa identidade, as distinções e o dissenso aparecem.

Para se localizar nesse vasto mundo de interesses  (no plano nacional e internacional), é fundamental ir a fundo nas propostas, saber quem está promovendo o quê, e o que é mais importante: buscar a coerência das ações de quem está patrocinando as campanhas, o histórico de cada instituição etc.

Problematizar essa visão mistificadora e redentora da leitura e dos leitores, que promove a fetichização de ambas, é uma questão necessária para se avançar nas formas de sua promoção.

Entender esta complexidade nos leva a inserir e contrapor categorias e conceitos, usando como ponto de partida um conjunto de práticas sócias complexas, para então considerar leitores e leituras na sua natureza dinâmica e histórica.

Pensar a formação de leitores só tem significado quando inserida na contraditoriedade do mundo em que vivemos. Levar em conta isto facilita a trajetória de recuperação do caráter civilizatório da escrita e da leitura. Daquelas leituras que, nas palavras da escritora cubana Emília Gallego “sugerem novas perspectivas, que nos comovem e impulsam ao encontro de outros horizontes”, que implicam em benefícios para o leitor onde se assenta a aposta na esperança de fazer um mundo mais habitável, justo e melhor.

 


* Texto apresentado no Seminário Internacional sobre o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de São Paulo, na mesa “Valorização institucional da leitura e incremento de seu valor simbólico”, com Filipe Leal (Portugal- BibliotecAtiva,) especialista em ciências da educação e leitura; Jéferson Assumção – Secretaria de Cultura do Rio Grande do Sul e moderação de Edmir Perrotti, curador do programa Quem lê sabe por quê  (10/12/2014).