Por que os adultos devem ler livros par
a crianças?

Fruto de um exame detalhado das realidades históricas, editoriais e familiares da infância, traçamos aqui um panorama dos contextos atuais, em que a “superproteção” e a indulgência parecem ser dois extremos da mesma corda, uma corda de serpente que morde seu próprio rabo.

Em A estranha e mortal ‘aflição’ de Henri de Campion, Michel Tournier1 revela o valor limitado da infância na Europa do século XVII: “Essas qualidades da criança que aos nossos olhos fazem dele sedutor, amável, encantador e assim por diante, não parecem ter sido apreciadas pelos homens do Antigo Regime, que apenas viam nela fraqueza, ignorância, sujeira, defeitos, idiotice”. Se as crianças sofriam era pela punição de terem nascido com o pecado original, apenas a superficialidade piedosa da civilização, além da maturidade, foi capaz de convertê-las em pessoas de verdade. Por isso, Henri de Campion, protagonista do ensaio de Tournier, foi uma exceção entre os homens de seu tempo: Campion perde a sua amada filha Louise Anne, depois de ela ter sofrido de sarampo aos cinco anos, e cair em uma profunda tristeza e em um desconsolo do qual não se recuperaria jamais. Destruído pela dor, pede desculpas ao leitor de suas memórias por ter sofrido tanto pelo acontecido: “Eu sei que muitos vão me achar sentimental, pouco íntegro frente a um acidente que, afinal, pode não ser considerado tão doloroso…”. Apenas lamentar, sem exageros, a morte de uma criança era comum não só na França de 1613, mas em muitos outros lugares onde a saúde não era garantida e os atores que constituíam a força de trabalho ou militar eram mais importante para a sociedade. Tampouco chamava a atenção a pouca preocupação em dar nome aos recém-nascidos: uma menina nascida no dia de São João se chamaria Juana – da família tal – se pudesse sobreviver às múltiplas ameaças que as crianças tinham de enfrentar: doenças, morte, jornadas exaustivas de trabalho, abusos, maus tratos etc. Principalmente se consideramos que em muitas partes do mundo ainda existem crianças que correm todos estes riscos.

Hoje, no entanto, existem muitos livros sobre nomes de bebês, nas lojas de departamentos transbordam roupas, brinquedos, produtos especializados no desenvolvimento e nos cuidados da – atual – e importante primeira infância. Foi o século XIX quem plantou a semente do que hoje consideramos a infância. Juntamente com o culto da natureza e das emoções nasceu a reflexão sobre o papel das crianças na vida social. A infância de Jesus de Nazaré tornou-se poesia, os artistas exaltaram a inocência, pensadores como Jules Vallès e Kate D. Wiggin refletiram sobre a necessidade de proteger os mais jovens. Posteriormente, o aprofundamento dos estudos psicológicos sobre a infância de Melanie Klein, Erik Erikson e Jean Piaget demarcaram, na consciência coletiva, o que significa uma criança: os futuros dirigentes de sociedades saudáveis ou doentes, de acordo como tenham sido os primeiros anos de seus líderes. Tudo isso culminou com a Declaração dos Direitos da Criança, aprovada pelas Nações Unidas em 1948 e revista há apenas 22 anos, em 1989. Os que nasceram depois desse último grande reconhecimento de sua importância desfrutam de privilégios sem precedentes na história (sim, esses meninos têm muita sorte).

 

Os reis da casa

Mas, como costuma acontecer, paralelamente à reivindicação, também surgem os excessos e as polarizações. O pós-modernismo transformou algumas crianças literalmente nos “reis da casa”, isto é, naqueles que determinam o caminho que deve seguir não só a sua família, mas, no limite, a sociedade inteira: professores devem ter cuidado para não pressioná-los com exigências ou chamando-lhes a atenção (há que evitar as baixas de autoestima), os familiares não têm voz nem voto na educação dos netos e sobrinhos (só os pais têm a virtude do time out), o lazer da família passa a ser condicionado de acordo com a disponibilidade de produtos e serviços ao dispor das crianças (“Não podemos ir com vocês se o restaurante não tiver área de recreação para crianças/ se o filme não for livre”). No melhor dos casos, isso pretende fazer parte de uma estratégia de formação integral, mas a verdade é que a maioria dessas diretrizes educacionais obedecem ao medo que os adultos têm das crianças, como ocorre em um regime tirânico: medo de que façam uma birra enorme, ou que fiquem impossíveis, que se traumatizem e lhes joguem a culpa (ou até mesmo que sejam processados por violar os seus direitos, como aconteceu nos EUA). A superproteção e a condescendência parecem ser duas extremidades da mesma corda, uma corda serpente, que morde seu próprio rabo.

A indústria editorial dedicada às crianças é um reflexo desta condição. Por um lado, as grandes editoras têm se preocupado em publicar livros multifuncionais: que ensinem, que distraiam e fomentem valores (tão diversos como o termo que é ambíguo), que transformem as crianças em uma espécie de poliglotas, em especialistas em arte (sempre os grandes hits da pintura: Van Gogh, Velázquez, Kahlo) e em ambientalistas em miniatura. Trata-se de semear neles um futuro limpo, saudável, que equilibre as delícias da Razão e da Verdade como bandeira. Vejamos a versão que Dulcinea faz de Chapeuzinho vermelho,2 um exemplo irônico:

Um dia sua mãe pediu-lhe para levar uma cesta com frutas frescas e água mineral para sua avó, mas não porque considerasse que fosse um trabalho de mulher, atenção, mas porque era um ato generoso que contribuiria a fortalecer o sentido de comunidade. Além disso, sua avó não estava doente, ao contrário, gozava de plena saúde física e mental e era capaz de cuidar de si mesma como adulta e madura que era.

 Um mundo correto, perfeito, onde se esconde a dor, mesmo que se fale a verdade.

Por outro lado, há também aqueles que apostam no politicamente incorreto como caminho certeiro para atingir o coração e a mente da garotada (e os bolsos dos pais). O desembaraço, a travessura, a escatologia: a escola de Shrek levada ao papel. Promove-se a desmistificação dos contos, das hierarquias (reis, professores, pais, avós: ninguém escapa do ridículo) e da linguagem, mas em outro sentido. Não para corrigir as falhas herdadas em busca do mundo ideal, mas para coroá-lo ludicamente como o que rege toda a atividade e aprendizado infantil. O que estiver fora do alcance morrerá, porque as crianças precisam, acima de tudo, de diversão.

 

Os temas proibidos

Ambas as extremidades da corda, no entanto, têm as melhores intenções. Não é equivocado buscar a contemporização de esquemas clássicos. Nem são prejudiciais a irreverência e o questionamento da autoridade. Por isso, no meio do caminho, encontramos obras que balançam de um lugar para o outro e que oferecem ricas alternativas que podem satisfazer as necessidades estéticas e lúdicas das crianças, de seus pais ou professores, sem cair na condescendência ou na superproteção. E tanto melhor se elas têm o valor literário que o público em geral tende a ignorar, precisamente porque a literatura para crianças ainda é considerada algo como um gênero menor, coisa incerta e injusta. Para uma rápida amostragem: Antoine de Saint-Exupéry (O pequeno príncipe); Roald Dahl (Matilda); Michael Ende (História sem fim), Wolf Erlbruch (O pato e a morte), Guus Kuijer (O livro de todas as coisas), Marie-Francine Hébert (Nenhum peixe aonde ir), María José Mendieta (Aitor tiene dos mamas). Todos eles exploraram temas “proibidos” para as crianças – guerra, morte, violência, homossexualismo – com delicadeza, inteligência e humor, três das condições mais difíceis de se conseguir no oficio literário.

As versões originais dos contos de fadas que contamos repetidas vezes, lambuzados dos mimos da Disney ou cobertos pelo romantismo dos irmãos Grimm, não são tão doces e nem defendem uma felicidade gratuita. Como afirma Verônica Murguia:3

Nos contos de fadas tradicionais não ocorre desse jeito: o herói costuma ser corajoso, solidário e ainda tem sorte. Geralmente é pequeno, indefeso, o oposto do super-homem. Esses textos antiquíssimos contem uma espécie de código de ética vital, surpreendentemente distante de qualquer fórmula moral.

O Gato de botas é uma apologia da sobrevivência quando não se tem sorte, Chapeuzinho vermelho previne as meninas de agressões sexuais, A pequena sereia representa o primeiro contato com o desengano amoroso que os pequenos só conseguem perceber pelo destino trágico da protagonista. Não há prévio aviso dessas coisas, porque as crianças não precisam disso. Eles precisam, no entanto, do mundo à parte que oferece a fantasia, a sensação de que há algo mais naquilo que é narrado e, assim, a curiosidade irreprimível de desvendá-lo. Eles precisam substituir, eles mesmos, o lobo pelo agressor no longo caminho que os separa da maturidade. Porém, os finais felizes quando bem construídos, aqueles que são consequência lógica da própria história, são um vislumbre de esperança, um indicador de que o mundo, apesar de suas armadilhas, ainda preserva coisas boas. Como afirma Murguia:

 Não podemos dar a uma criança Os Irmãos Karamazov e dizer, como imaginamos que Deus tenha dito a São Agostinho: “Toma, leia. Aprende, a maldade é algo humano, inseparável de nós e as perguntas sobre a sua natureza não têm nenhuma resposta”. Fazer algo parecido seria perverso.

 

Um prazer recobrado

Muitas vezes, alguns escritores pensam que literatura infantil é uma arte simples dominada por professores ou pedagogos. Não faltam aqueles que fazem crossover da literatura “séria” para a “infantil” como passatempo, para se sentirem mais leves ou publicar mais e com melhor remuneração. Também não é raro encontrar mulheres inspiradas, de repente, pela experiência da maternidade que querem escrever histórias para seus filhos e outras crianças. Esses grupos espontâneos vão perceber que a literatura para crianças não é nem infantil e nem maternal, mas outra coisa bem diferente. É um tipo particular de literatura, muito mais abrangente do que a “infantil” (didático, simplista, sitiada nas bordas, na superfície, que só pode ser lida no âmbito da educação formal) e a “adulta” (incompreensível para quem não compartilha seus códigos, sejam da linguagem, da experiência ou referência, que só pode ser lida por “aqueles que já são grandes”). Isso implica, para os autores, um exercício de humildade e compaixão, de reverência para aquele olhar esquecido que, magicamente, a escrita recupera. O prazer de estar no mundo com as mãos no chão e a boca cheia de groselha gelada, de maravilhamento e suspeita. Os escritores de livros para crianças precisam ler histórias de que as crianças gostam, aquelas que passam na TV, aquelas que eles mesmos contam, escondidos em algum canto do quarto de jogos.

Além disso, os leitores adultos pensam que para ler livros para crianças, como no Antigo Regime, deve-se ter sete anos e não saber muito bem o que acontece lá fora. Mas, sem dúvida, a visão de muitos ficaria bem mais clara se lessem Momo, de Michael Ende, a história da menina que enfrenta os terríveis homens cinzas, ladrões do tempo das pessoas que nunca param de trabalhar e são incapazes de sentar um momento para ouvir o que os outros têm a dizer; ou poderiam encontrar respostas comovedoras que sequer teriam imaginado antes de ler A grande pergunta,4 de Wolf Erlbruch, em que os personagens como o padeiro ou o soldado respondem a essa indecifrável pergunta:

 — Por que viemos ao mundo?

— É para comemorar o seu aniversário que você está na Terra — diz o irmão.

— Para aprender a confiar — responde o cego.

— Estás aqui para aproveitar a vida — respondeu a Morte.

 Se atribuíssemos um pouco mais de crédito à literatura para crianças, poderíamos viver com frequência esse belo momento descrito no final de Alice no país das maravilhas:5

E pensou que Alice conservaria, ao longo dos anos, o mesmo coração simples e entusiasmado de sua infância, e que reuniria ao seu redor outras crianças, e faria brilhar os olhos dos pequenos contando-lhes um conto estranho, talvez esse mesmo sonho do País das Maravilhas que teve anos antes; e que Alice sentiria as pequenas tristezas e ficaria feliz com as alegrias simples da crianças, lembrando a sua própria infância e os dias felizes de verão…

Não se trata apenas de lembrar, mas de colocar em perspectiva o nosso próprio devir, delimitado no curso cada vez mais rápido da história. Recuperar o prazer de quando acreditávamos ser capazes de mudar o mundo e contagiar as crianças com ele. Porque talvez eles serão capazes de fazer melhor do que nós.

 


* Artigo publicado na Revista eletrônica L de Lectura, 13, gentilmente cedido para publicação na revista Emília.
www.ldelectura.com

1 Tournier, Michel. “La estraña y mortal ” aflicción ” de Henri de Campion” em El vuelo del vampiro, México: Fondo de Cultura Económica, 1988.

2 Chapeuzinho vermelho, versão de Dulcinea no Blog Autoindefinida, http://salsapientiae.blogspot.com/2007/01/caperucita-roja.html , 2 de janeiro de 2007. Tradução livre com base no texto do Blog.

3 Murguia, Veronica. “Las rayas de la cebra”, La Jornada Semanal, num. 573. México, domingo 26 de fevereiro de 2006. Tradução livre.

4 Erlbruch, Wolf. La gran pergunta. México: Tecolote, 2008. Tradução livre.

5 Carroll, Lewis. Alicia anotada. Alicia en el pais de las maravillas / A traves del espejo. Edição comentada por Martin Gardner. Madrid: Akal, 1987. Tradução livre.

 

 

 Imagem Mimi Kichner