Sexta-feira (25/03/2011) e sábado (26/03/2011)
Aterrisando em Bolonha

Bolonha

A visão deslumbrante dos picos nevados que se veem pela janela do avião anuncia a chegada a Bolonha. Este é o sexto ano do mesmo ritual que – devo confessar – sempre me emociona, porque gosto de Bolonha e, como alguns amigos dizem, porque gosto de feiras, especialmente desta.

O fim da tarde está esplêndido, um pôr-do-sol rosado difícil de esquecer: Bolonha me dá as boas-vindas. Bom sinal para um ano em que, pela primeira vez, verei a feira com olhar independente, sem nenhuma limitação de linha e/ou de mercado; sem dúvida, um privilégio.

Se antes festejava a descoberta de uma nova editora, pequena que fosse, o fato de conhecer um novo editor com o qual tivesse afinidade de projetos e – por que não? – de alma, a descoberta de novos ilustradores e autores, agora certamente poderei ir mais a fundo nesse trabalho de garimpo.

Estou com o meu caderninho cheio de apontamentos e de pistas, pois, para quem não sabe, Bolonha não começa quando se está em Bolonha, ao contrário! Chegar à feira e aproveitar ao máximo os quatro dias pressupõem organização e pesquisa de meses.

Aliás, minha feira começou três dias atrás, passando por Madri, onde consegui me reunir com Adriana Navarro, agente que faz a ponte entre Brasil e Espanha, e marquei as últimas reuniões com algumas editoras que fazia tempo queria contatar. E se prolongou hoje, sábado de sol e de calor, que fez todos os bolonheses tomarem as ruas e as praças, para trocar ideias com editores amigos brasileiros, muitos dos quais é mais fácil encontrar aqui ou em Frankfurt do que em São Paulo. É o caso de Sergio Alves, editor da Larousse Brasil, com quem sempre tenho encontro marcado em Bolonha. É a isso que chamo de boa forma de conhecer o mercado! E os contatos se prolongam na hora do jantar, com editores colaboradores de anos, hoje mais amigos que parceiros. Um dia cheio e muito proveitoso.

Amanhã, domingo, pela primeira vez, acontece em Bolonha o TOC – Tools of Change for Publishing –, que vai reunir os principais especialistas em livros digitais infantis ao longo do dia. A primeira olhada no programa dá até um susto: muita gente em pouco tempo. Em todas as conversas durante o dia, esse foi um assunto recorrente, e a falta de clareza dos rumos que a edição pode tomar, também. Veremos o que nos espera amanhã.

toc

 


Domingo (27/03/2011)

“Always remember where you come from”.

Com essa frase bastante paradigmática para uma conferência com vistas ao futuro do livro, Martin Salisbury, fechou a TOC – que se realizou durante todo o domingo.

Pela primeira vez, a Feira de Bolonha abre suas portas para uma discussão sobre o livro digital e as mudanças que este novo suporte pode representar para o mercado do livro para crianças e jovens. Tal aposta se materializa na convocatória para 2012 do Bologna Ragazzi Digital Award, sem dúvida uma chancela e uma referência futura para livros digitais infantis de qualidade.

Representantes de mais de 27 países são a maior prova do interesse do mercado global pelo assunto: mais de 200 pessoas acompanharam uma apertada programação que começou às 8h30 da manhã e se estendeu até às 18h15 da tarde. O Brasil esteve representado não apenas pelos grandes grupos editoriais, alguns com mais de quatro representantes inscritos na Conferência, como por médios e pequenos editores.

A programação, esteve dividida em três grandes temas, um geral sobre o mercado, outro sobre a edição e as mudanças que desde já se vislumbram, e um terceiro, sobre os novos suportes e suas características. Grandes especialistas, editores, ilustradores e autores discutiram em várias mesas o futuro do livro.

Comentários ao longo do dia – e posteriormente na Feira – confirmaram minhas primeiras impressões sobre o evento. Quem veio atrás de respostas fechadas, modelos ou caminhos por onde se mover, saiu desta jornada com uma única certeza: ninguém sabe ao certo aonde vai dar tudo isto e os grandes grupos editoriais ainda estão atuando às cegas.

Dentre todas as dúvidas e questões em aberto, porém, arrisco algumas poucas “certezas”, que algumas experiências permitiram vislumbrar:

  • Falar em livro digital infantil nos remete ao universo da criança como consumidora, ou seja, da abertura de novos mercados. Por ora, nada além disso.
  • Este novo mercado supõe muita experimentação, muito risco e muito investimento, não apenas para entrar no negócio, como para se manter com as atualizações e as inovações constantes dos novos suportes up to date
  • Na briga por novos mercados, fica claro que, para os grandes grupos, é vital entrar nesta competição.
  • Falar em livro digital é falar em um novo negócio. Os novos suportes exigem novos fornecedores, novos colaboradores, outros conhecimentos. Trata-se de um novo produto que pressupões animação, música, e constante atualização.
  • Que este novo negócio vai dar (está dando) uma reviravolta no fazer editorial tal como conhecemos, não resta a menor dúvida.
  • Os conteúdos são necessários e estes são a obra, no caso da LIJ, de autores e ilustradores regidos pela mão gestora do editor.
  • Que os grandes grupos devem entrar nisso, não resta dúvida. Que algumas editoras menores possam se especializar em livros só em papel, cada vez mais sofisticados e exclusivos, também.

Um dos relatos mais reveladores foi o da editora inglesa Kate Wilson, da Nosy Crow, que começa contextualizando, a partir do seu mercado, as razões para se voltar exclusivamente ao livro digital. A descrição das condições e dos índices de leitura, assim como o estreitamento do mercado, demarcaram a enorme distância que separa América Latina das realidades europeias. Nós ainda estamos em uma campanha para levar o livro a lugares para onde ele nunca foi.

Mas a grande questão é o próprio mercado do livro digital. Ninguém sabe as regras deste novo negócio, ninguém sabe como controlar o número de cópias vendidas, como fazer frente aos downloads free, como fazer disto um negócio rentável a ponto de justificar o enorme investimento que o livro digital infantil pressupõe. O mesmo ocorre com a divulgação: como dar visibilidade a cada título nos sites de compra?

Saí de lá com muitas dúvidas, muitas questões e com a certeza de estar vivenciando talvez um dos momentos de maior mudança no oficio de editor. Porém, sem esquecer que “Always remember where you come from”.

 

Segunda-feira (28/03/2011)
Solidariedade internacional

A primeira pessoa com quem cruzo nos corredores ainda meio vazios é com Alexandre Martins Fontes. Ótimo sinal – penso comigo e comento com ele – afinal nada mal encontrar com o editor responsável por um dos nossos melhores catálogos de LIJ e com quem compartilho identidades que muitas vezes nos fizeram entrar em ótimas disputas por títulos, o que só aumentou meu respeito e admiração pelo seu trabalho. Outro privilégio.

Rapidamente os corredores vão ficando lotados. O ritmo de minha agenda lotada faz com que os encontros, sem os quais Bolonha não teria o mesmo gosto, se sucedam: Alfonso Ruano, Pablo Nuñez, María Paz Serrano, Teresa Tellechea, Patsy Aldana, Akoss Ofori-Mensah; me sinto em casa e entre amigos queridos que este ano fazem questão, mais do que nunca, de me apoiarem no meu voo solo e apostarem em mim.

Fico impressionada e lisonjeada em ver como a minha nova situação no mercado desperta curiosidade e se materializa em fortes manifestações de apoio e de engates para novos projetos conjuntos. Propostas de parceria, apresentação dos novos projetos, se sucedem ao longo do dia. Tá tudo certo.

Primeiras impressões: o clima de insegurança e de desânimo do ano passado se distendeu. Tenho a impressão de que tem mais gente já no primeiro dia. Porém, não vi nenhum projeto ousado; ao que parece, as editoras estão apostando em poucos projetos novos e, de preferência, seguros.

A presença de editores da America Latina é visível, acho que mais do que nos anos anteriores. Mas o que chama a atenção é um grande número de jovens, muitos ilustradores. As filas nos stands para apresentar os trabalhos nos últimos dias confirmaram esta primeira impressão.

 

Terça-feira (29/03/2011)
A presença brasileira na Feira de Bolonha

O espaço ocupado pelos estandes brasileiros na feira (FNILJ e CBL) é a prova patente do peso e da maturidade da produção editorial de nosso país. Isto é fruto de muitos componentes, como a atuação (persistente!) de anos, focada na qualidade e em um longo trabalho de divulgação da FNLIJ. Abre alas da literatura infantil e juvenil para o mercado internacional, foi graças à insistente atuação da Fundação que a presença brasileira em Bolonha se torna exemplar para os outros países da America Latina.

O reforço dado pela CBL nos últimos anos aos editores brasileiros para ampliar as relações comerciais internacionais só ajudou a ampliar esta visibilidade. O reconhecimento da produção brasileira, as premiações em Bolonha, a presença constante de autores reconhecidos internacionalmente no estande da FNILJ, o incentivo da Fundação para que autores e ilustradores viajem à feira, a movimentação nos espaços brasileiros, o catálogo produzido pela Fundação são, sem dúvida, razões que culminaram, este ano, com a indicação do Brasil como país homenageado em 2014.

A forte presença brasileira se percebe nos corredores. Para além dos editores de literatura para crianças e jovens mais conhecidos, é possível cruzar com representantes de novas editoras por toda parte, ao ponto de editores estrangeiros comentarem o aquecimento do nosso mercado, pedirem referência de editoras que, até aquele momento, jamais tinham escutado falar, e o interesse de muitos pela compra imediata de títulos. O entra e sai constante no estande da FNLIJ de um público dos mais diversificados, também é um sinal do interesse crescente pela nossa produção editorial.

Apesar de ainda enfrentar dificuldades da venda de direitos para o mercado internacional, editoras como a Callis e a Cosac Naify vêm se destacando por um trabalho persistente nessa direção. O número de editoras que vem com seu catálogo de títulos em inglês mostra que, pouco a pouco, este novo mercado se configura de forma mais profissional e promissora. Outra tendência visível é a de parcerias estreitas entre editoras; de um lado isto garante a escolha preferencial da editora nacional pelos títulos do catálogo da editora estrangeira e, do outro, a editora estrangeira garante a entrada no mercado brasileiro, em especial nas vendas governamentais.

Bolonha 2014, seguramente representará uma inflexão importante neste longo itinerário de afirmação da LIJ brasileira no mercado internacional.

 

Quarta-feira (30/03/2011)
Shaun Tan ganha o Prêmio ALMA

Terceiro dia de feira, dia de pico e, para alguns, o último. Para muitas editoras, a solução para enfrentar a crise foi a de reduzir a estadia em Bolonha. É dia, também, em que se começa a embaralhar tudo. É muito comum – e no meu caso praxe – que com a avalanche de informações, contatos, títulos, idiomas falados, se chegue a este terceiro dia no limite da capacidade de absorver muito mais informações. Uma ida anual à Torre de Babel, para fazer uma analogia…

Mas, no meio desse turbilhão, as primeiras impressões começam a se delinear. Não há grandes projetos audaciosos. As editoras mantiveram o “breque de mão puxado”, muitas mostraram poucas novidades. Porém, pequenas editoras continuam surgindo e se destacando pelo cuidado gráfico, pela excelência no trabalho de ilustração, pela escolha de pequenas pérolas literárias. O trabalho autoral (tanto do texto como da ilustração) ganha visibilidade e, claro, o do editor também, pela “cara” que ele dá a seu catálogo, na contramão da tendência do mercado de transformar o trabalho editorial em mera gestão de fluxos e cronogramas. O segmento de inovação dos grandes grupos vai na linha do livro digital.

Em termos temáticos, os chamados “temas duros” continuam em alta e com destaque. As novelas gráficas e os álbuns se sofisticam e talvez seja nesta área que eu tenha visto poucas coisas surpreendentes. Com exceção da literatura para as crianças menores, ganham espaço livros dirigidos a todos os leitores, rompendo os limites estabelecidos pela definição, a priori, das faixas etárias. Os clássicos nas mais diferentes versões também seguem em alta.

Hoje, no meio do dia, foi anunciado o ganhador do Prêmio ALMA, maior premiação da LIJ junto com o Prêmio Andersen. Chaun Tan, jovem ilustrador e autor australiano, é o ganhador. Bravo! Conheci o trabalho de Chaun Tan em Bolonha faz três anos quando seu livro The arrival – novela gráfica sensacional – foi premiado. Fiquei impactada com a densidade narrativa das ilustrações, com o seu traço e o universo onírico de seu relato. Fui atrás desse impacto e levo no meu currículo o fato de, pela minha mão, A árvore vermelha e na sequência The Arrival terem sido publicados no Brasil.

A “descoberta”, a consequente aposta e, em um terceiro momento, o reconhecimento internacional destes autores é, sem dúvida, uma das maiores realizações de um editor. Várias foram as minhas apostas nos últimos anos e, como Shaun Tan, outros muitos, nacionais e internacionais, entre os quais gostaria de registrar também Jimmy Liao, a ser conhecido em breve pelo público brasileiro. Os próximos não perderão minha chancela, isso hoje eu tenho claro. Levo desta feira alguns nomes no meu caderninho, nos quais a aposta em breve é certa.

 

Quinta- feira (o1/04/2011)
Final de feira

Greve de ônibus e de trens em Bolonha. Todos temos dificuldades em chegar às reuniões nos primeiros horários. Além do normal, muitos estandes decidem levantar acampamento mais cedo para não enfrentar a dificuldade de transporte nos horários de pico da Feira.

Ao longo do dia, penso no enorme acerto que foi ter vindo e nas ótimas surpresas que esta feira me proporcionou. Além de todo o reconhecimento pessoal, das propostas de trabalho, várias em andamento, dos futuros projetos em gestação, pude conhecer pessoalmente duas ilustradoras/autoras cujos trabalhos me surpreenderam fortemente e nas quais também apostei, publicando seus livros no Brasil: Stefanie de Graef e Alicia Baladan. Grande oportunidade! Fiz novos contatos, descobri novas editoras. Valeu!

Mas, para completar o quadro, o toque final foi dado pela chegada de uma das grandes editoras espanholas do segmento de 0 a 6 anos – María Castillo – que recentemente aposentada veio se despedir de todos os seus parceiros neste último dia. Juan Villoro, autor mexicano, se encarregou, em seu livro sobre o terremoto do Chile, de registrar a vitalidade e a força de María. Nos conhecemos na minha primeira Feira de Bolonha, com ela aprendi muito nestes últimos anos. Hoje somos companheiras de viagem, grandes amigas e compartilhamos da mesma irmandade internacional formada depois do terremoto no Chile.

Deixo a feira, esgotada, mas cheia de novidades e com a cabeça a mil por hora. Valeu apostar no meu voo solo! Agora vamos aproveitar o fim de tarde ensolarado de Bolonha, tomar uma espremuta e me preparar para pegar um trem amanhã para Roma.