Em muitos países, e em alguns setores deste país,
também é comum que os pais leiam contos aos seus filhos pequenos.

 

 

Há um imaginário de leitor que circula mais do que nos atrevemos a admitir e que poderia ser formulado nestes termos: o leitor, e a menos que seja um professor ou estudante, é obrigado a ler – exclusivamente – durante o tempo que durem seus estudos, ou é alguém a quem sobra tempo ou dinheiro, ou as duas coisas. Seria também um desocupado ou um aposentado, uma milionária, um padre, uma escritora ou um ermitão? Esses estereótipos ilustram uma separação entre a leitura e o que chamamos de “atividades produtivas”, arraigada desde os tempos do colégio ou, quem sabe, desde antes de nascermos.

A velha separação configurou também algumas fronteiras invisíveis que separam – muito mais que as fronteiras físicas de nossas cidades – aqueles que têm capital simbólico daqueles que não o possui. Contudo, o mundo da aprendizagem, o das profissões e o das invenções humanas se sustenta, em grande parte, pela capacidade para operar com símbolos, que parece uma segunda pele quando se recebe e que é tão difícil supri-los quando se foram negados.

Esse capital simbólico se constrói desde a infância, com a alimentação linguística e cultural com que nos brindam os adultos e, ao contrário do que se imagina pensar, não é um presente nem um talento inato que distingue a uns poucos eleitos, se não um direito. Mas a qualidade da linguagem, que é a ferramenta por excelência que torna efetivo o direito à educação e à cultura, é mais desigual que o direito à moradia ou aos serviços públicos. E digo qualidade da linguagem, porque é muito difícil analisar, filtrar, interpretar e criticar “e, claro, escrever, sejam equações, mensagens, redações ou trabalhos de pesquisa em qualquer campo” com um repertório linguístico escasso e circunscrito às restrições da vida cotidiana. 

Em muitos países, e em alguns setores da Colômbia também, é comum que os pais leiam contos para seus filhos desde pequenos. Isso acontece porque os pais reproduzem aquilo que fizeram com eles quando crianças e, além de desfrutar desses benefícios ainda hoje, conservam as recordações de um vínculo afetivo e de um tempo prazeroso ligado à leitura. Outros, ao contrário, leem porque sofreram na própria carne os prejuízos que a carência de linguagem produz e aspiram mudar a história de seus filhos. Porém, a grande maioria das famílias não considera a leitura como fonte de alimento emocional e cognitiva, pois essa ideia não está no DNA, geralmente não é clara aos pediatras nem aos primeiros professores, muito menos a essa sociedade, fundamentada no dinheiro fácil.

Por isso, ao lado das políticas de longo prazo que apoiam a leitura, esses momentos especiais como “A semana do livro infantil” e os festivais em livrarias celebrados em outubro, contribuem para associar a leitura ao tempo livre das pessoas e a criar necessidades que não sabiam que tinham. E, dado que os vínculos da leitura com as capacidades de pensar e construir sentido, ou, ainda, a ideia de que é possível construir sentido, não são tão evidentes para a maioria; propiciar encontros criativos entre as famílias e os livros também é uma forma de vincular o exercício da cidadania – as reais e também as simbólicas – com atos cotidianos como o de contar histórias para nutrir a psique das crianças.

Se está claro que uma condição essencial para sair da pobreza é ter uma moradia digna, também é prioridade construir os alicerces dessas casas imaginárias para fechar as brechas da exclusão que separam as crianças que crescem no meio de histórias daquelas que condenamos à pior pobreza de todas: a carência de imaginação e de palavras.


Texto originalmente publicado em 27 de outubro de 2013, na coluna quinzenal que a autora mantém no jornal El Tiempo, de Bogotá.


TRADUÇÃO THAIS ALBIERI / IMAGEM QUENTIN BLAKE, MATILDA