Os temas transversais foram incorporados aos parâmetros curriculares nacionais (LDBEN 9394/96)  com o intuito de introduzir e garantir a discussão de temas sociais na escola. O objetivo: formar cidadãos munidos de valores básicos para uma boa vivência e convivência no mundo democrático contemporâneo. Para isto, visava-se o contexto – daí a sua ramificação por todas as disciplinas – e uma preocupação unificadora de implantação de um discurso democrático, mas dominante.

Em vigor há mais de uma década, os temas transversais têm orientado a atuação de professores e editores preocupados com o desempenho de seus produtos na escola. Se não é difícil compreender as motivações que originaram a incorporação dos temas transversais, que tomaram a escola como formadora de cidadania – totalmente de acordo com o momento histórico de abertura democrática – o mesmo não ocorre quando se trata de verificar o resultado desta implantação.

A “nova escola” enfrentou dificuldades para implantar mecanicamente valores nem sempre incorporados à vida dos educadores, à vida das famílias, aos materiais didáticos e não didáticos e aos conteúdos culturais dominantes. Independentemente do acerto ou não da implantação dos temas transversais, que não cabe discutir aqui, a questão é o esvaziamento de conteúdo, quando se trata de transmitir conteúdos éticos e filosóficos. Pois é disso que se trata.

A artificialidade e banalização se impõem e no lugar da coerência e convicção, que podem gerar exemplos de comportamentos, temos o tratamento vazio de conteúdos e princípios de construção de visões de mundo. O mesmo ocorre quando se fala em formação leitora e no papel dos mediadores. Tais transmissões não se dão mecanicamente e nem podem ser vistas como atividades de caráter técnico. Estão em jogo escolhas, sensibilidades, compromissos que remetem a um universo muito mais amplo que o do conhecimento ou da “técnica”.

Tenho falado da necessidade de dar um salto, ou talvez de forma um pouco mais modesta, subir alguns degraus, na discussão da formação leitora, que concentra e mobiliza tantas energias e esforços. E tendo a ir por este caminho que tem muito para ser explorado. Daí as boas surpresas quando damos de cara com reflexões que indicam direções originais e instigantes. Este é o caso de uma entrevista de Josefina Ludmer, “Crisis y transformación”, publicada no Suplemento literário do jornal argentino el Clarín.

Crítica da cultura, Ludmer elaborou o conceito de “escrituras posautónomas” para se referir às práticas literárias contemporâneas, às “novas escrituras”, que marcam as mudanças trazidas pela tecnologia nas formas de escrever e de ler, a partir dos anos 80. Com base nesse referencial teórico, a autora mostra as diferenças entre as formas de leituras atuais e as de 30 anos atrás. E afirma que “uma mudança na tecnologia da escrita é uma mudança na literatura. O surgimento da escrita eletrônica […] transformou a literatura: mudou a produção do livro, as maneiras de ler e circular e, por tanto, a construção da realidade e de sentido.” E continua, dizendo que hoje se lê: “De maneira muito mais superficial, no sentido de que as escritas são muito mais planas. Buscam sujeitos e experiências, mais do que construção de um mundo.”

E falando dos escritores afirma: “Se despolitizou a figura do escritor, não necessariamente a literatura, que é um instrumento de produção da realidade, e essa é a sua política. Hoje o escritor se transformou em um personagem midiático. […] Antes se lia primeiro e depois se ia atrás do escritor. […] A figura do escritor não é mais a do gênio inspirado do século XIX. Isto está vinculado à própria profissionalização.” E por conta disto tudo, uma das chaves fornecidas por Ludmer, se referindo à literatura no mundo atual, é que nela “não funcionam [mais] os critérios e as categorias com as quais líamos as literaturas clássicas.”

É necessário, sem dúvida, adentrar e entender melhor o pensamento da autora, no entanto, estamos diante de uma interpretação sensível às mudanças e transformações que nem sempre a nossa proximidade com os fatos permite enxergar. Que a chamada produção literária atual difere do que conhecemos como clássico, que o papel do escritor mudou, que a tecnologia está interferindo nas formas de ler e escrever, são fatos. É necessário olhar para esta realidade com olhos críticos e com certo distanciamento. Daí a importância de buscar novas categorias e conceitos que deem conta dos fenômenos que só empiricamente mantém uma relação com o passado.

O que tudo isso tem a ver com os temas transversais? Aparentemente a conexão pode parecer distante, mas se retomarmos a questão acima referida, da artificialidade e banalização que corresponde a um esvaziamento de conteúdos no mundo em que vivemos, ou nas palavras de Ludmer, a “maneira superficial”, à “despolitizacão”, temos algumas chaves importantes. O que está em questão não são nem os conteúdos para formar cidadãos – todos eles presentes, na sua melhor dimensão humana, na literatura, desde sempre –, nem a discussão de como formar leitores. O que está em questão é o tipo de visão de mundo produzida na contemporaneidade, responsável por pautar, entre muitas outras coisas, a sensibilidade, o gosto, o posicionamento diante do mundo, diante do outro.

Foco nos “sujeitos e experiências” versus “construção de mundos”, sentidos diferentes que produzem seres sociais diferentes. Mais ou menos comprometidos, mais ou menos intensos, mais ou menos sensíveis, mais ou menos aptos a se aprofundar, mais ou menos conformados, mais ou menos exigentes.

Muitos dos valores democráticos, vigentes nos parâmetros, se chocam no dia a dia com preconceitos ideológicos (religiosas, culturais etc.) profundos, que mudam o sentido das práticas e das ações daqueles que estão lá para transmiti-los. O mesmo se dá com os leitores que, sem dúvida, são cada vez em maior número, como mostra a lista dos mais vendidos e os números crescentes das pesquisas no Brasil. Mas o que se lê? Em que campo da cultura (e que cultura?) se inserem a maioria dos leitores? Pois a construção do gosto pela leitura anda de mãos dadas com o gosto musical, teatral, artístico. Mas também do próprio sentido que se dá ao tempo livre que, se para os gregos era o ócio – momento privilegiado da razão –, no mundo contemporâneo está, em grande parte, direcionado pelas grandes indústrias do entretenimento.

Retomando Pedro de Almeida e tentando responder a sua indagação sobre os efeitos da transversalidade, não se trata de uma questão de método, se assim fosse seria muito mais fácil. A solidez do caráter da criança ou a possibilidade dele se converter em um futuro leitor literário dependem mais da autonomia e do espírito crítico, do que exemplos de práticas que buscam a coerência com o discurso podem fomentar.

É o que temos. Uma discussão que pode parecer paralela, mas como diz Emília Gallego: “Sim, é para tanto, para muito e muito mais. Toda preocupação e ocupação é pouca, porque o que está em jogo é o destino dos valores que, intangíveis ou não, suportam nos seus ombros o destino da nossa humanidade.”

 

Imagem Diego Bianchi