Muitos motivos me levam, cada dois anos, a voltar à Ilha para participar do Congreso Internacional – Lectura Para Leer el XXI1. De volta de meu terceiro Congresso compartilho as minhas impressões e meu caminho até aqui.

Tudo começa quando conheço Emília Gallego Alfonso, em 2009, no Rio de Janeiro. Como muitos que tiveram o privilégio de conhecê-la, o primeiro contato foi muito marcante, pela lucidez, profundidade, coerência, calor e intensidade que a caracterizam.

 

Havana

La Habana, outubro 2013 [foto Carolina Pezzoni]

 

Ir ao meu primeiro Congresso em 2009 foi algo “natural” depois desse encontro. A experiência me tornou adepta, apoiadora e difusora desse grande encontro que se realiza em La Habana. Da primeira vez, voltei ao Brasil impactada com muitas coisas. Com a complexidade profunda e contraditória daquele país, seus contrastes, sua beleza. Mas, principalmente, com o povo cubano, com sua dignidade, apesar da extrema carência que caracteriza o cotidiano, e a firmeza, preparo e tenacidade diante da barbárie contemporânea.

 

Havana vista

Vista de La Habana do Hotel Habana Libre, Outubro 2013 [foto: Carolina Pezzoni]

 

Uma mistura que joga por terra toda e quaisquer certezas, otimismos ou desencantos. E que provoca um desconforto nas consciências acomodadas e acostumadas às facilidades que imperam no mundo regido pelo mercado; ou uma revolta contra os países responsáveis pelo isolamento a que a Ilha se viu reduzida. Para os mais cúmplices, o impacto, o alerta, é certo e provocam um desequilíbrio que, no limite, faz repensar questões vitais, redimensionar prioridades. Não é fácil, é sempre intenso, um aprendizado.

Não se trata aqui de ir a fundo nestas questões, apenas ressaltar a importância de não perder de vista onde estamos para dimensionar os significados desse Congresso Internacional. E do esforço titânico e monumental que está por trás de sua realização a cada dois anos.

Em 2009, pela primeira vez, fazia muito tempo, saía de um congresso com a sensação de que havia aprendido muito e de que a convivência tinha sido altamente produtiva. As palestras, multidisciplinares e abertas, mas principalmente os encontros, os intercâmbios, os contatos. Afinal, deixando de lado os inúmeros grupos de turistas que invadem a Ilha, são poucos os que viajam desavisados a um congresso de leitura em Cuba. Existe algo em comum, seja qual for a intensidade dessa identidade.

Isto faz do congresso um ponto de encontro daqueles que buscam compartilhar experiências,  desencantos e busca de alternativas. Um espaço de interlocução e de reabastecimento de estímulos e de novas questões para pensar. Voltamos sempre com as malas cheias de ideias, interrogações, entusiasmo e ânimo. E sabendo que, afinal, não estamos tão sós.

Neste último congresso se falou de muitas coisas: das muitas novas leituras; das novas formas de ler; da importância dos novos pré-requisitos para pensar o leitor do XXI. O papel do leitor foi posto em evidência em muitas falas, se falou do “leitor e de sua circunstância”. Falou-se de “um mar de dúvidas”; das políticas do livro e da leitura na América Latina e no Caribe, dilemas e desafios; dos “livros sem idade” e de tudo o que o mercado produz para ampliar, cada vez mais, sua capacidade de crescer. Mas também se falou da escrita, das  bibliotecas, da qualidade da educação cada vez pior em todos os países.

Havana mesa

Mesa de Fabiano dos Santos Piuba, Outubro 2013 [foto: Carolina Pezzoni]

 

No entanto, alguns aspectos mais subliminares em muitos dos discursos me chamaram a atenção. Vivemos um dilema,  para além de todas as questões já referidas, que é o desequilíbrio entre “o acesso aos livros e a formação de leitores”, aspecto enfocado por Fabiano dos Santos Piuba em sua fala. Depois de anos de políticas públicas do livro na América Latina, de ampla distribuição de títulos pelos governos em muitos países, ou, como no caso de Cuba, onde a leitura é um valor nacional, nos damos conta que nada disso é suficiente para garantir a formação de leitores.

Isso nos coloca diante de uma encruzilhada, onde aspectos óbvios se tornam decisivos, por exemplo, a necessidade prioritária de formar os formadores. Ou, como disse Geneviève Patte para os bibliotecários: “o importante é fazer da biblioteca uma casa de acolhimento em torno do livro”. Tão simples quanto.

As razões para entender este quadro grave são muitas:

• A qualidade cada vez pior da educação na maioria dos países.
• A ausência de tradição leitora dos formadores.
• A cultura descartável global que toma de cheio o cotidiano.
• O empobrecimento da linguagem.
• O papel social cada vez mais insignificante da leitura.

Esses são apenas alguns aspectos que compõem o quadro complexo das causas que desestimulam a leitura e distanciam o jovem do livro e da leitura critica tal como a conhecemos.

Havana mesa2

Conversaciones al pié de pagina, outubro 2013. Dolores Prades, Fabiano dos Santos Piuba, Eliana Pasarán e Zuleika Romay Guerra.

 

Tudo isto compõem um panorama bastante claro para todos os que trabalham com o livro e a leitura. Porém, é preciso contrapor alguns aspectos cruciais para contextualizar melhor essas reflexões. Afinal, de que leitor estamos falando? Que leitor queremos formar? Se diz que o jovem não lê, quando, mas ao contrário, sabemos que nunca se leu tanto como na atualidade. Sem leitura o cotidiano contemporâneo se torna impossível. Nunca se editou e produziu tantos livros. Os números de vendas dos bestsellers são estrondosos em termos planetários. Mas o que está se lendo? Uma leitura fácil e descartável? Uma leitura de má qualidade que distancia o leitor de um aprofundamento crítico?

Que leitores são esses? Certamente estamos frente a um problema global, que Zuleica Romay Guerra2 expressou muito bem quando disse que esses são os mesmos leitores que consomem a cultura descartável que rompe todas as fronteiras e invade as outras  manifestações culturais. Hoje existem muitos mais leitores do que jamais houve. A questão é descobrir qual é o “tamanho” do livro que usam esses leitores.3

Em que campo da sociabilidade encontra-se a base, o terreno a ser mexido para dar um salto que possibilite um melhor enfrentamento dos impasses por trás dos resultados e avanços da formação de leitores? É necessário, sim, dar um salto, pois de outra maneira não conseguiremos sair da areia movediça em que nos encontramos.

O grande desafio é formar “leitores para a vida”, críticos, conscientes. A questão é se isto pode ou não realizar-se no campo da leitura e do livro. Ou até que ponto tudo isto implica em questões que, sem nos imobilizar em nossos trabalhos de promoção, nos obriguem a olhar mais a fundo, ampliando a nossa responsabilidade para além do campo da leitura. 

Foi fazendo um apelo à responsabilidade que Emília Gallego Alfonso abriu o Congresso. Quando em uma das últimas mesas, Nilma Lacerda recupera o papel da escrita nas ruas, colocamos em evidência a profunda relação da formação de leitores, da recuperação do valor da leitura com a própria realidade. 

Um ponto em comum de todos os presentes no congresso é formar leitores críticos, literários. E é por isso que muitos fazem deste labor uma militância. Mas será que é possível pensar nesta possibilidade no mundo atual? Ou dito de outro modo, será que o sucesso de nossas ações pode se limitar ao universo da defesa do livro e da leitura? Depois desta longa jornada, não.

As razões, os dilemas e desafios são mais profundos e exigem intervenções e mudanças de outra ordem. Constantino Bértolo4 afirma que:

Parece evidente, em todo caso, que uma maior compreensão, consciência e conhecimento do mundo e dos códigos e chaves presentes nas relações sociais, da psicologia à estética, facilitam o processo de assimilação de significados que a leitura supõe. Além disso, é importante considerar que forma parte sobressalente dessa mesma instância ideológica a atividade intelectual, “o estilo de ver a realidade, com que torna possível essa leitura ou compreensão do mundo: crítica ou submissa, preocupada ou indiferente, confiante ou receiosa, com adesão ou repúdio, entusiasta ou resignada, tolerante, acéptica ou intolerante, ativa ou passiva, assim como a distância e o grau de implicação dos que contemplam.

A partir disto, todas as peças do tabuleiro mudam de lugar e com elas todos os agentes: o mercado, o autor, o leitor, o editor, o crítico… O significado que a leitura possa vir a ter depende mais do “estilo de ver a realidade” que da influência que o “melhor” livro possa vir a ter.  Este deslocamento de foco deixa na sombra os discursos mais românticos e subjetivos sobre a leitura e amplia fortemente os tons de uma visão mais realista, concreta e pé no chão sobre o trabalho com a leitura.

Espero que em 2015 possamos dar um salto!

 


Notas 

1. O 8 º Congreso Internacional – Lectura 2013 – Para Leer el XXI realizou-se em Havana de 22 a 26 de outubro de 2013. Trata-se de um congresso bienal, organizado pelo Comité cubano do IBBY e pela Cátedra Latinoamericana y Caribeña de Lectura y Escritura.

2. Zuleica Romay Guerra é presidente do Instituto Cubano del Libro e participou de uma mesa do Conversas ao Pé da Página, ao lado de Fabiano dos Santos Piuba e Eliana Pasarán, com o título “Políticas del Libro en América Latina y el Caribe y formación de lectores”. Conversas ao Pé da Página organizou duas mesas no Congresso.

3. Um dos participantes do Congresso fez uma intervenção aplaudida por todos dizendo que a medida dos leitores é o livro que cada leitor escolhe e que estes tem medidas diferentes, daí a referencia ao “tamanho” do leitor.

4. Constantino Bértolo, La cena de los notables – sobre lectura y crítica, Editorial Periférica, Espanha, 2008. Tradução em português prevista para o segundo semestre de 2014.