Se tivéssemos uma Fantasia, assim como temos uma lógica,
estaria descoberta a arte de inventar
Novalis, Fragmentos

 

Enquanto eu pensava neste texto, uma amiga de 4 anos desenhava ao meu lado com giz de cera, quando separou uns 4 gizes de cores diferentes e disse que eu escolhesse um, escolhi o azul, e ela disse “mas azul é de menino!”, daí encontrei uma maneira de adentrar o assunto que abordarei.

As artes infantis, ou arte produzida para crianças, nos exigem uma abordagem cuidadosa porque sempre acaba esbarrando nas práticas pedagógicas, que justamente por ter como constituição de educação transmitir uma visão adequada de mundo, e a arte ter a intenção de proporcionar uma leitura ampla e não perfeita (feita por completo,  como se fosse um “contorno entreaberto”), o que deveria ser uma união de ferramentas na educação disposta a alcançar em seus alunos pessoas pensantes e capazes de opinar, é na verdade um conflito, pois enquanto uma esforça-se parar construir uma verdade, a outra oferece a possibilidade de inventarmos verdades próprias. Esse é um problema que a literatura infantil e juvenil enfrenta em muitas partes do mundo, pois aquilo que é produzido com um viés meramente didático não é considerado literatura, e aí entra uma longa lista de discussões acerca da definição de conceitos tanto de “literatura”, quanto de “criança”.

Voltando à situação inicial, para contornar a situação que envolvia a definição das cores, disse: “não, azul não é só cor de menino, o céu é azul, o mar é azul, seus olhos são azuis e você é menina”, ela riu muito disso, mas não deixou de demonstrar seu amor à cor rosa, que todos podemos amar também, mas isso gera uma situação que só vem a castrar os exercícios experimentais de uma criança, pois, não se tratava sequer dela estar escolhendo uma roupa para vestir, ou coisa do tipo, mas estava colorindo um desenho, e associou que por eu ser uma menina não deveria escolher a cor azul.

Portanto, a construção do gênero na educação vem mostrando que esta divisão binária do mundo começa desde as tenras idades.

 

“A imagem da criança é, assim, o reflexo do que o adulto e a sociedade
pensam de si mesmos. Mas este reflexo não é ilusão; tende, ao contrário, a
tornar-se realidade. Com efeito, a representação da criança assim elaborada
transforma-se, pouco a pouco, em realidade da criança. Esta dirige certas
exigências ao adulto e à sociedade, em função de suas necessidades essenciais.”

Regina Zilberman, em “A literatura infantil na escola”, 1985.

 

E aí, volta-se à discussão que existe na literatura sobre quem é a criança, e em algum consenso, esta será fruto do que ela presenciar na cultura da qual a rodeia e faz parte. E, deste modo, poderíamos também encarar a criança como um gênero único, o dicionário assim define: “Agrupamento de indivíduos que possuem caracteres comuns”, (para muitos produtos existe a indicação “gênero infantil”), e neste caso não é delimitado por haver um sexo (masculino/feminino) apenas, e o que elas vão fazer com estes “sexos” não tem a mesma utilidade e importância que para os adultos. O fato de roupas e artefatos infantis serem muito coloridos, por serem feitos para crianças e logo todas poderiam usar todas as cores, seria a possibilidade de criar um espaço de liberdade de experimentação para ou desde a infância. Porém, não é assim que acontece, pois uma coisa é usar uma roupa colorida e outra uma peça somente cor-de-rosa, o que é determinado desde o nascimento dos bebês, e que é usado neste período como forma de criar e fixar um gênero dicotômico masculino ou feminino, e um mundo dicotômico, e aí é onde o pepino é torcido, e mesmo que depois saibam lidar com o uso das cores sem se confundirem com seus gêneros, a ideia já foi incutida. E com isso a menina que é bombardeada com todo o tipo de coisas cor-de-rosa só poderá mesmo amar e achar que esta é a sua cor.

E após passar por este “treinamento”, junto com outras formas de influência, como o uso dos brinquedos e brincadeiras, ela entende o que é ser menina (e o menino vice-versa), sem que haja necessidade para tal (preocupação), já que este tipo de definição de gênero será usada para fins sexuais e comerciais: sociais, mais adiante. Algo com que ela (criança) não precisa se preocupar, e que todos poderíamos não nos preocupar, a isso podemos chamar de normatização, ou melhor, heteronormatização do mundo, onde as coisas nunca poderão alcançar uma evolução no sentido de se transformar em outra coisa, qualquer uma que não necessita ser homem ou mulher, ainda que estas ideias misturadas. Isto é tudo o que vai de contra ao papel da Arte no mundo, e na Educação.

 

“(…) um elemento constitutivo das relações baseadas nas diferenças que
distinguem os sexos. Gênero implica a construção social do ser mulher e do
ser homem. Dessa forma, gênero encontra-se imbricado nos conceitos de
identidade sexual, papel sexual, e no de relações entre os sexos.”

M. P. Carvalho, em.: “Gênero e trabalho docente: em busca de um referencial teórico”, 1998

Porque se tomamos a liberdade de nos nomearmos como homens e mulheres, não podemos inventar outras coisas, ainda que sejam coisas mais interessantes para fazerem homens e mulheres? E é aí que está o papel da arte na educação infantil, tanto a arte feita para crianças, como a feita por elas mesmas, que não é algo que se comercializa, mas existe, e não há nada mais próximo do universo infantil do que a arte, já que nos permite a liberdade de experimentar e fazer de conta que as coisas são outras coisas, a função de expandir os olhares. Gianni Rodari (1920-80), jornalista, escritor e educador italiano, uma mente inventiva que realizou um trabalho revolucionário em educação, afirmava que não é possível a mudança da sociedade sem mentes criativas que saibam usar a imaginação, e é essa criatividade e o não engessamento dela que buscamos, é preciso exercitar esta capacidade, pois são essas as pessoas capazes de mudar o mundo. O papel da arte na educação infantil é, então, de uma importância primordial, tanto através da música, do cinema, da dança, das artes visuais e da literatura, essas duas últimas são as que mais se aproximam da criança na escola, mas a literatura um tanto mais por haverem nos livros personagens com um olhar infantil, onde elas podem encontrar uma identificação e não apenas moralidades e regras, é diversão, o que propõe a arte, uma forma de suprir desejos que não nos dá a realidade, cumprindo também seu papel social e político, assim como todo ato.

 

 

“A literatura deve propiciar uma reorganização das percepções do mundo e,
desse modo possibilitar uma nova ordenação das experiências existenciais da
criança. A convivência com textos literários provoca a formação de novos
padrões e o desenvolvimento do senso critico.”

Elisandra F. de Carvalho e Simone N. Bedendo, em: “Questões de gênero na educação infantil”, 2001.

A boa notícia é que mesmo recebendo tantas imposições para definir o mundo e a nós mesmos, ainda com tantas incertezas, nós nos (trans)formamos e (re)descobrimos muitas vezes ao longo de nossas fases etárias. Comprova esta possibilidade as reflexões apresentadas aqui (ideias que não seriam possíveis de ser discutidas em épocas  outras), com a colaboração de alguém que já teve rosa como cor preferida, e que hoje é o azul (e o rosa, o verde, o preto, o vinho, o amarelo, o vermelho, o lilás); portanto, nossas preferências de cores podem mudar, assim como a relação entre as pessoas e de nós para conoscos mesmos, para assim repensar o mundo, pois acabamos nos esquecendo que nós o criamos e temos que mudá-lo.