Por debaixo da obra

Caía a neve, e a noite estava alta. Era noite de Natal. Em meio ao frio e à escuridão, uma pobre menina passou pela rua com a cabeça e os pés descobertos. Quando saiu de sua casa tinha sapatos; mas eles não lhe serviram por muito tempo. Eram umas sapatilhas enormes que sua mãe já usara, tão grandes que a menina as perdeu ao atravessar a rua… A menina caminhava, então, com os pés descalços, que estavam vermelhos e azuis de frio; levava no avental muito velho, algumas dúzias de caixas de fósforos e tinha na mão uma delas como amostra. Era um péssimo dia: ninguém tinha comprado nada e a menina não ganhara um centavo… Este é o começo de A pequena vendedora de fósforos.

 

Li pela primeira vez o nome de Andersen na capa de um livro com recortes e com ilustrações polvilhadas de brilho, uma daquelas adaptações de baixa qualidade, em que a profundidade, a complexidade e a sutileza do escritor dinamarquês tinham perdido – por um caminho de sucessivas simplificações – sua riqueza. Mesmo assim, ali estavam o patinho feio, a vendedora de fósforos, a menina prisioneira de seus sapatinhos vermelhos, contos que, parecia, nem precisávamos ler, porque aqueles que nos precederam leram por nós. Personagens em absoluta solidão, abandonados e que querem entrar na festa do mundo, ainda que este não ofereça precisamente uma festa. De tão simplificadas, aquelas adaptações eram ofensivas, mas não impediram que meu interesse de menina se fixasse, como o de tantos meninos e meninas da minha época, em um aspecto essencial da obra de nosso escritor, talvez o único aspecto que conseguiu sobreviver a todas as mutilações e adaptações a que se viu submetida. Me refiro à exclusão, à expulsão de que padecem suas personagens e a tremenda necessidade de inclusão que os habita.

Todos significa todos, diz o slogan desse congresso e isso parece nos pedir (com humilhação, resignação ou grito) a menina do mar, o soldadinho de chumbo, o patinho feio, entre outros contos do maior escritor dinamarquês de todos os tempos, adaptados e lembrados até o quase desaparecimento daquelas edições argentinas de finais dos anos 1950 e começo dos anos 1960. Forte identificação a de muitos de nós com os excluídos de Andersen, singulares vivendo entre estranhos, diferentes em um mundo de iguais. Quem sou. Onde estão os meus. Personagens que, como no poema de Salvatore Quasimodo, estão sozinhos sobre o coração da terra, cisnes em uma comunidade de patos, seres míticos em um mundo humano, pobres de toda pobreza em um país gelado e mesquinho… Como extraterrestres entre terráqueos, seus homens, mulheres, animais e crianças são arrancados de seus lugares, jogados às intempéries, expulsos de hipotéticos paraísos, de concretos privilégios.

A que lugares nos levam nossos privilégios, a que lugares não nos deixam ir?, se pergunta a poeta e ensaísta americana Adrianne Rich. Pagamos um preço muito alto para diminuir nosso contato com a dor dos demais; acreditamos, muitas vezes, que é melhor não pensar, não saber. Ilusão de insensibilidade, de autoanestesia que – imaginamos poderia nos proteger e, sobretudo, poderia proteger nossos filhos. Se a literatura nos permite entrar no coração do outro, então, evitá-la nos ajuda a viver anestesiados. A anestesia na leitura se constrói por um caminho de formas fixas, estereótipos que impedem penetrar a superfície dos textos e da vida. Assim, a indiferença pode nos acompanhar mesmo lendo. Histórias narradas em uma linguagem amável e inócua em oposição ao literário, cuja potência reside na possibilidade de nos inquietar, de nos conduzir às zonas inesperadas de nós mesmos.

Quando um escritor se senta para escrever, pode ser que esqueça, por um momento, as condições concretas de sua vida, mas são justamente essas condições as que, por múltiplos caminhos o levaram a escrever de determinada maneira. A escrita, quando é verdadeira, se alimenta da experiência e da coincidência vital de quem escreve; somente dessa forma, pode fazer crescer nela mesma  e em quem lê, a percepção que a une aos outros para que os outros se tornem visíveis, deixem de ser o que se deixou para trás (Rich). Não são suficientes as palavras bonitas nem a frase cuidada, nem a trama a ponto de transmitir a riqueza de uma subjetividade e quem escreve sabe – ou deveria saber – que a linguagem opressora pode ter sua melodia enganosa. Quem escreve compreende (e seu leitor o compreenderá, mais cedo ou mais tarde) que o que parecem verdades irrefutáveis são construções sociais, vantajosas para uns e prejudiciais para outros e que essas construções podem ser colocadas em discussão.

Toda criança, todo jovem, precisa de uma comunidade que o reconheça, precisa sentir que essa experiência à que pode aceder pela leitura (a de um ser humano em outro contexto, em outras condições de vida) poderia ter sido a sua, experiência e condições pelas quais poderiam ter sido premiado ou castigado. Os leitores (adultos ou crianças) vamos à ficção para expandir os limites de nossa existência, porque necessitamos conhecer outras vidas e outros mundos, já que as ficções são construções de mundo, instalação de outro tempo e de outro espaço, nesse tempo e nesse espaço em que vivemos. Construção de mundos, artifícios cuja leitura ou escuta interrompem nossas vidas e nos obrigam a perceber outras vidas. Ao escrever e ler ficções, tornam-se palpáveis as infinitas possibilidades que existem em qualquer situação humana e somos colocados frente ao desafio de escapar da asfixia dos estereótipos, de romper o lugar comum para deixar entrar nesses seres inventados a complexidade da vida. Quando isso ocorre, estamos ante um livro que nos perturba, um animal completo, como diz o poeta Rodolfo Godino, um livro, enfim, verdadeiro como a vida.

Em uma população mundial estimada em 7 bilhões de pessoas, segundo dados do Banco Mundial, 1 bilhão e 300 milhões estão abaixo da linha da pobreza, isto é, quase 2 entre 10. Isso significa que vivemos em um mundo em que duas de cada dez pessoas não tem suas necessidades básicas satisfeitas, em um mundo assim de injusto. Que preço paga a arte quando se separa da sociedade de que faz parte, a sociedade cujas misérias e riquezas a alimentam? As histórias que escrevo são sempre uma extensão de mim mesmo, saem de minha vida. Algumas vezes mais encoberta que outras, a vida de qualquer escritor pulsa por debaixo de suas obras, diz o escritor Agustín Fernandez Paz. A quem escrevemos, nos produz reação a palavra compromisso, uma palavra que, no que diz respeito à literatura, foi estigmatizada. Mas, o que quer dizer comprometer-se, em literatura? Quando uma escrita é comprometida? Toda obra é a aventura de uma consciência dialogando com o mundo, em busca de uma verdade pessoal, não dogmática. Na disfuncionalidade, a opacidade e o empobecimento, um escritor tem algo a nos dizer sobre uma sociedade, um tempo, uma geografia, uma cultura. A arte não tem sentido se não considera que se dirige a uma sociedade de que seu discurso se alimenta, disse Graciela Gambaro, o que nos lembra que a obra não se faz somente com palavras e, sem dúvida, a obra de Andersen não é feita somente de palavras. Alimentados por seu complexo de feiura, pela pobreza de sua infância, o alcoolismo de sua mãe, as múltiplas carências e a tremenda necessidade que teve de ser reconhecido; alimentados – digo – por essa soma de virtudes e mesquinhezes que o habitaram, como a cada homem ou mulher da face da Terra, seus contos refletem um ponto muito alto de exclusão, em narrativas que, quase um século e meio depois de sua morte, não deixamos de ler, e cujo nome faz jus a este prêmio maior e nos honra. Andersen dedicou a sua mãe – à extrema pobreza de sua mãe – o conto sobre a pequena vendedora de fósforos que na última noite do ano, na cidade coberta de neve, acende um a um os fósforos que não conseguiu vender, assim como Não serve para nada, se alimenta no alcoolismo em que ele a viu se acabar para aplacar o frio. Às vezes me sinto como se tirasse os personagens do fundo do gelo com que a realidade os envolveu, mas, talvez mais que qualquer outra coisa, é a mim mesmo a quem estou desenterrando”, disse o escritor isralense David Grossman, em seu livro Escrever na escuridão. Hoje sabemos que Andersen é um grande escritor, porque ao olhar para si mesmo, conseguiu ver além de sua condição até descobrir algo que em seu tempo ainda não havia sido expresso ou cuja expressão ainda não havia encontrado sua forma estética.

 

Por cima dos sonhos

Embora fizesse pelo menos dez anos que trabalhava em e com livros para crianças, escutei pela primeira vez o nome de Jella Lepman em 1993, da boca de Evelin Höhne, minha orientadora na Internationale Jugendbibliotek de Munich. Sem o trabalho de Lepman, escritora, jornalista e ativista política judia alemã, que fundou em 1949 a Internationale Jugend Bibliothek de Munich e a dirigiu até 1957, que fundou o IBBY em 1953 e recebeu o primeiro prêmio Andersen em 1954, o campo da literatura destinada a crianças e jovens sería algo completamente diferente daquilo que conhecemos. Em boa parte se deve a ela o fato de que hoje consideremos os livros tão necessários na vida das crianças e, talvez também, devamos a Jella o desafio de pensar que o privilégio de ascender desde cedo à literatura escrita não deveria estar reservado somente a algumas crianças de alguns setores na escala social. Necessários os livros, especialmente necessário o acesso à arte e à literatura como direito inalienável, extensivo a todos os nossos semelhantes, no esforço e na convicção – de acordo com Antonio Candido –, de os incluir no mesmo catálogo de bens que reivindicamos para nós mesmos. Direito de entrega a um universo fabulado cujo alimento é indispensável para nossa psique, porque assim como não é possível ter equilíbrio emocional sem a fantasia, talvez não exista equilíbrio social sem a literatura. A leitura e a escrita enriquecem nossa subjetividade porque nos coloca de frente com nós mesmos, nos incitam perguntas, nos ajudam a pensar e a sentir, nos colocam em xeque, nos permitem aceder a outras experiências, tentar compreender outras subjetividades. A exploração de uma verdade estética pessoal é o que a arte nos oferece, por isso a literatura não é o lugar das certezas, mas o território da dúvida e não há nada mais libertário e revolucionário que a possibilidade de duvidar, de nos enfrentar a nós mesmos para colocar nossas certezas em xeque.

Compreender outras pessoas e outros povos foi o que tentou Lepman com A bridge of Children´s books, a ponte de livros e de crianças que refletem sobre sua experiência. Pioneira em programas de leitura, muito de nosso trabalho se nutre das instituições que ela fundou e impulsionou, até a sua morte. Agora mesmo, estamos em um lugar que é parte do que ela um dia sonhou e, então, é aqui onde eu gostaria de lembrar suas convicções, o lugar que ocupa a literatura na vida das pessoas e dos povos, já que ela soube, cedo, que ler o outro ajuda a entendê-lo, talvez, inclusive, que pensar em um homem é como salvá-lo, como disse em um de seus poemas Rodolfo Juarroz.

Politicamente ativa, consciente de seus privilégios e de suas diferenças, e da obrigação de emigrar de muitos povos e pessoas a raiz da intolerância de outros, Lepman não cansa de seu propósito de levar às crianças alemãs os livros de diversos lugares do mundo, de modo que, ao entrar em contato com eles, estejam melhor preparados para a paz, a convivência e a compreensão. Ela entendeu que quem lê a experiência de outro poderia, talvez, compreendê-lo e que, nesse caso, não poderá declará-lhe a guerra; que se esse outro se torna mais humano, não poderemos tão facilmente fazê-lo desaparecer; colocados pela literatura no lugar de outro, escritores e leitores podemos descobrir as semelhanças que existem entre esse outro e nós mesmos.

Mas não falaria de escrever sobre outros, mas mais precisamente de escrever desde o outro, tentando entrar em seu ponto de vista, em sua percepção de mundo, em seu coração. Escrever desde um outro diferente de nós (e visto em profundidade, todo outro é diferente e único) é em primeiro lugar nos atrever a pensar como ele, a estar, por um momento, em sua pele. O caminho que propõe a literatura é um caminho de conhecimento desse outro e a colheita que obtemos na leitura consiste em sair da indiferença porque, ao final de um livro, quem escreve e quem lê ficam em dúvida com a complexidade de razões, interesses, virtudes e defeitos de um outro diferente de si, compreendendo que já não seria tão simples desentender-se de sua existência. Escrevo para ser compreendido, disse Joseph Brodsky; escrevemos não só tentando compreender como também desejando ser compreendidos nessas zonas ainda não domesticadas do nós, e, aqui gostaria de me deter: na dificuldade de compreender e na importância de transitar, na leitura e na escrita, essa dificuldade. Gostaria de lembrar que uma parte importante de nossa experiência leitora provém da incompreensão, não compreendemos tudo o que vamos lendo e então isso mesmo, tentar compreender, provoca o esforço de transitar a leitura de um livro; é assim como temos viajado os leitores, de um livro a outro, desde os distantes dias da infância até os dias de hoje. Então um bom livro é, talvez, um livro que nos propõe essa dificuldade. Isso é relevante porque muitos livros editados hoje para crianças e jovens estão escritos em uma linguagem e tratam de assuntos extremamente simplificados, de acordo com a linha oficial, o congelado, o previsível, evitando e evitando-nos de pensar. Ler é aprender a entrar na vida e na língua, assim a literatura nos oferece seu mistério porque permitindo-nos entrar em um outro diverso, incluindo-nos em seu mundo e deixando se incluir no nosso, nos abre novas experiências de contato com o sofrimento, o assombro, a dor, o regozijo ou a maldade, ao mesmo tempo em que nos oferece a cura desses sentimentos, porque como disse Grossman os livos são o único lugar onde podem coexistir as coisas e suas perdas. Uma vez que as palavras passam pelo corpo e pela alma de quem escreve podem pertencer já ao leitor, ou seja, as palavras podem oferecer o ingresso em um mundo na linguagem privada, não oficial. Mas para isso, não deveríamos nos esquecer que a linguagem é um veículo, quase diria como a água, transmissora de uma corrente interna que vai desde a subjetividade de quem escreve a de quem lê e que essa linguagem precisa de transparência suficiente como para conduzir até o mundo que se narra e de opacidade indispensável como para se abrir a múltiplos sentidos. A literatura é generosa para nós, profundamente democrática porque nos permite ingressar em seu universo a partir de nossa particularidade, e possibilita a cada um de nós encontrar um caminho próprio entre suas letras.

Um escritor, procurando uma forma inteligível e altamente condensada para as imagens que persegue, despindo-se a si mesmo, põe a nu aspectos inimagináveis da condição humana. Leva-nos a pensar, ao menos por um momento, de outra maneira. Coloca-nos diante do desafio de tentar compreender uma situação que vai para além de nós, nos propõe identificar-nos, inclusive, com o que repudiamos, para nos obrigar a olhar a partir de outros ângulos, tirando as macias almofadas de nossas sagradas convicções. E se as coisas fossem de outro jeito? Só assim é possível perfurar a superfície de tantas versões superficiais da vida como nos chegam através de mil modos de penetração. Como seria nossa vida se fosse possível viver como esse outro?

 

Na vida real

Cada escritor é filho de seu tempo; ninguém pode criar à margem da experiência dos grandes conflitos históricos e sociais. Nenhum livro pode substituir a experiência, mas nenhuma experiência se basta em si mesma; terá sido insuficiente nossa educação se não lemos também livros de poetas e romancistas, de escritores que indagaram acerca da mais delicada das matérias: o homem, seus sentimentos, sua maneira pessoal de refletir, sofrer ou combater a realidade. Durante muito tempo, Cervantes, Tolstoi, Kafka nos disseram sobre o homem, coisas que a sociologia e a psicologia não nos puderam dizer, durante muito tempo os poetas nos dirão coisas sobre a língua e suas possibilidades de expressão, de comunicação e de criação, coisas que não podemos pedir aos linguistas. Não podemos esquecer de que uma criança não é uma flecha, que vai numa única direção, mas muitas flechas que vão simultaneamente em muitas direções, um centro de atividades e relações, uma mão que brinca, uma mente que absorve, um olho que julga. As crianças não crescem em um mundo separado do nosso, em um gueto ou em uma redoma de vidro, os livros destinados a elas não são livros fora do tempo, não há nem um só problema do presente a que as crianças não sejam sensíveis. Os livros para as crianças de nosso século não podem aparentar que o século não existe e que não transcorre, tumultuado, em nosso entorno, são algumas das ideias que Gianni Rodari incluiu em seu ensaio La imaginación en la literatura infantil.

Foi em 1984, após o fim da ditadura na Argentina, quando um coletivo de mulheres provenientes de estudos em Letras, formamos em Córdoba um centro de literatura destinada a crianças e jovens e, como marco deste centro, a revista Piedra Libre. No segundo número da revista reproduzimos, graças à gentileza de Perspectiva Escolar e Associació de Mestres Rosa Sensat, o ensaio de Rodari, o que permitiu, pela primeira vez, conhecermos seu pensamento na Argentina, um pensamento muito centrado no trabalho sobre escrita criativa que se fazia em meu país. A importância do desenvolvimento do imaginário e o trabalho a favor da inclusão são alguns dos caminhos que Rodari transitou a partir de sua experiência com crianças refugiadas. Sua fecunda escrita, nova para as crianças de hoje, continua sendo lida, como demonstram as reedições recentes de seus livros, mas é em seu lugar de professor que quero trazê-lo aqui, como quisemos levá-lo aos educadores argentinos, naqueles anos de minha iniciação. O autor de Fábulas por telefone, Los negócios Del señor gato, Os anões de Mantua e Antoñito es invisible, que começou seu trabalho docente como tutor na casa de uma família judia que tinha fugido da Alemanha e vivia em Sesto Calende, esteve em contato desde cedo com a privação, a dor, a exclusão. As reflexões que a partir dessas experiências anotou em seu Quaderno della fantasia, foram a base do que trinta anos mais tarde seria a Gramática da fantasia/Introdución al arte de inventar histórias, o ensaio em que explorou as leis da invenção para colocá-las à disposição de pais, bibliotecários e professores. Ainda que o romantismo o tenha rodeado de mistério…, o processo criativo é inerente à natureza humana, e está ao alcance de todos, disse quem confiava no poder de liberação que a palavra pode alcançar.

Filho de uma operária e de um padeiro, órfão de pai desde muito pequeno, professor de crianças alemãs que fugiram do nazismo, a vida de Rodari está por baixo de seu trabalho como pedagogo, estendendo aquela frase de Agustín Fernandez Paz, que mencionei no começo, a cada professor sobre a Terra, consciente de seu fazer. Afinal é isso, a vida consciente, o que unifica o escritor e o docente, que, ao receber o Prêmio Andersen, disse que A fantasia serve para explorar a realidade e para explorar a linguagem…, para ver em que resulta quando se opõem as palavras entre si. Nesse sentido, nosso escritor imaginou crianças que pudessem explorar a palavra para se abrir ao mundo, lê-lo, narrá-lo e modificá-lo; incentivou o desassossego, a percepção do pessoal e do diferente, a lutar contra a domesticação aceitando o nonsense, consciente de que por trás desse nonsense apareceriam sentidos novos, inesperados.

Que todos signifique todos é o lema deste congresso que busca refletir em torno do lugar da leitura na construção de uma cultura de inclusão, a criação a partir da diversidade e a diferença e os modelos, estratégias e práticas de inclusão, assim como os mecanismos de exclusão na promoção da leitura. Daí compartilhar este percurso com três figuras da literatura para crianças que chegaram a mim em diferentes momentos de vida e que, desde seus diferentes lugares, me fizeram girar em torno de eixos de atração/rejeição, inclusão/exclusão. Mas o que significa todos no que se refere à literatura, quando ela implica sempre um olhar singular sobre um assunto também singular? Pois creio que é justamente aí, na intensa observação do singular que pode nascer a metáfora de um todo que vai além do que estamos dispostos a ver. O debate social, os pobres, os que discriminam ou são discriminados, os que não têm memória, a  violência familiar e social, as guerras e ditaduras de todos os lugares e tantos outros assuntos são temas da literatura, a condição de que haja em seu tratamento uma intensa observação singular sobre uma circunstância e uma subjetividade também singulares, porque a literatura para ser útil (para usar uma palavra que vai contra sua essência) deve conservar-se inútil, deve se preservar como um tesouro em sua disfuncionalidade.

Desde que existe, desde o começo dos tempos, ela olha para o humano singular, na luta de um ser humano entre o que é e o que quer ou pode ser. Ela busca uma verdade que nem começa e nem termina nas palavras. Para conseguir que essa verdade não seja somente de palavras, luta contra o oficial de uma língua e de uma sociedade. Luta contra a homogeneização dos discursos, nos convida a ser pessoas que pensam e sentem de uma maneira própria. Enfim, aquilo que Rodari um dia nos ensinou: treinar-nos no vício de fabular para viajar até o coração do homem.

 

* Texto apresentado por ocasião do Congresso do IBBY 2014, realizado na Cidade do México.

 


 

Bibliografia

Sergio Andricain e Antonio Orlando Rodriguez. Fernández Paz, Agustín: “La realidad y la fantasía son un continuo” http://www.cuatrogatos.org/show.php?item=621

Antonio Candido, O direito à literatura. São Paulo: Ouro Sobre Azul, 2012.

David Grossman, Escribir en la oscuridad. De Bolsillo, 2011.

Jella Lepman, A Bridge of Children’s Books: The Inspiring Autobiography of a Remarkable Woman (Die Kinderbuchbrücke, 1964). Dublin: The O’Brien Press, 2002.

Pavese, Cesare Pavese, Il mestiere di vivere. Torino: Giulio Einaudi, 1952.

Ricardo Piglia, Luz, critica, acción. RADAR, 16.9.12 

Salvatore Quasimodo, Y enseguida anochece y otros poemas. Hyspamerica ediciones argentina, Buenos Aires, 1983 

Adrianne Rich, Sangre, pan y poesía. Prosa escogida 1979-1985 Icaria- Antrazyt

Gianni Rodari, Revista Piedra Libre del CEDILIJ (Año 1, Nº 2; Córdoba, Argentina, septiembre de 1987). Perspectiva Escolar  Associació de Mestres Rosa Sensat. Barcelona: http://www.rosasensat.org

 


TRADUÇÃO THAÍS ALBIERI / IMAGEM HAUS DER KUNST, 1946, INTERNATIONAL YOUTH LIBRARY.