“Na arte, há espaços e ocasiões. Ocasiões propícias: os lugares concretos, os materiais – que também são ‘lugares’, a seu modo – e os tempos apropriados: ócios, serenidades, até aborrecimentos. Se não há um onde e um quando e um com quê fazer arte a ocasião se apequena. Não desaparece de todo se a necessidade de fazê-la for vigorosa, porque sempre há margens estreitas onde instalar-se.”
(Graciela Montes, La frontera indómita)

 

O sarau do Acaia

O Instituto Acaia é uma uma organização social sem fins lucrativos criada em 2001, em São Paulo, para acolher e oferecer atividades sócio-educativas a crianças, adolescentes e famílias, em dois núcleos: Ateliê Acaia e Centro de Estudar Acaia Sagarana (Vila Leopoldina, região oeste). Hoje o Ateliê Acaia recebe crianças e adolescentes de 6 a 18 anos, muitos deles moradores das favelas da Linha (ou Votoran) e do Nove (ou Japiaçu), e do conjunto habitacional Cingapura Madeirite, que participam de diversas oficinas: linguagem oral e escrita, artes, música, letramento digital, marcenaria, biblioteca, vídeo, oficina do sentimento, capoeira, dança, costura e bordado, culinária, xilogravura e tipografia. Uma das atividades semanais promovidas no Ateliê Acaia é o “Sarau da Manhã”.

O “Sarau da Manhã” acontece todas às sextas-feiras, às 8h30. É, para muitas crianças, professores e demais funcionários, a primeira atividade do dia.  Liderado pelos educadores da biblioteca, acontece com a colaboração e participação de todos. O espaço é acolhedor, independentemente de onde ocorra (já circulou em cinco lugares diferentes do Ateliê). Ao lado dos bancos de madeira destinados ao público, há uma mesa com livros variados de poesia: de Vinícius de Moraes à Millôr Fernandes, passando por José Paulo Paes, Ricardo Azevedo, Tatiana Belinky, Sergio Capparelli, Lalau e tantos outros. Em algumas edições, há varais com impressões de poemas de autores consagrados na literatura infantil como Cecília Meireles, ou de poetas/compositores/músicos como Arnaldo Antunes, Humberto Teixeira, Luiz Gonzaga, Sandra Peres e Paulo Tatit. Uma trilha sonora dá o tom da atividade, com músicas que transitam em diversas vertentes não conhecidas pelas crianças: parte da música brasileira voltada ao experimentalismo (como Tom Zé e Mutantes), as de raízes africanas e populares (jongo, maracatu, Criolo e Antônio Nóbrega),  música colombiana (salsa, cumbia e merengue) e de grupos europeus alternativos (The Squirrel Nut Zippers, Emir Kusturica). A escolha criteriosa da trilha sonora acaba por criar um outro espaço de apreciação, além de ajudar a despertar os sentidos e a atrair as crianças, que podem estar concentradas em outras atividades ali por perto: a participação não é obrigatória.

Várias modalidades de leitura integram o sarau: algumas crianças e educadores retiram o livro ali, na hora, e escolhem um poema para ler sozinho ou em dupla; há os que preparam ao longo da semana algo especialmente para esse momento; outros preferem ler poemas de autoria própria, registrados à mão no caderno ou numa folhinha de papel guardada no bolso. Às vezes, professores e funcionários convidam um ou outro aluno a dividirem a leitura de um poema e, assim, a apresentação vai ganhando vida, num mosaico de escolhas genuínas e performances singulares. Participam crianças entre 6 e 12 anos de idade.

Sarau Acaia

Os que vão chegando um pouco mais tarde, aos poucos se juntam, e logo há cerca de 15 a 20 pessoas por ali, esperando o início do sarau. Há sempre um aluno DJ responsável pelo som, alunos menos vinculados com a leitura, que no entanto, acabam se envolvendo direta e intensamente, acompanhando com atenção as leituras dos poemas, para não perderem o tempo certo de apertar o play ou o pause. Os participantes são, então, convidados a se inscreverem para as leituras. Todos têm  um tempo para buscar livros, fazer suas escolhas e formar parcerias, caso prefiram. Para dar início às inscrições, algum aluno mostra uma plaquinha onde se lê “INSCRIÇÕES” e todos já sabem que o momento é de levantar a mão para que o ajudante do sarau organizar os inscritos. Isso tudo acontece de maneira muito bem humorada e nada burocrática. Muitas vezes, o aluno que passa a plaquinha (uma pequena lousa), o faz dançando, com coreografias improvisadas que revelam certa intimidade entre os participantes. O ajudante anota os nomes dos inscritos na lousa maior, que fica ao lado do pequeno palco montado com fundo de chita colorida, e faz a leitura do primeiro poema da manhã.

Para anunciar o primeiro leitor, o grupo entoa a “quadrinha de organização”: “música parou, poema iniciou!”. A trilha musical é interrompida, seguida de silêncio. As leituras são ouvidas com atenção pelo público, sentado nos bancos de madeira ou no chão, em pé embaixo de uma árvore, de longe, na cozinha que fica ali pertinho ou no pátio ao lado. Alguns acompanham a leitura recitando baixinho o poema que está sendo lido pelo colega e que já é conhecido, às vezes até decorado. Há os textos preferidos, presentes em quase todo sarau, seja pela curta extensão e aparente facilidade da leitura ou por um certo gracejo com a linguagem, na qual predomina o humor, como os citados abaixo:
Cemitério

Aqui jaz um leão
Chamado Augusto
Deu um urro tão forte,
Mas um urro tão forte
Que morreu de susto
(…)
(José Paulo Paes, Poemas para brincar)

 

Coisa mais feia!
Uma sereia
De sapato e meia.
(Laura Góes, Bichos e não bichos)

 

Sarau Acaia
A cozinheira do Acaia, Simone Paixão, 36, há oito anos no Ateliê, também aparece para participar. Escolhe a leitura do poema “Mãe, o que é isso?”:

Mãe, já aconteceu com você?
Estou sentindo não sei o quê.

Não sei se é bom, não sei se é ruim.
Não é feliz, nem triste também.
É uma coisa que está em mim.
Mas eu não sei o nome que tem.

Será que algo assim pode existir
E eu estou sentido o que é sentir?
(Duda Machado, Tudo tem a sua história)
Sempre que possível, Simone participa dos saraus: “Eu gosto de participar porque incentiva as crianças, é importante. Elas gostam quando eu leio, aplaudem, são carinhosas. Um dia ainda vou ser professora.” Conta que é uma maneira de se relacionar com as crianças para além do espaço da cozinha e de apreciar o que elas fazem no Ateliê.

O professor de artes, Fabrício Lopes, 38, chega um pouquinho mais tarde em uma das edições do sarau, tira do bolso um papel meio amassado e lê um poema que escreveu logo cedo, a partir de uma situação vivida naquela manhã. Amanda, 10, aparece com seu caderno universitário onde registrou, com caneta rosa, os poemas de amor que criou. A maioria escrita em quadrinhas com versos rimados. Escolhe um e lê, meio tímida, meio orgulhosa.

Depois de agradecer, cada leitor anuncia o próximo a se apresentar. Novamente, circula a plaquinha, acompanhada do mesmo bom humor que convocou as inscrições, dessa vez com o registro da palavra “APLAUSOS” e com a trilha sonora que o DJ volta a deixar rolar. A música ajuda a manter elevado o astral: alguns arriscam passinhos pra lá e pra cá enquanto esperam a próxima leitura, outros, sentados, balançam os pés. Há um respiro entre uma leitura e outra, uma necessária e descontraída dispersão que confere maior organicidade ao evento. Quem estiver com a palavra e com o microfone, convida o público a fazer coro: “música parou, poema iniciou!”. Novo silêncio, outras leituras.

O sarau acontece entre “dois e três tempos”, dependendo do número de participantes. Entre um tempo e outro, os participantes voltam a buscar os livros disponíveis na mesa e formam novas parcerias. Alguns saem para outras atividades e há os que chegam apenas para o segundo ou terceiro momento. Os DJs também vão se revezando, às vezes, em parceria. Há os que quebram de propósito o protocolo e deixam escapar um pouquinho de música em meio a leitura concentrada do colega. Motivo para risos, espaço para uma arte e muitas outras. O leitor recomeça, às vezes meio bravo, mas na maioria das vezes, achando graça. Tudo pode ser conversado e acordado no momento, respeitando-se algumas regras já estabelecidas anteriormente, mas de maneira dinâmica e flexível.

Como ocorre nos últimos minutos de qualquer partida de esporte, nos atos finais das peças teatrais ou no “bis” dos shows, os tempos finais guardam as melhores surpresas. Aquecido, o público se arrisca mais, novas parcerias surgem e as apresentações vão ganhando intensidade. Nesta hora, apareceram as leituras performáticas, como a da aluna Thaís, 8, que lê, aos gritos, dedo em riste, um “mandalique”:
Comigo até dona Marta
Brigou: –Eu de ti já estou farta!
Me deixa em paz
E suma, rapaz:
– Vai para o raio que o parta!
(Tatiana Belinky, Mandaliques)

Sarau Acaia

Sarau Acaia
Sua leitura é a própria personificação do poema. Plaquinha desnecessária, os aplausos vem acompanhados espontaneamente de assobios e “uhuu!”. Magno, o educador da biblioteca, toma a palavra e provoca: “isso se chama ensaio!”. De fato, na semana que antecedeu aquela edição do sarau, ele apresentou à Thaís os mandaliques, que como o próprio nome indica, são uma versão “mandona” e “enraivecida” dos tradicionais limeriques – poemas bem humorados compostos por cinco versos, sendo que os dois primeiros rimam com o último, enquanto o terceiro e quarto versos, mais curtos, rimam entre si. A característica peculiar deste texto, se encaixou “como uma luva” para Thaís, por conta de sua personalidade e preferências leitoras reveladas em outras atividades, na biblioteca. Thaís escolheu um dos textos com o qual mais se identificou, ensaiou em casa, “incorporou” e leu…

Também para os últimos minutos do terceiro tempo, Letícia, 7, que já havia lido sozinha e em duplas nos tempos anteriores, reaparece, ao lado de Maíra Capelossi, educadora há um ano e meio no Ateliê, lendo “Infância”, de Lalau. Composto por versos que narram ações ocorridas no tempo passado da infância, o poema foi lido pela dupla de maneira peculiar: a professora dizia o início do verso e a aluna completava com as rimas finais. Nada demais, não fosse o fato de ter sido ensaiado apenas minutos antes e de ficar claro que Letícia mais adivinhava o que compunha o final de cada verso, do que lia. Leitora recente, ela inferia, pelo sentido e pela sonoridade, o que poderia estar escrito. Quando essa relação era menos direta, aí sim, buscava literalmente o texto, às vezes dizendo: “péraí”! Completamente à vontade com suas estratégias de leitura e com seu ritmo variante, Letícia acrescentava, a cada rima, um gesto correspondente. Um deles, foi atirar longe seu chinelo de dedo, depois de ler o verso “perdi sapato…” e o último gesto foi tirar umas moedinhas do bolso ao ler “encontrei tesouro”.

Durante essa leitura em dupla de Maíra e Letícia, Ryan, 7, que era DJ naquele momento, construía um poema paralelo ao “Infância” de Lalau: tentava antecipar a fala de Letícia, às vezes “acertando” o que estava escrito no poema original, às vezes levantando uma hipótese diferente, mas completamente possível para construir um sentido para o texto. Como, por exemplo, no verso “fiz xixi…”, cujo final era “na cama” e ele disse baixinho “na calça”; ou ainda no verso “quebrei…”, que ele completa corretamente com “a cabeça”.

O percurso de Ryan em uma das edições do “Sarau da Manhã” do Acaia sintetiza bem essa experiência poética: assim que chega à instituição, ele é convidado pela coordenadora a participar do sarau, mas resiste, preferindo brincar de carrinho com os colegas na quadra. Ela insiste carinhosamente, convidando-o a dividir com ela a leitura de algum poema, mas ele escapa para o café da manhã. Depois de alguns instantes, já sem a intervenção da coordenadora, lá está ele, olhando de longe o que se passa. Ouve uma leitura aqui, outra ali até que se aproxima do DJ e pede para assumir a função. Fica ali um tempão, ouvindo com atenção as leituras, rindo, se divertindo, de vez em quando fazendo uma arte e deixando escapar o som na hora errada. Até que, no terceiro tempo, talvez sem perceber, Ryan compõe uma nova versão para o poema “Infância”, de Lalau, arriscando-se, baixinho, sem sair do seu posto de DJ, a completar os versos lidos por Maíra e Letícia, num trio inusitado. O que permitiu sua participação e definiu sua forma de envolvimento, para além do seu próprio desejo de estar ali? O que aqueles versos, quase sussurrados paralelamente à leitura feita por outros, podem revelar sobre a experiência poética que o sarau do Acaia proporciona aos seus participantes? Segundo o autor cubano Félix Pita Rodríguez, “La poesía es un silencio/ que alguien de oreja muy fina escuchó”.1

 

Autenticidade da mediação

A mediação da leitura em eventos como a realização de um sarau corre o risco de cair numa abordagem artificial, marcada por um entusiasmo exagerado por parte dos organizadores, que atuam como “animadores”, e pode acabar por afastar as crianças e os jovens dos livros e da leitura, ao invés de atraí-los. Isso geralmente acontece quando a experiência com a palavra poética não é o foco prioritário. Segundo Cecilia Bajour, essa tendência “ativista” parte do pensamento “de que se deve insuflar ares vitais ou espetaculares na leitura, como se esta fosse uma atividade catatônica ou de pouca intensidade”.2 Ainda conforme a autora, o contrário disso não precisa ser, necessariamente, deixar de lado “formas renovadas e lúdicas de adentrar os textos”. É justamente essa “renovação” que valoriza esteticamente a experiência poética, o que vemos no sarau do Acaia. A mediação dos educadores revela, primeiramente, uma formação cultural em diálogo com linguagens contemporâneas do teatro e da música que são essencialmente artísticas e compõem, de modo complementar, com a leitura dos textos. Soma-se a isso, uma orientação pedagógica construtivista, que valoriza o protagonismo infantil e juvenil durante as atividades propostas e privilegia o processo e não o “produto”. Chama muito a atenção de qualquer visitante, a horizontalidade presente nas relações durante o sarau: se um professor esquece de dizer a “quadrinha da organização” antes de iniciar a leitura, logo é “repreendido” pelo aluno DJ que se recusa a soltar a música, já que isso foge ao combinado. As regras valem para todos e isso gera uma co-responsabilização pelo evento e lhe confere um aspecto vivo, próprio dos encontros fecundos.

Sarau Acaia

 

Forma e conteúdo

Em poesia, forma é conteúdo e isso se traduz no formato do sarau do Acaia. A forma como o evento acontece e a preocupação estética que o circunda são conteúdos substantivos, tanto quanto os textos e autores apreciados. São aspectos que também constituem aquela experiência poética, uma vez que ela não se resume ao momento da leitura e declamação dos poemas. O caráter lúdico do evento, com elementos de “programa de auditório” e certo tom nonsense, ao invés de banalizar, esvaziar de sentido ou massificar pejorativamente, integra diferentes elementos com humor – aspecto essencial quando se fala em leitura pra crianças e jovens –, já que convida a brincar, rir, experimentar, como num jogo. “O jogo instiga e faz emergir uma energia do coletivo quase esquecida, pouco utilizada e compreendida, muitas vezes depreciada”.3

A “quadrinha de organização”, por exemplo, (“música parou, poema iniciou!”) pontua o momento de cada coisa de forma rimada e divertida, explicitando essa relação coerente entre forma e conteúdo nas escolhas que marcam o sarau. Segundo Magno, o educador da biblioteca, “não parecia esteticamente interessante o ‘pssiiuuu’, ‘silêncio’, ‘quietos’. É um jogo de apreciação e leitura, no qual estas duas partes são ativas: o silêncio buscado no jogo não é para a criança ler, somente, mas, também, para escutar o outro, que logo depois será ele mesmo.” Esse formato, integrado ao objeto poético que evidencia, estimula a adesão das crianças e jovens ao sarau, que não tem participação obrigatória. Aderir ao sarau é, para muitos, um outro tipo de brincadeira – assim como a queimada que pode acontecer simultaneamente na quadra, o pega-pega, o carrinho – a brincadeira com as palavras, com a forma que adquirem no poema, com o som que podem ter quando lidas em voz alta num microfone, com as sensações e sentimentos que despertam em que ouve, vê e daqui a pouco também lê e assim por diante… Das reações que se observa no público, a mais comum é, sem dúvida, o riso. Claro que há lugar para tudo e não faltam escolhas mais melancólicas ou ‘românticas’, mas o humor prevalece. Segundo Jean Claude Carrière, “[estas] histórias muitas vezes nos espantam, nos fazem rir, o que é uma técnica para nos deixar em alerta e também para nos desarmar. Aquele que ri aceita com mais facilidade o inaceitável e mesmo algo de insolente e obscuro”.4

 

Ler, ouvir e apreciar

A forte presença de leituras em dupla é outro aspecto que se destaca nas edições do sarau do Acaia. Escolher ler com alguém pode ter inúmeras razões, que vão de um simples e genuíno desejo de se aproximar ou estreitar uma amizade, à possibilidade de tornar acessível e viável o que sozinho seria mais difícil de fazer. No caso das crianças e jovens recém iniciados no universo da leitura, compartilhar a tarefa da leitura em voz alta com alguém pode ser fundamental para dar passos mais largos em direção aos textos de maior complexidade. Isso vale não apenas para as conversas sobre os livros lidos, mas também para a leitura propriamente dita, especialmente na modalidade “ler em voz alta”. Segundo Teresa Colomer, “compartilhar as obras com outras pessoas é importante porque torna possível beneficiar-se da competência dos outros para construir o sentido e obter o prazer de entender mais e melhor os livros. Também porque permite experimentar a literatura em sua dimensão socializadora, fazendo com que a pessoa se sinta parte de uma comunidade de leitores com referências e cumplicidades mútuas”.5

Além disso, a leitura em duplas possibilita unir interpretações complementares. Ao ler com o outro, dividindo partes de um texto, muito se decide, ainda que sem tanto tempo para negociar as escolhas: quem vai ler o quê, de acordo com o que o texto oferece como possibilidade; até onde vai a leitura de um e começa a do outro e por quê; com que tom de voz, expressões faciais ou gestos será feita a leitura etc. Pensar e agir sobre isso é necessariamente tocar em aspectos construtivos do texto poético, como ritmo, musicalidade, versos livres ou regulares, presença ou não de estrofes, onomatopeias, repetições, paralelismos e tantos outros.

Questões do tipo “como se lê um haicai em dupla?”, ou, “já que o texto é tão curtinho e o sentido já está condensado, como, então, dividir 3 linhas entre 2 leitores?”, “ler o título pode ser uma saída, mas o título é importante?, “e se não houver título, como fazer a divisão?”, “quem sabe mais, lê mais?” – muitas vezes, sim, e essa regra é totalmente válida nesse momento de experimentações, mas muitas vezes uma leitura prévia já indica possíveis quebras em determinado verso ou entre um verso e outro. Descobre-se lendo!

No sarau do Acaia não há apenas leitores iniciantes participando. Os maiores, que frequentemente criam seus próprios poemas, muitas vezes leem sozinhos, fazendo uso de recursos persuasivos de interlocução. É o caso, por exemplo, da aluna Gorete, 10, que em certa edição do sarau escolheu uma quadrinha popular:
Amo a letra ___
Por ela tenho paixão
Com ela que se escreve
_______ do meu coração
(Maria José Nóbrega e Rosane Pamplona, Diga um verso bem bonito)
Ao ler, Gorete completava o verso com letras e nomes de diferentes meninos do Ateliê, causando uma expectativa incrível por parte dos atentos ouvintes!

Sarau Acaia

 

Aperfeiçoamento e vitalidade

A realização de um sarau nos moldes desse proposto pela equipe do Acaia possibilita inúmeras aprendizagens a todos os participantes e, principalmente, uma experiência poética de alta relevância cultural, por tudo o que engloba e fomenta. Outros aspectos, além dos já relatados anteriormente, podem ampliar ainda mais seu alcance, no que diz respeito à relação das crianças e jovens com os livros. São exemplos: ensaios mais frequentes, não necessariamente de modo sistemático, muito menos obrigatório, já que a própria participação no sarau é livre, mas como opção de oferta aos interessados em aperfeiçoar sua performance leitora durante o sarau; estudo dos poemas de um determinado autor, escolhido pelos alunos dentre os mais lidos, para realização de um dos 3 tempos do sarau especialmente dedicado a apreciação dos poemas desse autor;  a possível escolha antecipada, com a participação dos próprios alunos, dos livros que irão para a mesa no dia do sarau, buscando-se justificativas para as escolhas feitas por professores, alunos e demais funcionários.

As sugestões de possíveis inovações devem estar sempre atreladas aos propósitos institucionais da atividade, ouvindo-se o máximo possível a voz de todos aqueles que a fazem acontecer, aliados às demandas que eventos como o sarau acabam por gerar, justamente em função de sua vitalidade.

 


Notas

1. Sergio Andricaín & Antonio Orlando Rodrigues. Escuela y poesia – y qué hago con el poema?. Buenos Aires: Lugar Editorial, 2003, p.15.

2. Cecilia Bajour. Ouvir nas entrelinhas – o valor da escuta nas práticas de leitura. São Paulo: Pulo do Gato, 2012, p.80 e 81.

3. Viola Spolin. Jogos teatrais na sala de aula – um manual do professor. São Paulo: Perspectiva, 2010, p. 23.

4. Jean Claude Carrière. Círculo dos mentirosos. São Paulo: Conex, 2004, p.16.

5. Teresa Colomer. Andar entre livros – a leitura literária na escola. São Paulo: Global, 2007, p.143.