A segunda etapa do Seminário Conversas ao Pé da Página 2013 encerrou-se, em meados de agosto, com uma concordância entre os convidados (autores, editores e acadêmicos de destaque nacional e internacional): para se formar cidadãos democráticos é imprescindível o contato com a leitura e a literatura. Apenas assim, teremos adultos capazes de ler, compreender e formar opinião sobre todo tipo de questão e, com base nela, escolher seus representantes.

É fundamental que os adultos apresentem os livros às crianças, desde pequenas, e que leiam para elas. E o que fazer com aquelas que, em várias partes do mundo, não os têm? A solução de Patrícia Aldana, editora guatemalteca radicada no Canadá, é direta: conectar adultos disponíveis e prepara-los para serem mediadores de leitura, além de criar situações que possibilitem sua atuação. Aldana relata que esse trabalho é feito no Irã, para atender ao um milhão de crianças refugiadas do Afeganistão. A formação de mediadores de leitura e a aquisição de livros são coordenadas pelo IBBY (International Board on Books for Young People), entidade não governamental.

Na Faixa de Gaza também foram formados mediadores pelo IBBY e criadas duas bibliotecas para crianças. Seu acervo é bastante diversificado e, surpreendentemente, o livro preferido das crianças de lá é Cinderela. Na China, há um grupo de colégios nos quais todo o ensino é estruturado a partir da leitura, e no México escolas possuem voluntários que leem livros para os alunos nos intervalos de lanche e almoço.

Em Toronto (Canadá), durante anos existiu um clube de leitura semanal de mães e filhos. No início, as crianças tinham nove anos e já eram adolescentes quando deixaram de se reunir. A cada semana uma das gerações escolhia o livro a ser lido. Registrou-se, ao longo dos anos, uma mudança na qualidade dos critérios de escolha dos livros tanto por parte dos filhos como das mães. E no sul do Chile, após um terremoto em uma pequena comunidade, formou-se um grupo de voluntários que lia todas as semanas para as crianças afetadas. O impacto desta ação foi muito grande. Crianças e suas famílias passaram a ter acesso aos livros da biblioteca da escola, que não eram lidos, tampouco divulgados pelas professoras. A semelhança entre todas essas ações está na existência de mediadores adultos que leem para as crianças, e na criação de bibliotecas públicas, comunitárias e escolares que sirvam a comunidade na formação de leitores. Mas como tornar essa meta viável em um país do porte do Brasil? Sabe-se que um grande número de crianças não tem acesso à leitura, seja pela falta de livros ou instrução dos pais, seja pela desatenção à prática da leitura na sala de aula – mais comum nas escolas do que se imagina.

Desde 1997, a distribuição de acervos às escolas, alunos e professores pelo PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) vêm cumprindo de forma tímida sua função de promover a inserção dos alunos na cultura letrada. A implantação do PNLL (Plano Nacional de Livro e Leitura), em 2006, cuja meta é promover o livro, a leitura, as bibliotecas e a criação e a difusão da literatura brasileira, reavivou o debate sobre o tema e ações foram implantadas. Criaram-se espaços de práticas de transmissão de narrativas e programas de formação de professores mediadores que leem para as crianças. Porém, ainda faltam projetos de formação leitora nas escolas e creches, e a valorização das bibliotecas e Salas de Leitura dentro delas. Também se deve pensar num sistema de bibliotecas públicas comunitárias que tenha condições de servir à comunidade na formação de leitores, e que possua gestores e funcionários qualificados. Além disso, deve haver um maior intercâmbio de experiências e o fomento de projetos.

A função do Plano é estabelecer os eixos, linhas e diretrizes políticas de incentivo à Educação.  Atualmente está divulgando as ações em prol do livro e da leitura no país através de um mapeamento que visa criar condições para o intercâmbio de experiências e a colaboração entre projetos similares. Representantes do Ministério da Cultura presentes no seminário enfatizaram que as iniciativas em curso em municípios do Brasil devem ser aglutinadas nacionalmente e formada uma rede de projetos sociais de leitura, de autogestão e troca. Deverão ser instalados fóruns de discussão nas cidades e a sociedade deve acompanhar este processo. “Não é papel do Estado criar as redes de pontos de Leitura, mas garantir que os programas de incentivo à leitura cheguem a todos. Os cidadãos devem exigir que o governo o faça”, diz Fabiano dos Santos Piúba.

Até o final de 2014 pretende-se enviar um projeto de lei para a institucionalização definitiva do PNLL, tornando-o uma determinação política, ampliando radicalmente os investimentos públicos em leitura e, ao mesmo tempo, dando uma solução superior e qualificada à contribuição da iniciativa privada no Fundo setorial de livro, leitura e literatura, o Fundo Pró-leitura. Muito ainda tem que ser feito, segundo Ana Cristina Dubex Dourado: “No campo da literatura, financiar a criação e produção de livros e no da leitura formar gestores a distância e mediadores, para ampliar cada vez mais este projeto de formação de cidadãos.” Enquanto a lei não é aprovada, resta-nos acompanhar de perto o trabalho do PNLL e observar como a sociedade irá se organizar para autogerir este processo e levar a cabo a criação de novos programas e fóruns de discussão nos municípios.

 


*Texto originalmente publicado na seção “Tendências e debates” do jornal Folha de S.Paulo, em 18/9/2013.

 

Imagem, Marie Ange Bordas, Deslocamentos.