Disse Edith Vera em sua poesia:
Uma vez que se tenha pronunciado
a palavra papoula
há que deixar passar um lapso de tempo
para que se recomponham
o ar
e nosso coração. 

O equilíbrio entre o tempo, a palavra/traço e o silêncio é assunto da poesia.

Não somente da poesia. Talvez a busca desse delicado equilíbrio entre tempo, palavra e silêncio seja um assunto de toda arte: literatura, música, cinema. Algo fundante.

Como começa a criação? Em que momento? No ato de puxar o fiozinho para ver o que vem,  aparece apenas a superfície de um assunto um pouco obscuro por fazer parte de um mistério. E justamente por esse mistério, por essa opacidade, o ato de criação tem algo de inevitável para o criador. Por isso a arte está entre nós antes da língua encontrar a forma de logos e estará até o último ser humano viver. Esse mistério, opaco ao entendimento emerge, toma a direção do que for. Traduz-se em movimento e deixa uma marca. Nuances na voz, um detalhe na linha, uma letra junto a outra fazem um som, uma palavra, um verso, um golpe de cinzel, um gesto mínimo no rosto, o instante no qual se dispara o disparador da máquina para tirar uma, aquela, única foto.

Em outras ocasiões, e aqui o mistério é todavia maior, a mesma opacidade que dá origem a algo em um, envolve mais de um. Algo desse mistério pode ser compartilhado. Não é o único de um ato de criação, depois virão: o trabalho com a matéria escolhida, a técnica, o conhecimento. Porém, esta opacidade permanece latente até o último instante. E se traslada do mesmo modo misterioso ao que lê, escuta, contempla.

Cada livro contém o trabalho de muitas pessoas. Em especial, os livros de literatura destinados à infância que são objetos particularmente inclusivos, e – em casos afortunados – abrem múltiplas possibilidades de leitura, provocam o leitor desde diferentes focos. De sua criação participarão no mínimo: o escritor, o ilustrador e o editor. Algumas vezes um ato de criação é um pretexto para outros. Um texto inicial, sabe-se lá saído de quais profundezas do escritor, pode ser a matéria sobre a qual orbitam as criações de outros artistas. Assim como um romance pode ser o que motive a criação de um filme. E por extensão, toda obra traz consigo um diálogo infinito com muitíssimas outras.

Se a criação de um objeto “livro de literatura” supõe mais de um criador, estes necessitam encontrar-se. Mas encontrar-se com outro não é fácil. Não digo estar no mesmo lugar ao mesmo tempo, digo encontrar-se de verdade. Compartilhar as palavras, o tempo e o silêncio da intimidade com consentimento mútuo. Deixar que o outro se aproxime sem se sentir invadido. Desejar que o outro chegue perto, dando lugar ao encontro.

Quando falamos da palavra poética estamos em um território de fragilidade. Qualquer variação do tempo, as palavras e os silêncios podem ser sentidas como intromissão. Se há dois leitores, há duas leituras, há duas diferentes buscas. A leitura implica também em um ato de criação. E toda criação supõe uma leitura do mundo. E de outras obras.

Sabem bem os que contam histórias que em geral os escritores são suscetíveis a toda mudança em seus textos. Laura Devetach diz em sua Construção do caminho leitor: “Os vazios, os silêncios, os brancos, também são textos e portanto factíveis de serem lidos. É preciso ser capaz de ler o indeterminado.”

Ao poeta lhe importa muitíssimo os silêncios. Talvez quisera escutar as palavras como estavam na voz em que foram trazidas até ele. Mas ele lança essa obra e já é dos leitores. E toda leitura será outra. Contudo é bom lembrar que há algo, essa opacidade, isso que é difícil de dizer, que dá harmonia ao texto. O ponto lírico. Uma coisa muito frágil que pode se desmoronar com facilidade.

É um terreno em que o encontro pede delicadeza.

Nós escritores criamos com imagens e os ilustradores com palavras. Quando eu escrevo tenho uma imagem da cena que estou contando. Quando um ilustrador ilustra pendem palavras dos universos que traça. Por isso hoje, mais que observar o mapa para dividir territórios, me interessa a fronteira, a convergência, pensar o que une dois artistas; o tempo silencioso das coincidências. E me atrevo a dizer que se há pressa, imposições estéticas, intromissões pouco delicadas na sensibilidade do outro (marketing) perdemos todos os que buscamos uma experiência com a arte. E me atrevo a recordar que os escritores e os ilustradores estamos parados na mesma fronteira: nem de um lado, nem do outro. Ainda que a muitos lhes convenha sugerir o contrário.

Essa zona compartilhada pode ter um nome. Encontrei-o por acaso, lendo. Pascal Quignard toma de Albicius, um temido orador romano do alvorecer do império, a ideia de A quinta estação.

Diz ele, é “algo que não pertence à ordem do tempo embora a cada ano regresse como o outono ou o inverno, como a primavera e como o verão. Algo com seus frutos e sua luz. É uma pré-estação que percorre furtivamente toda a vida, que assedia as estações do calendário, visitando apenas as atividades do dia, muitas vezes os sentimentos, sempre a noite através dos sonhos”.

A quinta estação permanece escondida dentro do corpo desde o princípio até o fim. É nosso pequeno monstro, que assalta voluptuoso em forma de “guloseimas, canções infantis, travessuras, sexos, brincadeiras, porcarias mais ou menos aparentes, palavrões ou palavras inesperadas”.

Há por acaso algo mais próximo da arte e da infância?

Não me refiro ao lugar comum que se refere àquele menino que todos temos porque como disse Ema Wolf alguma vez, ideia essa monstruosa. Refiro-me justamente ao monstruoso que todos trazemos dentro de nós.

À sordidez e ao resplendor. À febre. A esse tempo anterior à linguagem que deixa uma marca no corpo que mais tarde se fará traço, e com sorte, voltará a seu destino de marca.

Quignard, em seu livro Pequenos tratados, diz:

“O céu, o rio, o Oceano, os astros e a Terra são de uma beleza majestosa e não falam. As quatro estações e seu cortejo de plantas, de luz, de neve, de feras e vestes se sucedem e não falam. Os membros, os ladrilhos, os excrementos, os dentes, a primeira infância e a extrema velhice, as pétalas, os cascalhos, os olhos e os sexos participam desta beleza e não falam. Os homens discutem entre si, se dirigem aos deuses e dão opiniões porque temem à beleza atroz.”

Há algo anterior a este estado de entorpecimento, de língua que de tanto falar diz sem nenhuma eficácia, muito blá blá blá, de renúncia a essa beleza que é o rumor do que não se fala.

E há “a língua posta em silêncio” isto é: os livros. Essa forma de língua muda sobre a que se pode voltar para limpar, polir, fragmentar, buscar o esplendor perdido.

Não estamos muito próximos aqui os escritores dos ilustradores?

Esse, me atrevo a dizer, é o lugar em que nos encontramos: a quinta estação, esquiva a toda forma de domesticação e ao mesmo tempo dócil ao corpo que a aloja.

Esse lugar sem dono, sem subordinação. Esse lugar no qual ninguém tem a última palavra porque a verdade é um silêncio: a evidência do objeto e seu resplendor. Um livro que deixa sem respiração.

E é difícil descobrir se as palavras ou as imagens.

A beleza é atroz.

 


TRADUÇÃO SANDRA MEDRANO / IMAGEM MARIANA ZANETTI