Os leitores do jornal New York Herald descobriram, na manhã do dia 15 de outubro de 1905, a primeira tira desenhada das aventuras de um jovem herói, Nemo, que inauguraria o hábito singular de tornar sua cama o ponto de partida e de chegada (ou queda!) dos mais extraordinários sonhos representados em quadrinhos.

Essa figuração dos sonhos ultrapassa as mais modernas e mais inventivas concepções gráficas contemporâneas, nada da realidade do garoto será mostrada para além do fechado enquadramento de seu quarto.

Os quartos de crianças são uma invenção relativamente recente, que data do século passado.1 Neles, é dado lugar à autonomia e à independência da criança ao mesmo tempo em que ela se mantém afastada do restante da família, particularmente da mãe. Local de relativa solidão, ou seja, tédio, a partir de agora o quarto vai se configurar como gerador de criações imaginárias. Pequeno mundo da criança2 o quarto sintetiza seu universo e, entre austeridade e abundância, clausura e evasão, torna-se, aos poucos, local essencial da literatura para jovens no século XX.

O esquema narrativo da primeira tira de Little Nemo in Slumberland [Pequeno Nemo na Terra do Sono], que se repetirá nas posteriores de Winsor McCay, torna-se arquétipo da série. Ao longo de diversas referências inspiradas em memoráveis antecessores, o livro se impõe como um dos arquétipos fundamentais da literatura para jovens do século XX.

Nemo quadrinhos
                            Windsor McCay, Little Nemo in Slumberland, The New York Herald, 1906-1907.

Em 1970, In the night kitchen [De noite na cozinha], de Maurice Sendak, constitui-se em uma vibrante homenagem e, ao mesmo tempo, inaugura um novo suporte – o livro ilustrado.3 O jovem Mickey, aborrecido pelos ruídos noturnos vindos do quarto de seus pais, faz um mergulho lácteo ao limbo da criação a fim de descobrir – e então se apropriar – dos frágeis fios de sua individualidade. Se as referências não ficam de fora (a cama do Mickey é a mesma que a de Nemo), Sendak opta por transpor com maestria o universo de McCay. A paginação espetacular do desenhista deixa transbordar com extraordinário talento um engenhoso sistema de quadros sequenciais que expressa um ritmo de lentidão e permite tornar o espetáculo uma progressiva metamorfose.

Cuisine Sendak

Cuisine Sendak
Maurice Sendak, In the night kitchen, © L’école des loisirs, 1972.

É, no entanto, em Onde vivem os monstros que Maurice Sendak oferece a mais interessante e a mais significativa variação ao modelo oferecido por Winsor McCay, recolocando em questão o princípio narrativo do sonho. De fato, Max, que também está em seu quarto, perto de sua cama, não se deita nela. A partir daí a viagem imaginária de Max ao país dos Maximonstros não é a representação de um sonho, mas a encenação figurada de sua imaginação.

Onde vivem os monstros
Maurice Sendak, Onde vivem os monstros, © L’école de loisirs, 1973 (© Delpire éditeurs, 1967); publicado no Brasil pela Cosac Naify (2010).

Qual a diferença? O sonho é, por essência, incontrolável. O trabalho desperto do imaginário é voluntário e, aqui, singularmente motivado pela raiva e pela cólera. A encenação do sonho tem algo de decepcionante na medida em que opera sem vínculo com o real, ela é interrompida; acabado o sonho, o retorno à realidade é que deve ser enfrentado, sem verdadeira transformação. Enquanto que aqui, seguramente, graças ao controle da bela escapada e de seu evidente vínculo com o real, quer se trate das relações com a esfera familiar ou do ambiente direto da infância, a viagem transformou a realidade, ela decididamente provocou seu desejo.

Passa-se, assim, da encenação da arte do criador à da força da infância. Esse gesto de Sendak é certamente um dos mais importantes para a literatura juvenil e talvez para crianças em geral.

Cinco anos mais tarde, com o livro ilustrado There’s a nightmare in my closet [Tem um pesadelo no meu armário] que irá tornar-se também um clássico, Mercer Meyer retorna a esse esquema dando-lhe um novo modelo que será depois retomado e desenvolvido pelo próprio autor.4 Desenvolvendo-se praticamente em plano fixo, este livro ilustrado mostra a autêntica batalha que opõe o herói ao seu medo: o monstro do armário. Os esquemas de Little Nemo e de Onde vivem os monstros parecem aqui fundidos em um só e não faltam referências de um e do outro; da imutável cama de madeira à janela aberta ao ciclo da lua, passando pelo monstro aprisionado.

Aqui, o modelo narrativo oferece uma dinâmica inversão do terror inicial ao humor, o que afere sucesso ao livro. Mas é seguramente na hábil cenografia de detalhes significativos que está seu interesse crítico primeiro. Uma infinidade de objetos discretamente espalhados pelo chão constitui uma rede de significados. Brinquedos típicos de garotos dos anos 60 não deixam de focar, por sua natureza unifuncional, o estado de espírito em questão. Pequenos soldados armados com baionetas, uma miniatura de canhão, um capacete de metal galvanizado, uma espingarda de pressão: o herói afronta seu pesadelo concomitante à escolha da ofensiva e com o tom dos seus objetos transicionais. A corneta, apesar de soar o alarme, permanecerá inutilizada já que, desconfia-se, caberá ao herói encontrar em si próprio os recursos para o combate.

O livro ilustrado aberto na quinta página dupla: “Certa noite eu decidi me livrar de uma vez por todas de meu pesadelo.” Um mesmo conjunto de indícios nos informa sobre o que aparece como elipse. O desenvolvimento da criança será atestado pela passagem do cavalo de balanço ao triciclo. Ainda assim, as preocupações belicosas estão mais que vívidas, com os soldados a partir de agora bem posicionados na mesa de cabeceira e um bombardeiro em miniatura reforçando a frota. Outros brinquedos, como um caminhão de obras e bolas de gude, vêm por sua vez confirmar a permanência do modelo ditado pela educação do herói.

Cauchemar

Cauchemar
© Mercer Meyer, Il y a un cauchemar dan mon placard, © Gallimard, 1978 (edição original, 1968).

Lá fora, a lua agora está cheia. Símbolo de magia e encantamento, bem como alusão à Sendak, ela ainda pode ser “lida” com prosaísmo, já que a luz da casa do vizinho se encontra acesa: impossível dormir em noite de lua cheia! Dois detalhes ainda chamam particularmente a atenção: um cesto de lixo cheio de lenços de papel, inclusive a própria caixa, e um livro de figuras ao pé da cama.

Esses pequenos detalhes nos indicam que, no primeiro caso, o medo provocou crises de choro e, no segundo, certamente o mais importante, o herói apela agora para a leitura (ilustrada, como indicam as imagens da dupla aberta). Esses dois elementos nos dão os meios para contrariar as evidências. Não é a segurança da virilidade latente nem o reforço dos guerreiros coadjuvantes que darão ao herói força para o combate e à vitória: é a experiência e a literatura! Quase trinta anos mais tarde, Philippe Corentin adota o mesmo fio narrativo com um livro ilustrado originalmente intitulado Papai! (CosacNaify, 2008). É inegável que até então eram as relações filho-mãe as apontadas nos livros ilustrados citados anteriormente, seguidas das intangíveis descobertas freudianas. Esse livro ilustrado de 1995 parece cimentar o de Meyer, ativando a representação de um personagem infantil em plena leitura… “Na cama, a gente lê” – como se se reencontrasse o herói de Mercer Meyer transformado em leitor formado e assíduo. E os monstros foram domesticados a ponto de se instalarem ao lado de nosso herói, em sua cama de dois lugares (de Max?).

Papai

Papai
Philippe Corentin, Papai!, Cosac Naify, 2008.

Os pais, dessa vez, são convocados pessoalmente e não mais em off. No entanto, a inação de suas ações estereotipadas lhes outorga um tratamento bem medíocre, a despeito do título do álbum que insinua a figura salvadora de um pai. Ao monólogo imbecilizante dos pais, a criança responde pela autonomia e pela segurança: “Bom! Chega! Já é noite e à noite a gente dorme! Pronto! Isso é tudo… acabou!”

Aqui, Corentin valoriza, assim como em todos os seus livros ilustrados, o poder do imaginário infantil, enganando até o fim o leitor com esse discurso equivocado. Sonho, devaneio ou elaboração do imaginário infantil, ele mantém, isto é, acolhe a ambiguidade do discurso apostando na inteligência do jovem leitor.

É a partir da obra de outro mestre, Uri Shulevitz, que dedica seu primeiro livro a uma narrativa altamente sensível e poética exclusivamente centrada em um quarto de criança,5 que se consumará essa pequena história subjetiva da representação do imaginário infantil.

Lundi matin [Segunda-feira de manhã], publicado em 1967, cuja abertura e final apresentam a criança no seu quarto, tem como particularidade o foco sobre uma janela aberta para o exterior. Não é mais o habitual ir e vir entre o interior de um quarto e a evasão fantasmática a ser colocada em cena, mas uma sutil montagem que alterna o imaginário da criança com as rotinas do seu cotidiano em seu bairro (Brooklin?) nos anos 1960.

Lundi matin
                                                Uri Shulevitz, Lundi matin, © Autrement, 2007.

Absolutamente fora do comum por sua construção espaço-temporal que repousa sobre uma hábil combinação de narrativa textual e de paginação, Lundi matin também toma partido do imaginário infantil em plena vitalidade. Deixando discretamente para as últimas páginas as chaves do que pode ser considerado como uma elaboração mental lúdica, o livro convida a uma releitura que reúne e organiza o significado.

Se o sucesso do esquema narrativo de Little Nemo não se reduz apenas a esses autores, as suas obras moldaram um retrato da infância cujo poder imaginativo e força lúdica, celebrados e progressivamente tornados mais complexos, se afirmam de maneira a criar obras fundadoras para jovens leitores. Elas no mínimo abriram as portas aos futuros criadores que saberão seguir as obras, como Michel Galvin, Olivier Douzou, Anaïs Vaugelade e tantos outros que de repente percebemos ter em comum o imenso reconhecimento da capacidade criativa das crianças.

 


* Texto originalmente publicado na revista Hors Cadre[s] – Observatoire de l’album et des littératures graphiques, nº 6, 2010, com o título “Rêver est-il jouer? De la chambre àl’imaginaire, aller et retour”.


Referências bibliográficas e notas

1. O álbum de Margaret Wise Brown e Clement Hurd, My world (Harper & Brothers, 1949), inaugura a exploração do mundo em um quarto de criança, enquanto que em Goodnight moon a lua é o único elemento da cenografia.

2. Sobre os quartos de criança, ver os trabalhos de Annie Renonciat, em especial Du livre à la chambre d’enfant: naissance d’un espace artistique (1880-1914), atas do colóquio “L’Édition pour la jeunesse: entre héritage et culture de masse”, 25-27 de novembro, 2004, organizado por GREC (Paris-XIII), CEEI (Paris-VII), Instituto Internacional Charles Perrault (CD-Rom, 2005).

3. Vale destacar que Anaïs Vaugelade, especialista em homenagear os mestres dos livros ilustrados, se baseia em In the night kitchen para montar parte desse esquema. Ao mesmo tempo em que faz notáveis inovações de paginação, por intermédio da mesma narrativa ela mostra uma esfera familiar acolhedora que envolve o herói. A queda (!) remete a Winsor-McCay quando faz chegar a voz da mãe em off, chamando seu filho para acordá-lo. Porém, com um século de intervalo, o livro ilustrado se encerra em pleno retorno à realidade, sem caminho de volta: “Daqui a cinco minutos!” É que sua majestade a criança (o rei leão) ganhou seu rumo!

4. Em especial, There’s an alligator under my bed (Tem um jacaré debaixo da minha cama) de 1987.

5. Sobre isso, vale mencionar as obras de Claude Ponti, cujas tiras representando quartos de criança mereceriam por si só uma exposição. Atribuindo cada vez um elogio a esse espaço como grande gerador do imaginário (ver em especial Le chien invisible [O cão invisível]), ele lançou, com L’Écoute-aux-portes [O escuta-atrás-da-porta] uma interessante variação da viagem ao imaginário da criança a partir do quarto, com o pretexto do trabalhoso-vestir-o-pijama-que-não-passa-pela-cabeça como impulsionador dessa viagem, o que se revela indubitável inventividade. Dois álbuns publicados em 1995 pela editora L’école des loisirs.


TRADUÇÃO: MARINA KAHN / IMAGEM MAURICE SENDAK