Durante quinze anos trabalhei em Fundalectura na Colômbia. Conheci a literatura infantil e juvenil de perto. Fui testemunha do início da edição contemporânea deste gênero na Colômbia, assisti ao nascimento das primeiras editoras e dos primeiros autores e personagens: do Chigüiro, de Ivar da Coll e das bruxas de Olga Cuéllar; das primeiras histórias da escola de Yolanda Reyes, das primeiras irreverências de Triunfo Arciniegas e do amor aos animais de Celso Román; dos primeiros traços de Alekos e da varinha mágica de Irene Vasco; e de Espantapájaros, a primeira revista literária para crianças e sua maravilhosa livraria.

E com este conhecimento acumulado, faz quinze anos, fundei a editora Babel, com a intenção de me dedicar à edição de livros para crianças, com a ideia de dar novos ares a esse movimento que se iniciara tão pouco tempo antes. Mas, ao colocar os pés fora do protegido e cômodo lugar da promoção da leitura, me encontrei com o monstro que me levaria a refletir e a repensar meus projetos dali em diante: o mercado.

Foi incrível constatar – rapidamente – o pouco interesse que este assunto ocupa na cadeia do livro. Uma cadeia que não confia em si mesma, que não começa no autor e termina no leitor; um círculo que se fecha e que se isola cada vez mais, e cujo principal objetivo não é inserir-se no mercado nem fazer parte dele, nem obter ou outorgar algum benefício. Dedica-se a uma única coisa: comprar e vender, em busca de um único benefício: econômico.

E esse mercado – que é um tema amplo, de oportunidade, de divulgação e acesso, que não se limita à produção, à transação e ao consumo, e do qual todos os interessados em livro e leitura deveriam fazer parte – é o que motiva estas palavras. O objetivo delas é despertar o interesse de todos os envolvidos, mesmo que o tema esvazie auditórios; é convencer, ou ao menos deixar a dúvida de que é importante, muito mais do que parece.

Esta análise está baseada na prática diária das atividades de que se ocupa Babel, espaço em que produzimos o conjunto da cadeia, na medida em que nossos interesses e necessidades variaram e cresceram; no estudo das leis do livro na América Latina; na observação da maneira como circula e se comercializa o livro para crianças em nossa região, e no estudo da teoria e das reflexões que algumas pessoas fizeram sobre o tema: pesquisadores, editores e livreiros, estes últimos, sobretudo independentes, ao redor do mundo e na região. Esta não é uma visão pessoal – a maior parte da observação é local, colombiana – mas faz parte de uma reflexão mais ampla promovida por um grupo de editoras em encontros casuais, em feiras e congressos, em qualquer lugar do mundo em que nos encontremos e que nos acolha.

Para começar, insistirei em uma característica que reitero em diferentes espaços quando falo sobre literatura infantil e juvenil na América Latina: a “clandestinidade”. É claro que esta condição não é inerente à literatura para crianças e jovens, mas, sem dúvida, essa é sua condição atual e todos atuamos de alguma forma para chegar a isto: os editores produzindo mais do é possível ler, produzindo livros descartáveis ou no mínimo com data de vencimento; abandonando a responsabilidade aos professores e à escola, uma vez que estes intervieram na produção editorial reclamando aos editores que fizessem livros baseados em temas necessários para seu trabalho em sala de aula; e apoiados também, nas listas de recomendação dos promotores de leitura, que depois de uma análise superficial dos títulos em circulação, publicados no país ou nos de língua espanhola, selecionam anualmente uma quantidade mínima de títulos que se tornam referência e camisa de força para as compras públicas; compras estas, por sua vez, que, baixo a premissa da inclusão, recorrem à adoção massiva e, com a ideia de baratear custos, leva coleções iguais a populações diferentes, limitando seu acesso real à diversidade e à riqueza da cultura escrita. Dessa maneira, a sociedade deixou nas mãos da escola a responsabilidade pela leitura e nas mãos do Estado e das entidades especializadas, a seleção das leituras de seus filhos; livros ausentes das livrarias, espaços em que se confundem os produtos comerciais em formato de livro com os livros infantis; espaços cada vez mais ausentes do imaginário das pessoas e sem nenhuma perspectiva futura que não seja desaparecer.

Agora, passarei a explicar esse desastre, pois apesar de não se ver grandes perspectivas, não é uma situação irreversível, e não seria difícil redirecionar e discutir os padrões de toda aa cadeia e chegar a acordos, mas, nesta economia de mercado atual, existe alguém interessado?

 

A produção

Para que queremos um mercado cheio de livros se não vamos lhes dar a possibilidade de que alguém os leia? De quem é a responsabilidade pela leitura do que se produz: do editor, do livreiro, do bibliotecário, do professor, dos pais, dos leitores, do Estado? Ou seria uma tarefa de todos? Apesar de ser uma tarefa de todos, é muito provável que estejamos delegando sempre uns aos outros esta responsabilidade; tranquilizando nossa consciência pensando que alguém está fazendo algo.

Uma das maiores dificuldades dos livros é a circulação. Os livros para crianças estão, nesse sentido, no pior dos mundos. Poucos livreiros e livrarias especializadas, zero crítica, zero imprensa, pouco espaço nas livrarias de maneira geral. Ao mesmo tempo, temos o melhor dos mundos: todo o interesse do Estado. Isto é, os livros para crianças tem pouca repercussão na vida pública, mas todo prestígio nas compras públicas, sobretudo na América Latina. Todos os editores, inclusive os de adultos, e os independentes, com um completo e importante catálogo – todos – querem fazer livros para crianças. Há, repentinamente, um interesse diferente em relação ao negócio dos livros para crianças? Isso despertou, inclusive, o interesse de editoras superespecializadas, dedicadas aos livros técnicos e de arquitetura, que criaram um fundo especial de livros infantis, não necessariamente sobre esses temas, o que seria muito interessante. Que editor pode ser insensível ante a possibilidade de vender um milhão de exemplares ao Banco Itaú? De ser premiado (como na loteria) e ter dois ou três títulos nas compras da SEP [Secretaria de Educação Pública] do México, ou do governo da cidade de Buenos Aires (ainda que os dividendos sejam difíceis de recuperar)? Ou quem não quer vender pouco, mas constantemente, na Colômbia ou no Chile?

Estas compras governamentais na América Latina influenciaram o mercado em dois aspectos: por um lado, em alguns países, a produção local cresceu, mas de uma maneira artificial e frágil; na maioria das vezes, sustentada exclusivamente por essas compras, surgem pequenos projetos editoriais e desaparecem no mesmo ritmo desse mercado artificial. Em outros países, se despreza a produção local e floresce a distribuição, como flor de um dia: acabou a compra, os livros somem do mercado. Por outro lado, conseguiram deformar o mercado, criar a ideia de que há muitos livros disponíveis, criar a ilusão aos editores de que seus livros estão em toda parte, quando estão, somente, nas mesas dos avaliadores além de alguns poucos em livrarias especializadas, que são poucas nas regiões. A maior parte da quantidade enorme dos livros colocados nas mesas dos avaliadores desaparece rapidamente do mercado. E a maior diversidade dos livros disponíveis para compor as bibliotecas para a maior parte da população, se transformam em bibliotecas mínimas, com mínima quantidade de livros, todas iguais.

E estes livros – digamos – que “sobram” vão, finalmente, parar nas livrarias. E a que preço… quando não há possibilidade de que compradores diferentes dos institucionais tenham interesse nos livros, quando os espaços dedicados aos livros para crianças não são suficientes para abrigar toda essa diversidade que se colocou no mercado, as quantidades que se importam por títulos são mínimas e são trazidas a preços altíssimos, que devem ser assumidos pelos poucos cidadãos que ainda visitam as livrarias; um custo muito diferente daquele obtido pelo Estado em suas compras massivas e que fazem pensar que são os livreiros os que lucram nesse mísero mercado.

Nós, editores, fazemos livros pensando que são indispensáveis, que esse livro que estamos preparando vai encontrar um leitor – ao menos um – que se interesse e que o recomende a outro leitor e esse a outro e assim por diante. Mas, que oportunidades têm, nas livrarias, os nossos livros que precisam de mais tempo para ingressar no sistema e serem devolvidos aos distribuidores, para recomendar e dar possibilidade a cada um deles? O trabalho do livreiro é incomensurável, difícil, quase impossível. Tem que se inventar diariamente, tem que desconstruir sua livraria a cada dia, destacar, do tsunami impossível de livros, um, com qualquer desculpa, para lhe dar uma oportunidade… ou que livreiro está seguro de que um leitor vai lhe perguntar sobre um livro que ele tem há meses ou anos, na terceira estante, na última prateleira à direita, de pé, entre outros milhões? Além disso, em um momento da comercialização e das librarias em que o baixo consumo de livros implica abandonar-se às leis de mercado, deixar a responsabilidade de sua sobrevivência aos best sellers, aos livros que alcançaram um pouco de mídia, aos outros produtos que não são livros… e recorrem aos cafés, somente para pagar as contas e seguir adiante.

Coloquemos, agora, o dedo na ferida das editoras. Como se pode notar – ou talvez não – não quis discriminar muito entre as editoras multinacionais e as independentes, porque me parece que a irresponsabilidade, na hora de publicar, é de todos. Se fazem livros “porque sim”, porque é possível, porque talvez alguém decida colocá-los em uma lista…ou porque não importa se estão ou não na lista, talvez sejamos capazes de convencer a um professor ou a um bibliotecário, ou talvez a presença viva de um autor garanta (o que acontece). Levamos um autor a uma escola e vendemos muito. E nos dedicamos a publicar livros que talvez não. Livros que não se confrontam com outros, nem no país nem na região, livros medíocres, de autores vivos e dispostos a viajar de escola em escola. Livros que se comprometem somente com suas próprias vendas, vendas essas mediadas e conduzidas por professores e editores, que não só compram e vendem, como recebem todas as categorias de prêmios e honrarias por ter publicado.

E como se isto fosse pouco, acrescentamos a autoedição. O editor está tão ausente que ninguém sabe muito bem para que ele serve. Pode-se prescindir dele. O editor se vê como aquele que publica, alguém que além de tudo não quer publicar tudo o que todo mundo já escreveu, de maneira que a única saída é publicar-se a si mesmo.

 

A transação

Vou começar com um tema que não é muito popular: como os professores e os bibliotecários compram e selecionam livros? Eles possuem alguma possibilidade real de compra e de seleção? Quando a produção editorial era incipiente na América Latina, os editores descobriram a escola, e, com ela, o potencial de venda de livros, um livro: 30 ou 40 exemplares. Mas, quem, qual professor tinha condição de ler a produção editorial completa? Nenhum. Assim, pediram ajuda às editoras: fazer listas temáticas, classificar por idade, construir tabelas de valores e, finalmente – e por que não? – também pedir um pouco, exigir a inclusão dos supostos problemas dos jovens: sexo, drogas, “cultura adolescente”. Muito rapidamente, a literatura infantil se produziu na medida das necessidades da escola, o tema se tornou o mais importante; e, para quando essas crianças crescessem, criaram-se as coleções libertárias: Ala Delta, Gran Angular, Zona Libre, Espacio Abierto… todas elas, sem exceção, relegando a literatura aos supostos interesses dos leitores.

Os bibliotecários, ao menos no meu país, tem cada vez menos possibilidade de escolher os livros para seus leitores. Já existem vários grupos de especialistas que destacam entre os livros em circulação os que “devem” ser lidos por crianças e jovens. Crianças e jovens genéricos. O bibliotecário tem poucas possibilidades – para não dizer nenhuma – de ir a uma livraria, percorrer suas estantes e descobrir aquele livro que faz falta para esse leitor especial que existe em sua biblioteca. Ou procurar livros de um tema específico que represente os interesses de sua comunidade. Há um ano, visitei a biblioteca do município de Santa Helena, perto de Medellín; o município de onde descem os famosos carregadores de flores –hoje transformados em espetáculo – e em suas épocas boas foram os provedores das flores da cidade. Nesta pequena biblioteca, pequena, mas com grande quantidade e diversidade de títulos, a bibliotecária nos mostrava encantada uma pequena estante.  Aqui, dizia, estou montando a coleção de livros que interessam à comunidade, livros sobre flores, sobre o cultivo delas, sobre arranjos florais…e na estante, até o momento, havia somente três livros, os três produzidos por instituições. Ela só pode aspirar a que os livros cheguem em alguma das caixas de alguma doação, enviadas por algum ministério e que apareça um livro que possa fazer parte dessa estante e que ajude a colaborar com esse sonho genuíno.

Essa maneira de realizar as transações conduziu a um mercado desordenado e fragmentado. Distribuidores – à caça de compradores institucionais – vendem diretamente, na maioria das vezes com descontos que superam os oferecidos às livrarias. Instituições de todo tipo, desde as organizações familiares até os departamentos de responsabilidade social dos bancos, compram dos distribuidores com descontos altíssimos, para vender às crianças sem o desconto, para que essa “responsabilidade social” saia mais barata. A ideia de que os livros para crianças e jovens devem ser mediados, selecionados, levou à proliferação de mediadores, pessoas das quais se espera que colaborassem com a difusão das ideias e da leitura, mas ainda que involuntariamente, se transformaram em censores do mercado. As bibliotecas públicas e escolares devem esperar que alguém diga que um livro é melhor que outro para comprá-lo, inclusive para lê-lo.

  

O consumismo

O problema do consumo é que se fazem produtos para ele. A literatura para a escola, enfim perecível, se produz para seu uso e consumo. Editam-se conteúdos, em formato de livro, para o consumo “por impulso”, em supermercados. Procuram-se, desesperadamente, livros que produzam um efeito de consumo, como fez Harry Potter, e livros que se esperam que entrem bem nas livrarias. E nas livrarias se vendem café, serviço de internet, jogos e bonecos. Ou seja, para além dos livros que são feitos, há livros que são feitos para vender, e, como livros não são vendidos, comercializam outras coisas… dá para entender?

Não sei se é falta de fé ou de critério, mas enquanto a própria cadeia produtiva do livro não confiar no que faz, que esperança poderemos ter? Definitivamente não se acredita que a leitura seja – realmente – algo que a sociedade necessita.

  

Finalmente

Nem tudo o que acontece neste planeta dos livros, porém, é negativo. Há exemplos que vale a pena resgatar e falar deles, e sobre os quais está construída a proposta final deste longo texto, que vai em busca de saídas. Projetos que procuram formar comunidades de leitores e que oferecem acesso aos livros de diversas e criativas maneiras. Espaços de leitura e reflexão que deveriam ser imitados, que como exemplo deveriam dar lugar a novas propostas. Em cada um dos países da região há propostas como estas. Para não cair em omissões, vou me limitar aos livros da Colômbia, meu país.

Em primeiro lugar, os Clubes de leitores de Asolectura. Este projeto consistia em grupos de jovens de diferentes profissões, que durante uma década se dedicaram a ler em conjunto; liam basicamente literatura, conversavam sobre o que liam, e refletiam sobre o tema, complementando com ensaios sobre leitura e literatura. Liam-se os livros disponíveis nas bibliotecas públicas, às vezes compravam uns livros, de maneira que, em espaços não convencionais, os jovens podiam oferecer alguns livros para a leitura. Liam-se poucos livros, mas liam de verdade, discutiam e conversavam sobre o que se tinha lido. No entanto, essa ação não colaborou para aumentar os “índices de leitura”, que os governos amam medir. Por outro lado, semearam interesse pelos livros e, seguramente, muitas dessas pessoas ainda são usuárias fieis das bibliotecas e, a maioria dos jovens que participaram como acompanhantes, continuam, hoje, de alguma maneira, no mundo do livro. Isto é, estes grupos compartilharam seus livros e permitiram que se conhecesse uma oferta mais ampla e possível de boas leituras, ao contrário do que acontece com as listas, limitadas e não justificadas apenas  pela autoridade de sua procedência. As leituras compartilhadas expõem e confrontam, e os leitores encontram leituras em comum, e, o mais importante: criam espaços de dissidência.

Outro projeto é o da Acli (Associação Colombiana de Livreiros Independentes), um grupo de 25 livreiros colombianos que trabalha há sete anos para encontrar meios de sobreviver. Nesse tempo, não sé foi o coletivo que mais desenvolveu projetos, mas talvez o único que, em Colômbia, refletiu em conjunto sobre a problemática do livro no país. Gostaria de destacar que a Acli promoveu Feiras itinerantes, que percorrem o país levando livrarias à cidades onde – se existe alguma livraria – sua presença é marginal. O que as diferencia de uma feira comum é a curadoria que se faz da mostra, a atividade cultural que a acompanha, e a atenção especializada que oferecem os livreiros. É que a possibilidade de acesso aos livros é uma condição intimamente ligada às possibilidades da leitura. A Acli considera que, para que isto aconteça, não só devemos ter algumas poucas livrarias de sucesso, como deveria existir uma comunidade livreira forte e comprometida com os livros e sua divulgação, não só com as vendas, que dessa maneira, pensamos, seriam uma consequência. Faz pouco tempo, criamos com a secretaria de Cultura de Medellín, pela primeira vez nessa cidade, uma livraria especializada em livros para crianças e jovens de mais de 200 metros quadrados, com mais de 6 mil títulos disponíveis, que funcionou, exclusivamente, durante os 9 dias da Festa do livro da cidade. A proposta não só teve muito sucesso comercialmente como colocou em evidência a necessidade de espaços como este, e que uma mostra com curadoria e inclusiva, além de respeitosa com o público, será sempre um sucesso.

 

* * *

 

Tenho um sonho… uma visão positiva do futuro do livro infantil na América Latina

 

Para dar uma visão positiva do nosso futuro, para imaginá-lo de maneira diferente da situação atual, não vejo outra alternativa que recorrer aos sonhos, um sonho, porque, como diz Clarice Lispector: “Sonhar desperta para a realidade”.

Vou imaginar esse futuro, imaginando a transformação de três aspectos fundamentais: a edição, a circulação do livro na região e a construção de alianças.

  

Sobre a edição

No futuro

As editoras produzirão livros para crianças por pressão de um público exigente que pedirá qualidade, e não atenderão às pressões do mercado.

Os catálogos vão “encolher”, como gosta de dizer a área comercial, graças à edição exclusiva de livros fortes que valerá a pena manter por gerações, de tal maneira que o investimento que se fará em sua promoção na criação de leitores permaneça e se transmita de pais para filhos.

As coleções obedecerão a critérios de qualidade, em detrimento de exigências externas e artificiais. As cores serão uma seleção dos ilustradores e obedecerão a critérios estéticos e não conterão mensagens subliminares sobre idade, sexo ou conteúdos da moda. Não excluiremos os adultos da apreciação dos livros ilustrados. Não produziremos livros que possam ser descartados depois de seu “uso” na escola.

A crítica – porque haverá crítica – será profissional, e primará pela construção de um corpo literário sólido. O crítico escolherá livremente o que ler, pois haverá canais de informação sobre os livros que circulam em cada país, de maneira independente, inclusiva e suficiente.

 

Sobre a circulação

No futuro

Os livros para crianças não dependerão do circuito escolar para sobreviver, estarão disponíveis e serão acessíveis nos espaços comerciais dos livros: as livrarias.

Os pais de família comprarão os livros de seus filhos – com seus filhos – nas livrarias.

As livrarias não só terão espaços dedicados aos livros para crianças, mas estes espaços terão atendimento – como o resto da livraria – dos livreiros, pessoas que conhecem os livros, que os indicam, que ajudam o público a encontrar os livros adequados a seus gostos.

Encontraremos, ainda, diversos livros, escritos em línguas de diferentes países, livros que não nos parecerão estranhos porque aprenderemos a enriquecer nossa linguagem com as particularidades de nossos vizinhos.

Os professores, reunidos em grupos de leitura, selecionarão livre e adequadamente os livros para suas aulas, com um panorama amplo, posto à nossa disposição em livrarias e bibliotecas. Apostarão também em livros desafiadores, nos livros que não menosprezam a inteligência do leitor.

Os livros para crianças estarão nos mesmos circuitos da imprensa que os livros para adultos, porque o abismo que os separam não será tão visível, tão permanente.

Nossos autores transcenderão as fronteiras, sobretudo aqueles que têm a sorte de serem publicados por empresas multinacionais.

Haverá livros para crianças nas vitrines e nas mesas das novidades das livrarias.

Haverá livros latino americanos nas livrarias e bibliotecas espanholas.

 

Sobre as alianças

No futuro:

Os editores de livros para crianças aprenderão que o inimigo não é a concorrência, mas a desconfiança no livro como meio e nas crianças como leitores.

Os distribuidores e os livreiros trabalharam em equipe, para que a oferta que circule em cada país seja mais diversa. Serão aliados naturais dos editores e intermediários qualificados do mercado.

Haverá em toda região leis para os livros que favoreçam a todos os que compõem a cadeia, começando pelo autor e ilustrador, sem esquecer, claro, do leitor.

Finalmente, todas essas alianças criarão um grande tecido e abrirão novas oportunidades ao livro para crianças, e para que isso aconteça somente bastaria que os editores deixassem de produzir livros: para que sejam incluídos nos planos de governo para a leitura; para que sejam adotados por professores nas escolas; para que apareçam nas listas de recomendados. Que se produzam livros de boa qualidade para crianças e jovens, poucos, mas suficientes, para que os promotores já não se dediquem à produção indiscriminada de listas, mas que concentrem seus esforços em promover o encontro entre os livros e as crianças; para que os bibliotecários deixem de ler resenhas e se dediquem a ler os livros que recomendarão a seus usuários; para que os professores deixem de ler guias de leitura e se dediquem a ler os livros que lerão com seus alunos. Livros que os livreiros não se neguem a receber em suas livrarias, livrarias essas que deveriam ajudar a todos: os professores, em vez de esperar a visita de alguns editores no conforto da escola; os bibliotecários, em vez de revisar catálogos físicos e online; os promotores de leitura, em vez de esperar as mostras, que tenham propostas para entregar aos editores; e os pais, com as crianças, em vez de chegar ao atendente para, exclusivamente, pedir o que está na lista do material escolar.

Para terminar, parecerá simplista o que vou afirmar, mas, como diria Paulo Freire, as grandes transformações são feitas de pequenos e inéditos possíveis – e de inédito, sabemos nós, os editores – assim me atrevo a dizer que este é um sonho realizável, que está ao nosso alcance e que, para atingi-lo, temos que começar por contar com a vontade dos envolvidos. Para esta construção, que não é mais que um presente desejado, estamos, ainda, a tempo e temos, ainda disponível, uma das mais sofisticadas tecnologias inventadas pela humanidade: o livro. E deveríamos aproveitá-lo agora que podemos, antes que chegue o futuro de verdade e nos agarre desprevenidos com jogos tecnológicos, mas sem conteúdos e sem leitores.

 


Texto escrito em outubro de 2014 e apresentado no Congresso de Bibliotecários no Chile.


TRADUÇÃO THAIS ALBIERI