la e aqui

Lá e Aqui
Autora:
 Carolina Moreyra
Ilustrador: Odilon Moraes
Editora: Pequena Zahar
Ano: 2015
Páginas: 56

 

 

O recém lançado Lá e Aqui, de Carolina Moreyra e Odilon Moraes, rapidamente chamou a atenção de críticos, jornalistas, professores, pais e mediadores de leitura em geral. Para além da indiscutível beleza do texto e das ilustrações e do impecável cuidado editorial, tem se falado, principalmente, sobre “o tema” do livro. Em várias entrevistas, o casal que o escreveu e ilustrou revelou a origem da ideia: um desentendimento entre eles os fez pensar como seria a vida dos filhos, caso se separassem. A separação dos pais tem sido a temática mais discutida, a partir da leitura do livro. A interpretação legítima indica, inclusive, uma lacuna editorial. Dentre os livros que tratam deste assunto, um dos que mais se destacou até hoje foi Dois de cada, de Babette Cole, publicado pela Ática e atualmente fora de catálogo – como boa parte dos ótimos livros infantis e juvenis que não resistem muito tempo a demanda desenfreada por novidade. Fora este, muitos dos demais títulos que abordam o assunto, o fazem, por vezes, de maneira excessivamente óbvia, beirando o estereótipo da autoajuda. Falta-lhes a leveza e o humor de Babette Cole e a delicadeza e a poesia de Lá e Aqui.

Como todo bom livro ilustrado, Lá e Aqui traz, no entanto, mais atributos do que a abordagem sensível de um assunto que, há muito tempo, faz parte da relação entre pais e filhos. Há, sobretudo, intencionalidade artística na concepção do livro, entendido como objeto cultural que privilegia a relação intrínseca entre texto, imagem e suporte. Segundo Margaret Meek, o livro ilustrado é “um objeto a ser contemplado, narrado, explicado pelo leitor”.1

É justamente o que se vê nesse caso. No texto, o tratamento poético se traduz em escrita enxuta, sem sobras, que remete o leitor ao essencial das emoções que os acontecimentos despertam. A narrativa em primeira pessoa, na voz de uma criança, cresce com a introdução gradual e acumulativa dos poucos elementos que compõem o tempo-espaço da história principal – a casa, a família, o jardim, os bichos e as plantas. Neste universo tão aparentemente conciso há espaço, ainda, para uma adjetivação que pontua cor, calmaria e fiel companheirismo – “árvore com passarinhos, um cachorro grandão e um pequenininho, muitas flores coloridas”.

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A linguagem condensada em uma ou duas linhas por página, como gotas em um vasto mar de imagens, revela escolhas semânticas oceânicas, sonoras: “sapos que levam os ensopados pés de papai para longe” / “peixes que vão morar nos olhos úmidos da mãe”. Não se menciona, literalmente, em momento algum do texto, as palavras dor, tristeza, angústia, despedida, medo. Elas habitam os vãos de uma sintaxe da perda que se explicita em sutileza. Nesta narrativa poética as pausas e os silêncios sussurram gritos no ouvido do leitor. A água – do lago, da chuva, dos olhos – afoga a casa. Mais do que submersão, há transbordamento.

A configuração externa que antes se mostrava integrada e solar, guardava, na verdade, o não-dito. E o que se verá daí em diante é pura vazão. Se até esse ponto do texto, a ilustração acompanhava a chegada, um a um, de novos elementos à narrativa – primeiro a imagem da casa na página, depois a casa e o menino, e assim por diante -, a partir do momento em que a casa se afoga, o fundo branco das páginas é inundado, aumentando a sensação de vazio que se instala, paradoxalmente, com o recurso do preenchimento. Propõe-se, antes de tudo, uma suspensão. O leitor que mira os olhos úmidos da mãe, agora habitado pelos peixes, dificilmente consegue virar a página repetindo automaticamente o movimento de antes.

 

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Em entrevista exclusiva à Revista Emília, Odilon conta que viu o livro a partir dessa imagem: “Quando eu li ‘os peixes foram morar nos olhos úmidos da mãe’ no texto da Carolina ainda escrito a mão, eu vi essa imagem dos peixes nos olhos como num aquário. Foi com essa imagem que eu comecei o livro. Não se consegue evitar essa imagem.”

De fato, a partir daí, é preciso reinventar não apenas a casa e seus habitantes, mas o próprio jeito de olhar o livro. O tradicional virar contínuo das páginas exige agora certa desautomatização do movimento. Não é possível seguir em moto-perpétuo, sem pausa. Isso se confirma com o par de páginas que contém uma única frase encerrada em dois pontos, abrindo para uma página em branco, completamente vazia.

Nós percebemos, olhando o boneco do livro, que nesse momento deveria haver uma pausa mais drástica”, conta Odilon. E folheando página a página, explica: “o livro começa com o clássico plano do livro ilustrado – imagens nas duas páginas abertas – que vão escurecendo com a inundação da casa, até o momento em que esse universo anterior é consumido e acaba.” Carolina complementa: “Quando acaba, primeiro vira nada – daí a página em branco – depois é que a casa, que virou duas, começa a ser habitada.

Esse aspecto, que não se define estritamente nem como forma, nem como conteúdo, mas como intersecção intencional dos dois, sem dúvida dá a um livro materialmente despretensioso, dimensões grandiosas. Se o tema “separação de pais” fosse, por si, o grande diferencial do livro, haveria certa descompensação na leitura, um sobrepeso de conteúdo nos ombros do leitor. E, diferente disso, o que se tem é liquidez. “A imagem tinha que ser a óleo”, argumenta Odilon.

No espaço-tempo da submersão e do transbordamento surgem não apenas um novo cenário, partido e redefinido, mas também, e sobretudo, o convite a uma nova forma de estar e de ver, consequentemente de sentir. Como tantas vezes acontece logo depois que se passa por uma situação muito difícil.

Reforçando visualmente a divisão que se anuncia no texto – do lado de (esquerdo da página) a casa do pai e aqui, (lado direito da página), a casa da mãe – apresenta-se uma nova forma de integração, diferente da que se tinha no início da história: não mais a fusão de duas metades, mas o convívio com dois inteiros, em suas peculiaridades e nuances. Como define Odilon, “depois que a casa vira duas e as ilustrações são divididas nas páginas, esse novo universo começa a se expandir novamente, habitado, até virar mais uma vez um todo, como se fossem dois cômodos numa mesma casa.”

As frases que encerram o livro, “Um dia estou lá./ Outro dia, aqui./ Mas estou sempre em casa.”, reforçam essa ideia da recomposição, a qual o ilustrador se refere. E guardam a dualidade comum às questões humanas mais complexas: nem final feliz, nem infeliz. Não é exatamente fim.

 


Notas 

1. Margareth Meek, Martin Salisbury &  Morag Styles. Livro infantil ilustrado. São Paulo: Rosari, 2013, p.90.